The Red Shoes () é um filme de drama britânico de 1948 escrito, produzido e dirigido por Michael Powell e Emeric Pressburger. Segue a história de Victoria Page (Moira Shearer), uma aspirante a bailarina que se junta ao mundialmente renomado Ballet Lermontov operado por Boris Lermontov (Anton Walbrook), que testa sua dedicação ao balé fazendo-a escolher entre sua carreira e seu romance com o compositor Julian Craster (Marius Goring). O longa-metragem marcou a estréia cinematográfica de Shearer, uma bailarina consagrada, e também conta com Robert Helpmann, Léonide Massine e Ludmilla Tchérina outros bailarinos renomados no elenco. O enredo é baseado no conto de fadas homônimo de 1845 de Hans Christian Andersen.

The Red Shoes foi inicialmente concebido por Powell e pelo produtor Alexander Korda durante a década de 1930, de quem a dupla comprou os direitos em 1946. Após o lançamento, o longa-metragem recebeu aclamação da crítica, especialmente nos Estados Unidos onde recebeu um total de cinco indicações ao Oscar, incluindo uma vitória de Melhor Trilha Sonora Original e Melhor Direção de Arte. Também ganhou o Globo de Ouro de Melhor Trilha Sonora Original e foi nomeado um dos 10 Melhores Filmes do Ano pelo National Board of Review. Apesar disso, alguns críticos de dança deram críticas desfavoráveis ao filme, pois sentiram que sua sequência central fantástica e impressionista, influenciada pelo cinema expressionista alemão da década de 1920, retratava o balé de maneira irreal. Entretanto, The Red Shoes provou ser um grande sucesso financeiro e foi o primeiro longa-metragem britânico na história a arrecadar mais de US$ 5 milhões em aluguéis de cinema nos Estados Unidos.

Retrospectivamente, The Red Shoes é considerado um dos melhores filmes da parceria de Powell e Pressburger e frequentemente aparece em lista dos maiores filmes de todos os tempos. Foi eleito o nono maior longa-metragem britânico de todos os tempos pelo British Film Institute em 1999. O filme passou por uma extensa restauração digital a partir de 2006 no UCLA Film and Television Archive para corrigir danos significativos aos negativos originais. A versão restaurada foi exibida no Festival de Cinema de Cannes de 2009 e posteriormente lançada em Blu-ray pela The Criterion Collection.

Enredo O estudante de música londrino Julian Craster (Marius Goring) assiste a uma apresentação do balé Heart of Fire, interpretado pela eminente companhia itinerante de balé Ballet Lermontov e com trilha sonora de seu professor. Também estão presentes a jovem dançarina Victoria "Vicky" Page (Moira Shearer) e sua tia Lady Neston (Irene Browne). Julian sai furioso após perceber que o professor plagiou suas composições.

Lady Neston organiza uma festa em homenagem ao empresário do Ballet Lermontov, Boris Lermontov (Anton Walbrook). Depois que Vicky diz a Boris que dançar é a coisa mais importante da vida dela, Boris a convida para passar um tempo com seu balé antes da sua partida para Paris. Ele contrata Vicky em tempo integral depois de vê-la dançar o papel principal em O Lago dos Cisnes com o Ballet Rambert no Teatro Mercury. Julian, furioso, escreve uma carta a Boris expondo a má conduta de seu professor. Ele muda de ideia e visita Boris para pegar a carta de volta, mas Boris já a leu e se mostra compreensivo. Boris contrata Julian como répétiteur e assistente do maestro da companhia. Ele logo se impressiona com a ambição artística do rapaz.

