O jornal A Nação, de Porto Alegre, foi atuante no século XX, nas décadas de 40 e 50, sendo o continuador da Gazeta Popular (de curta duração) e do semanário católico em idioma alemão Deutsches Volksblatt (publicado inicialmente em São Leopoldo, a partir de 1871, por jesuítas). Em suas diferentes apresentações, chegou a ser o mais antigo do gênero na América do Sul.
Histórico Em 1891 o semanário jesuíta Deutsches Volksblatt (gazeta popular alemã) foi transferido da cidade de São Leopoldo para a capital do Estado, Porto Alegre.MIRANDA, Marcia Eckert; LEITE, Carlos Roberto Saraiva da Costa. Jornais raros do Musecom: 1808-1924. Porto Alegre: Comunicação Impressa, 2008. p.37. A Tipografia do Centro seria sua responsável até sua extinção. Junto com o aumento de leitores, passou a estar mais exposto aos rancores de seus opositores. Em 1895, italianos e outros descontentes arrombaram e depredaram as oficinas da Tipografia do Centro, enraivecidos com a postura do jornal. Em campanha contra a maçonaria, o seu diretor Hugo Metzler havia escrito um duro artigo sobre Giuseppe Garibaldi, que era maçom.DILLENBURG, Sérgio Roberto. Quatro publicações marcantes no jornalismo rio-grandense. Nova Petrópolis: Amstad; Projeto Cultural Stihl, s.d. [1998?] p. 19-41. As publicações mencionadas no título são A Federação, Deutsches Volksblatt, Diário de Notícias e O Século. Após esse fato, o jornal precisou fazer um grande esforço de reerguimento, que efetivamente acabou trazendo resultados, e que mais tarde incluiria ações defensivas, incluindo a sua transformação em A Nação.
Além do Deutsches Volksblatt, em alemão, no início do século a Tipografia do Centro editava outros dois jornais católicos, A Epocha, em português, e o Corriere Cattólico, em italiano, e tinha entre seus sócios a Cúria Metropolitana de Porto Alegre e a família Metzler.TONINI, Veridiana Maria. Uma relação de amor e ódio: o caso Wolfran Metzler (Integralismo, PRP e Igreja Católica, 1932-1957). Dissertação de mestrado em História. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade de Passo Fundo, 2003, p. 43. Disponível em <http://www.doutrina.linear.nom.br/arquivos/teses_artigos/inclusao2/Uma%20rela%C3%A7%C3%A3o%20de%20amor%20e%20%C3%B3dio.pdf>, consultado em 02/03/2010. Além disso, seria a editora da maior parte dos livros adotados em escolas católicas no Estado do Rio Grande do Sul. O Deutsches Volksblatt chegava a uma tiragem de 6 mil exemplares, tornando-se um diário. Com a proximidade da Primeira Grande Guerra, ele foi proibido de circular em alemão. Em 1917, passaria a se chamar Gazeta Popular, redigido em português e sob responsabilidade de Joseph Koenig, primeiro com quatro páginas, mais tarde oito.SILVA, Jandira M.M. da; CLEMENTE, Ir. Elvo; BARBOSA, Eni. Breve histórico da imprensa sul-rio-grandense. Porto Alegre: Corag, 1986. p. 276 Permaneceria sofrendo muita desconfiança e censura policial, além de nova depredação e ameaça de incêndio. Terminada a Primeira Guerra, a Gazeta Popular voltaria a se chamar Deutsches Volksblatt e a ser escrita em alemão, até o fim de sua autonomia, em 1941.
Em 1929 Hugo Metzler faleceu, sendo substituído pelo seu filho Franz Metzler, que iniciaria uma campanha de repúdio ao nacional-socialismo alemão. Como em outras empresas “alemãs”, a saúde financeira estava seriamente comprometida por causa do momento histórico. No final da década de 30, com a emergência da Segunda Grande Guerra, o jornal passaria a se chamar A Nação. Em 1939, Nestor Pereira, como diretor, e o irmão de Franz, Wolfram Metzler, como gerente, assumiriam a Tipografia do Centro e o jornal. Sua tiragem chegaria aos 7.200 exemplares.
