A dinastia haxemita ou dinastia haxímida () é uma dinastia árabe de origem haçânida, descendente de Haçane ibne Ali, neto do profeta islâmico Maomé por sua filha Fátima e Ali ibne Abi Talibe. Diferentes famílias haçânidas exerceram o Emirado de Meca desde o , sucedendo-se no controle da cidade e dos lugares sagrados do Hejaz. A partir do início do , o emirado passou para os descendentes de Catada ibne Idris, conhecidos como catádidas. Entre os descendentes de formaram-se os zaídidas, baráquidas e abedálidas, estes últimos também conhecidos como aúnidas. Os diferentes ramos alternaram-se no governo de Meca, sobretudo durante o período de soberania do Império Otomano, e os aúnidas tornaram-se predominantes entre os últimos emires da cidade no e início do .
Da linhagem aúnida descendia Huceine ibne Ali, emir de Meca que liderou a Revolta Árabe contra o Império Otomano e estabeleceu o Reino do Hejaz durante a Primeira Guerra Mundial. Huceine e seus filhos deram origem às casas reais haxemitas modernas: Ali sucedeu-o no Hejaz; Faiçal reinou brevemente na Síria e posteriormente estabeleceu a monarquia haxemita no Iraque; e Abedalá estabeleceu a linhagem reinante na Jordânia. O domínio haxemita terminou no Hejaz em 1925, na Síria em 1920 e no Iraque em 1958, enquanto a dinastia permanece no trono jordaniano.
História
Os haxemitas que governaram Meca pertenciam à descendência de Haçane ibne Ali, neto de Maomé por sua filha Fátima e Ali ibne Abi Talibe. Xarifes e saídes descendentes de Haçane e Huceine exerciam desde cedo considerável influência no Hejaz, e a administração de Meca permaneceu, embora com interrupções, durante longo período em suas mãos. No , a linhagem haçânida aproveitou a crise provocada pelos ataques dos cármatas entre 916 e 950 para aumentar seu poder. Depois da retirada dos cármatas, , pertencente ao ramo dos muçaída dos haçânidas, assumiu o governo de Meca e passou a pronunciar a cutba em nome dos fatímidas. Sua família também ficou conhecida como jafáridas.
Nos séculos seguintes, os emires de Meca procuraram preservar sua posição em meio às disputas de influência sobre o Hejaz, particularmente entre o Califado Abássida e o Califado Fatímida. Uma nova linhagem estabeleceu-se no início do , quando Catada ibne Idris, então um poderoso emir da região de Iambo, avançou sobre Meca em 1201 e expulsou a família que governava a cidade. Catada também descendia de Haçane ibne Ali e procurou estabelecer um governo independente da influência política exercida a partir do Egito e de Baguedade. Depois de sua morte, em 1220, seus descendentes continuaram a disputar o controle de Meca. Em 1254, Abu Numai I assumiu o emirado, consolidando a linhagem dos catádidas, cujos membros permaneceriam ligados ao governo da cidade durante os séculos seguintes.
Depois da conquista do Sultanato Mameluco pelo Império Otomano em 1517, , então emir de Meca, enviou ao sultão uma delegação acompanhada por seu filho , que entregou ao soberano as chaves de Meca como demonstração do reconhecimento da soberania otomana. Selim confirmou Baracate no Emirado de Meca, concedeu-lhe uma remuneração proveniente do tesouro egípcio e enviou dinheiro e provisões aos habitantes dos Lugares Santos. A partir desse período, a cutba em Meca e Medina passou a ser pronunciada em nome dos sultões otomanos. Após a morte de Abu Numai II, em 1584, surgiram entre seus descendentes três famílias que disputaram o governo de Meca: os zaídidas (Dhawī Zayd); os baráquidas (Dhawī Barakāt), que a partir de 1672 dividiram repetidamente o poder com os primeiros; e os abedálidas (Dhawī ʿAbd Allāh), também conhecidos, em referência a seu ancestral Aune, como aúnidas (Dhawī ʿAwn). A partir da década de 1830, tornou-se habitual que os emires fossem escolhidos entre os zaídidas e os aúnidas. Com exceção do governo de Abede Almotalibe ibne Galibe, dos zaídidas, em 1851–1856 e 1880–1882, os últimos emires do período otomano pertenceram aos aúnidas.
