As Testemunhas de Jeová contam com perto de praticantes em Portugal, distribuídos por cerca de 656 congregações, sendo que os simpatizantes alcançam um número similar. Isso pode ser constatado no Anuário das Testemunhas de Jeová de 2017 que refere terem assistido pessoas em 2016 à sua principal celebração, a Comemoração da Morte de Cristo.
Esta denominação religiosa está presente no país desde 1925, tendo sido proscrita oficialmente durante o Estado Novo, período em que operou na clandestinidade. Em Dezembro de 1974, após a Revolução dos Cravos que derrubou o antigo regime, a Associação das Testemunhas de Jeová foi legalmente reconhecida, tendo hoje a sua sede em Alcabideche. Em 2009, foram oficialmente reconhecidas como comunidade religiosa radicada em Portugal.Agência Lusa: "Testemunhas de Jeová ganham status de religião em Portugal"
Actividades iniciais O primeiro registo das actividades das Testemunhas em Portugal remonta a 1925. Nesse ano, George Young, um missionário canadiano, parte do Brasil para Portugal com a intenção de iniciar a actividade evangelizadora das Testemunhas de Jeová. Fez preparativos para que o então presidente da Sociedade Torre de Vigia, Joseph Franklin Rutherford, proferisse um discurso público intitulado "Como Viver na Terra Para Sempre", a 13 de maio de 1925, no Liceu Camões, em Lisboa.Anuário das Testemunhas de Jeová, 1984, página 131Revista História, nº 48, Setembro de 2002, pág. 41
Apesar da oposição de sacerdotes católicos milhares de pessoas mostraram interesse em assistir. Francisco Ullan, uma testemunha ocular, recordou o acontecimento da seguinte forma: "O clero católico fez uma tentativa falhada para desfazer esta reunião. Irromperam em gritaria e quebraram cadeiras. Felizmente, o irmão Rutherford conseguiu controlar a situação."Anuário das Testemunhas de Jeová, 1984, página 132 Alguns jornais noticiaram a elevada assistência e a agitação devido ao cariz da temática abordada. Referiram que alguns dos que acorreram ao local traziam consigo frascos na esperança de receberem algum tipo de elixir da longa vida.Diário de Lisboa, Diário de Notícias e O Mundo, de 14 de Maio de 1925 O jornal O Século publicou na íntegra a conferência do "notável jurisconsulto J. F. Rutherford" e descreveu o seguinte: "Mais de duas mil pessoas enchiam o gimnásio do liceu e tendo-se retirado sem obterem lugar aproximadamente duas mil pessoas."Jornal O Século, 15 de Maio de 1925
Década de 1920
A primeira edição portuguesa de A Torre de Vigia (agora A Sentinela) foi publicada em Lisboa e lançada em Setembro de 1925. A primeira página referia o nome de George Young como editor. No final de 1925 foi aberto um escritório na Rua de Santa Justa, 95, em Lisboa, a fim de cuidar das assinaturas e da correspondência. Em 1926 iniciaram-se as classes de estudo regular da Bíblia. A partir da edição de abril de 1926, A Torre de Vigia passou a contar com Virgílio Ferguson como editor e a revista alcançou os 450 assinantes em Portugal continental e nos Açores.Anuário das Testemunhas de Jeová, 1927 (em inglês)
Em 28 de Maio de 1926, ocorreu a revolução que instituiu o regime ditatorial que viria a ser conhecido por Estado Novo. A ditadura em vigor reduziu a liberdade de expressão. Começando com a edição Novembro de 1926, A Torre de Vigia passou a estar sujeita à censura do governo e apareceu a seguinte nota na capa: "Este número foi visado pela Comissão de Censura". Ainda assim, relata-se que em 1927, foram distribuídos mais de exemplares da revista, então a ser impressa em Berna, na Suíça.Anuário das Testemunhas de Jeová, 1984, página 135
No verão de 1927 relatam-se os primeiros 14 a serem batizados como Estudantes da Bíblia (a partir de 1931 conhecidos por Testemunhas de Jeová), sendo que dois deles eram de nacionalidade espanhola. A 14 de Outubro de 1927, Ferguson é legalmente autorizado a "reunir em sua casa algumas pessoas a quem desejava ministrar explicações sobre assuntos das Escrituras Sagradas". Ainda nesse ano iniciam-se as primeiras tentativas de pregação pública, com autorização do Governo Civil de Lisboa.
