A Igreja Matriz de Lourosa, também referida como Igreja de Lourosa, Igreja de São Pedro de Lourosa, Igreja de São Pedro, matriz de Lourosa, Igreja Paroquial de Lourosa, Igreja de São Pedro e Igreja Moçárabe de São Pedro de Lourosa é uma igreja localizada em Lourosa, no município de Oliveira do Hospital.Ficha na base de dados SIPA
É um templo de construção anterior ao nascimento do Reino de Portugal dedicada ao Apóstolo S. Pedro.Por Maria José Borges. Historiadora, Mestre em Ciências Musicais e docente de História da Cultura e das Artes/História da Música na Escola de Música do Conservatório Nacional de Lisboa. O presente texto é um resumo da publicação da autora, Breve resenha histórica da igreja moçárabe de Lourosa (2012) editada no âmbito das comemorações do Jubileu dos 1100 anos desta Igreja. Consciente e deliberadamente a autora não aderiu ao actual Acordo Ortográfico.
O interesse por esta igreja data, fundamentalmente, dos inícios do século XX devido à redescoberta do seu estilo pré-românico, dito moçárabe, e consequente publicação de estudos. Em 1916 (decreto de 16 de Junho) foi classificada como monumento nacional e, posteriormente, sujeita a importantes trabalhos de restauro que trouxeram à luz, não apenas o seu estilo primitivo, mas outros vestígios arqueológicos bastante anteriores à igreja.
Datação A igreja possui uma pedra solta com a inscrição "Era DCCCCL" (na Era Hispânica), correspondendo ao ano de 912. Esta datação torna-a uma das mais antigas igrejas em Portugal.
Na sua construção teriam sido aproveitadas pedras de um antigo altar pagão dedicado a Jupiter.
Arquitetura Ainda que o seu aspeto tenha sido muito intervencionado durante campanhas de restauro no ano de 1930, várias características nos remetem para as arquiteturas moçárabe e visigótica.
A igreja possui um nártex, seguido de um corpo de três naves, separadas por arcarias de arco em ferradura. Existem vestígios de uma desaparecida iconóstase. O interior é austero e quase não existem pinturas ou imagens..
É um templo de forma basilical (em cruz), de transepto saliente e cabeceira tripartida, com três naves separadas por arcarias em arcos de ferradura, sendo a central mais comprida e antecedida na fachada principal de um nártex de compartimento únicohttp://www.patrimoniocultural.pt/pt/patrimonio/patrimonio-imovel/pesquisa-do-patrimonio/classificado-ou-em-vias-de-classificacao/geral/view/70268/.
Encontram-se, igualmente evidências da existência de uma iconostase, típica das igrejas mais antigas. O interesse por esta igreja data, fundamentalmente, dos inícios do século XX devido à redescoberta do seu estilo pré-românico, dito moçárabe, e consequente publicação de estudos. Em 1916 (decreto de 16 de junho) foi classificada como monumento nacional e, posteriormente, sujeita a importantes trabalhos de restauro que trouxeram à luz, não apenas o seu estilo primitivo, mas outros vestígios arqueológicos bastante anteriores à igreja.https://freguesiadelourosa.pt/visitar/igreja-matriz-de-lourosa/ 200px|right|Envolvente actual da Igreja Moçárabe de São Pedro de Lourosa - Foto: Rui Valentim / IGESPAR
História miniaturadaimagem|direita|Sepulturas escavadas na rocha de feições antropomórficas (Necrópole)- Foto: Rui Silva Lourosa terá sido provavelmente povoada desde tempos remotos dada a fertilidade das suas terras, propícias à agricultura e à pastorícia, e tudo indica, de acordo com estudos arqueológicos já efectuados, que o local onde hoje se situa a igreja terá sido local de culto pelo menos desde finais da Idade do Bronze, inícios da Idade do FerroCf. RIBEIRO, Nuno (et al.), Igreja de S. Pedro de Lourosa: seu passado proto-histórico e romano, Conferência proferida a 31 de Março 2012, nas Comemorações do atrás referido Jubileu, ainda não publicadas., embora os vestígios melhor conhecidos sejam apenas do período romano, nomeadamente um templo