O Alto do Moura é um bairro do município de Caruaru, principal cidade do agreste pernambucano, localizado a cerca de 135 km do Recife. O bairro é considerado um dos maiores centros de arte figurativa das Américas, destacando-se por meio do artesanato figurativo em barro, tradição inaugurada por Mestre Vitalino (1909-1963) que retrata personagens e cenários cotidianos da região. Boa parte da produção de artesanato é vendida na famosa Feira de Caruaru e também exportado para o mundo, há registro das obras do Mestre Vitalino em mais de 20 países, incluindo até o Vaticano.GASPAR, Lúcia. Alto do Moura, Fundação_Joaquim_Nabuco, 6 de agosto de 2009Jorge A. Monteiro Júnior, estudante de arquitetura e Caruaruense. Caruaru 09 de Novembro de 2016 No bairro há um complexo industrial, destinado à fabricação ou distribuição de produtos de vários gêneros, incluindo o ramo alimentício, além de um Aeroporto Regional, que oferta dois voos comerciais diários de segunda à sexta com destino à cidade de Recife.
Vitalino e a cerâmica do Alto do Moura Vitalino Pereira dos Santos nasceu em 10 de julho de 1909 em Ribeira dos Campos, sítio rural próximo a Caruaru, filho de Marcelino Pereira dos Santos e Josefa Maria da Conceição, que tinham como ocupação a agricultura e a criação de utensílios domésticos em cerâmica respectivamente. Apesar de Marcelino também participar da produção de louças, é com Josefa que Vitalino aprende a manusear o barro.ROCHA, Darllan Neves. “A arte é para todos”: patrimônio cultural, tradição de conhecimento, processos sociotécnicos e organização social do trabalho entre os artesãos do Alto do Moura (Caruaru/ PE). Dissertação de mestrado no Programa de Pós-graduação em Antropologia da Universidade Federal da Paraíba (PPGA/ UFPB/ CCHLA), 2014, p.67
Quando começa a fazer suas primeiras cerâmicas, já em estilo figurativo, passa a comercializá-las na Feira de Caruaru junto aos utensílios feitos por seus pais, acompanhando-os desde os nove anos de idade. Vitalino continua a produzir e vender suas peças, retratando personagens e cenas de seu cotidiano, como atividades e animais rurais.
Augusto Rodrigues (1913-1993), artista pernambucano radicado no Rio de Janeiro, encontra Vitalino em uma viagem a Caruaru, quando visita a feira e conhece seu trabalho. A exposição Cerâmica Popular Pernambucana (1947), organizada por Augusto na Biblioteca Castro Alves no Rio de Janeiro, refletia o interesse crescente pela autêntica arte brasileira, que comunicasse a identidade do país, e é considerada o momento de “descobrimento” de Vitalino. Após o evento, materiais jornalísticos e literários passam a comentar seu trabalho, incluindo o livro “Vitalino”, lançado pela Fundação Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais em 1959, e o artesão é chamado para participar de outras exposições voltadas para a arte popular.ROCHA, Darllan Neves. “A arte é para todos”: patrimônio cultural, tradição de conhecimento, processos sociotécnicos e organização social do trabalho entre os artesãos do Alto do Moura (Caruaru/ PE). Dissertação de mestrado no Programa de Pós-graduação em Antropologia da Universidade Federal da Paraíba (PPGA/ UFPB/ CCHLA), 2014, p. 11
Em 1955 participa de uma coletiva viabilizada pelo diplomata Waldemir Murtinho no Museu de Etnografia de Neuchâtel na Suíça intitulada “Artes Primitivas e Modernas do Brasil”, ganhando reconhecimento internacional. Em 1960, Augusto Rodrigues organiza no Rio de Janeiro a primeira exposição individual de Vitalino, que consagra a carreira do ceramista que faleceu pouco tempo depois, em 1963 aos 53 anos.ROCHA, Darllan Neves. “A arte é para todos”: patrimônio cultural, tradição de conhecimento, processos sociotécnicos e organização social do trabalho entre os artesãos do Alto do Moura (Caruaru/ PE). Dissertação de mestrado no Programa de Pós-graduação em Antropologia da Universidade Federal da Paraíba (PPGA/ UFPB/ CCHLA), 2014, p.12
Somente em 1948, após ter participado da exposição de cerâmica em 1947, Vitalino se muda para o Alto do Moura, local em que viviam poucas famílias e onde passa a influenciar seus vizinhos artesãos com sua prática, como as famílias de Elias Santos, Zé Caboclo, Manuel Eudócio e Luiz Antônio. Apesar de já haver no bairro artesãos que manuseavam o barro para fazer utensílios domésticos, foi no contato com Mestre Vitalino que adotaram o fazer figurativo e começaram a ter na cerâmica sua principal fonte de renda, já que a maioria se dividia entre a lavoura e a louça.