De 1930 a 1960
Em Novembro de 1931, pouco depois de passarem a ser designadas por "Testemunhas de Jeová", realizaram uma distribuição de exemplares de "Luz e Verdade", em português, contendo o inteiro discurso de Rutherford: "O Reino de Deus — A Única Esperança do Mundo".
O primeiro pregador viajante das Testemunhas de Jeová em Portugal, então designados de colportores, foi Manuel da Silva Jordão. Segundo os registos, foi também ele o primeiro a ser preso devido à obra de evangelização pública. Estando em Braga, foi acusado por elementos do clero local, sendo que a polícia foi procurá-lo à meia-noite na casa onde estava hospedado, de onde o conduziu à esquadra.Anuário das Testemunhas de Jeová, 1984, página 138
No início de 1933, a nova constituição ampliou os poderes do Estado, concedendo-lhe autoridade absoluta e o total controle da imprensa. Próximo do fim desse ano, o casal Ferguson deixou Portugal, a publicação "Luz e Verdade" foi suspensa e o contacto direto com o escritório da filial foi cortado. A literatura existente no escritório foi transferida para uma sapataria em Lisboa, cujo proprietário era Testemunha de Jeová. Em Maio de 1940, Portugal assinou uma concordata com o Vaticano, concedendo à Igreja Católica Romana uma posição altamente favorecida. Com o tempo, a obra organizada das Testemunhas cessou gradualmente e iniciou-se um período de menor actividade. Até meados da década de 40, pequenos grupos de interessados nas publicações das Testemunhas reuniam-se em alguns pontos do país.
Em 1947, a Sociedade Torre de Vigia enviou dois representantes a Portugal. F. W. Franz e H. C. Covington encontraram-se no aeroporto de Lisboa, a 5 de Maio, com um grupo de oito Testemunhas. Nesta altura foram designados temporariamente quatro homens para cuidar da primeira congregação em Lisboa. Durante esta visita, estes representantes americanos tentaram legalizar o movimento mas o seu pedido foi recusado. Nesse mesmo ano, a 13 de Dezembro, Nathan Knorr e Milton Henschel estiveram brevemente em Lisboa. Também estava com eles John Cooke, formado na oitava classe da Escola Bíblica de Gileade e designado para cuidar das actividades das Testemunhas em Espanha e em Portugal.
Ainda em 1947, filhos de imigrantes açoreanos nos Estados Unidos, que se haviam tornado Testemunhas de Jeová, decidiram fixar-se na Ilha do Pico e iniciar ali a actividade de evangelização. Em 1950, dois formados de Gileade, Paul Baker e Kenneth Williams, vieram para os Açores. Mas o governo local, debaixo da pressão do clero, expulsou os missionários. Paul Baker solicitou um novo visto, que foi aprovado. No entanto, pouco tempo depois a polícia deteve-o acusando-o de se empenhar em atividades comunistas. Ele foi escoltado até ao primeiro navio, partindo para Lisboa, onde permaneceu preso uma semana e seguidamente foi expulso do país.Anuário das Testemunhas de Jeová, 1984, página 161
Em 1951, dois novos missionários juntaram-se a John Cooke e F. W. Franz volta a visitar as dezenas de Testemunhas existentes em Portugal. Em 1952, Nathan Knorr e Milton Henschel voltam a Lisboa e faz-se nova tentativa de legalização das actividades das Testemunhas, sendo isso rejeitado por não ser desejável "a instalação em território português de organismos integrados em sedes no estrangeiro, cujos adeptos se subordinem à orientação e direcção de elementos estranhos à nacionalidade portuguesa." Posteriormente, o visto de Cooke não foi renovado e ele foi forçado a partir.