dedicado a Júpiter, de acordo com uma ara votiva encontrada, cujas pedras e colunas terão sido em parte aproveitadas para a construção desta igrejahttp://www.patrimoniocultural.pt/media/uploads/revistaportuguesadearqueologia/11.2/13_14_15_16/13_p.231-270.pdf. No século V vários povos de origem germânica invadiram o então já cristianizado Império Romano e para a Península Ibérica vieram, nomeadamente, os Visigodos (ou Godos) que mantiveram as estruturas básicas da romanização, assim como o culto cristão. Desse período visigótico permanece, presumivelmente, um cemitério de sepulturas antropomórficas, a noroeste da igreja, e de orientação variável, escavado numa extensa laje de xisto que ocupa toda a superfície de implantação da igreja e grande parte do exterior à volta da mesma. Embora se conheçam idênticas sepulturas noutros locais de Oliveira do Hospital (Meruge, junto à Capela de São Bartolomeu, atribuídas ao século VII / IX d.C.) este conjunto de sepulturas em Lourosa é considerado «único na região do Mondego» pela própria DGMEN/IGESPAR.
A ocupação árabe e a reconquista Em 711, a invasão da Península Ibérica pelos mouros do Norte de África, destruiria a monarquia visigótica que se irá refugiar ao norte da Península Ibérica, constituindo o Reino das Astúrias, antecedente dos futuros reinos hispânicos, gerando séculos de conflito entre os novos ocupantes muçulmanos e os referidos reinos cristãos. Coimbra e Seia (onde se incluía o território que compreende Lourosa) estiveram por esse motivo, sob uma intermitente ocupação muçulmana até ao século XI (1064), data em que foram definitivamente recuperadas para o domínio cristão sob o comando de Fernando Magno, unificador dos reinos de Leão, Castela e Galiza, estando Lourosa integrada neste último reino. O vestígio mais importante dessa ocupação será, sem dúvida, esta igreja, que exibe um estilo de influência moçárabe, isto é, integrando elementos da cultura árabe, sendo embora cristã, apresentando para além das arcadas em arco de ferradura, outros elementos considerados tipicamente moçárabes como as janelas em ajimez, as únicas conhecidas em Portugal do período medievalPESSANHA, D. José, 1927 – V. Bibliografia. Este estilo é característico da chamada “arte da Reconquista”, com nítida influência asturianaFERNANDES, Paulo Almeida, 2002 V. Bibliografia, estilo que se encontra noutras igrejas de Espanha da mesma época, e que terá sido construída (ou reconstruída) ao que tudo indica, em 912 (950 da Era de César), conforme lápide encontrada em caracteres visigóticos, encimando, atualmente, a porta principal.(fotos 3: lápide; 4 a, b e c: ajimez; foto 5 arcadas p/b). miniaturadaimagem|esquerda|Fig 3: Epígrafe com a presumível datação da edificação da igreja. Era DCCCCL (950 d.C.). Foto: Rui Valentim
miniaturadaimagem|Fig. 4a: Vista externa do ajimez. Fachada principal da Igreja. Foto: Rui Silva miniaturadaimagem|Fig 4b: Vista interna do ajimez. Fachada principal da Igreja. Foto: Rui Silva. miniaturadaimagem|Fig. 5: Arcadas e vista interior da igreja após as obras de 1930. Boletim 55, DGEMN, 1949 O que os estudos mais recentes salientam, acima de tudo, é que o templo de Lourosa é representativo de um estilo peninsular pré-românico, de influência bizantina, associado à arte visigótica (o que aliás está bem patente no seu formato basilical, em cruz). E, que, sendo anterior ao estilo românico franco (francês), que se desenvolverá mais tarde na Europa, estabelece um elo de ligação entre os estilos visigótico e românico. Nisso reside a sua principal importância, para além do facto de ser exemplar único conhecido em Portugal. Uma dúvida que subsiste é se a igreja terá sido construída ainda sob domínio mourisco, visto que as fronteiras foram muito variáveis até ao século XI, dados os recuos e avanços da reconquista cristã, dúvida que, por enquanto, não é possível esclarecer.
