Viés de confirmação, também chamado de viés confirmatório ou de tendência de confirmação,Este artigo é uma tradução de seu equivalente na Wikipédia anglófona. Na maioria das vezes, as palavras em inglês "bias" e "biased" foram traduzidas para o português, respectivamente, como "viés" e "tendencioso(a)". "Bias" não foi traduzido como "tendência" pois o termo soaria demasiadamente vago, e "biased" não foi traduzido como "enviesado" pois o termo soaria demasiadamente não familiar aos ouvidos, ou até mesmo cacofônico, a depender do leitor. é a tendência de se lembrar, interpretar ou pesquisar por informações de maneira a confirmar crenças ou hipóteses iniciais. Também se aplica quando se concorda com uma frase usada anteriormente mas reapresentada com uma nova roupagem, gerando um tipo de viés cognitivo e um erro de raciocínio indutivo. As pessoas demonstram esse viés quando reúnem ou se lembram de informações de forma seletiva, ou quando as interpretam de forma tendenciosa. Tal efeito é mais forte em questões de forte carga emocional e em crenças profundamente arraigadas. As pessoas também tendem a interpretar evidências ambíguas de forma a sustentar suas posições já existentes. Os conceitos de pesquisa, interpretação e memória tendenciosas foram propostos para explicar a polarização de atitudes (quando uma divergência se torna mais extrema ainda que as diferentes partes sejam expostas à mesma evidência), as crenças persistentes (quando crenças persistem mesmo após suas evidências serem demonstradas falsas), o efeito irracional de primariedade (uma maior confiança em informações encontradas antes de outras em uma série) e a correlação ilusória (quando falsas associações entre dois eventos ou situações são identificadas).
Uma série de experimentos nos anos 60 sugeriu que as pessoas são tendenciosas de forma a confirmar suas crenças preexistentes. Trabalhos posteriores reinterpretaram esses resultados como uma tendência a testarmos ideias de forma unilateral, focando em uma possibilidade e ignorando alternativas. Em certas situações, essa tendência pode enviesar as conclusões das pessoas. Explicações para os vieses observados incluem o wishful thinking e a capacidade limitada que os seres humanos têm de processar informações. Outra explicação é que as pessoas demonstrem o viés de confirmação por estarem pesando os custos de estarem errados em vez de fazerem uma investigação neutra e científica.
O viés de confirmação contribui com um excesso de confiança em crenças pessoais e pode manter ou reforçar crenças em face de evidência contrária. Más decisões por conta de tais vieses são encontradas em contextos políticos e administrativos.Tuchman, Barbara (1984). The March of Folly: From Troy to Vietnam. New York: Knopf.Tuchman (1984)
Tuchman (1984) descreveu uma forma de viés de confirmação presente no processo de justificação das políticas com as quais um governo tenha se comprometido: "Uma vez que uma política tenha sido adotada e implementada, toda atividade subsequente se torna um esforço para justificá-la" (p. 245).
Em uma discussão sobre a política que empurrou os Estados Unidos para a Guerra do Vietnam e manteve seu exército ali por 16 anos apesar de incontáveis evidências de que essa era uma causa perdida desde o começo, Tuchman argumentou:
Estultícia, argumenta, é uma forma de autoengano caracterizada pela "insistência em uma noção enraizada independentemente de evidências contrárias". (p.209)
Tipos Vieses de confirmação são efeitos do processamento de informações. Eles se diferem do que é por vezes chamado de efeito de confirmação comportamental, comumente conhecido como profecia autorrealizável, na qual as expectativas de uma pessoa influenciam seu comportamento, o qual ajuda a causar o resultado esperado pela pessoa.
Alguns psicólogos restringem o termo viés de confirmação à reunião seletiva de evidências que sustentam o que uma pessoa já acredita enquanto se ignoram ou se rejeitam evidências que sustenta uma conclusão diferente. Outros psicólogos aplicam o termo de forma mais ampla, referindo-se à tendência a se preservar crenças preexistentes não somente na pesquisa por evidências, mas também na interpretação delas e em sua recordação por memória."Viés de assimilação" é outro termo utilizado para a interpretação tendenciosa.
Pesquisa tendenciosa
Experimentos têm revelado repetidamente que as pessoas tendem a testar hipóteses de forma unilateral, pesquisando por evidências que sejam consistentes com sua hipótese atual. Em vez de pesquisarem por toda evidência que seja relevante, elas formulam questões de forma a receberem uma resposta afirmativa, que sustente suas hipóteses. Elas procuram pelas consequências que esperariam caso a hipótese delas seja verdadeira, em vez de procurarem saber o que aconteceria no caso da hipótese ser falsa. Por exemplo, uma pessoa que possa utilizar apenas perguntas de sim/não para encontrar um número, suspeitando que o número seja 3, irá preferir perguntar "É um número ímpar?" a perguntar "É um número par?". As pessoas preferem o primeiro tipo de questão, chamado "teste positivo", mesmo que o segundo tipo de questão lhe proveja a mesma informação. Entretanto, isso não significa necessariamente que as pessoas procurem testes que garantam uma resposta positiva. Em estudos onde os sujeitos podiam escolher entre pseudo-testes como esse ou testes diagnósticos genuínos, eles preferiram os diagnósticos genuínos.
