thumb|Miniatura dum tratado persa xadrez), mostrando uma partida de Chatrangue
O xadrez na Pérsia refere-se ao período em que o Império Sassânida teve um importante papel na história do xadrez desde a assimilação do chaturanga por volta do , à adaptação do jogo na cultura local, passando pela conquista da Pérsia pelos árabes em 651, quando a história do jogo atingiu uma nova fase ao chegar à Europa.
Deste período são as primeiras evidências arqueológicas de peças de xadrez e literaturas citando o jogo. O poema Karnamak-i-Artakhshatr-i-Papakan escrito em persa médio por volta do contém a primeira referência na Pérsia do chaturanga, e a partir de então outras literaturas como o Chatrang nâmag já descrevem a variante persa Chatrangue, o movimento das peças e regras utilizadas. Na obra literária Épica dos Reis escrito em persa por volta do são contados os primeiros mitos a respeito da chegada do Chaturanga à Pérsia, vindo de um reino ao leste, e sua criação.
Os persas também introduziram expressões no jogo como o xeque e xeque-mate além de terem desenvolvido variantes como o xadrez circular e o de Tamerlão, criado durante o Império Timúrida, que empregavam tabuleiros diferentes do formato convencional do período e uma grande variedade de peças não-ortodoxas do xadrez.
Devido a ausência de evidências arqueológicas e literárias indianas anteriores ao , uma das teorias alternativas da origem do xadrez indica sua criação na Pérsia, de onde foi disseminado para o oriente também pelos árabes após o .
Panorama histórico
thumb|Império Sassânida em 622 A história dos povos que habitavam a região começou muito antes da chegada do xadrez, remontando do A região foi ocupada diversas vezes por diferentes impérios como os Medos, Aquemênidas, Selêucidas e Arsácidas até a ascensão do Império Sassânida no ano 224 com o xá em uma área que abrangia os atuais Irão, Afeganistão, Iraque, Síria, Cáucaso e partes da Turquia, Paquistão e da Arábia.
A era sassânida, durante a Antiguidade Tardia, é considerada como sendo um das mais importantes e influentes períodos históricos do Irão. De muitas maneiras, o período sassânida testemunhou as maiores realizações da cultura persa, e constituiu o último grande império iraniano antes da conquista da Pérsia pelos muçulmanos e a adoção do islamismo. Os persas influenciaram a civilização romana consideravelmente durante o período e os impérios eram considerados como iguais, conforme exemplificado em cartas escritas por seus governantes entre os dois estados. A influência cultural sassânida estender-se-ia muito além das fronteiras territoriais do império, alcançando a Europa oriental, África, China, e Índia. desempenhando um papel importante na formação da arte medieval e asiática.
Evidências arqueológicas
esquerda|thumb|Conjunto de peças do Xatranje, datadas do .
Os vestígios arqueológicos de peças de xadrez mais antigas sob domínio persa são um conjunto de sete pequenas figuram em marfim sendo dois soldados, um cavaleiro, um elefante montado e uma espécie de felino também montado e também duas diferentes bigas. Estas peças foram encontradas no sítio arqueológico de Afrassíabe, perto da cidade de Samarcanda no Uzbequistão em 1977 e foram datas como sendo provavelmente do .
De um modo geral, existem muitos artefatos arqueológicos considerados como peças de xadrez datados como do e VIII proveniente das terras da Pérsia ocidental ao longo da rota da seda, indo da Pérsia até a Serindia (atual Índia e China), através da Báctria (Afeganistão) e Soguediana (Usbequistão e Tajiquistão) que eram todas regiões do dialeto persa, sob domínio sassânida.
Existem também duas pequenas peças encontradas no Uzbequistão datadas do , um elefante e um boi, que se assemelham a peças de xadrez embora não existam peça no jogo representada por um boi e outras cinco peças escavadas em 2006 semelhantes a peças de xadrez aguardam avaliação de especialistas e datação.
