Manzanar é o mais conhecido dos dez campos de concentração onde mais de nikkei foram encarcerados durante a Segunda Guerra Mundial. Fica aos pés da Serra Nevada no Vale Owens, Califórnia, e entre os povoados de Lone Pine a sul e Independence a norte, aproximadamente a 370 quilômetros a nordeste de Los Angeles.
Manzanar foi identificado pelo Serviço Nacional de Parques dos Estados Unidos como o campo melhor conservado deste tipo, pelo qual foi designado Local Histórico Nacional Manzanar (Manzanar National Historic Site).
Muito antes que os primeiros prisioneiros chegaram ao lugar, em março de 1942, Manzanar era o lar de povos nativos, quem nomeadamente viviam em aldeias situadas em vários dos arroios próximos da área. Rancheiros e mineiros estabeleceram-se formalmente em Manzanar em 1910, mas abandonaram a povoação em 1929 após a cidade de Los Angeles comprar os direitos da água de praticamente toda a área. Apesar das diferenças destes grupos, as suas histórias têm em comum a ameaça do translado forçado.
Desde que os últimos prisioneiros saíram em 1945, antigos prisioneiros e outros interessados trabalharam para preservar Manzanar e estabelecê-lo como Sítio Histórico Nacional dos Estados Unidos, com a finalidade de preservá-lo e explicá-lo à presente geração bem como às futuras. O tema principal é o da época de internamento dos norte-americanos nikkei, tal qual se especificou na legislação que criou ao sítio histórico. O lugar também aborda a povoação de Manzanar, os seus dias como rancho, o assentamento no Vale Owens dos Paiute, bem como o papel que teve a água na história do vale.
Terminologia Desde finais da Segunda Guerra Mundial debateu-se sobre a terminologia para referir-se a Manzanar e outros campos nos quais norte-americanos nikkei foram encarcerados pelo governo dos Estados Unidos durante a guerra. Manzanar foi descrito como "Centro de relocalização de guerra", "campo de relocalização", "campo de internamento" e "campo de concentração", e o debate de qual termo é o mais preciso e apropriado continua até a atualidade.
James Hirabayashi, professor emérito e antigo decano do Departamento de Estudos Étnicos da Universidade de São Francisco, escreveu um artigo em 1994 no que assegurava que se questionava porquê ainda se utilizavam atualmente termos eufemistas para descrever os campos como Manzanar.
Hibayashi continuou descrevendo o dano ocasionado pelo uso desse eufemismo e tratou o tema de se os campos nazis podiam ser chamados "campos de concentração".
Em 1998 o termo "campos de concentração" ganhou mais credibilidade antes da abertura da exibição dos campos norte-americanos em Ellis Island. Inicialmente o Comitê de judeus norte-americanos (American Jewish Committee, pelas suas siglas AJC) e o Serviço de Parques Nacionais, dirigido por Ellis Island, objetaram o uso do termo durante a exposição. Contudo, durante uma reunião subsequente nas oficinas da AJC em Nova York, líderes representando os japoneses norte-americanos e os judeus norte-americanos chegaram ao entendimento no uso do termo. Depois da reunião, o Museu nacional japonês americano e a AJC publicaram uma declaração conjunta (que se incluiu na exibição) que dizia:
O New York Times publicou uma editorial sem assinar apoiando o uso de "campo de concentração" durante a exibição. O artigo citou a Jonathan Mark, um colunista de The Jewish Week, quem escreveu "Ninguém pode falar de escravidão, gás, tréns e campos? É uma má prática judaica monopolizar a dor e minimizar as vítimas". O Diretor executivo da AJC David A. Harris declarou durante a controvérsia: "Nós não temos reclamado exclusividade judaica para o termo "campos de concentração"".
