A História de São Pedro da Aldeia está diretamente ligada a experiência gerada da invasão francesa ao Rio de Janeiro. Do século XVI aos nossos dias, a terra aldeeense refletiu em sua epopeia, em seu pequeno microcosmos, as fases pelas quais passou o próprio Brasil.
Período Colonial (1500/1815) Antecedentes
Com o processo de centralização política ocorrido com os países europeus após a crise do feudalismo, Portugal e Espanha passaram a ser ameaçados pelas potências emergentes. As terras das Américas começaram a ser valorizadas, a tal ponto que o monarca francês Francisco I (1515-1547) contestou a autoridade do Papa, que havia interferido na divisão das novas terras entre Portugal e Espanha com legitimação através da Bula Inter Coetera (1493) e do Tratado de Tordesilhas (1494). Às pretensões ibéricas definidas pelo Papa Alexandre VI, respondeu o monarca francês pedindo para ver o "testamento de Adão e Eva que dividira o mundo entre Espanha e Portugal".
As primeiras tentativas de colonização portuguesa nada mais foram do que uma tímida forma de conter os ataques de piratas às nossas costas e outras eventuais explorações até de metais preciosos. Para Portugal, o mais importante eram suas colônias na África, a garantia de um caminho seguro para as Índias. Só o começo da exploração de açúcar no nordeste do país; e a posterior invasão francesa, colocando em risco os domínios de Portugal chamariam a atenção do povo luso ao litoral fluminense.
Durante o governo-geral de Mem de Sá, este doou a seu sobrinho a capitania do Rio de Janeiro, onde seria fundada a cidade, tendo por objetivo combater os invasores. Contando com a ajuda dos Jesuítas Nóbrega e Anchieta, que pacificaram os tamoios, fazendo com que se retirassem o seu apoio aos franceses, travou-se uma guerra que só findaria em 1567, com a expulsão dos franceses do Rio, contando com o apoio crucial dos índios chefiados por Araribóia.
Era evidente que a retirada dos franceses significava uma pausa momentânea, apenas, nas tentativas deles se estabelecerem em nossa costa. Atento às dificuldades de manter tão grande país longe dos ataques e incursões estrangeiros, o rei de Portugal, Dom Sebastião, dividiu a colônia em dois governos-gerais, no ano de 1572. O Norte e o Sul, que ficou a cargo de Antônio Salema. Este, dando prosseguimento ao processo de efetivar a conquista da "terra brasilis" realiza uma expedição a Cabo Frio, visando expulsar os remanescentes franceses, que ameaçavam deslocar para essa região a sua tentativa de colonização, movidos pela cobiça do Pau-Brasil, em 1575.
Com a morte de D. Sebastião em 1578 e o fim da dinastia de Avis em 1580, os espanhóis ganharam de herança todas as colônias portuguesas. Ganharam em termos, já que os moldes de colonização continuaram a ser os lusitanos, mas em compensação deram a Portugal todos os seus inimigos; entre eles França, Inglaterra e Países Baixos. Como consequência, ao se findar o período da União Ibérica, os domínios portugueses estavam menores em todo mundo. A ordem agora era segurar o que sobrou. A ordem agora era investir na manutenção do Brasil.
Fundação da aldeia e conversão dos gentios Em um requerimento do Padre Antônio de Mattos, Companhia de Jesus, a Capitão-Mor de Cabo Frio, Estevam Gomes, em 1617, aquele chama a atenção deste para o fato de que o Rei de Portugal estava preocupado com a defesa da área de Cabo Frio, dos constantes ataques sofridos.
A capitania de Cabo Frio, fundada em 1615, havia sido resultado de uma ação guerreira de Constantino de Menelau, Capitão-Mor do Rio de Janeiro, contra os piratas franceses que ali tencionavam alojar-se definitivamente. Reconquistada a terra, e fundada a cidade, as autoridades logo chegaram a conclusão de que para salvaguardá-la de futuros ataques, era imperativo defendê-la e ampará-la com um aldeamento indígena. Esse deveria seguir as diretrizes apontadas por Martim de Sá, filho do Capitão Salvador Correia de Sá, que tinha larga experiência nos problemas do Brasil e já os relatara em carta ao Rei.