Evidências literárias thumb|Épica dos Reis, uma das principais literaturas persas
A literatura poética persa contém várias citações erroneamente associadas ao jogo como no poema Rubaiyat de Omar Caiame. Estas literaturas são evidências valiosas da popularidade do jogo na Pérsia entretanto não servem como registros históricos, não existindo evidências anteriores ao . O primeiro registro literário do xadrez na literatura persa é encontrado no poema épico Livro dos Feitos de Artaxes, Filho de Pabeco (Karnamak-i-Artakhshatr-i-Papakan) escrito em persa médio por volta do . Este poema relata a vida de Artaxerxes e menciona que este era habilidoso no chaturanga, que é considerado o antecessor do xadrez moderno.
Por volta do outro poema , Xusraw Kawadan ud redag (, filho de , e seu ) escrito na língua persa média, menciona o chaturanga, Ashtāpada e o Narde, antecessor do gamão. Cosroes foi o xá da Pérsia de 531 a 579 e entre as probabilidades existentes, foi o primeiro a receber um conjunto de peças de xadrez da Índia. No o poema Mâdayân î chatrang conta a história de como o chaturanga chegou a Pérsia, durante o reinado de Artaxerxes. Esta história é repetida no livro Épica dos Reis, escrito por Ferdusi em 975 e relata que embaixadores indianos trouxeram o chaturanga para a corte persa e desafiaram estes a desvendar os movimentos das peças, além de duas outras histórias contando a invenção do chaturanga no reino Hindu.
Em 1350 Nafâ'is al-funûn (Tesouros da Ciência), uma enciclopédia persa escrita por Muhammad ibn Mahmud al-Amuli (1300-1352) menciona o xadrez, sua invenção na Índia e trata de algumas variantes como o xadrez circular e o de Tamerlão. Outro manuscrito do de nome desconhecido, escrito por Aladim Tabrizi, também conhecido como Ali Xatranji (Ali, o jogador de xadrez), tem uma descrição completa do xadrez de Tamerlão.
A chegada do Chaturanga à Pérsia thumb|esquerda|Dracma com efígie de thumb|esquerda|Ilustração do livro Épica dos Reis, mostrando uma partida entre o embaixador na corte persa
O poema Mâdayân î chatrang ou simplesmente Chatrang nâmag é a primeira evidência literária que descreve as peças de xadrez e a chegada do chaturanga na Pérsia, embora a datação do texto seja controversa, do qual historiadores estimam ser do a IX.
O Rei Hindu enviou seu vizir Tataritos a corte de Anôšag-ruwân (o de alma imortal), Xá da Pérsia, com muitos presentes que incluíam dezesseis esmeraldas e rubis, noventa elefantes e mil e duzentos camelos carregados com ouro, prata, jóias, pérolas e roupas. Os presentes acompanhavam o seguinte desafio: "Como se nomeia o Rei dos Reis, isto significa que seus sábios devem ser mais sábios que os nossos. Ou desvendas o segredo deste jogo, ou paga-nos tributo." Cosroes pediu por quatro dias para resolver o enigma.
No penúltimo dia Burzemir, um dos sábios persas, surgiu e disse a Cosroes que poderia resolver o desafio e preparar outro para o Rei Hindu. Cosroes então prometeu uma recompensa de doze mil moedas para Burzemir e no dia seguinte o sábio então descreveu o chaturanga para Tataritos: "Divsaram [Rei Hindu] modelou este jogo [chaturanga] à semelhança de uma batalha, e em sua semelhança existem dois governantes supremos à semelhança de Reis, com os elementos essenciais dos carros à direita e a esquerda, com um conselheiro à semelhança de um comandante dos campeões, com um elefante à semelhança de um comandante de retaguarda, com o cavalo à semelhança do comandante da cavalaria, com os soldados a pé à semelhança de infantaria na vanguarda da batalha".
