Never Let Me Down é o décimo sétimo álbum de estúdio de David Bowie, lançado em abril de 1987 pela EMI. Bowie concebeu o álbum como a fundação para uma turnê teatral mundial, tendo composto e gravado a maior parte das canções na Suíça. Ele considerou o álbum uma volta à música rock. Três singles foram lançados a partir do álbum, "Day-In Day-Out", "Time Will Crawl" e "Never Let Me Down", todos atingindo o Top 40 britânico.

Um dos maiores sucessos comerciais de Bowie, Never Let Me Down foi certificado com Disco de Ouro pela RIAA no início de julho de 1987, menos de três meses após seu lançamento, e entrou para o top 10 em vários países da Europa, apesar de só ter alcançado o n°34 nas paradas estadunidenses. Apesar do sucesso comercial, o álbum foi mal recebido por fãs e críticos, que frequentemente veem a segunda metade dos anos 1980 como um ponto baixo da criatividade e da integridade musical de Bowie. Mais tarde, Bowie se distanciou do álbum, mas admitiu ter um apreço por muitas das faixas do álbum, até fazendo um remix de "Time Will Crawl" (uma de suas canções prediletas) para a coletânea retrospectiva iSelect (2008).

Para promover o álbum, Bowie realizou a Glass Spider Tour, uma turnê mundial que, na época, foi a maior, mais teatral e mais elaborada turnê que o cantor empreendera em sua carreira. A turnê, assim como o álbum, foi bem-sucedida comercialmente, porém grande alvo de críticas. O fracasso do álbum e da turnê nas críticas foi um dos fatores que levaram Bowie a procurar uma nova forma de motivação criativa para si, levando-o a criar a banda Tin Machine em 1989 e modificar seu repertório de shows durante a turnê Sound + Vision, de 1990. Bowie não lançou outro álbum solo até Black Tie White Noise, de 1993.

Desenvolvimento do álbum miniaturadaimagem|Vista de Montreux, na Suíça, onde Bowie gravou o álbum. Após a ascensão da sua fama e o sucesso do álbum Let's Dance, de 1983, e da subsequente turnê Serious Moonlight Tour, Bowie se sentiu desconexo da sua nova grande base de fãs, e após a má recepção de Tonight (1984), ele estava tentando fazer o próximo álbum de forma diferente. Segundo David Buckley, biógrafo de Bowie, diferentemente do que outros autores afirmam, o cantor não tinha "se encontrado"; muito pelo contrário: "ele perdera virtualmente todo o sentido de como se relacionava com sua arte". Como resultado, Bowie disse que gostaria de voltar a gravar com um pequeno grupo de rock que tivera anteriormente em sua carreira, e que fez o álbum como "um movimento de volta à música rock. Muito diretamente."The Glass Spider Tour Press Conferences (Amsterdan) (vinil). 30 de março de 1987. Bowie sentia que o som e o estilo do seu novo álbum lembravam o disco Scary Monsters (1980) e eram menos parecidos com seus últimos álbuns.Loder, Kurt (23 de abril de 1987), "Stardust Memories", Rolling Stone (498): 74–77, 80, 82, 168, 171

Bowie passou meados de 1986 na sua casa na Suíça compondo com seu amigo Iggy Pop.Isler, Scott (agosto de 1987), "David Bowie Opens Up - A Little", Musician (106): 60–73 Ele escreveu Never Let Me Down com a intenção de tocar canções num show teatral.The Glass Spider Tour Press Conferences (London) (vinil). 20 de março de 1987. Então, ele gravou algumas demos com Erdal Kızılçay antes de trabalhar no álbum com a banda completa.Currie, David (1987), David Bowie: Glass Idol (1a ed.), London and Margate, Inglaterra: Omnibus Press, ISBN 0-7119-1182-7 Pela primeira vez desde o álbum Scary Monsters, Bowie tocou instrumentos no disco, além de cantar.Fricke, David (dezembro de 1984), "David Bowie Interview", Musician (74): 46–56Timothy, White (maio de 1983), "David Bowie Interview", Musician (55): 52–66, 122 Para algumas faixas do álbum, Bowie tocou teclado, sintetizador, guitarra rítmica e, em duas faixas do álbum ("New York's in Love" e "'87 and Cry"), ele tocou a guitarra principal.Isler, Scott (agosto de 1987), "David Bowie Opens Up - A Little", Musician (106): 60–73

O álbum levou três meses para ser composto e gravado. Bowie reconheceu que as canções no álbum não continham um estilo musical coeso, afirmando que isso refletia o seu eclético gosto musical na época e declarando que o álbum foi "um reflexo de todas os estilos de escrita que eu usara pelos anos anteriores."

