thumb|upright=1|Rota da via Egnácia

Via Egnácia (; ; ) foi uma estrada construída pelos romanos por volta do , na península Balcânica. Atravessava as províncias romanas do Ilírico, Macedônia e Trácia, territórios que hoje fazem parte dos estados contemporâneos da Albânia, Macedônia, Grécia e Turquia europeia. A partir de Dirráquio (atual Durrës), no mar Adriático, a estrada seguia um caminho difícil ao longo do rio Genuso (Shkumbin), acompanhando as montanhas Candávias (Jablanica), e daí para as terras altas ao redor do lago de Ócrida. Em seguida, virava para o sul, atravessando grandes montanhas até chegar ao litoral norte do mar Egeu em Salonica. De lá, percorria a Trácia até Bizâncio (depois Constantinopla, hoje Istambul), cobrindo uma distância total de cerca de quilômetros (746 milhas romanas).

A via teve grande importância militar para os romanos e foi utilizada por legiões romanas durante as campanhas militares da Guerra Civil Cesariana, Guerra Civil dos Liberatores e na perseguição de Cássio e Bruto que culminou na batalha de Filipos. Após o , caiu em desuso e por alguns períodos sua conservação era deficiente porém foi revivida pelo Império Bizantino tornando-se a principal rota comercial com a Europa Oriental. Após um período de indisponibilidade durante os séculos VI e VII devido a invasão dos povos eslavos, voltou a ser utilizada depois do , constituindo num importante caminho militar que incluiu as campanhas das Cruzadas e das invasões ocidentais ao Império Bizantino durante as guerras bizantino-normandas. Permaneceu em uso regular até ao menos o , quando restringiu-se ao trecho Salonica-Constantinopla. Foi totalmente conquistada durante o expansão otomana pelos Bálcãs e tornou-se a principal rota terrestre turca naquela zona.

Construção thumb|esquerda|upright=0.9|Trecho próximo a Neápolis (atual Cavala) thumb|esquerda|upright=0.9|Ponte romana em Filipos. Os pavimentos à direita eram da via Egnácia

As principais fontes literárias sobre a construção da estrada são a obra Geografia de Estrabão e uma série de marcos miliários encontrados ao longo da rota. Segundo o lexicógrafo do William Smith, em seu tempo o meio acadêmico, especialmente alguns topógrafos italianos, estabeleceu, sem qualquer prova, que teria sido construída por um indivíduo chamado Egnácio, o fundador epônimo da cidade de Egnácia/Gnácia na costa da Apúlia. Essa conjectura, no entanto, foi suplantada pelos dados obtidos nas inscrições bilíngues dos marcos miliários, que atribuem a construção a Cneu Egnácio, procônsul da Macedônia, apesar da data exata ser incerta; presume-se que a via tomou emprestado o nome de seu construtor. Pode ter sucedido uma antiga estrada militar que ia da Ilíria até Bizâncio, descrita por Políbio e Cícero, a qual os romanos aparentemente reformaram e/ou construíram a nova rota aproveitando o trajeto da anterior. Como outras grandes estradas romanas, possuía cerca de seis metros de largura e era pavimentada com grandes lajes de pedra ou poligonais cobertas com uma camada dura de areia.

A via Egnácia, construída provavelmente nos anos , foi projetada para servir como rota militar dado que a Macedônia era deficitária duma via eficiente para transporte de soldados e suprimentos. Sua parte ocidental foi aberta por volta de , quando a região tornar-se-ia uma província romana, e em Políbio a mencionou em suas histórias; antes de sua construção, as comunicações através da Macedônia se davam por estradas menores que percorriam as montanhas, havendo uma que ligava Salonica, na Calcídica, a Dirráquio (atual Durrës), no mar Adriático. Originalmente seu terminal leste era Salonica, enquanto no oeste eram Dirráquio e Apolônia; tempos depois, foi estendida 10 milhas para leste até Cípsela. Segundo Estrabão citando Políbio, o trajeto entre Dirráquio e Salonica equivalia 267 milhas romanas (ca. 400 km). Os terminais das vias Egnácia e Ápia (Brundísio), que levavam à própria Roma, ficavam quase em frente um do outro nas costas leste e oeste na travessia do mar Adriático. O caminho, portanto, deu às colônias dos Bálcãs do sul uma ligação direta até Roma.

