Os Galibis, também conhecidos como calinas e carinas,FERREIRA, A. B. H. Novo dicionário da língua portuguesa. 2ª edição. Rio de Janeiro. Nova Fronteira. 1986. p. 321. são um grupo indígena que habita o nordeste da América do Sul. Eles se autodenominam Kali'na tilewuyu, que significa "os verdadeiros calinas", em parte para se diferenciar dos calinas mestiços quilombolas que habitam o Suriname.Wim Hoogbergen, Origins of the Suriname Kwinti Marrons ; Nieuwe West-Indische Gids, vol. 66 (1 & 2), p. 27-59. 1992. História Introdução Os calinas não conheciam a escrita antes da chegada dos europeus. Sua história se conservava através da tradição oral. Durante muito tempo, os europeus que percorreram esta região não fizeram distinção entre os diferentes povos caribes. Findo o período colonial, diminuiu o interesse europeu pelos calinas, que só veio a ressurgir no final do século XX, pela ação de alguns franceses como Gérard Collomb. Era pré-colombiana Foram descobertos 273 sítios arqueológicos ameríndios em apenas 310 quilômetros quadrados de área coberta pela Barragem do Pequeno Salto, no rio Sinnamary, na Guiana. Alguns datam de 2 000 anos, comprovando a antiguidade da presença ameríndia na região.Stéphane Vacher, Sylvie Jérémie, Jérôme Briand; Amérindiens du Sinnamary (Guyane), Archéologie en forêt équatoriale; Documents d’Archéologie française, Éditions de la Maison des Sciences de l’Homme, Paris, 1998.
Os poucos dados históricos disponíveis mostram que, antes de 1492, os calinas habitavam o litoral da foz do rio Amazonas à foz do rio Orinoco, repartindo seu território com os aruaques, contra quem eles lutaram durante a expansão para o leste. Eram grandes viajantes, embora não fossem nômades. Costumavam viajar a pé ou em canoas até a bacia do Orinoco para visitar a família, efetuar trocas comerciais ou se casar. Costumavam viajar até o rio Essequibo para coletar seixos de pórfiro vermelho (takuwa), muito populares entre os calinas pois as mulheres os utilizavam para lustrar a cerâmica.Pierre Barrère, Nouvelle relation de la France équinoxiale, Paris, 1783. A palavra takuwa também designa o jade, cujo comércio também era bem desenvolvido no continente americano.Arie Boomert, Gifts of the Amazons: "green stones", pendants and beads as items of ceremonial exchange in Amazonia and the Caribbean, Antropologica, Caracas, 1987.
Existe um sítio chamado "As rochas gravadas", no monte Carapa, em Kourou, em que existe arte rupestre possivelmente relacionada aos calinas, que são majoritários na região. Colonização europeia A vinda dos Palanakiłi Ao entrar em contato com os europeus, os calinas pensaram que estes fossem Palanakiłi, as divindades do mar. Esse nome continua a ser utilizado até hoje pelos calinas para se referir aos brancos. Também existe uma versão fluvial dessas divindades, chamadas Tunakiłi, que assumem a forma de jovens mulheres que viram as canoas e provocam afogamentos.
Uma das primeiras consequências da chegada dos europeus foi, como ocorreu em toda a América, uma diminuição da população indígena em consequência da introdução de doenças desconhecidas pelas populações locais. O sistema imunológico dos calinas não estava habituado aos vírus e bactérias europeus, o que causou a morte em grande número dos calinas.
Os primeiros brancos que os calinas encontraram foram comerciantes espanhóis, que ofereciam, aos calinas, pérolas de vidro, espelhos, facas etc. A língua calina incorporou os termos espanhóis que designavam esses produtos.Odile Renault-Lescure, Évolution lexicale du galibi, langue caribe de Guyane française, Travaux et Documents de l’Orstom 16; Paris, 1985. O bispo espanhol Vasques de Espinosa, que visitou a região no primeiro quarto do século XVII, fez referência aos Garina e aos Caribes Garinas do delta do Orinoco. De Palanakiłi a Pailanti'po Ao perceber que os europeus estavam destruindo a cultura e o território calinas, os calinas rebatizaram os europeus como Pailanti'po, "destruidores dos calinas". Começou a resistência, porém ela foi rapidamente aniquilada devido à superioridade das armas europeias.
