thumb|Estátua de Yehudah Halevi em Israel. Yehudah ben Samuel Halevi (em árabe transl. Abu-I-Hasan ibn Levi; Tudela, Navarra, c. 1070/75 - Jerusalém, c. 1141) foi um filósofo e médico judeu do Alandalus e, sobretudo, junto com Ibn Gabirol e Samuel ibn Nagrela, um dos poetas judeus mais excelsos da literatura hebraico-espanhola, inventor do gênero "sionida", no qual exprimia o amor pela lonjana Jerusalém; a sua obra poética foi tanto religiosa como profana.Literatura hebrea en la España medieval, página 55.

Biografia Os dados sobre a sua vida são difusos. Nascido em Toledo ou em Tudela;Encyclopedaedia Judaica "The question of Judah Halevi's birthplace is still unsolved. Schirmann (Tarbiz, 10 (1939),237-9) argued in favor of Tudela, rather than Toledo..." [pages 355-356] muito jovem, receberia o influxo da vida cultural da taifa de Saragoça, regida então pelos Banu Hude, e em cuja corte literária se encontravam intelectuais judeus, como Ibn Gabirol, ibn Yannah, Bahya ibn Paquda, Levi ibne Tabã, poetas e pensadores, e o botânico ibn Buklaris. A isso se tem de acrescentar que, simultaneamente a Ibn Nagrella em Granada, em Saragoça o cargo de vizir foi ocupado por judeus: Yekutiel ben Isaq (sob Almondir II) e Abu Alfadle ibne Hasdai (sob Amade Almoctadir, Iúçufe Almutamã e Almostaim II).

Rapaz ainda, para chegar à Andaluzia teve de atravessar Castela, donde lhe veio o amor pela língua castelhana. De Córdova deslocou-se a Granada, onde Moisés ibne Esdras ocupava um posto importante e mandou-o chamar. Os distúrbios políticos do Alandalus obrigaram-no a voltar à Castela cristã, assentando-se em Toledo, onde travou amizade com o magnata de Afonso VI, Yosef ibn Ferrusel, funcionário público de Afonso VI, que o protegeram; dessa época é a kharxa em romance escrita por ocasião da reconquista de Guadalajara em 1080. O emprego de versos da língua popular terminando uma composição literária era frequente no Alandalus entre os poetas arábigo-andaluzes.

Tendo sido discípulo de Isaque Alfaci, um dos mais famosos talmudistas do Alandalus,Literatura hebrea en la España medieval, pp. 121 e 122. conhecia em profundidade o Talmude, a literatura rabínica, a poesia árabe, a filosofia grega e a medicina.

Na sua estadia em Toledo escreveu um Divã, uma coleção de poemas profanos escritos em hebraico, nos quais fez um canto à amizade, ao amor e à natureza. Nesta obra incluiu também poemas religiosos, os quais posteriormente seriam empregues na liturgia judaica, nos quais expressa o seu anseio de Deus e Sião e a sua esperança na redenção messiânica do povo judeu. Escreveu também o Livro do Kazar, diálogo em árabe no que explica o judaísmo a um converso.

Após 1108 parece ter voltado para Córdova, quando o poderio almorávida se desmoronava. Apesar da situação pouco segura dos judeus, não quis regressar a Toledo, onde exercera a medicina entre os cristãos, e decidiu seguir a rota que marcara numa obra composta entre 1130 e 1145 na defesa do judaísmo; assim, partiu para a Terra Santa (1135-45?). Não é seguro, porém, que o autor de tantos suspiros por Sião chegasse ao seu destino. Vários anos ficou perto, no Cairo, festejado pelos notáveis judeus da cidade. A ideia de Yehudah assaltado e morto por um bandido às portas de Jerusalém enquanto recitava uma "sionida" não é mais que uma bela lenda; a sua morte foi datada entre 1161 e 1178.

A sua poesia É considerado como o melhor poeta medieval em língua hebraica. A sua obra poética é muito extensa, inspirando-se nos temas mais variados: o amor, a amizade e o mar. Do Divã escrito em Toledo conservam-se panegíricos, cantos de casamento, elegias e composições autobiográficas.

