O Movimento Democrático de Libertação de Portugal (MDLP) foi uma organização nacionalista portuguesa ativa durante o período que se seguiu à revolução de 25 de abril de 1974. Entre as ações atribuídas ao MDLP estão uma tentativa de golpe de estado em 11 de março de 1975, uma vaga de atentados à bomba a sedes de partidos de esquerda, sindicatos ou cultura no início de 1976, incluindo o atentado à bomba que vitimou o candidato a deputado Padre Max e uma estudante que o acompanhava. Os mais de 500 atentados, apontavam à desestabilização social e generalizar um clima de terror, levando à morte de várias pessoas.

O MDLP estava ligado ao Movimento Maria da Fonte, ao Exército de Libertação de Portugal ou aos CODECO, com os quais partilhava fontes, colaboradores e patrocinadores. Estes grupos, com ligações ao poder político do Estado Novo e aos grandes grupos económicos, Igreja e partidos de direita procuravam reverter as mudanças democráticas introduzidas após o 25 de abril.

O MDLP foi formalmente constituído em 5 de maio de 1975, após a Intentona de 11 de Março de 1975,MDLP (1975), Politipédia, Observatório Político, 2012 e foi liderado, a partir do Brasil, pelo General António de Spínola,Quando Spínola quis invadir Portugal com ajuda do Brasil, Manuel Carvalho, Público, 27 de Abril de 2014Spínola, António de (1976) Ao serviço de Portugal. Ática/Bertrand. mas toda a sua estrutura encontrava-se sediada em Madrid. Segundo o jornal Público, António de Spínola "sonha[va] com um regresso à frente de um exército invasor para expulsar os comunistas do poder".

Estrutura e membros

Estrutura e liderança Essa estrutura assentava num Gabinete Político, que assegurava a liderança política do movimento, dirigido por Fernando Pacheco de Amorim reportando directamente ao General António de Spínola e integrado, entre outros, por António Marques Bessa, Diogo Velez Mouta Pacheco de Amorim (actual vice-presidente da Assembleia da República), José Miguel Júdice (advogado e comentador na SIC) e Luís Sá Cunha. A estrutura militar era liderada pelo Coronel Dias de Lima, Chefe do Estado Maior, também ele reportando directamente ao General António de Spínola e subdividia-se em dois braços, a RAI - Rede de Acção Interna, liderada por Alexandre Negrão e as FAE - Forças de Acção Externa, estas lideradas por Alpoim Calvão. Ambos Alexandre Negrão e Alpoim Calvão reportavam directamente a Dias de Lima.

Setenta e Quatro, um projeto de informação digital, em entrevista com Riccardo Marchi identifica cinco departamentos: "a estrutura hierárquica, pensada por Alpoim Calvão (...) era liderada por um Comando (Spínola) alicerçado num Comité Superior. Era composto por cinco departamentos: político (José Miguel Júdice, José Valle de Figueiredo, Luís Sá Cunha, António Marques Bessa), militar (Alpoim Calvão e os tenentes-coronéis Gilberto Santos e Castro e Alexandre Dias de Lima), o financeiro (Manuel Cotta Dias e Joaquim Ferreira Torres), diplomático e o das informações (primeiro-tenente Jorge Braga)."

Outros membros Foi ainda membro das MDLP o sobrinho de Fernando Pacheco de Amorim, Diogo Pacheco de Amorim que em 2019 se tornaria um militante proeminente do partido político Chega, e chegará a vice-presidente da Assembleia da República em 2024. Antes foi "Assessor do Vice-Primeiro Ministro Diogo Freitas do Amaral no 1º Governo da AD e Chefe de Gabinete do Grupo Parlamentar do [CDS-]PP entre 1995 e 1997".