História Antes da Segunda Guerra Mundial Paiute do Vale Owens thumb|left|170px|Uma mulher Paiute do Vale Owens tecendo uma canasta. Manzanar foi habitado inicialmente por nativos norte-americanos faz aproximadamente 10 mil anos. Ao redor de 1.500 anos atrás a área foi povoada pelos Paiute do Vale Owens, que ocuparam através do vale desde o Vale Long no norte até o lago Owens no sul, e do cume de Sierra Nevada no oeste até as montanhas Inyo a leste. Outras nações de nativos na região incluíam aos Miwok, os Mono ocidentais e os Tubatulabal a oeste, os Shoshone no sul e o leste e os Paiute do Lago Mono a norte. Os Patuite do Vale Owens caçavam e pescavam, recoletavam pinhões e cultivavam utilizando irrigação na área. Também intercambiavam objetos de olaria por sal do Saline Valley, e intercambiavam outros utensílios e bens ao longo da Sierra Nevada durante o verão e outono.
O Vale Owens recebera escassa atenção dos norte-americanos descendentes de europeus antes do começo da década de 1860 pois era pouco mais que um cruzamento de caminhos das rotas que atravessavam a área. Quando se descobriu ouro e prata em Sierra Nevada e as montanhas Iyo, a súbita chegada de mineiros, granjeiros, gadeiros e os seus fomentos rebanhos trouxe conflitos com os Paiute, cujas colheitas estavam sendo destruídas. Como resultado, aconteceu uma guerra dos Paiute pelo vale entre 1861 e 1863 mas, ao final, foram forçados junto com outros nativos da região pelo Exército dos Estados Unidos a caminharem mais de 320 quilômetros até o Fort Tejon, numa das muitas relocalizações às quais foram forçados os nativos dos Estados Unidos.
Aproximadamente uma terceira parte dos nativos do Vale Owens foram relocalizados pela força a Fort Tejon. Após 1863 muitos regressaram aos povoados permanentes que se estabeleceram nas cimas que baixam das montanhas de Sierra Nevada. Na área de Manzanar, os Paiute do Vale Owens estabeleceram povoados nos arroios Bairs, Georges, Shepherds e Symmes. As provas dos Paiute na área ainda ficam patentes.
Rancheiros thumb|250px|Centro Comunitario Manzanar (Manzanar Community Hall), aproximadamente em 1912. Quando os colonos norte-americanos descendentes de europeus chegaram ao Vale Owens pela primeira vez em meados do século XIX, encontraram uma grande quantidade de assentamentos Pauite na área. John Shepherd, um dos primeiros colonos, estabeleceu uma granja de 65 hectares a 4,8 quilômetros a norte de Georges Creek em 1864. Com a ajuda de trabalhadores Paiute do campo, expandiu o seu rancho até 810 hectares.
Em 1905 George Chaffey, um desenvolvidor da agricultura ao sul de Califórnia, comprou o rancho de Shepherd com outros adjacentes e os subdividiu. Fundou a povoação de Manzanar em 1910. A companhia de Chaffey posteriormente comprou um sistema de irrigação e plantou centos de árvores frutais. Para 1920 a povoação contava com mais de 25 casas, uma escola, um município e uma loja geral. Também então, cerca de 2 000 hectares estavam em processo de cultura de árvores de maçã, pera e pêssego, com a sementeira de uvas, ameixas, papas, milho e alfafa, e grandes jardins de flores e vegetais. "Manzanar era um lugar agradável para viver, com os seus pêssegos, peras, campos de alfalfa, com as suas três veredas alinhadas, prados e campos de milho" assegurou Martha Mills, quem viveu ali entre 1916 e 1920. Alguns dos hortos originais, com alguns vestígios da povoação e dos ranchos podem ser observados na atualidade.
A falta de água de Los Angeles thumb|250px|Seção sem alinhar do Aqueduto de Los Angeles, justo a sul de Manzanar, perto da rodovia 395. Em março de 1905 a cidade de Los Angeles começou a comprar em segredo os direitos do uso da água do Vale Owens. Em 1913 concluiu a construção dos 375 quilômetros do Aqueduto de Los Angeles, o qual transportaria a água do rio Owens à cidade em lugar de permitir que desembocasse no lago Owens. De qualquer forma, os oficiais de Los Angeles deram-se conta cedo de que a água procedente do rio Owens não era suficiente para fornecer a metrópole, que crescia depressa. Em 1920 começaram a comprar mais direitos sobre a água do fundo do Vale. Enquanto essa década terminava, a cidade de Los Angeles foi comprando uma a uma as granjas do vale, estendendo-se até o Condado de Mono, incluindo Long Valley. Ao redor de 1933 Los Angeles possuía 85% das propriedades nas povoações e 95% de todos os ranchos e granjas no Vale Owens, incluindo Manzanar.