As posições de A Nação eram às vezes estranhas (um artigo de novembro de 1940, por exemplo, sugeria a possibilidade de uma reaproximação entre Berlim e o Vaticano, caso as hostilidades nazistas à Igreja Católica acabassem).ISAIA, Artur Cesar. Catolicismo e autoritarismo no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1998. p.199. De fato o jornal propagava uma “boa imprensa”, o que unia integralismo e Igreja no combate ao liberalismo, à maçonaria e ao comunismo. Sua divisa era “Jornal A Nação. O diário que se orienta pelo lema brasilidade – catolicidade.” Apesar disso, em 1942, com a entrada do Brasil na Segunda Guerra, a empresa foi novamente depredada. Wolfram Metzler foi acusado e preso como integralista (e mais tarde inocentado). Pereira foi considerado inocente e prosseguiu o trabalho. Em março de 1956, outro incêndio, de causas desconhecidas, destruiria as instalações da Tipografia do Centro na rua Dr. Flores. No total do período, que inclui seus três nomes e apresentações, o jornal alcançava os 85 anos. Voltou à circulação dois meses depois, novamente com a ajuda financeira de leitores e anunciantes. A Nação sempre continuou na mesma contagem de tempo de seus predecessores. Assim, por exemplo, as edições de 1957 registravam estar em seu ano 87.
O Deutsches Volksblatt, que após a Segunda Guerra voltou a ser encartado como um suplemento em alemão (até 1956), chegou a ensaiar uma vida autônoma como Neues Deutsches Volksblatt, mas desapareceria junto com o enfraquecimento de A Nação, por volta de 1959.RÜDIGER, Francisco R. Imprensa e esfera pública. In: GERTZ, René E.; FISCHER, Luís Augusto. Nós, os teuto-gaúchos. Porto Alegre: Editora da Universidade/UFRGS, 1998. p.131. Com as elevações dos custos gráficos dos anos 60, o jornal sofreu muito. Sem dinamismo comercial e sem atratividade publicitária, A Nação foi definitivamente suspensa antes de completar seu centenário, embora em seu último ano garantisse tiragens de até 5000 exemplares.
Muito profissionais passaram pela redação e oficinas de A Nação (ou, antes disso, do Deutsches Volksblatt e da Gazeta Popular). Além dos nomes citados, devem ser lembrados outros profissionais, como Jacob Dillenburg (primeiro redator do Deutsches Volksblatt), Mathias Müsch, Clemens Peter Wallau, Joseph Köning, Rudolf Elmar Metzler (com o pseudônimo Tico-Tico), Hugo Hammes, Herbert Caro, Alberto André, Aldo Obino, Petrônio Corrêa, Oswaldo Goidanich, Oscar Pereira, Josué Guimarães, Ernesto Cruz Valdez, João de Souza Ribeiro, Antonio Onofre da Silveira, Frederico Renato MotaHOHLFELDT, Antonio; VALLES, Rafael Rosinato. Dois pioneiros da comunicação no Rio Grande do Sul: Oswaldo Goidanich e Roberto Eduardo Xavier. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2008. p.41. Disponível em <http://www.pucrs.br/edipucrs/doispioneiros.pdf>, consultado em 03/03/2010. e outros. Muitos ainda estavam em início de carreira, e alguns foram também responsáveis pela edição dos livrosRODRIGUES, André Iribure. As origens da MPM Propaganda. Em Questão, Porto Alegre, v.10, n.2, jul.-dez. 2007, p. 309. Disponível em <http://www6.ufrgs.br/emquestao/pdf_2004_v10_n2/EmQuestaoV10_N2_2004_est01.pdf>, acessado em 03/03/2010. da Tipografia do Centro e da Editora A Nação. No centro de Porto Alegre, o edifício de 22 andares e galeria A Nação, projetado pela diretoria da Tipografia do Centro, guarda o seu nome. Infelizmente os diversos incêndios e depredações fizeram desaparecer coleções inteiras dos exemplares publicados.
Nação (Porto Alegre), A Nação (Porto Alegre), A