Afro-brasileiros, negros, pretos ou afrodescendentes são os termos usualmente adotados para designar a parcela da população brasileira descendente dos povos nativos da África subsaariana.

Preto e pardo estão entre as cinco categorias etnorraciais usadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), juntamente com branco, amarelo e indígena. No censo de 2022, 20,7 milhões de brasileiros (10,2% da população) se identificaram como pretos e 92,1 milhões (45,3% da população) se identificaram como pardos, juntos totalizando 55,5% da população do Brasil. No contexto brasileiro, as categorias preto e pardo são comumente consideradas, em conjunto, representativas da população afrodescendente do país. A definição de “negro” como o conjunto de pretos e pardos, defendida pelo Movimento Negro, foi adotada na legislação brasileira em 2010 com o Estatuto da Igualdade Racial. No entanto, essa definição não é incontroversa, já que parte da população que se identifica como parda não possui ascendência africana, especialmente na região Norte do Brasil onde ascendência indígena é mais predominante.

Durante o período da escravidão, entre os séculos XVI e XIX, o Brasil recebeu aproximadamente quatro a cinco milhões de africanos, que constituíam cerca de 40% de todos os africanos trazidos para a América. Muitos africanos que escaparam da escravidão fugiram para os quilombos, comunidades onde podiam viver livremente e resistir à opressão. Em 1850, o Brasil determinou a proibição definitiva do tráfico transatlântico de escravos e, em 1888, o país aboliu a escravidão, tornando-se o último na América a fazê-lo. Apesar da histórica repressão às suas expressões culturais, os africanos e seus descendentes moldaram profundamente a paisagem cultural do Brasil. Suas contribuições são especialmente notáveis na religião, culinária, música e dança, com manifestações como samba e capoeira refletindo esse legado cultural.IBGE. Território brasileiro e povoamento: »negros» - a herança cultural negra e racismo Nos tempos contemporâneos, os afro-brasileiros ainda enfrentam disparidades socioeconômicas e discriminação racial.

Conceito Atualmente, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) utiliza cinco categorias de cor ou raça no censo brasileiro: branca, parda, preta, amarela (asiático oriental) e indígena. No censo de 1940, todos os indivíduos que não identificaram como "branco", "preto" ou "amarelo", foram posteriormente agrupadas na categoria pardo. Assim, essa categoria não incluía apenas os que se identificavam como pardo, mas também aqueles que se autodeclaram como moreno, mulato, caboclo, indígena, etc. Nos censos seguintes, pardo foi formalizado como uma categoria própria,IBGE. Censo Demográfico, p. XVIII. enquanto os povos indígenas ganharam uma categoria separada somente em 1991.

No censo do IBGE de 2010, 7,6% dos brasileiros identificaram sua cor ou raça como preta, 43,1% como parda e 47,7% como branca.IBGE. Censo Demográfico 2010. 2010 Esses dados, contudo, devem ser analisados com cautela, haja vista a histórica tendência ao branqueamento que se observa nas classificações raciais no país. Ativistas e estudiosos associados ao Movimento Negro argumentam que a inclusão da categoria pardo no censo distorce a representação demográfica do Brasil. Eles sustentam que o privilégio ideológico pela branquitude na sociedade brasileira leva muitos brasileiros a ‘negar sua negritude’ e ‘se clarear’ no censo ao escolher a categoria pardo. Muitos atores do Movimento Negro preferem o termo negro, definindo-o como a soma dos indivíduos que se classificam como pardo e preto no censo. Muitos estudiosos e cientistas sociais também combinam as categorias pardo e preto em seus estudos, usando termos como afro-descendente, afro-brasileiro ou negro. Em 2010, o Congresso brasileiro aprovou o Estatuto da Igualdade Racial. A lei adota o termo racial negro, definido-o como a soma de pretos e pardos. Embora evidências sugiram que pretos e pardos tenham perfis socioeconômicos e indicadores de bem-estar material semelhantes em comparação com os brancos, alguns pesquisadores observam que é problemático agrupar pretos e pardos em uma categoria coletiva de negros, pois parte dos brasileiros que se identificam como pardos não têm ascendência africana. Segundo uma pesquisa de 2000 realizada no Rio de Janeiro, toda a população autoidentificada como preta afirmou ter ascendência africana. 86% dos autoidentificados como pardos relataram ter ancestrais africanos, mas é notável que 14% dos pardos do Rio de Janeiro disseram não ter ancestrais africanos. Esse percentual é ainda maior no Norte do Brasil, onde houve uma maior contribuição genética dos povos indígenas. O sociólogo Demétrio Magnoli considera que classificar todos os pretos e pardos como negros é um ataque à visão racial dos brasileiros.MAGNOLI, Demétrio. Uma Gota de Sangue, Editora Contexto, 2008, p. 143. O sociólogo Simon Schwartzman aponta que substituir negro por preto e suprimir a alternativa pardo significaria impor ao Brasil uma visão da questão racial como uma dicotomia, semelhante à dos Estados Unidos, que não seria verdadeira.