O processo de visitação do Alto do Moura é profundamente influenciado por Vitalino, visto que viajantes e feirantes que passavam pela região começaram a parar para conhecer o artesão, bem como visitantes de outras regiões que haviam visto seus bonecos e queriam conhecê-lo. Vitalino sinaliza sua casa para facilitar sua localização, o que estimula outros artesãos a visibilizarem sua produção e a comercializarem diretamente de suas casas, não só na Feira.ROCHA, Darllan Neves. “A arte é para todos”: patrimônio cultural, tradição de conhecimento, processos sociotécnicos e organização social do trabalho entre os artesãos do Alto do Moura (Caruaru/ PE). Dissertação de mestrado no Programa de Pós-graduação em Antropologia da Universidade Federal da Paraíba (PPGA/ UFPB/ CCHLA), 2014.
Seu modo de fazer cerâmica continuou a ser cultivado por seus filhos e por outros artesãos do Alto do Moura que aprenderam com ele, sendo ainda hoje considerado o Mestre artesão do bairro e referência do que seria a tradição em barro do local. Severino Vitalino (1940-2019) foi o maior representante da prática de seu pai, produzindo suas réplicas e usando o chão como base de trabalho, mantendo a Casa-Museu Mestre Vitalino como ateliê aberto.
Após seu falecimento, e devido à atenção que o bairro e a cidade de Caruaru receberam em decorrência de seu reconhecimento, políticas patrimoniais e de incentivo ao desenvolvimento foram destinadas ao Alto do Moura, que passou a ser um polo turístico de extrema relevância no Agreste de Pernambuco. Em 2026, o Alto do Moura reuniu mais de 60 mil visitantes por dia para a festa de São João de Caruaru, tradicional festejo junino.
O circuito de ateliês e museus O Alto do Moura conta atualmente com variados estabelecimentos voltados para a preservação e difusão do artesanato desenvolvido na região. Além dos memoriais em homenagem a artesãos ilustres, como A Casa-Museu Mestre Vitalino e o Memorial Mestre Galdino, diversos ceramistas em atividade mantêm seus ateliês abertos para a visitação. Entre eles, destacam-se os seguintes:
Casa-museu Mestre Vitalino A Casa-Museu é o principal patrimônio material do Alto do Moura, sendo um dos principais cartões postais do bairro e do município de Caruaru. Foi a última residência de Mestre Vitalino e mantém a mesma estrutura de sua construção, em 1959. Após a sua morte, a casa foi incorporada ao patrimônio municipal pela lei Nº 2,070 de 26 de abril de 1969 e transformada em museu em 1971, onde a história do Mestre é preservada por meio da exposição de seus objetos pessoais e de trabalho, fotos de família e instrumentos musicais. Além das visitas guiadas, a programação do museu conta com exibição de documentários e curtas sobre a vida e técnica de Vitalino, assim como oficinas de cerâmica.
Além de administrar o espaço, Severino Vitalino também o utilizava para produzir suas peças, o que atribuía valor simbólico relevante às visitações, visto que Severino reproduzia o modo de fazer de seu pai e vendia seu trabalho.