Em 1908, depois da morte de Abedalá Paxá ibne Maomé, que havia sido nomeado emir mas faleceu antes de partir para Meca, o governo otomano nomeou para o cargo seu parente Huceine ibne Ali, membro dos aúnidas que residia em Constantinopla desde 1893. Durante a Primeira Guerra Mundial, as relações de Huceine com o governo otomano deterioraram-se. Seu filho Abedalá, então representante do Hejaz no parlamento otomano, manteve contatos com autoridades britânicas no Egito a respeito de uma possível revolta contra os otomanos. As negociações entre Huceine e o alto-comissário britânico no Egito, Henry McMahon, precederam a Revolta Árabe, iniciada em junho de 1916. O governo otomano respondeu à revolta nomeando Ali Haidar Paxá dos zaídidas para o Emirado de Meca. Ali Haidar chegou a Medina, mas não conseguiu alcançar Meca e exerceu nominalmente o cargo a partir dali. Huceine, por sua vez, proclamou-se em novembro de 1916 "rei dos países árabes", embora as potências da Entente o reconhecessem apenas como rei do Hejaz. Com o estabelecimento do domínio de Huceine sobre a região e o fim efetivo da autoridade otomana, o governo imperial aboliu formalmente o Emirado de Meca em maio de 1919.
O Reino do Hejaz foi o primeiro Estado moderno governado pela dinastia haxemita. Depois da abolição do califado na Turquia em 1924, Huceine proclamou-se califa, mas sua pretensão não obteve reconhecimento generalizado e agravou sua rivalidade com Abedalazize ibne Saúde, governante do Négede. As forças de Abedalazize avançaram sobre o Hejaz e ocuparam Meca em outubro de 1924. Huceine abdicou em favor de seu filho Ali e retirou-se inicialmente para Ácaba. Ali permaneceu como rei até 1925, quando a conquista do Hejaz pelas forças de Abedalazize encerrou o domínio haxemita na região. Outro filho de Huceine, Faiçal, participou da Revolta Árabe e avançou com suas forças em direção à Síria. Depois da retirada das forças otomanas, entrou em Damasco em outubro de 1918. Em março de 1920, um congresso reunido na cidade proclamou-o rei de uma Síria que compreenderia também a Palestina e o Líbano. A decisão contrariava, porém, os acordos entre as potências europeias, e a Conferência de San Remo atribuiu a Síria e o Líbano à França. Depois da derrota das forças árabes na Batalha de Maysalun, em 24 de julho de 1920, os franceses ocuparam Damasco e encerraram o breve governo haxemita na Síria.
Depois da perda da Síria, Faiçal recebeu apoio britânico para assumir o governo do Iraque e foi proclamado rei em 23 de agosto de 1921, estabelecendo o Reino do Iraque sob a dinastia haxemita. Durante seu governo, o país alcançou a independência e ingressou na Sociedade das Nações em 1932. Faiçal morreu em 8 de setembro de 1933 e foi sucedido por seu filho . Após a morte de Gazi em 1939, seu filho , ainda criança, tornou-se rei. Em razão de sua menoridade, o governo foi exercido em seu nome pelo regente , filho de Ali do Hejaz. A monarquia haxemita iraquiana terminou em 14 de julho de 1958, quando Faiçal II e Abede Alilá foram mortos durante o golpe militar liderado por Abede Alcarime Cácime. Depois da queda do governo de Faiçal na Síria, Abedalá, outro filho de Huceine, deixou Meca e chegou a em novembro de 1920, inicialmente com a intenção de apoiar o irmão contra os franceses. Os britânicos posteriormente reconheceram Abedalá como emir da Transjordânia em 1.º de abril de 1921. Em 1923, foi estabelecido um governo próprio da Transjordânia sob sua liderança, ainda sob tutela britânica. Depois da Segunda Guerra Mundial, a independência da Jordânia e a realeza de Abedalá foram proclamadas em 22 de março de 1946, estabelecendo o Reino Haxemita da Jordânia. Abedalá foi assassinado em Jerusalém em 20 de julho de 1951 e sucedido por seu filho Talal. Em razão dos problemas de saúde de Talal, o parlamento destituiu-o em 11 de agosto de 1952 e entregou o trono a seu filho Huceine.
Bibliografia