A combinação das categorias censitárias “preto” e “pardo” forma um grupo estatístico que representa pouco mais de 50% da população brasileira. No entanto, quando os brasileiros são convidados a se autodeclarar em um modelo binário (preto ou branco), a distribuição demográfica se altera de forma significativa. Dados da Pesquisa Social Brasileira (PESB) de 2002 mostram que em formato dicotômico quase metade dos que se identificam como pardos no censo escolheriam se identificar como brancos. Assim, embora pretos e pardos juntos representem ligeiramente mais da metade da população do Brasil no formato do IBGE, o esquema binário desloca quase metade dos pardos para a categoria branca, que passa a representar 67% da população, deixando os negros com apenas 33%. Segundo pesquisa do Datafolha realizada em 2024, apenas 40% dos pardos se consideram negros, enquanto 60% afirmam não se identificar como tal. Apesar disso, 67% dos pardos concordam que a população negra é composta pela soma de pretos e pardos. No total da população brasileira, 65% concordam com essa mesma definição. Apesar da controvérsia, a classificação da população negra como a soma dos pretos e pardos é comumente usada pela mídia tradicional, textos acadêmicos, órgãos oficiais como o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), ministérios, departamentos governamentais e organizações internacionais. O IBGE, porém, não adota essa classificação. De acordo com uma pesquisa do IBGE realizada em 2008 nos estados do Amazonas, da Paraíba, de São Paulo, do Rio Grande do Sul, do Mato Grosso e no Distrito Federal, apenas 11,8% dos entrevistados reconheceram ter ascendência africana, enquanto que 43,5% disseram ter ancestralidade europeia, 21,4% indígena e 31,3% disseram não saber a sua própria ancestralidade. Quando indagados a dizer de forma espontânea a sua cor ou raça, 49% dos entrevistados se disseram brancos, 21,7% morenos, 13,6% pardos, 7,8% negros, 1,5% amarelos, 1,4% pretos, 0,4% indígenas e 4,6% deram outras respostas. Porém, quando a opção "afrodescendente" foi apresentada, 21,5% dos entrevistados se identificaram como tal. Quando a opção "negro" também foi apresentada, 27,8% dos entrevistados se identificaram com ela.