Nesta carta de Martim de Sá, de 20 de abril de 1617, fica-se sabendo que a própria Coroa Portuguesa o havia designado para superintender estes aldeamentos. Entre as estratégias adotadas para estes processos de colonização da nova área figuravam: serviço militar para os índios, uma crítica ao sistema defensivo anteriormente adotado na região e uma proposta de apoio logístico para o primeiro ano de instalação da aldeia. A sugestão do local da aldeia fica bem explicitado no trecho transcrito abaixo:
"...Lembro mais que se deve desfazer de todo um forte que ora se faz no Cabo Frio porque não é de nenhum efeito, antes com muita facilidade o poder tomar de qualquer nau de inimigos, e não sendo nenhuma coisa correrá a fama que tomaram um forte de grande importância na Costa do Brasil , e se uma aldeia aqui se puser com uma cabeça de gentio e com a minha assistência, se poderá defender a desembarcação aos inimigos, e escusarem-se cinco ou seis mil cruzados que custa a cada ano, à Fazenda de Vossa Majestade; sustentar-se o dito forte sem ser de nenhum efeito, e toda informação que se der a Vossa Majestade, de haver o dito forte naquela parte, é errada, por não a dar quem tem notícia e experiência daquelas partes"; ma mesma carta, Martim recomenda que no início sejam dados aos gentios os mantimentos e as ferramentas necessárias a suas acomodações.
A data de fundação da Aldeia de São Pedro do Cabo Frio não constituiu para os primeiros historiadores que dela se ocuparam um ponto pacífico. Uns acreditam que no dia 16 de maio se verificou a fundação da "Aldeia de São Pedro", com o inicio da construção da capela dedicada a São Pedro, primeiro marco de colonização levantado nessas terras. Essa Fundação deveu-se aos missionários da Companhia de Jesus, possuidora da concessão de uma sesmaria, medindo 4 léguas de terra, a serem demarcadas na região. Outros como os historiadores Silva Lisboa, Alberto Lamego e Padre Serafim Leite concordam que a data a fundação se deu 31 de Maio ("derradeiro de Maio"), dia exato do despacho do Capitão-Mor de Cabo Frio, Estevam Gomes, ao requerimento que lhe fora interposto pelo Padre Antônio de Mattos, Reitor do Colégio dos Jesuítas, no Rio de Janeiro. A carta da sesmaria foi passada em 2 de Junho seguinte e a posse verificou-se no dia 16 do dito mês. As terras que seriam concedidas aos índios, ficaram em sua terça parte na posse dos padres da Companhia. Elas abrangiam duas sesmarias, uma em lugar determinado - Jacuruna -, provável primeiro nome da região onde hoje se encontra São Pedro, e cujo nome vem do Jacu, ave comum na região, e una preto, cor da sua penugem - a outra região escolhida seria na Ponta de Armação dos Búzios ou em Iguna, "sendo que rejeitada, seria repartida pelo povo, o que nunca se fez", conforme Lamego, em A Terra Goytacá.
O núcleo original da Aldeia de São Pedro foi constituído por 500 índios já catequizados, trazidos do Espírito Santo, da aldeia de Reritiba, na qual havia exercido o sacerdócio o padre José de Anchieta, e que hoje, em sua homenagem leva seu nome.
A data da efetiva fundação da aldeia pode ser deduzida se seguirmos a conclusão de Geraldo Luís Ferreira, que mergulhou de corpo e alma na história aldeense: "...Pelo patrono que tomou, pela proximidade da data da posse (16 de junho) com a data em que se comemora a figura ímpar do primeiro dos Papas, e pelo consagrado costume de encomendar as aldeias e vilas aos santos correspondentes ao dia de sua fundação, sou levado a crer que a Aldeia de São Pedro do Cabo Frio teve vivência histórica a partir de 29 de junho de 1617".