A preferência por testes positivos em si não é um viés, dado que testes positivos podem ser altamente informativos. Contudo, em combinação com outros efeitos, essa estratégia pode confirmar crenças ou assunções preexistentes, independentemente de serem ou não verdadeiras. Em situações reais, evidências são comumente complexas e misturadas. Por exemplo, várias ideias contraditórias sobre uma pessoa podem ser cada uma sustentada com foco em um aspecto do comportamento dela. Assim, qualquer pesquisa por evidências em favor de uma hipótese está propensa a ter sucesso. Algo que ilustra isso é a maneira como a formulação de uma pergunta pode alterar sua resposta consideravelmente. Por exemplo, pessoas que sejam perguntadas "Você é feliz com sua vida social?" relatam uma satisfação maior que aquelas perguntadas "Você é infeliz com sua vida social?" via
Mesmo uma pequena diferença na escolha das palavras com que uma pergunta é feita é capaz de afetar como as pessoas pesquisam pelas informações disponíveis e, portanto, as conclusões às quais elas chegam. Isso foi demonstrado através de um caso fictício sobre a custódia de uma criança. Os participantes leram que um dos pais (A) era moderadamente adequado em múltiplas formas para ter a guarda, enquanto o outro (B) tinha uma mistura de qualidades consideravelmente negativas ou positivas (uma relação próxima com a criança mas um emprego que o manteria distante por longos períodos). Quando perguntados qual dos pais deveria ter a guarda da criança, a maioria dos participantes escolheu o segundo (B), procurando principalmente por atributos positivos. Entretanto, quando perguntados a qual deles deveria ser negada a guarda da criança, eles procuraram por atributos negativos e responderam que o segundo (B) deveria ter a guarda negada, implicando que o primeiro (A) era quem deveria ter a guarda. via
Estudos similares demonstraram como as pessoas se envolvem em uma busca tendenciosa por informações, mas também que esse fenômeno pode ser limitado por uma preferência por testes diagnósticos genuínos. Em um experimento inicial, os participantes avaliaram outra pessoa quanto à extroversão/introversão deles com base em uma entrevista. Eles escolheram as perguntas da entrevista através de uma lista. Quando os entrevistados eram apresentados como introvertidos, os participantes escolhiam questões que presumiam introversão, como "O que você acha incômodo em festas barulhentas?". Quando o entrevistado era descrito como extrovertido, quase todas as questões presumiam extroversão, como "O que você faria para dar mais vida a uma festa monótona?". Questões carregadas dessa forma davam aos entrevistados pouca ou nenhuma oportunidade para demonstrar falsa a hipótese que os participantes já tinham de antemão a respeito deles. via Em uma versão posterior do experimento, era menor presunção carregada nas questões que os participantes recebiam para escolher, como "Você se esquiva de interações sociais por conta de timidez?" Os participantes então preferiram fazer perguntas de teor mais diagnóstico como essa, demonstrando apenas um leve viés pelos testes positivos. Esse padrão — de uma preferência por testes diagnósticos e uma leve preferência por testes positivos — já foi reproduzido em outros estudos.
Traços de personalidade também influenciam e interagem com os processos de pesquisa tendenciosa. Diferentes indivíduos variam em relação à exposição seletiva quanto às suas habilidades em defenderem suas atitudes de ataques externos. A exposição seletiva ocorre quando indivíduos procuram especificamente por informações que sejam consistentes, em vez de inconsistentes, com suas crenças pessoais. Um experimento examinou até que ponto indivíduos eram capazes de refutar argumentos que contradiziam suas crenças pessoais. Pessoas com altos níveis de confiança procuram com menos relutância informações contraditórias a suas posições pessoais para construírem um argumento. Indivíduos com baixos níveis de confiança não vão atrás de informações contraditórias e preferem informações que sustentem suas posições pessoais. As pessoas geram e avaliam evidências em argumentações com vieses em favor de suas próprias crenças. Altos níveis de confiança reduzem a preferência por informações quem sustentem as crenças pessoais de um indivíduo.
Em outro experimento, os participantes receberam uma complexa tarefa que envolvia objetos em movimento simulados por um computador para que eles descobrissem as regras de associação. Os objetos na tela do computador seguiam leis específicas, as quais os participantes tinham que descobrir. Os participantes podiam, então, disparar objetos através da tela para testarem suas hipóteses. Apesar de muitas tentativas em uma sessão de dez horas, nenhum dos participantes descobriu as regras do sistema. Eles tipicamente tentavam confirmar — em vez de refutar — suas hipóteses, e eram relutantes em considerar alternativas. Mesmo depois de verem evidências objetivas que refutavam suas hipóteses, com frequência continuavam realizando os mesmos testes. Um teste de hipóteses adequado foi ensinado a alguns participantes, mas tais instruções não tiveram quase efeito algum.
Interpretação tendenciosa
Vieses de confirmação não são limitados à reunião de evidências. Mesmo que dois indivíduos tenham a mesma informação, a maneira como eles a interpretam pode ser tendenciosa.
Uma equipe conduziu na Universidade de Stanford um experimento envolvendo participantes com forte opinião sobre a pena de morte, sendo metade a favor e metade contra. Cada participante leu as descrições de dois estudos: uma comparação dos Estados dos EUA com e sem pena de morte, e uma comparação das taxas de homicídio em um Estado antes e depois da introdução da pena de morte. Após ler uma rápida descrição de cada estudo, foi perguntado aos participantes se suas opiniões haviam mudado. Após isso, eles leram uma decrição mais detalhada dos procedimentos de cada estudo e tiveram que avaliar se as pesquisas foram bem conduzidas e convincentes. Na verdade, os estudos eram fictícios. Foi dito a metade dos participantes que um dos estudos sustentava o efeito de deterrência — o efeito da pena de morte de deter o crime — e que o outro estudo desmentia esse efeito, enquanto para os outros participantes tais conclusões foram invertidas.