Após várias tentativas durante a segunda metade do século XVII, infrutíferas devido a conflitos com os ameríndios, os franceses fundaram a vila de Caiena em 1664 e os ingleses e neerlandeses se instalaram ao longo do rio Suriname. O território calina se estendia desde a ilha de Caiena até o rio Orinoco:
O governador Lefebvre de la Barre, que se instalou em Caiena no ano de sua fundação com 1 200 colonos,M. de Milhau, Histoire de l’île de Cayenne et province de Guianne, manuscrit, 1733. Bibliothèque Méjeanne (MS 430), Aix-en-Provence. escreveu sobre os calinas:
A chegada dos europeus alterou radicalmente os antigos circuitos comerciais. Eles passaram a não mais percorrer o litoral até chegar ao rio Orinoco, mas passaram a se deter nos pequenos portos ao longo do litoral, onde havia a troca de pedras preciosas, ouro, animais e plantas por garrafas de rum e artefatos de aço.
Nos primeiros anos da colonização europeia, os calinas lutaram várias vezes contra os ingleses, franceses e espanhóis. Houve várias batalhas pelo controle de Yalimapo, um ponto estratégico a meio caminho entre os rios Mana e Maroni. Lá, existe um sítio arqueológico chamado Ineku-tupo ("Onde cresce a liana ineku"), onde foram encontradas peças de cerâmica de vários séculos antes da chegada dos europeus.
Dizimados pelas doenças e assediados pelos europeus sedentos do ouro do Eldorado, os calinas penetraram na densa selva tropical. Somente pequenos grupos se estabeleceram em Caiena e demais vilas costeiras. Os calinas foram particularmente numerosos nos rios Aproak, Amana, Suriname e Saramacca. Os calinas da costa foram, gradativamente, empurrados para o oeste, cedendo seu território para os latifúndios monocultores europeus.
A chegada dos europeus perturbou as tradicionais alianças indígenas. Os calinas se aliaram aos franceses e os ajudaram a empurrar os neerlandeses e seus aliados aruaques para o oeste do rio Maroni. Os calinas se destacaram no comércio de escravos ameríndios, chegando a estabelecer postos permanentes no baixo rio Itany e no baixo rio Marwini que serviam de base para suas incursões sobre os tiriós, os uaianas e os tekos, posteriormente os vendendo aos neerlandeses, ingleses ou franceses. Tinham uma atitude diferente em relação aos lokonos e palicures, com os quais se limitavam a ter uma relação guerreira. Os calinas tinham um termo para designar as tribos passíveis de ser escravizadas: itoto.
O governador Fiedmont escreveu em 1767:
As incursões contra os itoto continuaram até o século XVII, quando o acesso ao alto rio Maroni foi fechado pelos maroons ndyukas e alukus. As missões jesuítas Os padres jesuítas fundaram sua primeira missão em Ikaroua, na enseada Karouabo, em 1709, mas a transferiram para o rio Kourou em 1713. Uma outra missão seria fundada em Sinnamary em 1736, e dois outras menores no rio Oiapoque: São Paulo em 1733 e Santa Fé em 1740.Fortuné Demontezon, Voyages et travaux des missionnaires de la Compagnie de Jésus, publiés par les PP. de la même Compagnie pour servir de complément aux Lettres Édifiantes, Paris, 1857. O objetivo das missões, como em todas as demais na América do Sul, era espalhar a fé católica entre os povos ameríndios, vistos como "selvagens" que precisavam ser "salvos".
As missões facilitaram a mestiçagem entre as diferentes tribos ameríndias. A maior parte dos índios das missões eram calinas, porém também havia aruás, kusaris e maraonas do Brasil. Se a alta densidade populacional nas missões (450 ameríndios na região de Kourou em 1740) facilitou a disseminação de doenças,Lettres édifiantes et curieuses écrites des Missions étrangères par quelques missionnaires de la Compagnie de Jésus, Paris, 1717-1776, 34 volumes. ela por outro lado protegeu os índios da escravidão, pois os colonos europeus não podiam entrar nas missões.
