Gana Zona foi uma liderança dos Palmares, documentada na segunda metade da década de 1670. A crônica de 1678 sobre as guerras contra Palmares o apresenta como "irmão" de Gana Zumba e como governante da Cerca de Subupira, então descrita como a segunda cidade dos Palmares. Os laços de parentesco registrados pelas fontes integravam a organização política e militar palmarina; segundo a historiadora Silvia Hunold Lara, não é possível determinar em todos os casos se eram relações consanguíneas ou se exprimiam também posições de uma hierarquia linhageira de matriz centro-africana.
Em 1678, Gana Zona aderiu ao acordo de paz negociado entre parte das lideranças de Palmares e as autoridades de Pernambuco. Cerca de 300 a 400 pessoas provenientes de pelo menos três mocambos, lideradas por Gana Zumba e Gana Zona, deslocaram-se para Cucaú. Em novembro daquele ano, o governador Aires de Sousa de Castro dirigiu-lhe correspondência no contexto das negociações, contando com sua intermediação para tentar obter a adesão de Zumbi ao acordo.
Palmares e Subupira
A crônica de 1678 descreve Palmares como uma rede de assentamentos subordinados a uma estrutura política encabeçada por Gana Zumba. Nessa descrição, Gana Zona governava Subupira, apresentada como a segunda cidade dos Palmares. O assentamento era fortificado com madeira e pedras, possuía mais de 800 casas e se estendia por quase uma légua.
A posição de Gana Zona fazia parte de uma rede na qual relações de parentesco e funções políticas e militares estavam interligadas. A crônica identifica Gana Zona como irmão de Gana Zumba, enquanto outras lideranças são apresentadas como filhos, sobrinhos ou outros parentes do governante. Lara observa que essa rede tinha uma dimensão política: filhos e irmãos de Gana Zumba participavam de embaixadas, falavam em seu nome e ocupavam posições de destaque na hierarquia dos Palmares.
Em 1677, as tropas comandadas por Fernão Carrilho atingiram vários dos principais assentamentos de Palmares. Depois da invasão da cerca real, Gana Zumba retirou-se para Subupira; esta também foi atacada, obrigando-o a prosseguir para o mocambo do Amaro. A campanha provocou mortes e capturas entre parentes de Gana Zumba e outras lideranças palmarinas e antecedeu as negociações de paz do ano seguinte.
Acordo de 1678 e Cucaú
As negociações entre parte das lideranças de Palmares e o governo de Pernambuco resultaram, em junho de 1678, num acordo que previa a instalação dos palmarinos que o aceitassem numa área de Cucaú. Cerca de 300 a 400 habitantes de pelo menos três mocambos deslocaram-se para a nova povoação sob a liderança de Gana Zumba e Gana Zona.
Gana Zona participou diretamente das relações diplomáticas que se seguiram. Entre as cartas registradas pela secretaria do governo de Pernambuco encontra-se uma dirigida a ele por Aires de Sousa de Castro em 12 de novembro de 1678. Lara observa que essa correspondência seguia as formas utilizadas no diálogo entre autoridades e evidencia o reconhecimento, pelo governo colonial, da hierarquia política e militar palmarina.
Nem todas as lideranças de Palmares aceitaram o acordo. Zumbi e outros habitantes permaneceram nos mocambos, e o governo de Pernambuco procurou inicialmente obter sua adesão. Segundo a historiadora Laura Peraza Mendes, Aires de Sousa de Castro contou com Gana Zona como intermediário para tentar convencer Zumbi a participar da paz. Gana Zona chegou a negociar com ele, mas não conseguiu obter sua adesão; posteriormente, participou da retomada das ações contra os palmarinos que haviam permanecido fora de Cucaú.
Nome
As fontes seiscentistas apresentam numerosas variantes do nome. O projeto Documenta Palmares, da Universidade Estadual de Campinas, adota a forma Gana Zona e registra, entre as grafias encontradas na documentação, Anganazona, Enganazona, Gana Sona, Ganasona, Ganazomba, Ganosona e Gangazona; Ganga Zona e Gangazona são indicadas como formas difundidas pela historiografia.
Laura Peraza Mendes emprega igualmente Gana Zona, explicando que essa forma, assim como Gana Zumba, aparece em documentos produzidos por pessoas que mantinham contato mais próximo com as lideranças de Palmares. Segundo a historiadora, as grafias Gangazona e Gangazumba, predominantes em boa parte da bibliografia, foram cristalizadas a partir da leitura da versão da crônica de 1678 publicada pela Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro em 1859, com transcrição parcialmente deficiente.
Bibliografia
Categoria:Quilombolas dos Palmares