Burzemir então jogou três partidas com o sábio Hindu tendo vencido as três e propôs também enviar como desafio ao rei Hindu um jogo de sua invenção chamado de Nêw-Ardaxšîr, em homenagem a Artaxes, fundador da dinastia. Este jogo foi descrito como quinze peças pretas e quinze brancas com seus movimentos inspirados nas estrelas e os ciclos dos dias, e que originou o jogo indiano Narde, considerado o precursor do gamão. A história conta que mesmo após 40 dias o rei Hindu não conseguiu desvendar os movimentos do jogo persa, pagando então o dobro do tributo enviado por Cosroes que havia enviado como prêmio pelo desafio doze mil cavaleiros equipados de maneira digna montados em corcéis árabes.
Apesar da história não ser considerada verídica para a criação do xadrez, teorias recentes indicam que uma regra matemática relacionada ao quadrado mágico poderia reger os movimentos das peças, o que possibilitou a Burzemir desvendar o chaturanga.
Adaptações no Chaturanga
As primeiras adaptações ao Chaturanga foram a tradução dos nomes utilizados para as peças e o jogo, que passou a se chamar Chatrangue. As peças foram traduzidas seguindo o significado indiano de representar no jogo os quatro componentes do exército na época: bigas, cavalaria, elefantes montados e soldados além do soberano e seu conselheiro. Os persas também introduziram expressões no jogo com a função de alertar algumas situações. A expressão Shāh, atual xeque, era utilizada ao ameaçar o Rei adversário; Shāh-mat (xeque-mate) que o Rei foi emboscado, capturado ou morto, o que indica o término da partida; Shāh-rukh indica uma ameaça dupla ao rei e a torre, que até então era a peça mais forte. Todas as expressões não são utilizadas nas regras atuais do xadrez sendo a última antiquada desde a ascensão da dama como peça mais forte do xadrez moderno.
As descrições conhecidas do Chatrangue provém de fontes persas, que descrevem o tabuleiro monocromático com 64 casas em oito colunas e oito fileiras, assim como o formato atual do tabuleiro. Cada jogador dispões de dezesseis peças: 1 Xá, 1 Farzīn, 2 Rukh, 2 Asp, 2 Pīl e 8 Piyāda. Nenhum outro detalhe a respeito das regras é conhecido e supõe-se que as regras sejam as mesmas do Xatranje, versão árabe do jogo.
No Xatranje, o Xá (Rei), Asp (Cavalo) e Rukh (Torre) já se movimentavam conforme a regra atual, enquanto o Pīl se movia 2 casas diagonalmente pulando sempre a primeira, e o Farzīn se movia apenas 1 casa na direção diagonal. Os Piyādas (peões) moviam-se conforme a regra atual entretanto não existia o salto de duas casas no primeiro movimento nem a captura en passant. Também não existia o roque e as condições de vitória eram aplicando xeque-mate, mantendo o Rei afogado ou solitário.
Palavra Reino Hindu Pérsia Significado Rei Raja Xá Rajá, que é o soberano local Fers Mantri Farzīn Conselheiro da realeza, vizir Torre Ratha Rukh biga Alfil Hasli Pīl Elefante Cavalo Aswa Asp Cavalo Peão Padati Piyāda Soldado
Variantes
thumb|upright=1.15|Histameno de Aleixo I Comneno
Desde o início o Chatrangue, ou sua versão árabe Xatranje, tiveram muitas variantes citadas em diferentes fontes o que evoca a popularidade do jogo, sendo mencionadas em vários manuscritos dos quais dois se destacam: a obra Os Prados de Ouro e a enciclopédia Nafâ'is al-funûn. Estes registros descrevem um total de sete variantes do xadrez praticado na época, apesar de terem sido desenvolvidas já sob o domínio Árabe sobre a Pérsia. A primeira fonte descreve o xadrez oblongo (al-Mustatîla), o decimal (at-Tâmma), o circular (ar-Rûmîya), celestial (al-Falakîya) e o limbo (al-Jawârhîya). A enciclopédia descreve também o Xadrez cidadela (al-Husûn) e o xadrez grande (al-Kabîr) conhecido posteriormente como de Tamerlão.
Introdução do xadrez no Império Bizantino