Os curaizaítas () eram uma das três principais tribos judaicas de Iatrebe, ao lado dos nadiritas e dos cainucaítas. De origem incerta e amplamente arabizados, habitavam o sudeste da cidade, onde possuíam assentamentos fortificados e se dedicavam sobretudo à agricultura e ao comércio. Tradicionalmente aparentados aos nadiritas, eram aliados dos aucitas e combateram ao lado deles na Batalha de Buate, pouco antes da Hégira. Após a chegada de Maomé a Medina, os curaizaítas mantiveram relações com a nova comunidade muçulmana, embora a natureza dos compromissos estabelecidos entre as partes seja objeto de diferentes interpretações.

Durante a Batalha da Trincheira, em 627, quando os coraixitas e seus aliados cercaram Medina, os curaizaítas foram acusados de colaborar com a coalizão inimiga. As fontes muçulmanas relatam que inicialmente recusaram as propostas dos sitiantes, mas posteriormente entraram em negociações com eles. Logo após a retirada da coalizão, Maomé sitiou os curaizaítas durante cerca de vinte e cinco noites, até sua rendição. O destino da tribo foi submetido à decisão de Sade ibne Muade, chefe dos aucitas, que, segundo a tradição, determinou a execução dos homens adultos, a escravização das mulheres e crianças e a distribuição dos bens. As fontes tradicionais apresentam números divergentes para os executados, geralmente situados entre 600 e 900, e a extensão da execução foi posteriormente questionada por alguns estudiosos. Entre as mulheres capturadas estava Raiana binte Zaíde, que passou a integrar a casa de Maomé.

História

Origens

thumb|A tomada da fortaleza dos curaizaítas, numa ilustração da autoria de Muhammad Rafi' Bāzil da obra , publicada em 1808 thumb|Maomé, Ali e os companheiros executam os prisioneiros curaizaítas numa ilustração de um texto do de Muhammad Rafi Bazil (Biblioteca Britânica)

Os curaizaítas constituíam uma das três principais tribos judaicas de Iatrebe, ao lado dos nadiritas e dos cainucaítas. Sua origem é incerta. Segundo Watt, não se sabe se descendiam de refugiados hebreus que se estabeleceram na região ou de árabes convertidos ao judaísmo. Embora permanecessem ligados à religião judaica, encontravam-se amplamente arabizados, tendo adotado numerosas práticas árabes e realizado casamentos com árabes. Seus membros portavam tanto nomes judaicos quanto árabes, falavam árabe e utilizavam caracteres hebraicos na escrita. Uma tradição genealógica fazia os curaizaítas descenderem de Aarão através de e apresentava os nadiritas como seus parentes. Gottheil e Hirschfeld também registram a tradição segundo a qual os curaizaítas, assim como os nadiritas, descendiam principalmente de Aarão. Os curaizaítas habitavam uma região plana no sudeste de Medina, onde se dedicavam à agricultura, especialmente ao cultivo de palmeiras e cereais, e ao comércio. Gottheil e Hirschfeld situam seus assentamentos em , e Buate, a leste de Medina, e mencionam também posições fortificadas pertencentes à tribo nas proximidades.

Viviam em casas fortificadas de vários pavimentos conhecidas como . Segundo Watt, cada uma das quinze subdivisões da tribo possuía seu próprio utum ou fortificação. Gottheil e Hirschfeld registram ainda um episódio situado no final do , quando vários judeus proeminentes de Medina, em sua maioria aparentemente curaizaítas, teriam sido mortos. O acontecimento teria sido preservado numa elegia atribuída a , uma mulher da tribo. Os grupos judaicos parecem ter exercido anteriormente domínio político sobre os habitantes árabes de Iatrebe, mas perderam essa posição após a chegada dos aucitas e cazerajitas, embora tenham conservado certo grau de independência. Os curaizaítas estabeleceram relações de aliança com os aucitas. Na Batalha de Buate, pouco antes da Hégira, eles e os nadiritas apoiaram os aucitas contra os cazerajitas, que por sua vez contavam com o apoio dos cainucaítas. Por volta da Hégira, contudo, curaizaítas e nadiritas já não parecem ter formado um bloco político unido.