thumb|upright=0.6|Um dos marcos miliários bilíngues da via Egnácia datado do

Em seu percurso original contou com 535 milhas romanas ou 4280 estádios. A partir de seu terminal ocidental, seguia um caminho difícil ao longo do rio Genuso (atual Shkumbin), acompanhando as montanhas Candávias (Jablanica), e daí para as terras altas ao redor do lago de Ócrida. Em seguida, virava para o sul, atravessando grandes montanhas até chegar ao litoral norte do mar Egeu; neste trecho, passava através das mais importantes cidades da Macedônia: Licnido, Heracleia Linceste (atual Bitola), Florina, Edessa, Pela, Salonica, Anfípolis, Filipos e Neápolis (atual Cavala). Quando os romanos começaram a enviar seus exércitos em direção à Trácia, um novo trecho foi aberto, ligando Cípsela a Heracleia Perinto (atual Marmara Ereğlisi) e Bizâncio, no Bósforo, o que ampliou-a em . Além destas, novas cidades foram fundadas em seu percurso: Trajanópolis, Claudiana (atual Pequini), Mânsio Escampa (atual Elbasani), Melântias.

Com o tempo, a medida que Egnácia adquiriu mais importância, principalmente econômica, pousadas, correios, estábulos, restaurantes e outros estabelecimentos necessários foram construídos para agilizar a passagem de expedições oficiais e atender aos viajantes. Porém, mesmo com estes recintos, as viagens não foram sempre fáceis. Durante o inverno, o clima tornava quase impraticável seu uso, o banditismo era frequente e durante ações militares, os civis foram proibidos de usá-la. Além disso, não era reparada com muita frequência uma vez que os proprietários de terra, que eram responsáveis pela manutenção dos trechos pertencentes às suas propriedades, frequentemente preferiam descumprir seu dever. Isto levou de tempos em tempos a uma intervenção do governo, porém, mesmo sob seus auspícios, foi neglicenciada em alguns períodos como, por exemplo, durante as guerras civis romanas.

História Período romano-bizantino thumb|esquerda|Constantinopla, o terminal oriental da via Egnácia

A estrada foi usada pelo apóstolo Paulo em sua segunda viagem missionária para ir de Filipos a Salonica (Atos 16-17). Também desempenhou um papel vital em vários momentos-chave na história romana: os exércitos de Júlio César e Pompeu marcharam ao longo dela durante a Guerra Civil Cesariana e, durante a Guerra Civil dos Liberatores, Marco Antônio e Otaviano perseguiram Cássio e Bruto ao longo da Via Ápia até o fatídico encontro na batalha de Filipos. Com base nas evidências coletadas nos marcos miliários sobreviventes, alguns deles datando de depois do reinado do imperador , Trajano coordenou extensos reparos antes de sua campanha em 113 contra os partas e durante o reinado de e Valente novos reparos foram feitos; são os últimos relatados nestas fontes. O historiador Peter Heather presume que as tropas de Graciano tenham utilizado-a em 381 para repelir os tervíngios de Fritigerno que desde o ano anterior estavam saqueando a Diocese da Macedônia.

Por volta do , a estrada tinha caído em desuso em grande parte como resultado da instabilidade na região; um historiador deste século observou que as seções ocidentais estavam num estado tão precário que itinerantes mal conseguiam passar. Neste momento, os Bálcãs foram por diversas vezes ameaçados e pilhados por exércitos bárbaros, principalmente ostrogóticos. Em 473, Teodorico Estrabão, à época em revolta contra o imperador , moveu-se livremente pelas cidades de Egnácia, incendiando os subúrbios de Filipos (ou Filipópolis) e ocupando Arcadiópolis. No mesmo ano, o rei Teodomiro e seu filho lançaram uma campanha na região, dominando vários territórios. Em 479, após realizar um ataque infrutífero a Salonica, Teodorico, o Grande marchou com seu povo por Egnácia em direção a Heracleia Linceste. Após permanecer algum tempo na cidade, retornou pela Via Egnácia em direção a Dirráquio, que fora desocupara por intermédio de Sidimundo, sitiou Licnido e capturou Mânsio Escampa. Em 481, Estrabão, após tentar sem sucesso invadir Constantinopla, utilizou-se de Egnácia para locomover-se em direção ao interior, provavelmente almejando alcançar Teodorico, o Grande em Dirráquio.