A rede do MDLP alegadamente envolveria ainda figuras de topo como: o embaixador americano Frank Carlucci, Sanches Osório, Canto e Castro (Conselho da Revolução), Galvão de Melo; industriais como Rui Castro Lopo, Abílio de Oliveira, Joaquim Ferreira Torres, Avelino Ferreira Torres (posterior autarca do CDS-PP); brigadeiro Pires Veloso; membros da Igreja como o Arcebispo de Braga e o Cónego Melo.Álvaro Magalhães (2021) Para quê tudo isto. Biografia de Manuel António Pina. Contraponto

Em entrevista à VISÃO, o militar e investigador Fernando Cavaleiro Ângelo afirma: "Pessoas cúmplices ou ativamente envolvidas no terrorismo de extrema-direita começaram a destacar-se na sociedade e não gostam que se investiguem estas questões. (...) Houve muita gente envolvida". Ver ainda entrevista ao DN. Muitos envolvidos, “principalmente militares” (p. 331), por exemplo, Caimoto Duarte e Pedro Menezes (p. 300).

Eanes terá sido convidado para o MDLP. mas recusado (p.515).

Financiadores e fontes de armas Houve muito dinheiro e material a afluir ao movimento para conseguir realizar os mais de 500 atentados. Houve financiamento de grandes empresas ligadas ao Estado Novo. No entanto, Sanches Osório refere que António Champalimaud apesar de favorável a estas ações não terá financiado o MDLP por não acreditar em Spínola.

As fontes de armas e explosivos eram nacionais e internacionais. Em termos nacionais, o comandante da PSP do Porto Mota Freitas e o comandante Sampaio Cerveira forneceriam armas e explosivos (p. 303), incluindo "granadas, trotil, plástico e armas" (p.317). Os contactos internacionais também eram abundantes. Mobutu ofereceu 5 mil espingardas semiautomáticas (p.512). Via Espanha, chegam 1200 armas e 342 mil munições (p.520).

A rede operacional Ramiro Moreira, um dos operacionais detido pela PJ, tinha sido "segurança do PPD (actual PSD)", "militante nº7 do PPD",e "expulso por Sá Carneiro, em Novembro de 1975, por pertencer ao MDLP". Ramiro Moreira alega que terá sido recrutado por Mota Freitas, então comandante da PSP do Porto. Júlio Regadas e Mário Ferreira da Polícia Judiciária também seriam da rede (p. 297).

Os operacionais eram frequentemente recrutados entre tropas de elite coloniais e marginais urbanos (p. 329-330). Por exemplo, os também detidos com Ramiro Moreira, os então jovens Marques da Costa (Manuel “Águia”), que tinha posto uma bomba na Faculdade de Economia do Porto, e Manuel Teixeira Gomes, segurança em comícios do CDS e guarda-costas de Galvão Melo (p. 300).

Motivações As motivações dos membros eram variadas e a rede juntava uma mescla de anticomunistas, mercenários e oportunismo para negociatas. A motivação anticomunista grassava do topo aos operacionais. Por exemplo, Ramiro Moreira relata que “senti uma especial vontade de punir sindicalistas” (p. 339). Vitor Alves opina que “[O MDLP queria] um retorno a um marcelismo sem guerra colonial” (p.514).

No entanto, relata-se a importância do dinheiro como motivador, por exemplo, por Miguel Sousa Tavares no Expresso em 1981. Os operacionais relatam que eram pagos por atentado. Manuel Teixeira Gomes é-lhe prometido 10 contos (1300 euros em 2016) por atentado (p. 301). Também Ramiro Moreira relata que lhe pagam por atentado, mas ambos se queixam de somas por pagar. O furto da coroa da Nossa Senhora da Oliveira do Museu Alberto de Sampaio, em Guimarães, talvez se inclua nessa motivação (p.522).

A confusão dos atentados permitia ainda negociatas.

Ligações à direita tradicional O livro de Miguel Carvalho já em sexta edição "Quando Portugal ardeu" aborda as relações de parte da direita tradicional com o MDLP, Plano Maria da Fonte e quejandos.

A ligação com o PPD (atual PSD) Muitos dos operacionais do MDLP eram seguranças de partidos políticos, destacando-se o caso de Ramiro Moreira. Militante nº 7 do PPD e membro da Comissão Política Distrital do Porto, assegurava a segurança e, por vezes, também se envolvia em escaramuças ocasionais, habituais naqueles tempos (p. 314). Com alguns jovens do PPD, começa por usar bombas incendiárias para pegar fogo a carros de militantes de esquerda (p.316).

