O Salão dos Independentes (Salon des Indépendants em francês) é uma exposição de arte organizada pela Sociedade dos Artistas Independentes, formada originalmente em Paris em 1884, tendo à época Albert Dubois-Pillet, Odilon Redon, Georges Seurat e Paul Signac entre os seus principais membros. Contornando o monopólio das academias de arte e dos seus salões oficiais, como o Salon de Paris ou o Salon des Réfuses, ambos de acesso restrito e estilo tradicionalista, a sociedade de artistas independentes criou um salão livre anual a partir de 1886, exibindo todas as novas correntes de arte moderna, acessível a quem nela quisesse participar, seguindo a filosofia "sem júri, sem prêmios"."Salon des Indépendants". In: Encyclopaedia Britannica online.

Nas suas primeiras três décadas de existência, as exposições definiram as tendências e os principais movimentos artísticos do início do século XX, juntamente com o célebre Salon d'Automne, possibilitando pela primeira vez a exibição de muitas obras de arte e vanguarda, sendo depois amplamente discutidas entre criadores e críticos, sem tabus.

História

1884-1904, as primeiras exposições miniaturadaimagem|250x250px|Une baignade à Asnières (Banhistas em Asnières), óleo sobre tela, 201 x 300 cm, obra de Georges Seurat (1884, retocado em 1887), pertencente à colecção da National Gallery, Londres A 1 de dezembro de 1884, Lucien Boué, Presidente da Câmara Municipal de Paris, abriu a primeira exposição da Société des Artistes Indépendants no Palais Polychrome (próximo do Palais de l'Industrie), sendo as receitas do evento destinadas às vítimas da epidemia de cólera. Entre as obras expostas constavam "La baignade à Asnières" de Georges Seurat, "Le Pont d'Austerlitz" de Paul Signac e várias obras de Henri-Edmond Cross, Odilon Redon, Albert Dubois-Pillet, Louis Valtat, Armand Guillaumin, Charles Angrand, Paul Cézanne, Paul Gauguin, Henri de Toulouse-Lautrec, Camille Pissarro e Vincent van Gogh.

A segunda exposição foi realizada em 1886, num edifício temporário, próximo do Jardim das Tulherias, com 200 quadros expostos, recebendo pela primeira vez o nome Salon des Indépendants (Salão dos Independentes).

Em 1895 e 1897, a exposição foi realizada no Palais des Beaux-Arts et des Arts libéraux, no Champ de Mars, e entre 1901 e 1907, nas Grandes Serres de la Ville de Paris, em Cours-la-Reine, também chamadas de Grande Serre de l'Alma, construída para a Exposition Universelle de 1900.

Em 1902, para além de apresentarem obras de novos artistas, os Indépendants apresentaram também uma retrospectiva das obras de Toulouse-Lautrec. esquerda|miniaturadaimagem|250x250px|La Plage de Saint-Clair, óleo sobre tela, 54,5 por 65,4 cm, obra de Henri-Edmond Cross (1896) miniaturadaimagem|250x250px|Fécamp (The Beach at Sainte-Adresse), óleo sobre tela, 64.5 x 80 cm, obra de Albert Marquet (1906) Em 1903, Jean Metzinger enviou três pinturas para o Salon des Indépendants, mudando-se pouco depois para Paris com o dinheiro da venda dos seus quadros. No ano seguinte, voltou a exibir várias pinturas, desta vez ao lado de Robert Delaunay e de Henri-Edmond Cross, que apresentou uma série de pinturas sobre Veneza.

Em 1905, o salão apresentou várias retrospectivas sobre as obras de Georges Seurat e Vincent van Gogh, presenciando ainda o movimento dos Les Nabis e o nascimento do fauvismo.

Durante o período conhecido como La Belle Époque, praticamente todos os artistas associados ao modernismo, realismo e a outros movimentos de vanguarda, como o pós-impressionismo, les nabis, simbolismo, neo-impressionismo, divisionismo, fauvismo, expressionismo, cubismo e abstraccionismo, expuseram no Salon des Indépendants. miniaturadaimagem|386x386px|L'homme à la tulipe (Retrato de Jean Metzinger), óleo sobre tela, obra de Robert Delaunay (1906) O número de obras e artistas inscritos aumentou exponencialmente, passando de mil quadros expostos em 1901 para 4269 obras de 669 artistas em 1905. Henri Rousseau, Pierre Bonnard, Jean Metzinger e Henri Matisse fizeram parte de várias exposições, assim como tantos outros pintores e escultores, chegando aos 1182 artistas inscritos em 1910. O pagamento inicial de inscrição era de 10 francos por quatro obras. Em 1906, dez obras podiam ser apresentadas por 25 francos e, a partir de 1909, apenas duas.