Em Paris, a bailarina principal do Ballet Lermontov, Irina Boronskaya (Ludmilla Tchérina), é obrigada a deixar a companhia ao se casar, por política da empresa. Embora a justificativa oficial de Boris seja que o amor distrai da excelência artística, o filme também revela que ele encara a vida emocional de seus colegas de trabalho como uma ofensa pessoal, devido à inveja que sente pela felicidade deles. A companhia segue para Mônaco. Na ausência de Irina, Boris escala Vicky para o papel principal de um novo balé, O Balé dos Sapatos Vermelhos (baseado no conto de fadas de Andersen), e contrata Julian para compor a trilha sonora. No balé, uma bailarina adquire um par de sapatilhas vermelhas que lhe permitem dançar com uma habilidade sobre-humana, mas a um preço: ela nunca poderá parar de dançar até morrer. Durante os ensaios, a ambição e o orgulho de Julian e Vicky os levam a um conflito inicial — para alegria de Boris. No entanto, eles desenvolvem respeito mútuo como artistas.

O Ballet dos Sapatos Vermelhos é um sucesso retumbante. Boris revitaliza o repertório da companhia com Vicky como a primeira bailarina e Julian como o compositor. Enquanto isso, Vicky e Julian se apaixonam. Embora Boris não se sinta romanticamente atraído por ela, ele é emocionalmente possessivo em relação à sua nova estrela. Ele tenta romper o relacionamento dizendo que o trabalho deles está piorando, mas fica implícito que ele está projetando suas próprias inseguranças no relacionamento, já que o seu coreógrafo elogia as composições de Julian. Boris dá ao rapaz um ultimato para terminar com Vicky ou deixar a companhia. Julian e Vicky voltam para Londres juntos e se casam. Boris quebra sua regra de não se casar para recontratar Irina, mas não consegue se livrar mentalmente de Vicky.

Em Londres, as carreiras de Vicky e Julian seguem rumos diferentes. Julian escreve uma ópera que estreará na Royal Opera House, enquanto a carreira de Vicky no balé estagna. Ela viaja de férias para Cannes sem Julian, que está concentrado no trabalho. Boris a encontra lá e a lembra de que é ela quem está fazendo todos os sacrifícios em seu casamento e a convence a "calçar os sapatos vermelhos de novo". Coincidentemente, a noite de estreia da ópera de Julian em Londres coincide com a apresentação de retorno de Vicky em Mônaco. Embora ele deva reger na noite de estreia, Julian parte abruptamente para Mônaco como um grande gesto para Vicky. Em troca, ele insiste que Vicky cancele sua apresentação e deixe Mônaco e Boris imediatamente. Após uma discussão acalorada entre Julian e Boris sobre o valor da arte versus o amor, Vicky, angustiada, decide permanecer no Ballet Lermontov.

Um acompanhante acompanha Vicky até o palco. Ela está usando os sapatos vermelhos do título e parece instável mentalmente. De repente, ela corre e pula na frente de um trem que se aproxima, imitando sua personagem malfadada no balé. Julian tenta salvá-la, mas não consegue. Quando Vicky morre, ela pede a Julian que tire os sapatos vermelhos.

Um Boris abalado anuncia à plateia que "a Srta. Page não poderá dançar esta noite — nem em nenhuma outra noite". A companhia apresenta o Balé dos Sapatinhos Vermelhos com um holofote no espaço vazio onde Vicky estaria.

Elenco Anton Walbrook como Boris Lermontov Moira Shearer como Victoria "Vicky" Page Marius Goring como Julian Craster Robert Helpmann como Ivan Boleslawsky Léonide Massine como Grischa Ljubov Albert Bassermann como Sergei Ratov Ludmilla Tchérina como Irina Boronskaya Esmond Knight como Livingstone 'Livy' Montague Austin Trevor como Professor Palmer Irene Browne como Lady Neston Jerry Verno como porteiro do palco Jean Short como Terry Gordon Littmann como Ike Eric Berry como Dimitri Yvonne Andre como a mordoma de Vicky Análise "Arte versus vida" Um tema central de The Red Shoes é o conflito de um artista entre sua arte e vida pessoal. Comentando sobre esse tema, o próprio Powell afirmou que o filme é "sobre morrer pela arte, que vale a pena morrer por ela". A historiadora de cinema Adrienne McLean, no entanto, observa que o salto final de Victoria para a morte não representa adequadamente essa ideia. Em vez disso, McLean afirma que a protagonista "parece pressionada por aqueles que ama, que preferem possuí-la do que apoiá-la", e que o longa-metragem, em última análise, ilustra o impacto que "personalidades implacáveis" podem ter sobre "os mais fracos ou recatados".