O antropólogo Darcy Ribeiro considerava o contingente negro e mulato "o mais brasileiro dos componentes do nosso povo" uma vez que, desafricanizado pela escravidão e não sendo indígena nem branco reinol, só restava a ele assumir uma identidade plenamente brasileira. No entanto, a integração dos negros e mulatos à sociedade brasileira não foi sem serem estigmatizados. Muitos brasileiros desenvolveram vergonha das suas origens negras, seja pelo fato de que descender de escravos remete a um passado de humilhações e sofrimentos que deveria ser esquecido ou pelos estereótipos negativos que foram construídos em torno da negritude, associando-a a mazelas sociais como a pobreza e a criminalidade.Rocha, Elaine Pereira. "Antes índio que negro". In: Dimensões — Revista de História da Ufes, 2006; 18:203-220 Portanto, assumir-se negro no Brasil sempre foi muito difícil, por todo o conteúdo ideológico anti-negro que historicamente se desenvolveu no país, onde ainda hoje impera a ideologia do branqueamento e um padrão branco-europeu estético e cultural. Portanto, no Brasil, apenas as pessoas de pele preta retinta são consideradas negras, sendo que o mulato já é pardo e portanto meio-branco e, se tiver a pele um pouco mais clara, passa a ser visto como branco. No passado, era raro o mulato saltar para o lado negro de sua dupla natureza uma vez que, diante da massa de negros afundados na miséria, com eles não queria se confundir. Nos últimos anos, contudo, cada vez mais brasileiros se assumem como negros. Isso é consequência do sucesso dos negros americanos, vistos pelos brasileiros como uma "vitória da raça" e, principalmente, devido à ascensão social de parcela da população afrodescendente que, tendo acesso à educação e a melhores oportunidades de emprego, deixa de ter vergonha de assumir a sua cor.

Raça é um conceito social, político e ideológico, não tendo uma sustentação biológica, uma vez que não é possível separar biologicamente seres humanos em raças distintas. Em um país profundamente miscigenado como o Brasil, não é fácil definir quem é negro, uma vez que muitos brasileiros, aparentemente brancos, são parcialmente descendentes de africanos, assim como muitos negros são parcialmente descendentes de europeus. Acrescenta-se a isso o grande número de pardos, cuja classificação racial pode ser bastante ambígua.Celia Maria Marinho de Azevedo. "Anti-racismo e seus paradoxos: reflexões sobre cota racial, raça e racismo" A atriz Camila Pitanga autodeclara-se negra mas, em uma pesquisa do Datafolha, apenas 27% dos entrevistados classificaram a atriz como de cor preta (36% disseram que ela é parda). O jogador Ronaldo Fenômeno, por sua vez, disse em uma entrevista que se considera branco, mas, segundo a mesma pesquisa, 64% dos brasileiros o consideram preto ou pardo, e somente 23% como branco. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi classificado como pardo por 42% dos entrevistados, ao passo que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que já disse ser "mulatinho", foi classificado como branco por 70%, como pardo por 17% e como preto por 1%. A atriz Taís Araújo, autodeclarada negra, é vista como tal por apenas 54%.

Para o Movimento Negro, são consideradas negras todas as pessoas que têm essa "aparência". Para o antropólogo Kabegele Munanga, da USP, a questão é problemática e, segundo ele, deve prevalecer a autoclassificação. Portanto, se uma pessoa, aparentemente branca, se declara negra e se candidata a uma vaga com base em cotas raciais, a sua decisão deve ser respeitada. Em 2007, um caso polêmico chamou a atenção da mídia brasileira: dois irmãos, gêmeos idênticos, concorreram no vestibular da Universidade de Brasília sob o sistema de cotas. Na universidade havia uma banca que, após analisar as fotos dos candidatos, definia quem era negro e quem não era. Após terem suas fotos analisadas pela banca, um dos gêmeos foi considerado negro, e o outro não. O sociólogo Demétrio Magnoli considera perigoso a instauração de "tribunais raciais" no Brasil, o que aproximaria o país das nações racialistas e paranoicas do século passado.MAGNOLI, Demétrio. Uma Gota de Sangue, Editora Contexto 2008 (2008))

O Estado brasileiro, que historicamente assumiu diversas atitudes claramente racistas, como no final do , quando proibiu a entrada de imigrantes africanos e asiáticos no país, ao mesmo tempo em que promovia a entrada de imigrantes europeus,