Edward Irving ( – ) foi um ministro religoso escocês e pai do movimento restauracionista que leva o seu nome.

Biografia Irving nasceu en Annan, foi educado na Universidade de Edimburgo. Tornou-se ministro da Igreja da Escócia ordenado em 1821. Pregador eloquente e popular, atraiu adeptos em Londres, onde em 1827 inaugurou uma igreja presbiteriana em Regent Square.

Estudioso das profecias bíblicas, traduziu Manuel Lacunza para o inglês e pregava o iminente retorno de Jesus Cristo. Suas interpretações, principalmente que nos último dias haveria uma nova manifestação carismática do Espírito Santo, valeram sua expulsão do presbitério de Londres em 1830.

Os seguidores de Irving organizaram a Holy Catholic Apostolic Church, intencionando difundir a sua mensagem entre os protestantes, católicos e ortodoxos. Visavam o restabelecimento de apóstolos, a profecia, o selo (imposição das mãos para receber o Espírito Santo) e o dom de línguas (glossolalia religiosa). Por não manifestar esses sinais carismáticos, Irving acabou perdendo sua influência no movimento. Morreria logo em 1834.

Falecido prematuramente aos 42 anos de idade, Edward Irving, um ministro da Igreja da Escócia (Presbiteriana), foi uma das mais célebres e controvertidas personalidades religiosas do século XIX. Pregador eloquente e imensamente popular, pastor devotado e amado pelo seu rebanho, homem de profunda piedade cristã, ele veio a envolver-se em controvérsias teológicas que acarretaram a sua deposição do ministério presbiteriano e a subsequente formação de uma nova confissão religiosa, a Igreja Católica Apostólica.

Com o passar do tempo, aquele que despertara tantas paixões foi sendo gradativamente esquecido ou então lembrado apenas como um fanático, herege ou exibicionista. Em décadas recentes, todavia, tem ocorrido no mundo anglo-saxão uma redescoberta de Irving e um novo interesse pela sua vida e obra. Não só tem ele recebido atenção como um importante precursor do moderno movimento carismático, como um número crescente de estudiosos têm entendido que Edward Irving foi um teólogo consistente e profundo.

O objetivo deste ensaio é proporcionar uma visão introdutória da vida e realizações deste líder cristão, destacar alguns elementos básicos da sua reflexão teológica e fazer uma rápida avaliação crítica de suas idéias e posicionamentos.

Síntese biográfica

Muitas biografias de Edward Irving têm sido escritas ao longo dos anos.A biografia mais célebre e completa é a de autoria da escritora inglesa Margareth O.W. Oliphant, The Life of Edward Irving (New York: Harper & Brothers, 1862). Outras boas biografias, em ordem cronológica de publicação, são as seguintes: Jean Christie Root, Edward Irving: Man, Preacher, Prophet (Boston: Sherman, French & Co., 1912); Andrew L. Drummond, Edward Irving and his Circle (J. Clarke, 1936); H.C. Whitley, Blinded Eagle (Chicago: Allec R. Allenson, 1955); e William S. Merricks, Edward Irving: The Forgotten Giant (E. Peoria, Ill.: Scribe’s Chamber Publications, 1983). Irving nasceu no dia 14 de agosto de 1792 na pequena cidade de Annan, na Escócia, sendo o seu pai um humilde curtidor. Ainda menino, foi aluno de Adam Hope, um professor conceituado e piedoso que alguns anos mais tarde também seria mestre de Thomas Carlyle, o futuro literato.

Em virtude do alto valor atribuído à educação na cultura presbiteriana escocesa, aos 13 anos Irving foi estudar na Universidade de Edimburgo, onde se destacou nos clássicos e na matemática. Nessa época, iniciou também os seus estudos teológicos, que tiveram prosseguimento após a sua formatura, enquanto trabalhava como professor. Estes estudos eventualmente o levaram a decidir-se pelo ministério sagrado.

Após uma série de desapontamentos, Irving foi convidado pelo Rev. Thomas Chalmers para ajudá-lo no seu trabalho ministerial em Glasgow. Chalmers, provavelmente o maior líder evangélico escocês em todo o século XIX, ouvira Irving pregar e ficara impressionado com as suas qualidades. Em outubro de 1819 Irving passou a assisti-lo na sua obra social e religiosa junto à população carente.

