thumb|400px|Mapa de Juan de la Cosa: à esquerda, na cor verde, o Novo Mundo; no centro e à direita, na cor branca, o Velho Mundo. O chamado mapa de Juan de la Cosa, também referido como carta de Juan de la Cosa, é um mapa do ano de 1500, atualmente no Museu Naval de Madrid, na Espanha. Foi confeccionado pelo navegador e explorador espanhol Juan de la Cosa, a pedido dos Reis Católicos.

Destaca-se por ser a mais antiga representação inequívoca do continente americano conservada.Alguns historiadores propuseram que as ilhas atlânticas desenhadas em outros mapas mais antigos, como a carta de Pizzigano (1424), poderiam ser algumas das Antilhas, mas não existe consenso sobre esta ideia. Por outro lado, o mapa de Vinland representa uma parte da América do Norte, mas existe controvérsia sobre se data de meados do século XV ou é uma falsificação do século XX. Nele encontram-se representadas as terras descobertas até finais do século XV pelas expedições castelhanas, portuguesas e inglesas à América, além de uma grande parte do Velho Mundo, segundo o estilo típico dos portulanos medievais, incluindo notícias da recente chegada de Vasco da Gama à Índia em 1498.

Constitui-se ainda na única obra cartográfica que se conservou até aos nossos dias, de todas as realizadas pelas testemunhas presenciais das primeiras viagens de Cristóvão Colombo às Índias. O mapa alude ao descobridor mediante uma grande imagem de São Cristóvão que cobre a zona na qual deveria estar a América Central. Contudo, Cuba representa-se como uma ilha, contrariamente à opinião de Colombo, que a considerava uma península da Ásia.

História Autor e data thumb|400px|Texto do mapa que indica o autor, local e data de realização Uma cartela no mapa informa: "Juan de la cosa la hizo en el puerto de S: mã en año de 1500" (em versão livre, "Juan de la Cosa a fez em El Puerto de Santa María em 1500".

Juan de la Cosa foi um marinheiro nascido na Cantábria em meados do século XV e que faleceu na costa da atual Colômbia em 1509. Teve um papel de destaque na primeira viagem de Cristóvão Colombo (3 de agosto de 1492 - 5 de março de 1493) às Índias, uma vez que foi o mestre da capitânia, a nau Santa Maria. Também participou da segunda viagem de Colombo (25 de setembro de 1493 - 11 de junho de 1496).

Posteriormente, em 1499 associou-se a Alonso de Ojeda para realizarem uma expedição à América, na qual talvez tenha participado ainda Américo Vespúcio. Partiram em maio de 1499, percorreram uma parte significativa da costa atlântica da América do Sul e regressaram, ou em novembro de 1499, ou em junho de 1500.

Sabe-se que de la Cosa já trazia consigo um rascunho de mapa no regresso desta viagem.MANZANO MANZANO, tomo 1, pág. 338. "Viu esta testemunha a carta de Juan de la Cosa que fez naquela viagem, e viu nela a costa que descobriu." Declaração de Juan de Jerez (piloto) na provança do fiscal dos Pleitos colombinos de 1513. Arquivo de Índias, Padroado, legajo 12, ramo 10, fol. 56 v. Pleitos de Colón, tomo I, pág. 304 De la Cosa retornou na expedição de Rodrigo de Bastidas (final de 1500VERLINDEN, pág.145 ou meados de 1501 segundo diferentes autores) e deve ter realizado o seu mapa durante o Verão ou no Outono de 1500.

A sua rica decoração permite supor que provavelmente foi feito sob encomenda para algum membro poderoso da corte dos Reis Católicos, talvez o bispo D. Juan Rodríguez de Fonseca.

