Samuel Fritz SJ (9 de abril de 1654 – 20 de março de 1725, 1728 ou 1730)Jan Filipský, "FRITZ Samuel – missionário checo-alemão na América do Sul," em Who Was Who Czech and Slovak Orientalists, Libri Praga, 1999. Lev Michael e Zachary O’Hagan, "A Linguistic Analysis of Old Omagua Ecclesiastical Texts," University of California, Berkeley. foi um jesuíta boêmio e missionário, notável por sua exploração do Rio Amazonas e de sua bacia. Passou a maior parte de sua vida pregando em comunidades indígenas na porção ocidental da Amazônia, incluindo os Omaguas, os Yurimaguas, os Aisuare, os Ibanomas e os Ticunas. Em 1707, elaborou o primeiro mapa preciso do Rio Amazonas, definindo o Rio Marañón como sua nascente.

Hábil em artes técnicas e ofícios, atuou ainda como médico, pintor, carpinteiro, marceneiro e linguista, sendo capaz de interagir com povos indígenas.Johann Christoph Adelung, Mithridates oder allgemeine Sprachenkunde: mit dem Vater Unser als Sprachprobe in beynahe fünfhundert Sprachen und Mundarten., (Berlim, 1806), III, ii, 611. “As habilidades linguísticas de Samuel Fritz.” Foi eficaz e respeitado, também tendo auxiliado o Vice-Reino do Peru na disputa de limites com o Estado do Brasil.

Entre 1686 e 1715, fundou 38 missões ao longo do Rio Amazonas, na região compreendida entre o Rio Napo e o Rio Negro, conhecidas como “Missões Omagua”.Catholic Encyclopedia (1913): Samuel Fritz As mais importantes foram Nuestra Señora de las Nieves de Yurimaguas e San Joaquín de Omaguas, fundada nos primeiros anos de atividade missionária de Fritz e depois transferida em janeiro de 1695 para a foz do Rio Ampiyacu, perto da atual Pebas (Departamento de Loreto no Peru). Essas missões sofreram constantes ataques dos bandeirantes brasileiros a partir da década de 1690.Michael, Lev. 2014. "On the Pre-Columbian Origin of Proto-Omagua-Kokama." Journal of Language Contact 7(2):309–344.

Fritz detalhou sua atividade missionária inicial entre os Omaguas em diários pessoais escritos entre 1689 e 1723. Extensos trechos desses diários foram compilados e entremeados por comentários de autor anônimo entre a morte de Fritz e 1738, aparecendo na coletânea de Pablo Maroni.Maroni, Pablo. (1738) 1988. Noticias auténticas del famoso río Marañón. Jean Pierre Chaumeil, ed. (1738; Iquitos: Instituto de Investigación de la Amazonía Peruana–Centro de Estudios Teológicos de la Amazonía, 1988).

Primeiros anos Fritz nasceu em Trautenau, Boêmia. Após um ano de estudos na Universidade Carolina de Praga, ingressou na Companhia de Jesus como noviço em 1673, estudando matemática, geodesia e topografia. Lecionou por alguns anos nos seminários jesuítas de Uherské Hradiště e Březnice, tornando-se vice-reitor em Brno, onde também dirigia a orquestra estudantil. Ordenou-se sacerdote em 4 de fevereiro de 1683. Em setembro de 1684, foi enviado como missionário a Quito, chegando em Cartagena das Índias e seguindo depois por via terrestre. Em 1686, foi designado para trabalhar entre os índios do Alto Marañón.

Trabalho com o povo Omagua

Fritz estabeleceu-se entre os Omaguas (Omayas ou Cambebas) e, poucos anos depois, desenvolveu seu próprio catecismo omágua na língua Omagua. Os Omaguas solicitaram proteção contra escravistas portugueses que, na década de 1680, haviam começado a invadir suas comunidades. Em 1686, quando Fritz chegou ao território deles, os Omaguas habitavam ilhas no meio do Rio Amazonas, em uma região que ia aproximadamente da confluência do Amazonas com o Rio Napo até o Rio Juruá.John Hemming, Red Gold: The Conquest of the Brazilian Indians, 1500-1760, Harvard University Press, 1978. No fim de seu primeiro ano entre os Omaguas, ele iniciou uma grande viagem rio abaixo para visitar todas as 38 aldeias existentes, ficando dois meses em cada uma. Construiu capelas rudimentares, batizando sobretudo crianças (pois considerava a maioria dos adultos insuficientemente instruídos e “relutantes em abandonar inteiramente certos abusos pagãos”). Ao final dessa jornada, que durou cerca de três anos, realizou uma cerimônia de batismo de toda a etnia, retornando depois a San Joaquín de Omaguas.David Graham Sweet, "Samuel Fritz, S. J. and the Founding of the Portuguese Carmelite Mission to the Solimões," capítulo 6 de A Rich Realm of Nature Destroyed: The Middle Amazon Valley, 1640–1750. Tese de doutorado, University of Wisconsin, 1974. Depois, concentrou povos indígenas em chamadas “reduções” ou missões. Pregou ainda, em períodos variados, para os Yurimaguas, os Aisuare, os Ibanoma e os Ticunas.Obras Publicadas pela Hakluyt Society, Edição 24, 1859; University of Minnesota.