A partir de 1920, as exposições foram realizadas no Grand Palais des Champs-Elysées, em Paris.

1905, o fauvismo Antes da aclamada exposição do Salon d'Automne de 1905, que marcou historicamente o nascimento do termo fauvismo, quando o crítico Louis Vauxcelles descreveu a exposição com a frase "Donatello chez les fauves" ("Donatello entre as feras"), devido ao contraste das pinturas expostas com uma escultura de estilo renascentista que partilhava a divisão, de 24 de março a 30 de abril, foi visível testemunhar o florescimento do movimento estético no Salon des Indépendants.

Nesse ano, Albert Marquet, Henri Matisse, Jean Puy, Henri Manguin, Othon Friesz, Raoul Dufy, Kees van Dongen, André Derain, Maurice de Vlaminck, Charles Camoin e Jean Metzinger expuseram na exposição.

Matisse expôs o quadro proto-fauve "Luxe, Calme et Volupté". Com uma técnica divisionista e cores vivas, a obra foi pintada em 1904, após ter passado o verão a trabalhar em Saint-Tropez, na Riviera Francesa, ao lado dos pintores neo-impressionistas Paul Signac e Henri-Edmond Cross. A obra é considerada a pintura mais importante de Matisse, na qual ele usou uma técnica divisionista, defendida no ensaio de Paul Signac, "D'Eugène Delacroix au Néo-impressionisme" em 1898. Signac comprou a obra após a exposição de 1905.

1906, os fauves Após a exposição de 1905 e o nascimento do fauvismo, a exposição do Salon des Indépendants de 1906 ficou marcada na história como a primeira exposição em que todos os artistas fauves expuseram juntos.

A peça central da exposição foi a obra "Le Bonheur de Vivre" (A alegria da vida) de Henri Matisse. A composição triangular estava intimamente relacionada com "Os Banhistas" de Paul Cézanne, que por sua vez também inspirou a obra "Les Demoiselles d'Avignon" de Pablo Picasso. miniaturadaimagem|250x250px|Le Port du Havre, óleo sobre tela, 61 x 73 cm, Raoul Dufy (1906) Nesse mesmo ano, Georges Braque expôs as suas obras pela primeira vez no Salon des Indépendants e Jean Metzinger foi eleito membro do comité de selecção, para além de ter inscrito oito obras da sua autoria. De acordo com as memórias de Metzinger, foi na exposição desse mesmo ano que conheceu o filósofo francês e auto-proclamado criador do cubismo Albert Gleizes, visitando o seu estúdio em Courbevoie vários dias depois. Ainda no mesmo período, Metzinger formou uma forte amizade com o artista francês Robert Delaunay, com quem, posteriormente, desenvolveu o seu estilo divisionista e partilhou uma exposição na galeria de Berthe Weill.

1907, a transformação cezanniana Realizada de 20 de março a 30 de abril de 1907, após a morte de Paul Cézanne em finais de 1906, muitas das obras expostas na exposição anual dos artistas independentes revelaram uma transformação no fauvismo, inspirado nas obras do pintor pós-impressionista francês.

Durante a mostra anual foram expostas seis pinturas de Georges Braque. Cinco obras foram adquiridas directamente pelo negociante de arte Wilhelm Uhde, por um preço total de 505 francos, e especula-se que a sexta foi comprada pelo negociante de arte Daniel-Henry Kahnweiler. Foi nessa ocasião que o artista francês foi apresentado a Pablo Picasso pelo escritor e crítico de arte Guillaume Apollinaire. À época, as obras de Braque ainda eram de natureza fauvista, adoptando, somente no outono desse ano, um nova estética, possivelmente inspirado pelas obras de Cézanne, após ter visitado a exposição em sua memória, no Salon d'Automne de 1907. esquerda|miniaturadaimagem|250x250px|Les Grandes Baigneuses (As Banhistas), óleo sobre tela, 2,1 m x 2,51 m, obra de Paul Cézanne (1906) André Derain também participou na exposição, onde revelou a obra "Dançarino no Le Rat Mort", pintada durante o inverno de 1906, e a série de obras "Banhistas", concluídas no início de 1907, revelando também ter retirado inspiração das obras de Cézanne.