O guitarrista Carlos Alomar classificou o álbum como "sem inspiração", tanto pelo novo método de Bowie, que ia contra o seu experimentalismo dos anos 1970, como pela pressão externa da EMI. Bowie deixara a RCA no início da década para alcançar novos patamares, mas a experiência com a gravadora acabou sendo frustrante. Segundo Alomar, Bowie "não queria ir para o estúdio e gravar um álbum", mas foi obrigado a isto. Aliado a estes fatores, havia o fato de que, não obstante a fortuna adquirida por Bowie ao longo dos anos, ele não estava feliz com sua vida pessoal, o que o levou a reflexões sobre sua carreira e sobre o que desejava ser.

Desenvolvimento das canções Bowie escreveu a principal faixa do álbum, "Day-In-Day-Out", devido à sua preocupação com o tratamento recebido pelos sem-teto nos Estados Unidos, e queria se posicionar quanto ao assunto.The Glass Spider Tour Press Conferences (Stockholm) (vinil). 28 de março 1987. Algumas redes baniram o vídeo da faixa, o que Bowie achou ridículo. A canção também foi o principal single do álbum. Uma versão com a faixa cantada em espanhol foi lançada em 2007, quando o EP "Day-In Day-Out" foi lançado digitalmente. miniaturadaimagem|Uma das inspirações para a canção "Tim Will Crawl" foi o desastre de Chernobil, ocorrido em 1986. "Time Will Crawl", que Bowie declarou ser sua faixa favorita do álbum, foi inspirada pelos acontecimentos do desastre de Chernobil e pela ideia de que alguém do seu próprio bairro poderia ser o responsável pelo fim do mundo.David Bowie - The Interview (vinil). EMI America. 1987. Bowie disse que seus vocais na canção "deviam muito a Neil Young", e observou que a variedade de vozes usadas no álbum foi uma referência às múltiplas influências musicais que tivera no passado. Bowie tocou a canção no programa Top of the Pops, da BBC, mas essa performance nunca foi ao ar. Essa faixa foi o segundo single do álbum.

A faixa-título, "Never Let Me Down", é sobre Coco Schwab, assistente pessoal de longa data do cantor. Bowie escreveu a canção como uma referência direta ao seu relacionamento com Coco, de modo a formar um contraste com o resto das faixas do álbum, que ele via como majoritariamente alegóricas. A canção foi a última escrita para o álbum, composta e gravada em um dia durante a última semana de mixagem do disco nos Power Station studios, em Nova York. Bowie atribuiu sua performance vocal na canção a John Lennon. A canção também foi tocada no Top of the Pops, indo ao ar, primeiramente, na versão americana do programa. Essa faixa foi regravada e lançada como o terceiro single do álbum. Mais tarde, um crítico chamou a canção de "uma das faixas mais subestimadas" de Bowie.

Bowie chamou a faixa "Beat of Your Drum" uma canção de Lolita, uma "reflexão sobre garotas jovens... Meu Deus, ela só tem catorze anos, mas ser preso vale a pena!"

A canção "Zeroes", que a Rolling Stone disse ser a canção mais animadora e bem-sucedida do álbum, é, de acordo com Bowie, uma viagem nostálgica: "Eu queria colocar todos os clichês dos anos 60 em que eu podia pensar! 'Parando, e rezando, e deixando o amor entrar,' todas essas coisas. Eu espero que haja uma indicação bem-humorada na música. Mas o sub-texto é definitivamente o de que os aparatos do rock não são o que foram feitos para ser."