Memorial Mestre Galdino Manoel Galdino de Freitas (1929-1996) nasceu em São Caetano (PE) e se mudou para o Alto do Moura em meados de 1970, quando abandona o serviço público como pedreiro e começa a se dedicar ao ofício em cerâmica. Contemporâneo de Vitalino, o estilo de Mestre Galdino se diferenciava por romper com a representação do cotidiano da região criando um repertório próprio de figuras híbridas e fantásticas, as quais não necessariamente faziam referência a personagens clássicos do imaginário regional, acompanhadas por um poema autoral.ROCHA, Darllan Neves. “A arte é para todos”: patrimônio cultural, tradição de conhecimento, processos sociotécnicos e organização social do trabalho entre os artesãos do Alto do Moura (Caruaru/ PE). Dissertação de mestrado no Programa de Pós-graduação em Antropologia da Universidade Federal da Paraíba (PPGA/ UFPB/ CCHLA), 2014, p.22
Além de ter conquistado lugar de destaque em uma cultura visual profundamente orientada pelo trabalho de Vitalino, sua carreira também foi legitimada por críticos de arte, que viam em suas obras um forte caráter surrealista.
O Memorial Mestre Galdino foi construído em 1980 em casa doada por um funcionário da prefeitura de Caruaru, a fim de preservar a memória do artesão. Nele estão expostos fotografias, painéis informativos, obras em cerâmica e poesias originais e emolduradas. O espaço é administrado por seu único filho vivo, o artesão Joel Galdino, que continua recriando peças baseadas na prática de seu pai e as vende no local. O memorial também oferece oficinas em cerâmica baseadas nos saberes e tradições cultivados no Alto do Moura.
Memorial Mestre Manuel Eudócio Manuel Eudócio (1931-2016) foi um artesão nascido no Alto do Moura e contemporâneo de Vitalino, com quem aprendeu o ofício na cerâmica. Seu repertório retrata temas de seu cotidiano, recriando brincantes do reisado e do maracatu, carroças e animais, além de renovar imagens tradicionais, como Lampião e Maria Bonita. Eudócio também moldou em barro a figura de Mestre Vitalino.
Recebeu o título de Patrimônio Vivo em 2004, de acordo com a Lei nº 12.196, de 2 de maio de 2002, que instituiu o Registro no estado de Pernambuco (RPV-PE). O objetivo dessa política é proteger a preservar as manifestações populares e tradições do estado, assegurando condições para a transmissão de “conhecimentos, valores, técnicas e habilidades” dos mestres e grupos para novas gerações, concedendo uma bolsa mensal de cerca de R$2.500 aos selecionados (valor atualizado em 2026). O edital do concurso destaca prioridade para agentes culturais e expressões populares ameaçadas pela falta de suporte financeiro.
Em contrapartida ao apoio institucional, Eudócio realizava oficinas de cerâmica diretamente de sua casa-ateliê com público interessado, incluindo estudantes e turistas de outras partes do país.
O Memorial Mestre Manuel Eudócio é um espaço dedicado a preservar a memória e o legado do artesão, abrigando suas obras, documentos e objetos pessoais que contam a história de sua vida e trabalho. Após 5 anos fechado, foi revitalizado, ampliado e reaberto em 2024.
Mudanças na paisagem e na prática em barro
Projeto Revitalino Em decorrência do crescente fluxo de visitação ao Alto do Moura e dos novos residentes, a prefeitura de Caruaru, com financiamento do Ministério do Turismo e da Caixa Econômica Federal, elaborou em 2011 um projeto de revitalização do bairro focado em melhorias em infraestrutura e serviços básicos voltados para a recepção de turistas. O plano inicial inclui projeto paisagístico, um grande estacionamento, área de lazer e alimentação, uma nova Casa da Mulher Artesã, caixas eletrônicos, um anfiteatro, um novo portal de acesso ao bairro e mudanças no tráfego. As adaptações pretendem manter e ressaltar as características “tradicionais” do bairro.ROCHA, Darllan Neves. “A arte é para todos”: patrimônio cultural, tradição de conhecimento, processos sociotécnicos e organização social do trabalho entre os artesãos do Alto do Moura (Caruaru/ PE). Dissertação de mestrado no Programa de Pós-graduação em Antropologia da Universidade Federal da Paraíba (PPGA/ UFPB/ CCHLA), 2014, p.67