Alguns historiadores questionam a datação de 1500, afirmando que parte da informação cartográfica nela contida não se encontrava descoberta ainda naquele ano. O primeiro a formular esta teoria foi George E. Nunn em 1934, ao afirmar que Cuba não foi circunavegada até 1509, e que por essa razão, de la Cosa não podia saber que era uma ilha, como corretamente apresentado no mapa. Os seus argumentos tem sido rebatidos desde então, demostrando-se, por exemplo, que Pedro Mártir de Anglería registara em 1501 que "muitos afirmam navegar ao redor de Cuba". Outros autores apontaram que na carta não figuram muitos dos acontecimentos posteriores a 1500, como por exemplo a terceira viagem do próprio de la Cosa ao Novo Mundo (1501-1502), que descobriu o golfo de Urabá e a costa de Darién.

Outra teoria, mais amplamente aceite, afirma que o mapa é uma cópia do original preparado por de la Cosa. Um indício em favor desta teoria é o fato de muitos topônimos serem ilegíveis, como se o copista não fosse capaz de decifrar a letra do autor original. O historiador Hugo O'Donnell chegou além disso, opinando que o trabalho de Juan de la Cosa foi um rascunho que depois foi completo e enriquecido por algum outro cartógrafo.

Por outro lado, em 1987 o Gabinete de Documentação Técnica do Museu do Prado mostrou, mediante diversas análises, que os pigmentos da carta eram compatíveis com uma confecção em 1500. Não se apreciaram sinais de repinte posterior.

Desaparecimento e achado Não há registro documental direto da carta, porém, é sabido que Juan de la Cosa apresentou dois "mapas de marear de las Yndias" aos Reis Católicos, em Segóvia, em 1503. Um deles pode ter sido o seu mapa-múndi de 1500 ou talvez uma versão posterior do mesmo, atualizada com os descobrimentos de expedições mais recentes.MANZANO MANZANO, tomo 1, pág. 505 Os dois mapas terão passado posteriormente à posse do bispo D. Juan Rodríguez de Fonseca, em cujo escritório os pôde contemplar Pedro Mártir de Anglería, segundo conta num escrito datado de 1514:MANZANO MANZANO, tomo 1, págs. 335-336

As referências ao mapa reapareceram em 1832, data em que Charles Athanase Walckenaer, barão de Walckenaer, o adquiriu a um comerciante de Paris e o mostrou a vários amigos, entre os quais se contava o erudito alemão Alexander von Humboldt, que foi o primeiro que o deu a conhecer. O espanhol Ramón de la Sagra publicou em 1837 a parte ocidental do mapa e, em 1842, Manuel Francisco de Barros e Sousa de Mesquita de Macedo Leitão e Carvalhosa, visconde de Santarém, reproduziu a parte dedicada à África. Após o falecimento do barão de Walckenaer em 1852, a sua biblioteca foi colocada em leilão. De la Sagra alertou o Ministério da Marinha da Espanha, que licitou o mapa e conseguiu adquiri-lo por 4321 francos à época.

Situação atual Desde 1853 a carta encontra-se exposta na Sala de Descobrimentos do Museu Naval de Madrid.

O mapa jamais foi restaurado. Realizaram-se várias edições fac-similadas, a primeira em 1892 e as mais recentes em 1992. Uma cópia realizada à mão pelo cartógrafo do Museu esteve exposta em lugar do original, de 1988 a 1992.

Historiografia A publicação de obras sobre o mapa de de la Cosa focou-se em três momentos históricos:

a década de 1830, quando foi encontrado e dado a conhecer ao mundo científico graças a Alexander von Humboldt, Ramón de la Sagra e Manuel Francisco de Barros e Sousa de Mesquita de Macedo Leitão e Carvalhosa, entre outros; o fim do século XIX, por ocasião do quarto centenário do Descobrimento da América. Nesta fase destaca-se o estudo realizado por A. Vascano, que acompanhava a primeira edição fac-similada do mapa. o fim do século XX, por ocasião do quinto centenário do Descobrimento da América.

Características thumb|Os Reis Magos, personagens ao mesmo tempo bíblicos e legendários, na Ásia.

O mapa é um manuscrito iluminado com as dimensões de 93 centímetros de altura (sentido norte-sul) por 183 de largura (sentido leste-oeste), desenhado sobre duas folha de pergaminho de pele de novilho costurados a uma tela resistente. Os dois pedaços estão unidos pelo centro, à altura da península Itálica e da África. A sua forma é assimétrica, pois a parte ocidental corresponde ao pescoço do animal.

