John Keith Irwin (Los Angeles, 21 de maio de 1929 – São Francisco, 03 de janeiro de 2010) foi um sociólogo e criminólogo norte-americano reconhecido internacionalmente pela sua luta em prol da reforma do sistema prisional. Ele ajudou a criar diversos projetos que visavam a inclusão e reabilitação de ex-penitenciários. Publicou dezenas de artigos acadêmicos e sete livros, nos quais analisa minuciosamente a justiça criminal.
Biografia John Irwin nasceu em 21 de maio de 1929 em San Fernando Valley (Los Angeles, California), durante o que ficou conhecida como a “Grande Depressão”, e foi criado em uma família de classe-média. Seu pai, Roy Irwin, vendia seguros e tinha uma loja de doces, enquanto sua mãe, Eloise Irwin, cuidava de casa. Quando jovem, não demonstrava interesse nos estudos e na adolescência ficou fascinado com o que denominou "a vida de ser um fora da lei”.
O "fora da lei"
Em 1952, aos 23 anos, Irwin roubou um posto de gasolina e acabou preso por assalto a mão armada. Cumpriu pena de cinco anos e ao sair da prisão “Soledad Correctional Training Facility" (1957), em liberdade condicional, teve a opção de costume: cometer mais um crime, ou refazer sua vida. Ele, então, escolheu renascer.
A nova vida
Perturbado com o que viu na prisão, Irwin decidiu dedicar sua vida a melhorar a sorte dos condenados, combatendo o que chamou de “ um sistema injusto que prefere condenar os pobres a longas penas de prisão, em vez de encontrar alternativas de reabilitação”. Ao longo do meio século que se seguiu, o sociólogo se tornou um dos principais defensores da reforma compassiva do sistema prisional. Ao sair da cadeia, frequentou a San Francisco State University (SFSU) e, em 1961, conquistou um diploma de bacharel em sociologia na Universidade da Califórnia (UCLA - University of California, Los Angeles). Obteve seu doutorado na Universidade de Berkeley (UC Berkeley), em 1968. Foi também professor titular de sociologia e criminologia na própria SFSU, onde deu aulas até se aposentar, em 1994.
Irwin se tornou pai de três filhas (Jeanette Irwin, Katie Irwin e Anne Irwin) e um filho (Johnny Irwin). Ele conheceu aquela que seria sua esposa por 38 anos, Marsha Rosenbaum, quando ela era uma de suas alunas de graduação. Ela se tornou diretora emérita do escritório da Drug Policy Alliance de São Francisco.
O acadêmico Ao longo de sua carreira Irwin combinou uma paixão pela erudição com engajamento pela justiça social. O autor de seis livros conceituados, em que analisa as instituições do sistema de justiça criminal, teve como foco principal de suas obras, análises convincentes da interação entre a estrutura do sistema de justiça e os indivíduos processados através esse sistema.
Em muitos aspectos, a abordagem de Irwin foi baseada em sua própria experiência da vida como condenado, o que pode claramente ser percebido em seus trabalhos acadêmicos. Assim, seus principais temas, foram desenvolvidos de forma a explorar a cultura do condenado, as condições de confinamento, a criação, mesmo que não intencional, da subclasse do “criminoso” nos Estados Unidos, bem como, a perspectiva dos próprios condenados sobre a forma como eles são tratados. Em seu primeiro livro, chamado "The Felon", Irwin realizou um exame do comportamento do chamado “criminoso de carreira”, o qual se tornou um clássico instantâneo no campo da criminologia quando publicado em 1970.