As missões foram abandonadas pelos jesuítas quando a ordem foi expulsa da França em 1763, antes da dissolução da ordem pelo papa em 1773. Entre o Maroni e o Mana Após a saída dos jesuítas e a desastrosa Expedição de Kourou de 1763, só restavam aproximadamente cinquenta índios em Kourou em 1787:
Tendo sido maltratados e explorados pelos colonos da expedição,Fitz-Maurice et Lescallier, Mémoire sur l'état actuel de la colonie de Cayenne, 15 janvier 1786. Archives nationales/Outre-mer - DFC Guyane no 427. os calinas da região fugiram para o oeste e se reajuntaram no Suriname e na região entre os rios Mana e Maroni. Eles passaram a transitar frequentemente entre essas duas regiões.M. Fitz-Maurice, Mémoire concernant la situation actuelle de la Guyane française, 1787. Archives nationales/Outre-mer - DFC Guyane, no 440.
Era, portanto, extremamente difícil precisar o número de ameríndios na região.<ref>Recensement général de la population pour lannée 1818. Archives nationales/Outre-mer Série Géo/Guyane, G9 (03).</ref> Mais tarde, por volta dos anos 1780, os negros quilombolas alukus (bonis) e ndjukas, fugindo do conflito com os neerlandeses, se mudaram para o rio Maroni e seus afluentes, entrando no território calina. Ocorreu mestiçagem entre os calinas e os quilombolas, embora os calinas evitassem o contato com os quilombolas.Wim Hoogbergen, The Boni Maroon Wars in Suriname, E.J. Brill, Leiden, 1990, p. 202. Estes mestiços são considerados calinas e fazem parte da comunidade calina, embora não sejam considerados "calinas verdadeiros".
A população calina conheceu seu apogeu durante a primeira metade do século XIX. Foi nesta época que Anne-Marie Javouhey instalou sua missão destinada a recolher escravos libertos na região do rio Mana, que era território calina. A missão destinava-se a promover a integração desses indivíduos com o resto da colônia. A prisão O estabelecimento de prisões ao longo do rio Maroni, principalmente em Saint-Laurent-du-Maroni, forçou os calinas e demais ameríndios a fugir novamente para a margem neerlandesa do rio.
Em Saint-Laurent (polo comercial junto com Albina, que ficava bem em frente), os calinas conheceram um novo tipo de branco: o presidiário. Os calinas os chamaram de Sipołinpo, "velho branco". Os ameríndios em Paris A segunda metade do século XIX foi a era de ouro das exposições universais, nas quais os países europeus exibiam as suas riquezas coloniais, com vilas representando as culturas dos países colonizados. Embora os calinas não tenham participado de nenhuma das exposições universais que ocorreram em Paris, eles foram exibidos no Jardim de Aclimação da cidade por duas vezes: em 1882 e 1892.Gérard Collomb, Félix Tiouka et M.P. Jean-Louis, Pau:wa Itiosan:bola : Des Galibi à Paris en 1892, décembre 1991. Calinas e aruaques do centro do Suriname foram exibidos na exposição mundial de Amsterdã de 1883, juntamente com saramacas e crioulos. 1882 Quinze calinas, todos membros de uma mesma família habitante de Sinnamary e Iracoubo, foram enviados a Pau:wa (o "país dos brancos") em julho de 1882.Gérard Collomb, Félix Tiouka et M.P. Jean-Louis, Pau:wa Itiosan:bola: Des Galibi à Paris en 1892, décembre 1991. Não se sabe quase nada deles a não ser seus nomes e o fato de que foram alojados em cabanas sobre o gramado do Jardim de Aclimação. O passeio durou quatro meses: três meses em Paris e um mês na viagem de barco (ida e volta). Eles foram acompanhados por um crioulo que serviu de intermediário e possivelmente intérprete.J. Noutous, Les Galibis du Jardin d'Acclimatation, La vie moderne, quotidien, Paris, 12 août 1882. Existem inúmeros retratos deles, feitos pelo fotógrafo Pierre Petit. Os retratos fazem parte da Coleção da Sociedade de Geografia de Paris e podem ser consultados no Departamento de Mapas e Planos da Biblioteca Nacional da França. 1892