Relações com Maomé

Após a Hégira de Maomé para Medina, Avcı inclui os curaizaítas, na condição de aliados dos aucitas, entre os grupos abrangidos pelo acordo tradicionalmente conhecido como Constituição de Medina. Segundo essa interpretação, o acordo garantia-lhes a vida, os bens e a liberdade religiosa, ao mesmo tempo que estabelecia obrigações relacionadas à defesa de Medina e impedia alianças com os coraixitas e outros inimigos dos muçulmanos. Watt, entretanto, observa que a forma preservada da Constituição de Medina não menciona nominalmente os curaizaítas, assim como não menciona os nadiritas ou os cainucaítas. Considera praticamente certo que existisse um acordo geral entre Maomé e os judeus, pelo qual estes se comprometiam a não apoiar seus inimigos, mas julga preferível não supor a existência de um acordo específico entre Maomé e os curaizaítas. A tradição posterior atribui a , que teria agido em nome dos curaizaítas, a celebração de um acordo com Maomé e seu posterior rompimento durante a Batalha da Trincheira. Watt observa, porém, que Ibne Isaque aparentemente desconhecia esse acordo. Outra versão, transmitida por Aluaquidi, associa o compromisso a , relato que Watt também considera suspeito de parcialidade contra os curaizaítas. Gottheil e Hirschfeld apresentam interpretação diferente, segundo a qual Maomé acusou os curaizaítas de traição como pretexto para atacá-los.

Depois da expulsão dos nadiritas de Medina, alguns de seus membros estabelecidos em Caibar, entre eles , participaram dos esforços para formar uma coalizão contra Maomé. Durante a Batalha da Trincheira, em Dulcada de 5 A.H. (abril de 627), os aliados de Coraixe cercaram Medina. Segundo Avcı, Huiai procurou convencer os curaizaítas a aderir à coalizão; eles inicialmente recusaram, mas acabaram aceitando. Watt afirma que Maomé ficou preocupado com a conduta da tribo e enviou alguns de seus principais seguidores para conversar com seus membros. Embora, segundo ele, os curaizaítas não pareçam ter praticado qualquer ato abertamente hostil, provavelmente mantiveram negociações com os sitiantes. Avcı atribui ainda papel importante a , dos gatafanitas, que se converteu ao islã durante o cerco. A pedido de Maomé, Nuaime teria conversado separadamente com os curaizaítas e com os membros da coalizão, contribuindo para despertar desconfiança entre eles. Com o agravamento das condições meteorológicas e o fracasso do cerco, as forças confederadas acabaram se retirando de Medina.

Cerco e rendição

Depois da retirada dos sitiantes, Maomé dirigiu-se contra os curaizaítas e cercou suas fortificações. Segundo Watt, o cerco prolongou-se por vinte e cinco noites. Os curaizaítas permaneceram em suas fortalezas na expectativa de receber auxílio dos árabes que haviam participado da coalizão. Gottheil e Hirschfeld relatam que propôs uma surtida durante a noite de sábado, mas os membros da tribo recusaram-se a realizá-la. Segundo os mesmos autores, alguns curaizaítas teriam se convertido ao islã durante o cerco. Entre eles estaria uma mulher que tentou converter o marido, mas este rejeitou sua tentativa e, num poema que teria sido preservado, exortou-a a retornar à antiga fé. Após negociações, a tribo concordou em se render incondicionalmente. Como os curaizaítas eram antigos aliados dos aucitas, estes solicitaram que fossem tratados de maneira semelhante aos cainucaítas, cuja expulsão havia ocorrido após a intervenção de Abedalá ibne Ubai. Maomé propôs então que a decisão sobre o destino da tribo fosse confiada a Sade ibne Muade, chefe dos aucitas, e a proposta foi aceita. Segundo a tradição, Sade determinou que os homens adultos fossem executados, as mulheres e crianças reduzidas à escravidão e os bens distribuídos. A decisão foi então executada em Medina. As fontes apresentam números diferentes para os homens mortos, situando-os, segundo Watt, entre cerca de 600 e 900, enquanto Gottheil e Hirschfeld mencionam especificamente 750 executados.

Gottheil e Hirschfeld incluem entre os mortos o rabino , dos nadiritas, e registram que o destino dos executados foi lamentado em versos pelo poeta judeu . Watt menciona, contudo, a contestação de W. N. Arafat à narrativa segundo a qual todos os homens teriam sido executados, considerando os argumentos apresentados por ele bem fundamentados, embora não inteiramente convincentes. Registra também que três jovens que haviam permanecido nas fortificações com os curaizaítas escaparam antes da rendição e que um ou dois outros homens igualmente sobreviveram. As mulheres e crianças foram incluídas no butim, juntamente com os bens da tribo. Segundo Gottheil e Hirschfeld, as crianças cativas foram convertidas ao islã e numerosos judeus pagaram resgate pelas mulheres capturadas, aumentando o valor obtido pelos muçulmanos com o butim. Entre as mulheres estava Raiana binte Zaíde, que coube a Maomé. Watt afirma que Maomé a tomou como concubina, embora também exista a tradição de que ela se converteu ao islã. Gottheil e Hirschfeld apresentam uma versão diferente, segundo a qual Raiana se casou com Maomé, permaneceu judia durante algum tempo e posteriormente adotou o islã. Alguns indivíduos ligados à tribo sobreviveram e aparecem posteriormente na tradição islâmica. Entre eles destacou-se , que alcançou reputação como erudito.

Bibliografia

Categoria:Curaizaítas