Está ilustrada com tinta e aquarelas. O Novo Mundo aparece representado a verde, enquanto o Velho Mundo não está colorido. No mapa, os rios, portos e núcleos populacionais são assinalados mediante símbolos convencionais. Está profusamente decorado à maneira dos portulanos da Escola de Maiorca com rosas dos ventos, bandeiras, embarcações, réis africanos e personagens legendários, como por exemplo o Preste João das Índias na África e os Reis Magos na Ásia. A rosa dos ventos situada no Atlântico contém uma representação da Virgem e o Menino.

No extremo superior do mapa, cobrindo a região centro-americana, há um quadro com uma imagem de São Cristóvão, provável alusão a Cristóvão Colombo. Sob o santo aparece a referência ao autor e data do mapa: Juan de la cosa la hizo en el puerto de S: mã en año de 1500. Na margem inferior, à direita, aparece outra zona em branco, aparentemente reservada para algum texto que afinal não foi incluído.

No geral, o seu estado de conservação é bom, embora com alguns estragos: áreas descascadas na parte superior, bem como deteriorações diversas devidas a um incêndio.

Contém numerosos topônimos, escritos em castelhano, embora alguns deles estejam ilegíveis, sobretudo no Novo Mundo.

Territórios representados O mapa amostra, de oeste a leste: o continente americano e as suas ilhas adjacentes; o oceano Atlântico com os seus arquipélagos principais; a Europa, o Mediterrâneo e África; o continente asiático e o oceano Índico. Embora com frequência se chame "mapa-múndi" a carta de Juan de la Cosa, não o é em senso estrito porque a sua representação da Ásia curta-se na península da Índia, omitindo a China e o Japão. Também não aparecem o oceano Pacífico nem as regiões antárticas.

América Central e Antilhas thumb|As Grandes Antilhas no mapa de Juan de la Cosa. A flecha vermelha (acrescentada) indica a ilha de Guanahani. O traçado do mapa é claro e detalhado na zona das Antilhas, que aparecem representadas cada uma com o seu nome. Entre o grupo de ilhas Bahamas desenhado por De la Cosa com grande precisão encontra-se a ilha de Guanahani, que curiosamente não recebe nenhum tratamento gráfico especial nem texto particular apesar de ser a primeira terra "das Índias" que Cristóvão Colombo afirma avistar na sua Primeira Viagem.

Cuba aparece sob essa apelação, derivada da palavra indígena Cubanacon, e não com o nome de Joana que lhe dera Colombo. A sua imagem é bastante exata: alongada, com numerosas baías, estrangulada em dois pontos e com um extremo ocidental curvado que forma um amplo golfo cheio de ilhotas. O autor do mapa representa-a corretamente como ilha, apesar de que em junho de 1494 Colombo mandara jurar a todos os que o acompanhavam na sua Segunda viagem, entre os que se encontrava De la Cosa, que Cuba não era uma ilha senão uma península do continente asiático. Alguns autores duvidam que De la Cosa pudesse conhecer o fato da insularidade de Cuba em 1500, o qual implicaria que o mapa terá sido elaborado mais tarde; contudo, outros historiadores afirmam que para 1500 várias expedições castelhanas já circunavegaram a ilha.

Diferente das Antilhas, a costa continental vizinha fica desenhada de modo impreciso, faltando as penínsulas de Florida e a península do Iucatã, o golfo do México e, em geral, toda a América Central, em cujo lugar figura uma grande cartela com a imagem de São Cristóvão. Acredita-se que De la Cosa pôde cobrir a posta com este requadro a zona centro-americana para evitar desenhar uma linha de costa contínua entre a América do Norte e América do Sul, a qual teria negado a existência da passagem marítima para as ilhas das Especiarias que Colombo e outros afirmavam haver ali.VERLINDEN, pág.146

América do Sul thumb|Pormenor do extremo oriental da América do Sul. A leste do Cabo de Santo Agostinho aparece, desconectada do continente, a Ilha de Vera Cruz (Ysla descubierta por portugal).