Em novembro de 1954 o missionário de Gileade, Eric Britten, veio do Brasil para cuidar da filial portuguesa da Sociedade. Para evitar a atenção das autoridade, tornou-se costume realizar regularmente reuniões religiosas em áreas arborizadas, junto à praia, especialmente na zona da Costa da Caparica, o que veio a tornar-se conhecido como "piqueniques". Em 1956, a PIDE aparecia com maior frequência nas reuniões e alguns locais públicos tiveram de ser encerrados. As Testemunhas passaram a reunir-se em casas particulares, usando de alguma discrição quanto aos horários e número de assistentes. Até ao final da década de 50, F. W. Franz fez nova visita às Testemunhas em Portugal e alguns missionários foram enviados para Lisboa e Porto.
Década de 1960 e o aumento da oposição
No início de 1961 eclodiram em Angola os movimentos de guerrilha independentista, que o regime classificava de terroristas. Em breve, Portugal mergulhava na Guerra do Ultramar. Espalhou-se um fluxo de propaganda, acusando as Testemunhas de incitar as massas à rebelião e a polícia portuguesa começou a interferir cada vez mais nas suas atividades de pregação. O Tenente Coronel Homero de Oliveira Matos, director da PIDE, acreditava que o comunismo usava organizações religiosas e sociais para penetrar nas colónias. A 6 de Abril é informado que alegadamente "elementos suecos das tropas da ONU no Congo fazem parte associação secreta Watchtower", cuja intenção seria a 'reacção contra a gente lusa'.Revista História, nº 48, Setembro de 2002, pág. 40 Homero de Matos acreditava numa cabala do Partido Comunista da União Soviética para controlar as chefias de organizações religiosas e sociais, por forma a que o povo, em ignorância, trabalhasse a favor do comunismo. Num despacho de 9 de Novembro de 1961, Homero de Matos descreve a Watchtower como testa de ferro desse polvo.Arquivo Nacional da Torre do Tombo, PIDE/DGS, SR 932/60, ff. 294-304v, 313-4v e 354-62 e SR 1269/62, ff 3-3v
Em Agosto de 1961, o primeiro objetor de consciência entre as Testemunhas de Jeová recusou a incorporação no serviço militar. A 22 de Setembro de 1961, Artur Canaveira foi o primeiro entre centenas de Testemunhas de Jeová que vieram a ser detidas. Durante cerca de quatro meses, no Forte de Caxias, foi espancado e torturado sob acusações de disseminação de ideias comunistas. Foi mantido incomunicável até à sua libertação em 22 de Janeiro de 1962. Apenas quatro dias mais tarde, a 26 de Janeiro de 1962, três casais de missionários estrangeiros, incluindo o responsável pela filial da Sociedade Torre de Vigia, foram chamados à sede da PIDE e, após serem acusados de disseminar ideias subversivas de neutralidade, foram expulsos do país.Anuário das Testemunhas de Jeová, 1984, página 180
O regime passou a confrontar-se com os vários objetores de consciência entre as Testemunhas de Jeová. Alguns foram detidos e outros enviados para a frente de guerra em Angola e na Guiné Portuguesa, tentando forçá-los a renunciar as suas crenças. Todos os que se identificavam com as Testemunhas passaram a ser potenciais alvos da PIDE. Entre 1961 e 1974 foram realizadas mais de 600 acções de busca em casas particulares e locais de reunião. Agentes infiltrados assistiam às reuniões tentando descortinar qualquer assunto de natureza política, mas com resultados frustrantes. Reuniões foram interrompidas, por vezes com recurso a forças policiais com metralhadoras. Centenas de pessoas foram detidas por alguns dias, semanas e mesmo por vários meses. A literatura das Testemunhas era censurada, proibida, confiscada e destruída aos milhares de exemplares. Exemplos extremistas de actuação incluem a detenção de dois rapazes de 10 e 15 anos; o interrogatório a uma criança de 10 anos; um septuagenário interrogado durante cinco horas de pé; surdos-mudos levados à esquadra para interrogatório; o encarceramento de duas jovens de 13 e 16 anos; entre outros exemplos semelhantes.
Em 1962, foi feita queixa à polícia por um grupo de 12 Testemunhas ter realizado uma reunião. Isto resultou no primeiro julgamento em tribunal. O Ministério Público acusou-os de realizarem reuniões religiosas sem obterem autorização. Na abertura do julgamento, a 21 de Março de 1963, o juiz absolveu os acusados perante uma sala cheia de espectadores.