Ele defendeu que os presos são submetidos a uma rotina e a experiências que aumentam sua punição, produzindo em cada um deles uma profunda alienação,tornando sua reinserção social ainda mais difícil. Logo após seu primeiro livro, em 1971, Irwin foi o principal colaborador da obra “Struggle for Justice”, no qual os autores descrevem, como tema principal do livro, um sistema de justiça criminal como uma base de amostragem tendenciosa que seleciona pobres, negros e outros igualmente em desvantagem social para serem seus alvos. Eles constroem uma crítica ao estabelecimento de sentenças indeterminadas, ao tratamento forçado, aos sistemas de classificação, à suposta reabilitação (termo que consideram ter se tornado vazio) e outros métodos empregados por um sistema penal criado para adequar-se ao criminoso e não ao crime.
As que se seguiram, especialmente "Prisons in Turmoil" (1980) e "The Warehouse Prison" (2005), tornaram-se a pedra de toque do movimento de reforma do sistema prisional. Neste, ele trata da história das prisões e de como elas se desenvolveram com o passar dos anos, mostrando que no século 21 surgiram dois novos tipos: “the new warehouse correctional institutions” (seriam prisões que funcionam como uma espécie de “armazém” humano, as quais ele descreve da seguinte forma: “the new prisons are mono colored, plain, large, compounds. Without the gun towers and double fence, they could easy be mistaken for industrial warehouse” e as “supermax penitentiaries” (penitenciárias de segurança máxima). O autor analisa e critica a forma como esses novos tipos prisionais se estruturam, nos levando, através de suas próprias experiências em "Soledad", para dentro de outra penitenciária de média segurança, “Solano State Prison”. Naquele, o autor documentou como a organização social da prisão tinha se modificado. Antes baseada em rotinas formais e informais, ela é transformada na penitenciária e na instituição correcional moderna, dominadas por divisões raciais e violência, como resultado de supostas políticas correcionais fracassadas e de mudanças demográficas.
O livro “The Jail” (1985) é escrito tendo como base a intensa pesquisa de Irwin nas cadeias americanas, unindo depoimentos de encarcerados com dados e estatísticas das cadeias, bem como a própria experiência do autor. Após nove anos (1994), o autor publica “It’s About Time”, obra em que, pela primeira vez, deixa de olhar exclusivamente para o interior do sistema prisional, focando nos fatores que contribuem para encarceramento em massa, como a combinação de pobreza com as duras penas decorrentes da chamada “Guerra às Drogas”.
Irwin e Austin (com quem escreveu o livro) concluem que “For these reasons, we believe the single most direct solution that would have an immediate and dramatic impact on prison crowding and would not affect public safety is to shorten prison terms”]]” .
Sua última obra completa foi "Lifers", publicada em 2009, em que analisou a luta de condenados que cumprem penas perpétuas pela redenção.
John Irwin ainda começou a escrever uma espécie de autobiografia, que denominou “The Rogue”, detalhando sua própria experiência como presidiário nos anos 50: “First of all I had to deal with the world of convicts. This was different then entering high school or moving to a new town or neighborhood, even different than going to jail. In fact it is different than any other world. It contains a distinct and distorted sample of the general population. More than anything else, more than an asylum for criminals, it is a receptacle for society’s most bothersome misfits.”.
Porém, ele não conseguiu concluí-la, falecendo antes que isso fosse possível.
"As novas prisões são monocromáticas, planas, grandes, compostas. Sem as torres de arma e cerca dupla, eles podem ser facilmente confundidas com armazém industrial" (tradução livre) James Austin Oshkosh foi presidente do Instituto JFA em Washington, DC Por estas razões, nós acreditamos que a única solução mais direta que teria um impacto imediato e dramático sobre a superlotação prisional e não afetaria a segurança pública seria encurtar o tempo de prisão (tradução livre)"Primeiro, eu tive que lidar com o mundo dos condenados. Foi diferente de entrar no ensino médio ou de se mudar para uma nova cidade ou bairro, até mesmo diferente de ir para a cadeia. Na verdade, é diferente de qualquer outro mundo. Ele contêm uma amostra distinta e distorcida da população em geral. Mais do que qualquer outra coisa, mais do que um asilo para criminosos, é um receptáculo para os desajustados mais incômodos da sociedade." [tradução livre]
A luta Com o tempo que passou na prisão, Irwin pode conviver com outros condenados e, aos poucos, se inserir naquele mundo completamente diferente, descobrindo que eles eram acima de tudo, nas suas palavras, "seres humanos normais". Este insight, que não foi apreciado por muitos acadêmicos, passou a guiar todas as suas atividades acadêmicas e políticas.