A faixa "Glass Spider" é um tipo de estória mitológica baseada num documentário que Bowie vira sobre viúvas-negras que dizia que as aranhas deixam os esqueletos de suas presas em suas teias. Bowie também achou que a teia da Glass Spider ("Aranha de Vidro") daria um bom cenário para a turnê, assim criando o nome e os figurinos de palco da turnê de apoio do álbum.The Glass Spider Tour Press Conferences (Sydney) (vinil). 27 de outubro de 1987.

O ator Mickey Rourke pediu a Bowie para participar de uma das canções, sendo que os dois se conheceram em Londres, onde Rourke estava enquanto gravava o filme A Prayer for the Dying. Rourke cantou o rap da canção "Shining Star (Makin' My Love)." Bowie, jocosamente, referiu-se à performance de Rourke como um "rap metodológico". Bowie descreveu a canção como algo que "reflete situações da vida real, e como as pessoas estão tentando se unir em face a tantos desastres e catástrofes, socialmente, nunca sabendo se elas mesmas sobreviverão. A única coisa que têm em para se segurarem é o outro; apesar disso poder resultar em algo terrível, é a única coisa que têm. É só uma cançãozinha de amor vinda desse ambiente." Ele rejeitou a ideia de que a sua voz "alta e pequena" (que atribuiu a Smokey Robinson) na canção era um novo personagem (que seguiria Ziggy Stardust ou o Thin White Duke), dizendo que, na verdade, era só o que a faixa precisava, já que tentara cantar com sua voz usual e não gostara do resultado: "Isso nunca me incomodou, mudar vozes para se adequar a uma faixa. Você pode brincar com isso." "Shinnig Star" foi uma das primeiras escolhas de Bowie para single do álbum, mas EMI teve a palavra final e não lançou a canção como single. Um remix da faixa foi disponibilizado no iTunes quando o EP "Never Let me Down" foi lançado digitalmente, em 2007, pela primeira vez. miniaturadaimagem|"'87 & Cry" foi originalmente escrita por Bowie como um posicionamento sobre Margaret Thatcher, então primeira-ministra do Reino Unido. Bowie chamou "New York's in Love" de uma canção sarcástica sobre a vaidade das cidades grandes.

Bowie originalmente escreveu a canção "'87 & Cry" como um posicionamento sobre Margaret Thatcher, que, na época, era a Primeira-ministra do Reino Unido. A canção se referia à distinção entre o governo autoritário e os cidadãos (os "cães"), e Bowie admitiu que a letra beirava o surreal, descrevendo pessoas "comendo as energias dos outros para conseguirem o que queriam." A faixa foi lançada como lado B do terceiro single do álbum, "Never Let Me Down".Crankin' Out - The David Bowie Magazine (5), 1997.

"Too Dizzy" foi a primeira canção escrita por Bowie e seu novo colaborador, Erdal Kizilcay, para o álbum, feita como uma homenagem aos anos 1950. Bowie disse que "os verdadeiros assuntos dos anos 50 ou eram amor, ou eram ciúmes, então pensei em falar sobre ciúmes, porque é muito mais interessante". Na época, Bowie chamou a faixa de um "desperdício" e pareceu surpreso de tê-la incluído no álbum. A canção foi retirada dos relançamentos subsequentes de Never Let Me Down.

Quando perguntado sobre sua escolha em incluir "Bang Bang", de Iggy Pop, no álbum (ao invés de possivelmente co-escrever uma nova faixa), Bowie afirmou: "Iggy fez tantas coisas boas que as pessoas acabam nunca ouvindo... Acho que essa é uma das suas melhores canções, 'Bang Bang', e ainda não foi ouvida, e agora talvez seja." "Bang Bang" foi lançada como single promocional em CD em 1987.

No geral, Bowie resumiu o álbum após seu lançamento, em 1987, como um esforço para "restabelecer o que eu costumava fazer, que era um álbum orientado pelas guitarras. Acho que o próximo álbum será ainda mais assim". Seu trabalho seguinte seria Tin Machine (1989), álbum de rock orientado pelas guitarras.

Recepção da crítica