Mapeando o Amazonas A pedido da Audiência Real de Quito, começou em 1687 a delinear o território missionário disputado no Alto Marañón, entre Peru e Quito.Samuel Fritz, Journal of the Travels and Labours of Father Samuel Fritz in the River of the Amazons Between 1686 and 1723, editado por George Edmundson; Edição 51 de Works issued by the Hakluyt Society, ISSN 0072-9396; Hakluyt Society, 1922. Em 1689, empreendeu em uma piroga uma ousada viagem de mais de 6 mil quilômetros descendo o Amazonas até Pará, em busca de tratamento médico,Frank Salomon, Stuart B. Schwartz, eds. Indians of South America, Part 1 Volume 3 de Cambridge history of the native peoples of the Americas, Cambridge University Press, 1999. provavelmente para malária. “Tive ataques violentos de febre e hidropisia que começaram nos pés e outros males”, escreveu mais tarde no relato de sua viagem. Fritz seguiu rio abaixo “na esperança de encontrar algum remédio”, chegando à foz do Rio Negro após três semanas.André Ferrand de Almeida, “Samuel Fritz and the Mapping of the Amazon,” Imago Mundi. Vol. 55, (2003), pp. 113–119. Ali encontrou um grupo de guerreiros Tupinambaranas que o conduziram à missão Mercedária, onde foi tratado com sangria e fumigação terapêutica, “mas, em vez de melhorar, piorei.” Missionários portugueses o levaram ao Colégio dos Jesuítas em Belém, mas quando se sentiu bem o suficiente para voltar à missão, acabou detido e preso por 18 meses pelo governador Artur de Sá Meneses, acusado de ser um espião espanhol. De fato, os portugueses temiam que as missões espanholas no Alto Solimões fizessem os índios apoiar a Espanha contra Portugal. Durante esse período, Fritz aproveitou para elaborar um mapa do rio.

Em 1691, após queixa ao Conselho das Índias, o rei de Portugal, D. Pedro II, autorizou sua libertação, demitindo e repreendendo o governador. Com a escolta de soldados portugueses, Fritz visitou fortalezas em Gurupá e Tapajós. Após deixá-lo na foz do Rio Coari, em outubro de 1691, os soldados “mataram cruelmente muitas pessoas e levaram o restante como escravos,” segundo Fritz soube mais tarde.

Fritz seguiu então subindo o Rio Huallaga até Huánuco e, depois, até Lima, voltando via Jaén às missões do Rio Marañón em fevereiro de 1692. Em Lima, apresentou ao vice-rei Conde de la Monclova Melchor Portocarrero Lasso de la Vega um mapa detalhado que havia preparado da região amazônica. O vice-rei ficou tão impressionado com o trabalho de Fritz que lhe deu mil pesos de prata do tesouro e mais mil de seu bolso para a compra de “sinos, ornamentos e outros artigos caros propícios ao embelezamento e provisão decente de suas novas igrejas.” Contudo, disse a Fritz que duvidava que o potencial de produção das florestas amazônicas justificasse um confronto com Portugal ou mesmo a defesa de algum posto específico.

Mapas de Fritz miniaturadaimagem|450x450px|Mapa de 1707 de Fritz mostrando o Amazonas e o Orinoco, em ambos os lados do mítico Lago Parime Com poucos instrumentos, Fritz criou um mapa relativamente exato do curso do Amazonas, de Belém a Quito. Seus mapas foram os primeiros a delinear, ainda que aproximadamente, o território do Marañón, e se destacam por definir com boa precisão a forma e proporções do continente sul-americano. Foram os primeiros desenhados por quem navegara o Amazonas inteiro, pessoalmente. Seu objetivo era obter apoio militar e financeiro das autoridades reais para suas missões na fronteira.

