Frei Sebastião Manrique (Porto, — Londres, ) foi um monge agostiniano português. Autor duma relação de ViagensItinerario de las Missiones de la India Oriental con una summaria relacion del grande, y opulento Imperador Xanziahan Corrombo, gran Mogol, y de otros Reys infieles, en cuyos Reinos assisten los Religiosos de S. Augustin. Roma. 1649. ao Arracão (atualmente uma província de Myanmar).
Índia Nasceu no Porto entre 1590 e 1600. Ligado à Ordem de Santo Agostinho, foi mandado para Goa, onde permaneceu vários anos, primeiro como noviço e mais tarde como frade, residindo no mosteiro da sua Ordem. Em 1629, enviado a Ugulim (cidade de Bengala sob autoridade do império Mogol, onde se tinham estabelecido cerca de trezentos portugueses, casados maioritariamente com mestiças ou indianas, sendo o resto da população uns dez mil indianos convertidos ao cristianismo), aí permaneceu algum tempo, até que no ano seguinte (1630) foi transferido para o Arracão.
Arracão
Dianga Manrique foi obrigado a ir àquele reino, mandado para Dianga, em frente de Chatigão que embora pertencesse geograficamente a Bengala, estando separado do Arracão por grandes serras, nessa época fazia parte deste último reino. Dianga era uma povoação exclusivamente cristã: portugueses, mestiços de portugueses, e escravos. Esses habitantes, independentes de Goa, eram bem diferentes dos comerciantes de Ugulim: dedicavam-se a pirataria, raptando homens, mulheres e crianças, e vendendo-os como escravos. Eram protegidos do Arracão porque eram temidos de todos os habitantes da região, e por isso guardavam essa fronteira dos inimigos dos arracaneses: bengaleses, e sujeitos do Grão-Mogol. Pouco tempo depois de lá ter chegado Manrique, também chegou uma carta da comunidade portuguesa de Mrauk-U, capital do Arracão, em 30 de julho de 1630. Dizia essa carta que o rei de Arracão, Sirisudhammaraja, prevenido que os portugueses de Dianga queriam deixar entrar as forças do rei de Daca em Chatigão, tinha mandado uma grande força naval para destruir a povoação.
Em Dianga não havia homem válido, porque todos tinham partido numa expedição de pirataria. Apenas ficava lá Gonçalves Tibau (sobrinho ou parente de Sebastião Gonçalves Tibau), que estava de febres. Decidiram ir a Mrauk-U falar com o rei e convencê-lo do erro em que estava. Partiram no dia seguinte.
Maamuni Entrevista com o rei A viagem foi muito difícil. Era durante a Monção e não se podia ir por mar. Chovia muito, um homem foi atacado e morto por um tigre, com muitos trabalhos conseguiram passar numa galé a foz do rio Maiu (ou Mayu), chamado então golfo de Maum, com o temporal. Em 25 de agosto encontraram o rei em Maamuni, lugar do Arracão onde estava a "Grande imagem", estátua de Buda que a lenda dizia ter sido feita em vida e em presença dele mesmo. Essa estátua encontrava-se na colina de Siriguta, num recinto que ocupava toda a colina. Dentro do recinto constituído por três pisos, no mais alto havia também o sino Yattara "com inscrições mágicas e tábuas astrológicas" gravadas para repelir todas as invasões, e no santuário a estátua de bronze, "objeto mais velho, mais misterioso e mais sagrado de todo o mundo" fazendo do Arracão a terra budista por excelência, conservando a "imagem autêntica do TathagataBuda no estado de libertação absoluta"Na Terra da Grande Imagem, p. 176 (Em 1784 essa imagem foi levada para o "pagode de Arracão", em Mandalai).
A entrevista com o rei passou-se bem e Manrique convenceu-o da boa fé dos portugueses.