Poeta culto, autor duma poesia lírica rica em metáforas e descrições, na qual abundam as reflexões filosóficas e religiosas. Utiliza diversas métricas e estrofes. São famosas algumas das suas kharxas profanas escritas no nascente romance, no final das muwashshahas e de gueulot e ahavot de temática religiosa, entre as que se destaca Quesudá ou Hino da criação.

Também é famosa a sua descrição de uma tempestade no mar, quando viajava para o Egito. Foi o criador do gênero poético-religioso das "sionidas".

No seu pensamento confluem as civilizações hebraica, árabe e cristã, e representa a posição judaica ortodoxa frente às religiões cristã e muçulmana, mas também frente ao pensamento filosófico-teológico de origem grega.

A sua principal obra é o chamado Kuzari ou, no seu texto árabe original, Kitab alhuyya wa-l-dalil fi nusr al-din al-dalil, ou seja, Livro da prova e do fundamento sobre a defesa da religião menospreciada, escrito entre 1130-1140, e composto de cinco discursos. O nome dado ao livro, Kuzarí, é devido a que o autor apresenta na sua obra um rei pagão —o rei dos Cazares— que quer conhecer a verdadeira religião e que, após ter acudido a filósofos aristotélicos, a cristãos e a muçulmanos, apenas encontra a verdade nas fontes bíblicas do judaísmo, das quais já tinha ouvido, mas que somente um sábio judeu ortodoxo lhe revela em toda a sua verdade e integridade. Assim, faz uma apologia do judaísmo e do que chama "a verdadeira revelação" e, ainda sendo uma obra de caráter nomeadamente edificante e apologético, abundam nela os conceitos teológicos e filosóficos. Constitui um extraordinário compêndio de tradições orais e costumes semitas.

A facilidade de improvisação poética, a fundura do pensamento e do acendrado amor pelo judaísmo são as notas mais características de Yehudah.

Homem de caráter amável, destacava-se sua facilidade para compor versos de tema ou rima forçada; esta era uma habilidade estimada entre os árabes, que gostavam de organizar competições de improvisação nas suas tertúlias literárias, e igualmente o foi entre os judeus espanhóis, fortemente arabizados.

Durante o califado de Córdova, Dunas ben Labrat introduzira na poesia hebraica a métrica árabe e a temática profana, anacreôntica, da escola de Bagdade, chamada "moderna" para a distinguir da antiga beduína pré-islâmica. Nesta poesia "moderna" cantava-se a formosura masculina e feminina, a beleza das flores, a alegria do vinho e do prazer dos banquetes, e tem numerosas poesias hebraicas deste gênero, embora sem chegar à procacidade de alguns autores árabes, regra de moderação que em geral seguiram todos os poetas hispano-hebraicos.

Com o passar do tempo começam a abundar em Yehudah as elegias pelos amigos que falecem e impõem-se os temas filosóficos e religiosos. O gênero zuhd dos árabes, carregado de tópicos sobre o desprezo do mundo e do elogio do ascetismo, está em frase de Millás Vallicrosa, "entonado por uma emoção bíblica" e não falta a influência da poesia moral de Ibn Gabirol. O tema messiânico torna-se mais presente com a ocupação pelos cruzados de Jerusalém e a aparição em Córdova do falso messias Moseh Drai, em 1130, a data precisamente que sonhara Yehudah como a do começo da Idade messiânica, provavelmente influenciado pelo cientista Abraham bar Hiyya que a calculara para 1135. Um século depois, Nacmânides faria outro cálculo semelhante.

O amor a Sião levou a Yehudah a dirigir-se a Terra Santa e na sua viagem marítima compôs uma série de poesias sobre o mar. Chegado a Alexandria, encontrou excelente acolhida e, embora ao cabo de muito tempo prosseguiu a sua viagem até Damieta, ficou ali perto de dois anos e voltou para Cairo. A sua estadia no Egito reviveu nele o gosto pela poesia profana, que alternou com a de nostalgias por Terra Santa.