Em julho de 1822, Irving, então com 30 anos, foi convidado para pastorear uma pequena congregação da Igreja da Escócia em Londres, a Caledonian Chapel. No início do ano seguinte, as multidões que se reuniam para ouvi-lo eram tão numerosas que eventualmente um novo templo precisou ser construído, a majestosa catedral de Regent Square. Em 1827, quando o novo santuário foi inaugurado, cerca de mil pessoas freqüentavam os cultos regularmente, fazendo dela a maior igreja da capital inglesa. Nesse ínterim, em outubro de 1823, Irving havia contraído núpcias com Isabella Martin, com a qual teve sete filhos, quatro dos quais morreram na infância.

As razões da grande celebridade de Irving foram várias, a começar pelos seus dotes de oratória, voz possante e bem treinada, aparência física e personalidade. Acima de tudo, porém, era a sua mensagem o maior atrativo para as multidões que buscavam ouvi-lo a cada semana — seu zelo ardente pelo evangelho de Cristo, sua denúncia intransigente do materialismo e da fria respeitabilidade da sociedade contemporânea. No dizer de um estudioso, "nenhum ídolo e nenhum pecado escapavam do açoite profético de suas denúncias abrasadoras."David Allen, A Belated Bouquet: A Tribute to Edward Irving (1792-1834), em Expository Times 103 (1992) 329.

Por outro lado, é de se destacar que, mesmo no auge da sua popularidade, Irving também pregava regular e sistematicamente sobre questões doutrinárias, como foi o caso de uma série de mensagens sobre a Trindade, no final de 1825. O fato é que, por alguns anos, a alta sociedade londrina acorreu para ouvi-lo, inclusive distintas personalidades do mundo político e intelectual, como Canning, Lord Liverpool, Bentham e Coleridge. Embora os seus sermões se estendessem em média por duas horas, era preciso reservar lugares com muitos dias de antecedência.

A partir de 1825, Irving começou uma longa associação com um grupo de amigos que se reuniam na casa do banqueiro Henry Drummond, em Albury Park, para o estudo de escatologia. Dada a condição da igreja e do país, a firme convicção de Irving de que a volta de Cristo era iminente levou-o com seus companheiros de Albury e um pequeno grupo da igreja a "buscarem o Senhor", pedindo um derramamento do Espírito Santo.

No final de 1827 começaram os problemas de Irving, quando o Rev. Henry Cole, um ministro anglicano, o acusou publicamente de heresia perniciosa. Por dois anos Irving vinha expondo a sua opinião de que Cristo havia assumido uma natureza humana decaída, corruptível. Em novembro de 1830 o Presbitério de Londres declarou Irving culpado de heresia. No entanto, os oficiais da sua igreja lhe deram respaldo e ele pode continuar o seu ministério sem impedimento.

Enquanto isto, no início de 1830 haviam ocorrido manifestações carismáticas na Escócia e, no final de 1831, surgiram ocorrências de línguas e profecias nos cultos de Regent Square. Irving, crendo serem tais manifestações a operação dos dons do Espírito Santo, recusou-se a proibi-las. Em março de 1832, o Conselho que antes o apoiara denunciou-o perante o presbitério por transgredir a norma de que somente pessoas ordenadas ou nomeadas pela Igreja da Escócia podiam dirigir o culto público.

Poucas semanas mais tarde Irving viu-se afastado do pastorado de Regent Square. O grupo que o acompanhou, mais de 600 pessoas, eventualmente deu origem a uma nova denominação, a Igreja Católica Apostólica, que não foi fundada por Irving, embora certamente tenha recebido a sua influência. Irving não chegou a ocupar nenhum lugar de destaque na nova entidade, caracterizada por uma eclesiologia desenvolvida e uma liturgia altamente elaborada, além da sua ênfase carismática.Ver P. E. Shaw, The Catholic Apostolic Church sometimes called Irvingite (Morningside Heights, NY: King’s Crown, 1946); e o excelente estudo de Columba G. Flegg, ‘Gathered Under Apostles’: A Study of the Catholic Apostolic Church (Oxford: Clarendon, 1992).