Em 1967, logo após começar a lecionar na universidade, Irwin fundou o“Project Rebound”, um programa que fornece suporte abrangente para ex-presidiários entrarem e se formarem na SFSU. Ao longo dos últimos 40 anos, muitos alunos do projeto foram graduados e obtiveram mestrado e doutorado em várias disciplinas.
Ao longo das décadas que se seguiram, ele co-fundou a agora extinta "Prisoners Union", que organizava os presos para que pudessem lutar por seus direitos civis. Como organizador e líder da entidade, trabalhou em estreita colaboração com o legislativo da Califórnia em relação ao “Uniform Sentencing Act”, aprovado em 1976, e recebeu o prêmio August Vollmer. da American Society of Criminology (ASC) pelas relevantes contribuições para a justiça criminal.
Da mesma forma, o criminólogo ajudou a fundar o movimento "Convict Criminology", que representou um meio pelo qual o crescente número de pessoas com experiências na prisão, que tinham se tornado acadêmicos, poderia apresentar suas perspectivas únicas sobre o sistema de justiça, participando de quase todas as sessões desde a primeira, realizada na ASC em 1997. Irwin dizia que sempre foi o seu sonho ter um grupo de acadêmicos ex-presidiários escrevendo juntos. Cada vez que ele era apresentado para um novo membro do grupo, passava um tempo com ele ou ela, aconselhando-os em suas carreiras. Irwin considerava que cada um dos ex-condenados que se transformaram em novos estudantes de graduação e doutorandos foi um pequeno milagre.
Irwin também atuou no Conselho de Administração do Instituto JFA, entidade que trabalha em parceria com os governos federal, estaduais, agências governamentais locais e fundações filantrópicas para avaliar práticas de justiça criminal e projetar soluções políticas baseadas em pesquisas. O Instituto é uma agência sem fins lucrativos, que luta para implementar políticas de justiça penal mais eficazes. Ao longo dos anos, o Instituto ajudou estados da Flórida ao Alasca a implementar novas e mais eficazes políticas e práticas de justiça criminal.
O Criminólogo foi, ainda, membro do conselho de diretores do "Sentencing Project", a organização nacional que defende a reforma do sistema prisional e alternativas ao encarceramento. “John sempre nos desafiou a pensar em maneiras ousadas a respeito do tipo de sistema de justiça e de sociedade que esperamos conseguir”, escreveu o diretor executivo do Sentencing Project, Marc Mauer, em uma homenagem no site da organização.
O "Sentencing Project" tornou-se líder no esforço para chamar a atenção nacional às tendências perturbadoras e desigualdades no sistema de justiça criminal, com uma fórmula de sucesso que inclui a publicação de pesquisas inovadoras, campanhas de mídia agressivas e defesa estratégica para a reforma política.
John dedicou sua vida a ajudar homens e mulheres a saírem da prisão e conseguirem retornar à sociedade com melhores oportunidades. Ele se preocupava especialmente com aqueles que eram viciados, os mais propensos a voltar para a prisão. Isto incluiu encontrar apartamentos, assinar contratos de arrendamento e pagar o aluguel para estranhos. Ele fez isso em silêncio e sem pedir nenhum reconhecimento. A maior parte dos destinatários de sua assistência nem sequer soube seu nome.
A Sociedade Americana de Criminologia estabeleceu o “August Vollmer Award” - fundado em 1959 - para reconhecer um indivíduo cuja bolsa de estudos ou atividades profissionais tenham contribuído de forma notável para a justiça ou para o tratamento ou prevenção de comportamento criminoso. tradução livre
Morte