Embora alguns habitantes venderam as suas terras a um preço que os fez financeiramente independentes, um número importante de eles decidiu ficar. Em anos secos, Los Angeles bombeou água do solo e drenou toda a água da superfície, enviando-a ao seu aqueduto e deixando os rancheiros do vale sem água. Sem água para irrigar, os granjeiros ficaram viram-se forçados a abandonar as suas propriedades e as suas comunidades, incluindo Manzanar, que foi abandonado em 1929.
Posterior a isso Manzanar permaneceu desabito até o Exército dos Estados Unidos arrendar a Los Angeles as 2500 hectares para o Centro de Relocalização Manzanar.
Segunda Guerra Mundial thumb|left|250px|Construção de quartéis em Poston. A construção e materiais utilizado nos quartéis foram os mesmos nos dez campos, incluindo Manzanar. Arizona, 5 de maio de 1942. Depois do ataque a Pearl Harbor a 7 de dezembro de 1941, o governo dos Estados Unidos começou depressa a solucionar o "problema japonês" na costa oeste do país. Durante a tarde do mesmo dia, o FBI arrestou "inimigos" estrangeiros eleitos, incluindo 2 192 descendentes de japoneses. O governo de Califórnia pressionou o governo nacional para que agisse, devido a que muitos cidadãos eram alarmados pelas potenciais atividades das pessoas de descendência japonesa.
A 19 de fevereiro de 1942, o Presidente Franklin Roosevelt assinou a Ordem Executiva 9066, a qual autorizava o Secretário de Defesa a designar comandantes militares com o fim de estabelecer áreas militares e de excluir a "qualquer ou a todas as pessoas" de tais áreas. A ordem também autorizou a construção dos que posteriormente seriam chamados "campos de relocalização" por parte da Autoridade de Relocalização de Guerra (War Relocation Authority ou pelas suas siglas WRA) para que ali foram arrestados todos aqueles que foram excluídos. A ordem teve como resultado a relocalização forçada de mais de 120 000 norte-americanos nikkei, dos quais duas terceiras partes eram cidadãos norte-americanos. O resto não pudera tramitar a sua cidadania devido à lei federal. Mais de 110 000 pessoas foram encarceradas em dez campos de concentração localizados longe da costa.
Manzanar foi o primeiro de dez campos de concentração. Inicialmente foi um "centro de recepção" temporário, conhecido como "Owens Valley Reception Center", de 21 de março de 1942 até 31 de maio de 1942. Durante esse tempo foi gerido pela Administração de Controle Civil de Tempos de Guerra do Exército (Wartime Civilian Control Administration, WCCA).
O centro foi transferido à WRA a 1 de junho de 1942, e oficialmente converteu-se no "Centro de Relocalização de Guerra Manzanar" (Manzanar War Relocation Center). Os primeiros prisioneiros de ascendência japonesa em chegar ao lugar foram voluntários que ajudaram na construção do campo. Para meados de abril, mais de 1000 japoneses norte-americanos arribavam diariamente, e para julho a população do campo chegava a 10 000. Perto de 90% dos prisioneiros eram da área de Los Angeles e o resto provinha de Stockton, Califórnia, e de Bainbridge Island, Washington. Muitos deles eram granjeiros e pescadores. Manzanar chegou a alojar 10 046 prisioneiros e um total de 11 070 pessoas foram encarceradas aí.
Clima thumb|Extremo de uma fíleira de quartéis cuja frente dá para oeste do deserto e com as montanhas ao fundo. Os evacuados em Manzanar enfrentaram-se ao terrível calor do deserto. 2 de julho de 1942.