A obra "Blue Nude (Souvenir de Biskra)" (ou "Nu Azul") de Matisse também participou no Salon des Indépendants de 1907, intitulado então como "Tableau no. III". O crítico de arte Louis Vauxcelles escreveu sobre a obra:Para além das obras de Matisse, Derain e Braque, os Indépendants de 1907 incluíram seis obras de Maurice de Vlaminck, Raoul Dufy, Jean Metzinger, Robert Delaunay, Charles Camoin, Auguste Herbin, Jean Puy, Louis Valtat, e três de Albert Marquet.

Cézanne desencadeou, assim, uma transformação total na área da investigação artística que afectaria profundamente o desenvolvimento da arte moderna do século XX, denominando-se o período final do fauvismo como período cézanniano ou ainda cubismo cézanniano.

1908, esquemas bárbaros miniaturadaimagem|250x250px|Ploumanac'h, óleo sobre tela, obra de Henri le Fauconnier (1908), exposta no Museu Kranenburgh. Na exposição, realizada de 20 de março a 2 de maio de 1908, Paul Signac foi eleito presidente do 24º Salon des Indépendants e mais de 1.314 artistas exibiram 6.701 obras.

Durante a exposição, uma pintura de Braque impressionou Guillaume Apollinaire pela sua originalidade, sendo densamente descrita em vários artigos e periódicos franceses, como o L'Intransigeant ou La Revue des lettres et des arts.

Apesar de Matisse e Picasso não terem participado no salão anual, Louis Vauxcelles escreveu na revista Gil Blas, a 20 de março de 1908, que os artistas mais inovadores da exposição eram "bárbaros esquematizadores" "que desejam criar uma 'arte abstrata'''".

Após a edição da exposição anual, o escritor Frank Burgess iniciou uma série de entrevistas com os principais artistas de vanguarda, publicando as suas impressões na Architectural Record, em maio de 1910, durante o período protocubista. miniaturadaimagem|250x250px|Houses in Munich (Casas em Munique), óleo sobre tela, 33 x 41 cm, obra de Vassily Kandinsky (1908), exposta no Museu Von der Heydt, Wuppertal. Gelett Burgess escreveu no artigo The Wild Men of Paris:

1909, formas simplificadas miniaturadaimagem|250x250px|Baigneurs au bord d'une rivière (Banhistas na margem do rio), óleo sobre tela, 2,6 x 3,9 m, obra de Henri Matisse (1909-1916), exposta no Instituto de Arte de Chicago. No Salon des Indépendants de 1909, realizado de 25 de março a 2 de maio, uma das primeiras pinturas cubistas foi exibida ao público: "Petit port en Normandia, nº 215", intitulado então como "Paysage", de Georges Braque. Louis Vauxcelles referiu-se às obras de Braque exibidas na exposição como "bizarreries cubiques".

Na Sala 16 foram expostas obras de André Derain, Raoul Dufy, Othon Friesz, Claude Laprade, Henri Matisse, Jean Puy, Georges Rouault e Maurice de Vlaminck. Jean Metzinger, Henri Le Fauconnier e Robert Delaunay também participaram noutras salas do salão. Picasso não se inscreveu em nenhuma competição ou mostra nesse ano.

Durante o evento denotou-se uma evolução de estilo para uma estética mais linear, com formas simplificadas e continuas, dando ênfase a novos princípios básicos geométricos.

1910, geômetras ignorantes e um burro chamado Lolo esquerda|miniaturadaimagem|250x250px|The Dream, óleo sobre tela, obra de Henri Rousseau (1910), exposta no MOMA. Exibida no Indépendants de 1910, alguns meses antes do falecimento do artista. Albert Gleizes estreou-se no Salon des Indépendants de 1910 com as obras "Retrato de René Arcos" e "L'Arbre", duas pinturas nas quais as suas formas geométricas simplificadas destacavam-se entre o leque das tradicionais pinturas representacionais. miniaturadaimagem|250x250px|Et le soleil s'endormit sur l'Adriatique, óleo sobre tela, 54 x 80 cm, creditada como obra do artista fictício Joachim-Raphaël Boronali (1910).