Mrauk-U Quando o rei depois foi para sua capital Mrauk-U, Manrique também o encontrou lá, e aproveitou-se para lhe pedir a construção duma igreja num subúrbio da cidade, Daingri-pet, onde estava estabelecida a comunidade portuguesa. O rei aceitou e a igreja foi sagrada em 20 de outubro de 1630.Na Terra da Grande Imagem, p. 220
Tesouro Real Teve ocasião de visitar o tesouro real, cujas peças mais valiosas tinham sido trazidas de Pegu pelo avô do rei Razagri quando tinha invadido a Birmânia, (já eram despojos de Aiutia, Reino do Sião, que Bain-Naung rei de Pegu, tinha invadido em 1564).
As Jems Viu os brincos de rubis, os Chauk-na-gat, de valor fabuloso que brilhavam extraordinariamente, e o Elefante Branco, Elefante sagrado, um dos quatro que tinham vindo do Sião, os outros tendo morrido, "o símbolo da realeza", uma das sete «Jems», que o futuro "Monarca universal", budista, devia possuir."O Monarca Universal seria o instrumento pelo qual a paz e a felicidade da Excelente Lei se estenderia a todo o mundo" Esse "Monarca Universal" devia possuir as "sete Jems": A Roda de Ouro ou Roda da Lei; o Divino Guarda do Tesouro; o Cavalo, a Donzela da Joia, as Joias que Faziam Milagres (certamente o Chauk-na-gat); o General que nunca fora, nem jamais seria derrotado; e o Elefante Branco. Cf. Na Terra da Grande Imagem, p. 202-203
A rainha velha Encontrou também a "Rainha Velha", Htwe Naung, filha do rei Nandabayin, que Razagri tinha trazido de Pegu com os despojos, e com quem casou. Não era avó de Sirisudhammaraja, os seus filhos tendo sido assassinados, mas "como Rainha Viúva a sua posição era de primeira dama da corte".Na Terra da Grande Imagem, p. 221 Pediu-lhe que os habitantes locais convertidos ao cristianismo fossem morar para Daingri-Pet, para estar mais perto da igreja. Ela concordou. A entrevista foi muito comovente porque a presença do padre fez que a rainha se lembrasse da sua infância na Birmânia, Pegu, onde ela ia por vezes à igreja.
Volta para Dianga Partiu para Dianga em janeiro de 1631, e perto daí, em Angaracale, uma vizinha aldeia de pescadores, edificou uma igreja, com a aprovação do rei. Fez o seu trabalho de vigário e aí ficou dois anos.
Ugulim Durante a sua estadia em Dianga, Ugulim foi atacada. Em maio de 1632 Xá Jeã, que havia quatro anos, tinha subido ao trono do império, "muçulmano fanático",segundo Maurice Collis e anticristão, argumentando que esses portugueses tinham relações comerciais com os piratas de Dianga, aliados do seu inimigo o rei de Arracão, ordenou ao vice-rei de Bengala "que marchasse contra Ugulim, a saqueasse e a incendiasse em nome do profeta e no interesse do estado".Na Terra da Grande Imagem, p. 232 O vice-rei Cassim Cã, hesitou, porque os portugueses faziam muito medo nessa época, tendo a reputação de quase invencíveis. Mas acabou por atacar, com a ajuda dum renegado português Martim de Melo. A cidade não tinha muros, e afinal os cento e cinquenta mil homens da armada conseguiram invadir Ugulim depois dum cerco de mês e meio, mas a maior parte dos portugueses tinha conseguido escapar, estabelecendo-se na ilha de Saugar, na embocadura do rio Hugli, onde decidiram constituir uma colónia. Entretanto o rei Sirisudhammaraja prevenido do ataque a Ugulim, mandou uma armada contra os mogóis, que chegou depois da tomada da cidade, mas conseguiu atacar a frota mogol que regressava a Daca, incendiando-a, e recuperando muitos despojos de Ugulim.