Gêneros poéticos Yehudah é o criador do gênero "sionida", poesia geralmente de modo cássida, na que manifesta um ardente desejo de se encontrar em Jerusalém. Cultivou também um gênero já existente, o da ahabah ou amor entre Deus, amante esposo, e do povo eleito, a amada ao jeito do Cantar dos Cantares. Entre outras poesias de caráter religioso, figuram também as de lamuria pelo desterro, geulah, e os hinos de louvor ao Criador. Nesse tipo de poesia sobressaíra Selomoh ibn Gabirol com a sua "Coroa real" (Kéter Malkut), imbuída de filosofia neo-platônica e conhecimentos astronômicos; Yehudah tem menos força filosófica e menos cienticismo, pois interessa mais a Bíblia que a Filosofia e as Ciências, mais vontade em linguagem poética e sentimento religioso, como no seu famoso "Hino da Criação", de uma perfeição clássica. O despego pela filosofia está patente na sua obra apologética intitulada Kuzari, na que frente do rei dos Cazares defendem as suas crenças respectivas um filósofo, um cristão, um muçulmano e um judeu, que será o que consegue convencer ao rei.

Obras sobre religião judaica Para Yehudah a prova da verdade da religião judaica não fica em razões filosóficas, mas nos fatos históricos da Revelação e os milagres feitos por Deus ao povo judeu, que possui a força divina impressa por Deus a Adão e que se foi transmitindo a um só homem de cada geração até chegar ao patriarca Jacó, que a transmitiu a todos os seus descendentes. Esta teoria era de origem muçulmana, não judeu, embora já fosse utilizada por Abraão bar Hiyya. Para os muçulmanos, a luz divina transmitiu-se de geração em geração até chegar a Maomé. Em última instância, o fundamento está na filosofia neo-platônica que defendia a emanação de substâncias espirituais diretamente do Um ou Deus. Kuzari foi escrito em árabe com o título de "Livro da prova e do fundamento sobre a defesa da religião desprezada", traduzido depois ao hebraico por Yehuda ibn Tibbon. Responde ao ambiente polêmico religioso medieval e é uma defesa da religião judaica, um canto da sua excelência sobre as demais, às que reconhece também coisas boas.

Obra

Antología poética. Traduzida do hebraico. Altalena Editores, S.A. Madrid, 1983. ISBN 84-7475-152-7 Lírica religiosa y cantos de Sión. Ed. EGA, S.L. Bilbao, 1993. ISBN 84-7726-088-5 Nueva antología poética. Traduzida do hebraico (tr. Rosa Castelo). Ed. Hiperión, S.L. Madrid, 1997. ISBN 84-7517-531-7 Poemas. Traduzida do hebraico (tr. Ángel Sáenz-Badillos e Judith Targorano) Ediciones Alfaguara, S.A. Madrid, 1994. ISBN 84-204-2817-5 Haizearen hegaletan Traduzida do basco, original em hebraico (tr. Xabier Kintana) Real Academia da Língua basca=Euskaltzaindia. Bilbao, 2002. ISBN 84-95438-07-0 Poesia hispanohebraica Tudelana. (Yehuda ha-Levi e Abraão b. Meir Ibn Ezra) Ediciones y Libros, S.A. Pamplona, 2003. ISBN 84-85112-99-7 Cuzary : livro da prova e da demonstração na defesa da religião menospreciada. Traduzida do hebraico (tr. Nuria Garcia i Amat e Albert Soriano i Blasco). Ediciones Indigo. Barcelona, 2001 ISBN 84-89768-51-X

Bibliografia KAHN, Máximo José e Gil-Albert, Juan. Yehudá Halevi Ediciones Júcar. Gijón, 1987 ISBN 84-334-3063-7 MILLÁS VALLICROSA, José María . Yehudá Ha-Levi como poeta y apologista Consejo Superior de Investigaciones Científicas. Madrid, 1947 (ISBN 84-00-00747-6)

Ver também Kuzari

Ligações externas Cuzary (traduzido por Jacob Abendana) Obra no Centro Virtual Cervantes. Judah ha-Levi na Enciclopédia judaica Jarchas de Yehudah Halevi.

Categoria:Judeus do Alandalus Categoria:Filósofos do Alandalus Categoria:Poetas do Alandalus Categoria:Médicos do Alandalus Categoria:Poetas do judaísmo Categoria:Naturais de Tudela Categoria:Espanhóis do século XII