No total, Fritz produziu ao menos seis mapas (talvez mais), dos quais apenas quatro sobreviveram. Em 1689, esboçou um rascunho do rio durante a viagem ao Pará, entregando-o ao governador local. Na prisão, fez um segundo rascunho em quatro folhas justapostas, indicando nomes de comunidades indígenas, missões jesuíticas, aldeias e grupos étnicos.Samuel Fritz, Mapa Geographica del Río Marañón o Amazonas, (1691), Bibliothèque Nationale de France, Paris, Cartes et plans, Rés. Ge C 5037, Manuscrito (tinta sobre papel), 55 x 130 cm. Ao chegar a Lima em 1692, concebeu uma versão maior para impressão, mas problemas atrasaram a publicação até 1707, lançada sob o título “O Grande Rio Marañón ou Amazonas com as Missões da Companhia de Jesus, descrito geograficamente pelo missionário Samuel Fritz.” Tal versão mede 126 por 46 cm e inclui, na legenda, descrição de fauna, flora e etnias indígenas do Amazonas, além de marcar com cruzes os locais onde missionários foram mortos. O original está na Bibliothèque nationale de France.Zdeněk Hübner, "Samuel Fritz" (em tcheco)

Fritz considerava que seu mapa era bem superior aos contemporâneos, escrevendo:“Criei este mapa para melhor compreensão e ensinamento geral acerca do grande Amazonas, ou Marañón, com grande esforço e grande trabalho... Ainda que hoje existam outros mapas, quero, sem ofender ninguém, dizer que nenhum deles é exato, pois ou não foi feita nenhuma medição cuidadosa neste grande rio, ou o material foi escrito a partir de vários autores.”Uma cópia foi enviada a Madri pela Audiência Real de Quito, mas o navio foi interceptado pelos ingleses, que publicaram o mapa pela primeira vez em 1712, com modificações e escala reduzida.Edward Cooke. A Voyage to the South Sea, and Round the World (Londres, 1712). Uma versão francesa levemente alterada saiu em Paris em 1717, intitulada “Cours du fleuve Maragnon autrement dit des Amazones par le P. Samuel Fritz missionaire de la Compagnie de Jésus.”“Cours du fleuve Maragnon autrement dit des Amazones,” mapa (257 x 380 mm) em Lettres édifiantes et curieuses, écrites des missions étrangères, par quelques missionnaires de la Compagnie de Jésus, 34 vols. (Paris: Le Mercier & Boudet, Marc Bordelet, 1707–1776) vol. 12, p. 212. Em 1726, foi reproduzido no periódico jesuíta em alemão Der Neue Welt-Bott (Augsburgo, 1726, I), e outra versão revisada, editada por Hermann Moll, apareceu no Atlas Geographus em 1732.“The Great River Marañon or of the Amazons Geographically describ'd by Samuel Fritz missioner on the Said River,” Atlas Geographus (vol. 5), Londres, 1732. Em 1745, Charles Marie de La Condamine incluiu-o no Relation abrégée d'un voyage fait dans l'intérieur de l'Amérique Méridionale (Paris, 1745),Charles Marie de La Condamine, “Carte du Cours du Maragnon ou de la Grande Riviere des Amazones...,” Veuve Pissot, Paris: 1745Charles Marie de La Condamine, Relation abrégée d'un voyage fait dans l'intérieur de l'Amérique méridionale..., Jean-Edme Dufour & Philippe Roux, 1778; Universidade de Lausanne com um mapa revisado baseado no de Fritz, para fins comparativos. Entre outras mudanças, La Condamine acrescentou a ligação do Amazonas com a Bacia do Orinoco, descoberta após a morte de Fritz.

Um erro de destaque é a inclusão do Lago Parime, que Fritz conhecia apenas por boatos, procurado desde Sir Walter Raleigh em 1595.Sir Walter Raleigh, The Discoverie of the Large, Rich, and Bewtiful Empyre of Guiana 1596; repr., Amsterdam: Theatrum Orbis Terrarum, 1968 Posteriormente, exploradores concluíram que se tratava de mito.Alexander von Humboldt, Personal Narrative of Travels..., cap. 25, Henry G. Bohn, Londres, 1853.

Crenças indígenas sobre Fritz