Nova viagem de Manrique para Mrauk-U Em outubro ou novembro de 1633, Manrique recebeu cartas que lhe pediam para voltar a Mrauk-U e ajudar o embaixador Gaspar de Mesquita a concluir um tratado entre o vice-rei da Índia D. Miguel de Noronha, e Sirisudhammaraja, este querendo uma aliança das forças portuguesas e arracanesas para atacar o Grão-Mogol em Bengala.Na Terra da Grande Imagem, p. 246 As negociações duraram cinco meses, até março de 1634, mas afinal tal tratado não foi concluído, o embaixador constatando que Sirisudhammaraja tinha sonhos de império mundial, e o Estado da Índia não podendo desafiar o império Mogol, tornando-se seu inimigo. Mas o rei "profundamente desapontado" impediu Manrique de tornar a Dianga, dizendo que lhe tinha construído uma igreja, e que tinha de ficar.Na Terra da Grande Imagem, p. 247
O hábito amarelo Enquanto permanecia na capital, no fim do ano de 1634, um monge budista veio visitar Manrique, mostrando-lhe uma carta em latim. Quem a tinha escrito era um comerciante português, Inácio Gomes, de Estremoz, que havia 26 anos tinha naufragado nas costas do Arracão, e acusado com seus companheiros de pirataria, tinha sido exilado "para uma região situada nas montanhas a alguns dias de marcha da capital", tendo-lhe sido previamente cortados os tendões das pernas, para que não possa fugir. Assim costumavam fazer a esse tipo de prisioneiros. Vivia então nessa região, desde essa época, isolado dos outros portugueses, casado com a irmã do monge. Na carta pedia a visita de Manrique: "Peço-lhe (…) para vir aqui salvar-me a alma". O tom era tão desesperado que Manrique decidiu tentar a aventura. Por isso pegou o hábito amarelo dos frades budistas, e assim disfarçado, em companhia do monge conseguiu sair da cidade e encontrar o exilado. Ficou seis semanas na região, batizando, confessando, este e outros poucos portugueses, e consegui voltar a Mrauk-U, em companhia do mesmo monge, sem que as autoridades tivessem presenciado da sua ausência.Na Terra da Grande Imagem, p. 249-259
O elixir Mas grandes eventos tinham acontecido em Mrauk-U. O rei tinha encontrado um "maometano" que passava por médico e possuidor de segredos ocultos. Foi tanta a confiança que o rei lhe deu que este acabou de convencê-lo que bebendo certo elixir tornaria-se invencível, e poderia a partir daí consagrar-se à conquista do mundo. Mas para fazer o elixir, necessitava, entre outros ingredientes de seis mil corações humanos.
O rei era budista, profundamente convencido, e matar seis mil pessoas parecia coisa muito contrária aos seus preceitos. Mas o seu estado não era normal. Já havia algum tempo que o seu comportamento o indicava, e o embaixador português, assim como Manrique já o tinham constatado. O reino pacífico, de paz universal que queria fundar, tinha que começar por este sacrifício… Afinal concordou, e as suas armadas dedicaram-se a encontrar pessoas, perdidas, isoladas, para matá-las. Ao princípio a população não se apercebeu de nada, mas 6 mil pessoas que desapareciam não podia ficar em segredo. Os soldados entravam nas casas abertas durante a noite, e afinal a verdade soube-se. As 6 mil pessoas foram realmente mortas, o "elixir" foi fabricado, mas a população, e não só, esperava pela vingança.
Entretanto tendo bebido o elixir, o rei preparou a sua coroação que aconteceu em 23 de janeiro de 1635. Ainda não tinha sido coroado, apesar de ser rei já havia 12 anos, porque uma predição dizia que pouco depois seria morto. Mas agora estava seguro. Manrique teve que assistir às majestosas cerimónias que tiveram lugar. Pouco depois pediu mais uma vez ao rei de o deixar partir, ao que este afinal consentiu.Na Terra da Grande Imagem, p. 293 Voltou então para Dianga.
Banja