A tradição polícroma da Amazônia é uma unidade taxonômica criada por arqueólogos para definir um conjunto de cerâmicas da pré-história sul-americana, mais especificamente da Amazônia Legal. Sua principal característica é o uso da policromia como aspecto decorativo no corpo de utensílios cerâmicos, principalmente o uso de pintura vermelha e preta sobre um engobo branco.
Seus aspectos decorativos já haviam chamado a atenção dos espanhóis no início da exploração na amazônia no século XVI. Segundo o frei Gaspar de Carvajal, que acompanhava a expedição de Francisco de Orellana, após uma invasão de uma aldeia na região do atual município de Codajás (nomeada por ele de Aldeia da Louça), ele descreve sobre a cerâmica encontrada: "Havia nessa povoação uma casa de diversões, dentro da qual encontramos muita louça dos mais variados feitios: havia talhas e cântaros enormes, de mais de vinte e cinco arrobas, e outras vasilhas pequenas como pratos, escudelas e candeeiros, tudo da melhor louça que já se viu no mundo, porque a ela nem a de Málaga se iguala. É toda vidrada e esmaltada de todas as cores, tão vivas que espantam, apresentando, além disso, desenhos e figuras tão compassadas, que naturalmente eles trabalham e desenham como o romano.C. Mello-Leitão - Gaspar de Carvajal, Alonso de Rojas e Cristobal de Acuña. Descobrimentos do rio das Amazonas. Traduzido e anotado por C. Mello-Leitão. Cia Editora Nacional, São Paulo, 1941."
É a tradição cerâmica com maior dispersão pela amazônia, sendo subdivida em fases cerâmicas conforme o seu contexto arqueológico e região encontrada. Essa tradição cerâmica foi utilizada pela primeira vez, como categoria de classificação, por Howard em 1947 (Polychrome Division of Amazonia)George D. Howard - Prehistoric ceramic styles of Lowland South America, their distribution and history. Yale University Publications in Anthropology, vol. 37, pp.5-95. London, New Haven, 1947 e trabalhado melhor como tradição polícroma da Amazônia por J. P. Brochado e Donald Lathrap na década de 1980.Jose Proenza Brochado e Donald W. Lathrap - Amazônia. Departament of Anthropology, University of Illinois at Urbana-Champaing. Ms, 1980
Alguns arqueólogos acreditam que essas fases cerâmicas possuem um mesmo centro de origem e que estariam fortemente ligados ao surgimento dos grupos indígenas da família linguística Tupi-Guarani. O primeiro a propor a ideia de que uma origem tupi seria na região amazônica foi Ladislau Netto em 1885. Atualmente, acredita-se que tanto essa tradição cerâmica, como a expansão dos povos tupi-guarani, tenha se originado na região entre o rio Madeira e o rio Guaporé, no estado de Rondônia.Aryon Rodrigues - A classificação do tronco lingüístico Tupi. Revista de Antropologia, Vol. 12, São Paulo, 1964.Pedro Ignácio Schmitz - Migrantes da Amazônia: a Tradição Tupiguarani. Arqueologia do Rio Grande do Sul, Brasil. Documentos (São Leopoldo) 5; pp. 31-66, 1991. Nessa região amazônica, foram encontrados as datas mais antigas para a Tradição Polícroma (150 a.C.) e seria o centro de domesticação de plantas como a mandioca (Manihot esculenta) e a pupunha (Bactris gasipaes).Charles Clement - 1492 and the loss of Amazonian crop genetic resources I: the relation between domestication and human population decline. Economic Botany 53(2), 1999a.
Coloração presente Os artesãos utilizam uma variedade de materiais, como fibras naturais, sementes, cascas de árvores e penas de pássaros, para criar cestarias, joias, máscaras e outros objetos decorativos. Essas peças geralmente apresentam uma ampla gama de cores vibrantes, refletindo a abundância da natureza amazônica.