A primeira página da história aldeense nos dá Serafim Leite, citando em tradução, trecho da obra de Baltasar de Siqueira, intitulada "TRIENNIUM LITTERARUM AB ANNO MILESIMO SEXCENTESIMO DECIMO SEPTIMO AD DECIMUM NONUS". "Esta tve início no ano de 1617. Exercitam nela os mistérios da Companhia dos Padres, que trouxeram para ela, da Capitania do Espírito Santo, 500 índios; O Capitão de Cabo Frio, Estevam Gomes, recebeu-os com todo o obséquio e cortesia. E os padres, feito o desembarque, principiaram por Deus, sem o qual nenhum começo das coisas pode ser feliz. Celebrou solenemente o Santo Sacrifício da Missa, com cantos a duas vozes, pelo índios que trouxeram consigo. Depois seguiram para o lugar escolhido, levantaram a Igreja Matriz de São Pedro (São Pedro da Aldeia) e construíram casas".
direita|thumb|200px|Igreja Matriz de São Pedro construída pelos Jesuítas
A aldeia, em breve, começou a atrair várias tribos de indígenas que viviam dispersos na região, que para ela vinham em busca de alimentos, ou de proteção contra os índios Goitacases. Este fluxo constante de novos contingentes humanos trouxe uma rápida prosperidade à Aldeia, justificando a solicitação de nova sesmaria para os padres da Companhia e para os índios, em 1630, pois "eles e Goitacases têm necessidades de pastagens que possam trazer gado, do qual se valham para seus remédios para cuidarem com o que falta à sua igreja, para a qual nãos e dá coisa alguma da Fazenda de Sua Majestade". Nestas terras, doadas pelo Capitão-Mor -Governador, Martim de Sá, jesuítas e índios da Aldeia de São Pedro construíram a fazenda de Santo Inácio dos Campos Novos, localizada pouco antes da cidade de Barra de São João.
Para ter uma ideia do crescimento da aldeia, em 1689, a Aldeia de São Pedro do Cabo Frio tinha três vezes a população de Niterói. Assustados pela fome e pelas guerras, muitos índios pertenciam ao temido povo dos Goitacases. Uma carta de 1620 dá os pormenores de sua catequese: "Desejo, e hei de por todas minhas forças para fazer as pazes entre estas nações tão bárbaras, como são os gequirtos e os aitacases guaçus, porque feito isto, fica todo esse sertão de aitacases em paz, e será uma coisa de muita importância, coisa que há muito tempo desejamos. Ma agora pela vontade e bondade de Deus, parece que lhe vem chegando sua hora. E que Deus, por sua misericórdia, metê-los em seu curral".
Ainda em 1648, os índios Gessaruçus viriam aumentar ainda mais este contingente. Esta tribo, também chamada de Guarulhos, chegou a São Pedro vindo de terras que ficavam além da Serra dos Órgãos, nas margens do Piabanha e do Paraíba.
Em meados do século XVII, apenas três décadas após a instalação dos jesuítas na Capitania de Cabo Frio, o crescimento, o aumento da área de influência principalmente indígena, vital para a economia de Cabo Frio, começou a despertar reclamações e pleitos por parte das Câmaras e Capitães-Mor desta cidade. Um novo capítulo estava para ser escrito na história aldeeense.
Disputas e fim da administração Jesuíta
Em 5 de fevereiro de 1679, o Capitão-Mor de Cabo Frio, Domingos da Silva Agrelha, em nome de seus moradores, queixou-se ao monarca dos missionários da Aldeia de São Pedro, "que negavam os índios para os seus trabalhos, dando causa ao pouco incremento da povoação". Era o começo de uma série de queixas contra a administração jesuítica, até que, em 15 de junho de 1721, a Câmara de Cabo Frio representa contra a Companhia de Jesus, reclamando as terras em que ela se achava de posse, principalmente as da Ponta dos Búzios. Ainda desta vez, o Conselho Ultramarino não lhes outorgou parecer favorável. A estas queixas, viria se juntar o próprio Governador do Rio de Janeiro, Luiz Monteiro, solicitando as terras da Ponta dos Búzios, que não apresentavam o desenvolvimento conseguido em São Pedro.
EM 25 de maio, o Ouvidor do Rio de Janeiro, Manuel da Costa Mimoso, seguindo parecer do Conselho Ultramarino, presta à Coroa a seguinte informação: "A principal matéria sobre o que escreveram à Vossa Majestade depende da averiguação ordinária e mais largo conhecimento em juízo legítimo e contencioso, visto que os índios e religiosos de uma e outra religião se acham de posse daquelas terras a muitos anos, pacificamente e com títulos válidos...