O orago da cadeira de S. Pedro de Antioquia Um aspecto assaz curioso nesta igreja é a questão do seu orago, que é a Cadeira de São Pedro de Antioquia, a única igreja conhecida em Portugal com este orago. Por cadeira entenda-se cátedra, termo alusivo à missão de ensinamento evangélico atribuído porJesus Cristo a Pedro. Antioquia era, naqueles tempos, considerada a terceira cidade do Império Romano (depois de Roma e de Alexandria do Egipto) cidade onde «pela primeira vez os discípulos receberam o nome de “cristãos» (Actos 11, 26) e tendo Pedro sido aí o primeiro bispo da Igreja. Só depois disso teria ido para Roma onde sofreu o seu martírio. E, não sendo a mais antiga igreja de Portugal, é, nos dias que correm, a única de seu estilo e a mais antiga igreja em funcionamento praticamente ininterrupto, perfazendo em 2016, 1104 anos de culto cristão...! (foto 6-S. Pedro) miniaturadaimagem|Fig 6: Imagem de S. Pedro na capela-mor atribuído ao século XV (IAP) exibindo, todavia, uma partitura de época posterior que lhe terá sido acrescentada (Foto: Rui Valentim)
O Canto Moçárabe Outro aspecto que podemos conjecturar, ainda, é a mais que provável utilização na igreja de Lourosa do chamado canto moçárabe. Este tipo de cantochão, que, segundo os especialistas, deveria mais propriamente ser chamado de visigótico, é algo diverso do chamado canto gregoriano, sendo característico da Península Ibérica até finais do século XI, e posteriormente proibidoO próprio canto gregoriano é uma fusão entre dois tipos de cantochão: o canto galicano e o canto romano antigo. Para mais conhecimentos acerca das questões associadas ao cantochão sugere-se GROUT; D.J./PALISCA, C., História da Música Ocidental. 1994 (pp. 37 a 42)..
Nos primórdios de Portugal Lourosa integrou também o território original do Condado Portucalense e, ainda antes da autonomia portucalense, a já então vila de Lourosa seria doada em testamento à Sé de Coimbra, por D. Teresa (11 de Março de 1119)Livro Preto da Sé de Coimbra, v. Bibliografia. Data dessa altura a longínqua ligação que Lourosa tem mantido com a Sé de Coimbra e respectivos bispos que, pelo menos até 1835 (data em que foram expropriados os bens da Igreja pelo Liberalismo), foram senhores donatários de Lourosa. Ao longo de tantos séculos a igreja sofreu inúmeras intervenções, nomeadamente no século XIV, em que lhe foi adossado junto à entrada da igreja (como era costume na época medieval) um campanário de estilo gótico, remetido no século XX para as traseiras da igreja, para permitir uma melhor visualização da mesma.(foto 7 Lourosa 1926) miniaturadaimagem|Fig. 7 - Vista do campanário adossado à igreja (Foto: Marques Abreu in J. Vasconcelos, 1918) Desse período cronológico existe no interior da igreja uma Nossa Senhora, falsamente chamada do Ó (pois não se encontra grávida), e que pertencera outrora a uma capela particular construída no século XVII no interior da igreja em estilo idêntico a outra que se encontra na Capela dos Ferreiros em Oliveira do Hospital, e que é atribuída a Mestre Pêro, célebre escultor aragonês da época. miniaturadaimagem|Fig. 8: Nossa Senhora medieval, (século XIV), erradamente chamada “do Ó”, provavelmente da autoria de Mestre Pero (Foto: Rui Valentim)