No mesmo ano, a Assembléia Geral da Igreja da Escócia instruiu o Presbitério de Annan, o concílio que ordenara Irving, a julgá-lo pelo ensino concernente à natureza humana de Cristo. No dia 13 de março de 1833 ele foi deposto do ministério. Em 7 de dezembro do ano seguinte Edward Irving veio a falecer em Glasgow, vitimado pela tuberculose.

Reflexão teológica

Edward Irving foi um ávido estudioso da teologia cristã, com uma predileção especial pelos Pais da igreja antiga. Os resultados da sua própria reflexão podem ser vistos nos muitos sermões que deixou e em um grande número de outros escritos. Orador e escritor extremamente prolixo, suas obras somam milhares de páginas, muitas das quais publicadas postumamente.Entre 1823 e 1831 foram publicados pelo menos 14 livros contendo seus sermões e ensaios. Em 1864 e 1865 o Rev. Gavin Carlyle, sobrinho de Irving, publicou cinco alentados volumes contendo escritos do seu tio, alguns deles inéditos (The Collected Writings of Edward Irving, [London: Alexander Strahan]), e em 1867 dois volumes contendo os seus escritos sobre escatologia (The Prophetical Works of Edward Irving [London: Alexander Strahan]).

Os principais interesses de Irving concentram-se nas áreas da cristologia, pneumatologia e escatologia, com ramificações nas demais áreas da teologia cristã. O aspecto mais peculiar da reflexão de Irving é o seu entendimento da encarnação e de suas implicações soteriológicas.Irving expôs as suas concepções acerca da encarnação e da natureza humana de Cristo nas seguintes obras: The Doctrine of the Incarnation Opened in Six Sermons (1828); The Orthodox and Catholic Doctrine of Our Lord’s Human Nature (1830); The Opinions circulating concerning our Lord’s Human Nature tried by the Westminster Confession of Faith (1830); Christ’s Holiness in Flesh (1831). Ele afirmou nos termos mais incisivos, muitas vezes chocantes, o caráter radical da humanidade de Jesus e, neste sentido, argumentou que na encarnação o Filho não assumira uma humanidade perfeita, incorruptível, mas a própria natureza humana decaída. Se Jesus nasceu na história humana de uma mãe humana, ponderou Irving, então o seu corpo necessariamente consistia de matéria que partilhava do caráter decaído do mundo. E acrescentou: "Que Cristo assumiu nossa natureza decaída é inteiramente manifesto, pois não existe outra para assumir."Carlyle, Collected Writings, vol. V, p. 115. Em sua monumental Dogmática Eclesiástica (Church Dogmatics, I:2, p. 154), Karl Barth esposou a mesma concepção de Irving e reconheceu explicitamente a contribuição do teólogo escocês.

A preocupação principal de Irving ao adotar este ensino era soteriológica. Ele alegou que se Cristo não tivesse assumido a natureza humana a este ponto, ele não teria sido um com a humanidade e não poderia ter sido tentado; Ele também não poderia ter curado, reconciliado e redimido os seres humanos. Neste aspecto, Irving elaborou alguns pontos de doutrina que tinham se manifestado no pensamento dos antigos Pais da igreja, e que foram sintetizados na concepção segundo a qual Cristo não poderia redimir o que ele não assumiu.Alguns estudiosos atuais têm sido simpáticos a este posicionamento. Colin Gunton afirma que, "em comum com os Pais [da igreja], Irving sustenta que somente Deus pode salvar a humanidade perdida; no entanto, a menos que o faça como homem, homem integral, a razão de ser da encarnação desaparece" ("Two Dogmas Revisited: Edward Irving’s Christology" em Scottish Journal of Theology 41 365). Outro autor pondera que, em essência, Irving viu que o Calvário tinha significado precisamente porque o sacrifício perfeito de Cristo foi o sacrifício de um verdadeiro homem. (David W. Dorries, crítica da obra de W.S. Merricks, Edward Irving: The Forgotten Giant, em The Evangelical Quarterly 59 184).