Na altura da sua expulsão, em Novembro de 1975, o próprio Sá Carneiro terá o chamado a sua casa para o intimar a desfiliar-se ou a ser desfiliado, para não envergonhar o partido. Esta proximidade pessoal levou Vítor Alves a sugerir a divulgação de uma fotografia de 1974 de Ramiro Moreira ao lado de Sá Carneiro para ganhos eleitorais. Balsemão irá recusar a sua publicação no Expresso, mas o Diário, próximo ao PCP, publicará. (318). Não há quaisquer indícios de ligação do então líder do PPD às atividades de violência política de Ramiro Moreira.

Tal já não acontecia com outros militantes. A sobreposição entre parte das estruturas e os protagonistas do MDLP e dos partidos da direita tradicional, levavam a relações de proximidade pessoal ou mesmo política. O próprio Ramiro Moreira achava ““natural” continuar militante no PPD e pertencer ao MDLP”. Afinal “”Havia gente no partido que pensava da mesma maneira, ultras como eu””. (318)

A forte ligação com o CDS Após a expulsão do PPD, passará a fazer de segurança para o CDS, especialmente ao General Galvão de Melo.

Gonçalo Martins, militante do CDS e indigitado para candidato à Câmara Municipal de Ponte de Lima seria detido aquando da prisão de Ramiro Moreira, devido a alegadamente ter fornecido 200 quilos de gelamonite. É próximo dos empreiteiros Veríssimos de Ponte de Lima, simpatizantes do CDS e detentores de pedreiras e explosivos. O conhecimento de altos quadros do CDS poderia ser maior, sendo ainda nomeados Basílio Horta (p. 302) ou Galvão de Melo.

Afinal que partidos estavam mais envolvidos na rede bombista? O advogado Levy Batista acusa que “Era gente mais do CDS que estava mais ligada a isto. O PPD menos.” (p.495). Diogo Freitas do Amaral, presidente do partido, sempre o negou, mas José Esteves, segurança e motorista de Freitas do Amaral alega que no CDS "só se falava em armas e bombas".Machado, Delfim (2026) Mercenários ligados ao CDS contratados para matar padre Max. Jornal de Notícias. 29 março, 2026

Ligações à Igreja Miguel Carvalho, no seu livro "Quando Portugal ardeu" detalha as relações de parte da Igreja Católica em Portugal com a direita radical bombista.

Origens O epicentro das relações dos movimentos terroristas de direita com a Igreja Católica será em Braga. O seu Arcebispo, D. Francisco admirava António de Oliveira Salazar. No pós 25 de Abril, vai apoiar os programas de CDS e PDC, dados os seus valores cristãos em acordo com a doutrina da Igreja (ou como ele a lia). Alguns referem até o seu desconforto com as posições políticas do PPD.

O envolvimento da Igreja católica será precipitado por uma conspiração da extrema direita, promovida pelos orquestradores Jorge Pereira Jardim, major Sanches Osório e Paradela de Abreu. Dado a fuga de dinheiro do país ser um dos problemas no regime de Abril, estes denunciam, por carta e telefone ao COPCON, a viagem do Arcebispo de Braga D. Francisco ao Brasil. Este será revistado de alto a baixo, o que dar-lhe-á a motivação extra para apoiar as atividades de “defesa do ‘cristianismo’, do ‘patriotismo’ e da ‘liberdade’” dos novos movimentos. Assim, D. Francisco dá o apoio ao Plano Maria da Fonte, incluindo também representantes do MDLP, mas direciona-os para o Cónego Melo, como oficial de ligação.

Visões polarizadas na Igreja Em contraste, o Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, exilado por Salazar, recusa a promoção pela Igreja Católica de partidos ou de chefiá-los. No final de 1974, irá denunciar a as campanhas anticomunistas em folhas paroquiais por alguns sacerdotes. Mesmo em Braga há católicos em dissonância com o arcebispo, mas são tratados à castanhada. (i) As práticas eclesiásticas retrógradas da diocese de Braga ao ignorar o Concílio Vaticano II são denunciadas por cristãos bracarenses num documento de 15 páginas. (ii) A diocese pune críticas de um cónego e quatro sacerdotes. (iii) O padre Ângelo da Venda será intimidado, inclusive à bomba.