O acadêmico Peter Fraser do Cinema Journal, observa sobre essa tensão entre arte e vida que o filme implode seus próprios "mundos narrativo e lírico [...] a partir do momento do reconhecimento, quando Vicky olha para seus sapatos vermelhos e sabe que ela é então sua persona lírica, seus dois mundos entram em colapso". Ele afirma ainda que a interpenetração do lírico na narrativa "altera o significado da ficção" em si. Essa confusão entre o lírico e a narrativa é representada ao final do enredo, quando Vicky pula nos trilhos do trem; ela está usando os sapatos vermelhos que usava enquanto se preparava em seu camarim, apesar do fato de que na performance sua personagem não os coloca até a metade do balé. Os próprios diretores discutiram essa idiossincrasia e ela tem sido objeto de análise significativa desde então. Powell decidiu que era artisticamente "certo" que Vicky estivesse usando os sapatos vermelhos naquele momento porque, se ela não os estivesse usando, isso eliminaria a ambiguidade sobre o motivo de sua morte. O Balé dos Sapatos Vermelhos

The Red Shoes é famoso por apresentar uma cena de balé com duração de 17 minutos de um balé intitulado The Ballet of the Red Shoes. A sequência usa uma variedade de técnicas cinematográficas para fornecer um "elo impressionista" ao conto de fadas de Hans Christian Andersen no qual ela (e o balé dentro do filme) é baseada, bem como as lutas pessoais enfrentadas pela protagonista, Victoria Page, que está interpretando o papel principal. McLean observa que a dança não apenas duplica a própria história da protagonista, mas também prenuncia seu amor por Julian, o compositor e maestro da orquestra do balé, bem como o ciúme desdenhoso de Lermontov, seu diretor.

Ao longo do balé, metáforas visuais e referências à própria vida de Victoria aparecem na tela, incluindo uma parte em que ela dança com um jornal flutuante que alterna entre a forma de um mero papel e a forma humana do personagem de Helpmann; isso é uma referência a um jornal soprado pelo vento no qual Victoria pisou anteriormente na noite em que descobriu que havia adquirido o protagonismo no balé.

Ao contrário do balé teatral filmado convencional, a sequência de balé em The Red Shoes não é uma tomada contínua e estática, mas, em vez disso, emprega uma variedade de técnicas de edição, close-ups e demais efeitos especiais. À medida que a cena avança, McLean observa que a ação dela "dispara da direita para a esquerda do palco, uma série de vinhetas executadas rapidamente, alternando com cenários decorados de forma espalhafatosa. Então, quando Robert Helpmann, interpretando o amante da garota, é levado para longe por uma multidão, deixando-a sozinha com seus malditos sapatos vermelhos, a ação se inverte [...] para dentro e através do subconsciente da bailarina". Devido à sua natureza dinâmica e ao uso excessivo de técnicas cinematográficas, McLean contesta que a sequência de balé seja uma "experiência cinematográfica maior, ou mais característica, do que qualquer outra cena de outro filme de dança". Gênero A questão do gênero de The Red Shoes tem sido uma preocupação recorrente de críticos e acadêmicos, pois não se encaixa perfeitamente nos limites de um único gênero. Embora as sequências estendidas de balé do filme tenham levado alguns a caracterizá-lo como um musical, McLean observa que os "sinais convencionais que permitiram que elementos de fantasia ocorressem em outros filmes [musicais] estão ausentes em The Red Shoes". Fraser contesta que o longa-metragem não seja emblemático de um musical padrão, pois tem uma resolução trágica e violenta, e que é melhor compreendido como um "protótipo de uma variação genérica" emergindo da tradição das obras cinematográficas musicais.

O crítico do século XXI, Peter Bradshaw identifica elementos de horror no filme, particularmente na sua sequência central de balé surrealista, que ele compara à "superfície espelhada de Lewis Carroll, através do qual o espectador é transportado para um novo mundo de espanto e horror ocultos". Produção Roteiro