Fases cerâmicas Os cacicados amazônicos (amazônidas) ceramistas: Fase Marajoara (termo generalizado) na foz do rio Amazonas.Denise Pahl Schaan - Into the labyrinths of Marajoara pottery: Status and cultural identity in prehistoric Amazonia. In McEwan, C.; Barreto, C. & Neves, E.G., Unknown Amazon: Culture in nature in Ancient Brazil. London: The Brithish Museum, 2001.Betty Meggers e Clifford Evans - Archaelogical investigations at the mouth of the Amazon. Smithsonian Institution Bulletin No 167. Washington: Smithsonian Institution Press, 1957 Subdivida em fases distintas conforme níveis de ocupação e desenvolvimento da sociedade: Ananatuba, Mangueiras, Formiga, Acauã, Alta Marajoara e, Aruã. Algumas ocorrências também na região do Tapajós. Fase Apuaú, Fase Guarita, Fase Samambaia e Fase Manauacá no baixo e médio rio Negro, baixo rio Japurá e Amazônia Central.Mario Simões et al. - Revista de Arqueologia 4(1), Publicação do Museu Paraense Emílio Goeldi – MPEG, 1987.Michael Heckenberger et al. - De onde vem os modelos? A arqueologia da origem Tupi e Guarani, Revista Antropologia, 41 (1), Universidade de São Paulo, 1998.Peter Paul Hilbert - Archäologische Untersuchungen Am Mittlern Amazonas, Berlim: Dietrich Reimer Verlag, 1968. Fase Tefé e Fase São Joaquim no médio e alto rio Solimões. Fase Borba e Fase Jatuarana no médio e baixo rio Madeira.Eurico Miller et al. - Arqueologia nos empreendimentos hidrelétricos da Eletronorte; resultados preliminares. Brasília: Eletronorte, 1992. Fase São João no alto rio Negro.Mário Simões - Contribuição à arqueologia dos arredores do baixo rio Negro, Amazonas. Programa Nacional de Pesquisas Arqueológicas 5, Resultados preliminares do quinto ano: 1969-1970. p.p. 165-188. Museu Paraense Emilio Goeldi, Publicações Avulsas 26, Belém, 1974. Fase Independência, Fase Cacarapí e Fase Criajó no baixo rio XinguCelso Perota - Adaptação agrícola no baixo Xingu. In: Meggers, B. J., Prehistoria Sudamericana: Nuevas Perspectivas: 219-229. Washington: Taraxacum, 1992. Fase Tauá no baixo rio Tocantins. Fase Marmelos, Fase Pupunha e Fase Jatuarana no alto rio Madeira.Eurico Miller et al. - Arqueologia nos empreendimentos hidrelétricos da Eletronorte; resultados preliminares. Brasília: Eletronorte, 1992. Fase Pirapitinga no alto rio Solimões. Fase Napo no rio Napo.Betty Meggers e Clifford Evans - Archaeological investigations on the rio Napo, eastern Ecuador. Washington: Smithsonian Institution Press, 1968. Fase Araracuara no rio Caquetá.Herrera et al. - Datos sobre la arqueologia de Araracuara (Comisaría del Amazonas Colombia). Revista Colombiana de Antropologia 23: 183-251, 1980 Fase Caimito no médio e alto rio Ucayali e rio Huallaga.Donald Lathrap - O Alto Amazonas, Lisboa: Verbo, 1975. Fase Zebu e Fase Nofurei no alto rio Solimões e alto rio Japurá. Fase Koriabo e Fase Cajuaçu na foz do rio Amazonas e do rio Orinoco.A. Boomert - Koriabo and the Polychrome Tradition: the late-prehistoric era between the Orinoco and Amazon mouths. In Late Ceramic Age Societies in the Eastern Caribbean, ed. Andre Delpuech and Corinne L. Hofman. Oxford: Archaeopress, 2004.
Ver também Tradição cerâmica tupi-guarani
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