Desencantos é uma peça teatral escrita por Machado de Assis e publicada por Paula Brito em 1861, com o subtítulo "Fantasia Dramática". Divide-se em dois atos, que o autor chama de "partes": a primeira parte transcorre em Petrópolis e a segunda parte, "na corte", ou seja, no Rio de Janeiro. O texto é dedicado a Quintino Bocaiúva, cuja opinião de que as comédias machadianas eram para serem lidas e não representadas se celebrizou.“Carta ao Autor” em Teatro de Machado de Assis. Rio de Janeiro, Tipografia do Diário do Rio de Janeiro, 1863, obra que reúne as duas peças subsequentes de Machado, O Caminho da Porta e O Protocolo. "Em Desencantos já se esboça o universo que estará presente na maioria das suas comédias: o da alta sociedade brasileira de seu tempo, constituída pela burguesia emergente."João Roberto Faria, "Machado de Assis e o teatro", na Revista Brasileira no 55 de abril-maio-junho de 2008, pág. 175, disponível no site da Academia Brasileira de Letras.

Provérbio dramático Mário de Alencar situa a produção teatral de Machado num esforço coletivo de criar um teatro genuinamente nacional que inspirou uma grande produção nas décadas de sessenta e setenta no século XIX.Machado de Assis: Teatro Completo. São Paulo : Editora Mério SA, 1961. Pg. 8.. Mas em vez das tragédias neoclássicas, dramas românticos e comédias realistas de origem ou inspiração francesa, em voga na época, Machado preferiu o chamado "provérbio dramático" (ou "comédia-provérbio"), gênero surgido no final do século XVII, nos salões aristocráticos franceses,João Roberto Faria, "O Comediógrafo". Jornal da Unicamp, 25-31/8/2008, pág. 12. Disponível em uma "comédia elegante", "em um ou no máximo dois atos", "que tira partido da vivacidade dos diálogos e da espirituosidade das personagens", praticada na França por autores como Octave Feuillet e Alfred de Musset.Nilton de Paiva Pinto, Teatro de Machado de Assis: Alternativa para a Dramaturgia Brasileira, Contagem, MG: Edição do autor, 2023, pág. 30.. "Com regras mais frouxas que as do drama ou da tragédia, ou mesmo da comédia, o provérbio dispensa os enredos complicados e se articula em torno das conversas entre personagens [...]"João Roberto Faria, "Machado de Assis e o teatro", pág. 174.

Críticas A peça recebeu duas críticas publicadas em 15 de setembro de 1861.Ubiratan Machado, Dicionário de Machado de Assis, 2a edição revista e ampliada. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo; Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras; Lisboa: Imprensa Nacional, 2021, verbete “Desencantos”. A primeira, de Adolphe Hubert, na coluna “Chronique littéraire” ("Crônica literária") do jornal de língua francesa Courrier du Brésil (Correio do Brasil), à página 1, começava com os dizeres “La brochure qui a pour titre Désenchentements contient un morceau littéraire d'une valeur réelle, pour l'époque” (“A brochura que tem por título Desencantos contém uma peça literária com um valor real, para a época”) e vinha acompanhada do texto da cena VII da segunda parte traduzida para o francês. A segunda crítica, sem assinatura, na coluna “Crônica” às páginas 103-4 do periódico literário dominical A Saudade, chama a atenção para "a brevidade do diálogo, a delicadeza de linguagem" da peça.

Embora não chegasse a ser encenada na época de Machado de Assis,A peça constava do arquivo do Teatro Ateneu Dramático, que cogitava encená-la, mas não chegou a fazê-lo. Ver a peça foi montada no Teatro Ziembinski no ano de 1990. O crítico Macksen Luiz escreveu sobre a peça: "O teatro de Machado de Assis, assim como sua obra literária, é marcada pela aparência. A humanidade de seus personagens parece contida por atitudes que, aos olhos do mundo, são expressões adequadas de uma convivência harmonizada por um comportamento social nivelador. Mas a verdadeira motivação de cada um está na representação dessas atitudes, que sob a dissimulação, às vezes, e a metáfora, quase sempre, exprimem os seus recônditos desejos."

Personagens

Clara de Sousa: é uma jovem viúva de um coronel, a quem as duas outras personagens fazem corte. Encontra-se indecisa entra qual seria o melhor dos dois pretendentes . ("Clara – Eu não tomo partido nenhum."Op. Cit., pg. 42.) Luís de Melo: jovem apaixonado e idealista, vizinho de Clara, que lhe faz a corte. ("Pedro Alves – Já sei ; pertence à esfera dos sonhadores e dos visionários"Op. Cit., pg. 38.) Pedro Alves: homem de meia idade, elegante, mas presunçoso, também vizinho de Clara, também é pretendente da viúva e opõe-se abertamente a Luís ("Luís – Menos isso. Quando dois adversários se medem, as mais das vezes o vencedor é sempre aquele, que à elevada qualidade de tolo reúne uma sofrível dose de presunção.")Op. Cit., pg. 41.)

Enredo Na primeira parte da peça, ambos os vizinhos da viúva Clara fazem-lhe a corte : Luís e Pedro Alves. Pedro Alves, mais experiente que o outro, adianta-se e consegue a mão da mulher. Luís, desiludido, viaja para longe. Retorna na segunda parte, após cinco anos, e presta uma visita ao casal. Após gabar-se de suas viagens pelo Oriente, pede bruscamente a mão da filha do primeiro casamento de Clara, que tem o mesmo nome da mãe. É a sua vingança contra a mulher que amara anteriormenteNotícia da peça no site da Academia Brasileira de Letras.. "Em Desencantos, a graça da comédia está na 'vingança' do personagem Luís Melo, que perde a viúva Clara para Pedro Alves. Cinco anos depois, curado da antiga paixão, volta para o Rio de Janeiro e se interessa justamente pela filha de Clara",João Roberto Faria, "Machado de Assis e o teatro", pág. 175.

Influência Para alguns críticos, o assunto desta peça foi definido por um texto que Machado traduziu e publicou à mesma época, Queda que as mulheres têm para os tolos, do belga Victor Hénaux. SILVA, Ana C. Suriani da. Texto original, tradução, adaptação ou imitação?. Disponível online no Jornal da Unicamp. Consultado em 24/01/2013. Neste texto, argumenta-se que os homens inteligentes, ditos homens de espírito, teriam dificuldades de abordar a mulher amada devido à sua timidez natural, enquanto os tolos presunçosos levariam vantagem por causa de sua indiferença e superficialidade naturais. Na peça, Luís faria o papel do homem de espírito, e Pedro Alves, o do tolo.

Ver também Peças de teatro de Machado de Assis Obra de Machado de Assis

Ligações externas Texto da peça disponível online. GOMES, André Luiz. Machado de Assis dramaturgo: esboços para uma grande pintura. Disponível online.

Categoria:Peças de teatro de Machado de Assis Categoria:Peças de teatro da década de 1860