thumb|upright=0.9|Denário de Trajano thumb|upright=0.9|Soldo de Justiniano

Nos anos posteriores, foi revitalizada como um caminho fundamental do Império Bizantino. Procópio registra reparos feitos pelo imperador Justiniano no , inclusive alegando que foi o primeiro a pavimentar o trecho secundário entre Hebdomo, um dos subúrbios de Constantinopla, e Régio. Apesar disso, o caminho ainda era praticamente inutilizável durante o tempo chuvoso. Nota-se, por meio de evidências residuais, que muitas de suas instâncias seguiram o padrão dos assentamentos locais e foram fortificadas.

Quase todo o comércio bizantino por terra com a Europa Ocidental viajava por ela. Ela atravessava a península Balcânica lateralmente de Constantinopla para o mar Adriático, através de Salonica e Edessa. A estrada continuou a ser usada durante todo o período bizantino como uma das principais estradas de e para o Ocidente, porém sua importância oscilou com o tempo. A partir do séculos VI-VII, várias porções dos Bálcãs foram tomadas pelos eslavos, o que impossibilitou seu uso. No , o tráfico pela via Egnácia voltou a ser possível, ao menos no trecho entre Constantinopla e Salonica, como atestado pela jornada de São Gregório de Decápolis no começo dos anos 830. Embora não seja possível determinar qual dentre as rotas em direção a Constantinopla a delegação de para ou o legado do para o Quarto Concílio de Constantinopla tomaram, é certo que na viagem de volta à Europa Ocidental ambos percorreram o trajeto completo da via Egnácia.

Nos séculos XI-XII, foi outra vez completamente aberta para o trânsito de exércitos e civis havendo, por exemplo, o registro que a noiva de , Berta de Sulzbach , usou-a para ir até Constantinopla. Durante as guerras bizantino-normandas, ela mostrou-se de considerável importância para os invasores, já que dava-lhes acesso facilitado ao coração do Império Bizantino. Em 1081, os normandos de Roberto Guiscardo atacaram Dirráquio, conseguindo uma esmagadora vitória contra o exército do recém-coroado imperador . No rescaldo, projetaram marchar ao longo dela rumo Constantinopla. Em 1185, Guilherme II da Sicília , após saquear Dirráquio e usar a via Egnácia, marchou para Salonica que foi capturada e saqueada.

thumb|upright=0.9|esquerda|Hipérpiro de em celebração da retomada da capital thumb|upright=0.9|esquerda|Tornês de (r. 1341-1376; 1379-1391) e

Durante as Cruzadas, os exércitos que trafegaram para leste por terra seguiram o caminho para Constantinopla antes de cruzar para a Anatólia. Na sequência da Quarta Cruzada, seu controle era vital para a sobrevivência do Império Latino, bem como para os estados sucessores bizantinos: o Império de Niceia e o Despotado do Epiro. No , após a retomada de Constantinopla em 1261 por Aleixo Estrategópulo e o restabelecimento do Império Bizantino sob nos territórios antes pertencentes aos latinos, a via Egnácia novamente integralmente fez parte dum único Estado. Nessa época, , visando restabelecer o domínio latino no Oriente, conseguiu conquistar, com o apoio dos nobres albaneses, várias cidades costeiras bizantinas em 1272 e Dirráquio em 1274. Todavia, falhou em conquistar Belegrada, uma importante fortaleza regional, durante o cerco de 1280-1281.