João Carlos Gregório Domingos Vicente Francisco de Saldanha Oliveira e Daun GCTE • GCC • GCSE • GCNSC (Lisboa, – Londres, ), 1.º conde, 1.º marquês e 1.º duque de Saldanha, também conhecido por Marechal Saldanha, foi um oficial do Exército Português, no qual atingiu o posto de marechal, diplomata e um dos políticos dominantes do século XIX em Portugal, com uma carreira política que se iniciou na Guerra Civil Portuguesa (1828-1834) e só terminou com a sua morte em 1876. A sua longa carreira política, e os cargos de relevo que exerceu, fizeram dele o mais importante homem de estado do período da monarquia constitucional portuguesa,. influenciando de forma substancial o rumo dos acontecimentos políticos em Portugal ao longo de meio século. Entre outros cargos e honrarias, foi marechal general do exército, par do reino, conselheiro de estado efetivo, ministro plenipotenciário em Londres, mordomo-mor da Casa Real, vogal do Supremo Conselho de Justiça Militar, vinte e quatro vezes ministro, assumindo designadamente as pastas da Guerra e dos Negócios da Fazenda, e, por quatro vezes, presidente do Conselho de Ministros de Portugal (em 1835, 1846–1849, 1851–1856 e em 1870).Maria Filomena Mónica (direção), Dicionário Biográfico Parlamentar (1834-1910), volume II, pp. 27-32. Lisboa, Assembleia da República, 2005 (ISBN 972-671-145-2). Dedicou-se ao estudo de temas filosóficos e foi um dos pioneiros da homeopatia em Portugal. O marechal duque de Saldanha é lembrado na toponímia de inúmeras povoações e por um monumento nacional, na Praça Duque de Saldanha, em Lisboa, inaugurado a 18 de fevereiro de 1909 com imponente solenidade..
Biografia thumb|left|255px|Assento de baptismo de João Carlos Gregório Domingos Vicente Francisco de Saldanha Oliveira e Daun, datado de 25 de Novembro de 1790. Paróquia de São José, Lisboa. Neto do Marquês de Pombal por via materna, nasceu no Palácio da Anunciada, em Lisboa, 9.º filho do 1.º conde de Rio Maior, João Vicente de Saldanha Oliveira e Sousa Juzarte Figueira, e de sua mulher, Maria Amália de Carvalho Daun, 3.ª filha do 1.º marquês de Pombal.
Destinado a seguir a vida militar, com 14 anos de idade, em 1805 matriculou-se na Academia Real de Marinha, instituição onde fez um curso brilhante, tendo recebido distinção no 1.º ano lectivo e sido premiado nos 2.° e 3.° anos. Simultaneamente, a 28 de setembro de 1805 assentou praça no Regimento de Infantaria N.º 1, ao tempo comandado pelo marquês de Alvito, no qual foi reconhecido cadete.
A sua carreira militar iniciou-se a 24 de junho de 1806, data em que foi promovido a capitão adido, com apenas 15 anos de idade, em virtude do decreto de 8 de janeiro desse mesmo ano, pelo qual se determinava que os filhos militares dos conselheiros de estado recebessem como primeiro posto o de capitão. A 17 de agosto de 1807, com 16 anos de idade, foi promovido de capitão adido a capitão efetivo.
A Guerra Peninsular Comandava a 8.ª companhia do Regimento de Infantaria N.º 1 quando em novembro de 1807 as forças francesas comandadas pelo general Jean-Andoche Junot entraram em Portugal, no episódio que ficaria conhecido como a primeira invasão francesa de Portugal, forçando a transferência da corte portuguesa para o Brasil e desencadeando a Guerra Peninsular. Estes acontecimentos levam o jovem capitão Saldanha, como aliás sucedeu com a maioria da oficialidade oriunda da alta aristocracia, a pedir a sua demissão do exército, que a Regência do Reino lhe concedeu por decreto de 25 de janeiro de 1808.
Tendo abandonado o exército, logo a 5 de fevereiro juntou-se ao grupo anti-napoleónico que planeava organizar a resistência à ocupação francesa, mas foi após o Levantamento de Madrid que se juntou à insurgência contra as forças francesas. Quando no início de agosto de 1808 ocorreu o desembarque das tropas britânicas comandadas pelo general Arthur Wellesley na baía de Lavos, Saldanha incorporou-se nas forças portuguesas do general Bernardim Freire de Andrade, o denominado Exército de Operações da Estremadura. Foi então reintegrado no seu posto, por decreto de 13 de setembro de 1808 da Junta Provisional do Supremo Governo do Reino, e voltou a comandar a 8.ª companhia do Regimento de Infantaria N.º 1, então em operações de apoio às forças britânicas em Portugal.
A sua participação nas operações da Guerra Peninsular granjeou-lhe um rápido prestígio entre as tropas e com apenas 18 anos de idade foi nomeado ajudante-de-campo do general Miranda Henriques, então aquartelado em Tomar. Foi então encarregado de estudar a tática adotada pelas forças britânicas comandadas pelo general William Carr Beresford, e mostrando-se apto para comandar por essa tática um regimento na presença do general, este promoveu-o a major por distinção, a 9 de dezembro de 1809, continuando a servir no Regimento de Infantaria N.º 1. Promovido a major, integrou as forças portuguesas e britânicas que protagonizaram os principais combates da Guerra Peninsular.
Logo em 1810 distinguiu-se na Batalha do Buçaco, improvisando uma coluna com duas companhias, oriundas do Regimento de Infantaria N.º 1 e do Regimento de Infantaria N.º 16, com ela repelindo intrepidamente forças francesas muito superiores. Também se destacou na Batalha de Salamanca, travada a 22 de julho de 1812, sendo por isso promovido a tenente-coronel em setembro desse ano, sendo então preteridos 23 majores, alguns deles britânicos.
Com dois batalhões do Regimento de Infantaria N.º 1, dois batalhões do Regimento de Infantaria N.º 16 e pelo Regimento de Caçadores N.º 4, Saldanha foi integrado na 1.ª Brigada Independente Portuguesa, com um efetivo de 2100 homens, todos portugueses, sob o comando do brigadeiro Dennis Pack. Com essa Brigada, entrou no Combate de Carrion, travado a 25 de setembro de 1812, na defesa da passagem do rio Tormes, de 8 a 14 de novembro, e no Combate de Muñoz, a 27 de novembro daquele ano. No prosseguimento das operações, participou na Batalha de Vitoria, travada a 21 de junho de 1813, na tomada da aldeia de Beasain, a 24 de junho, na tomada de Tolosa, a 25 de junho, e nos assaltos à praça de San Sebastián, nos dias 25 de julho e 31 de agosto.
Depois da Batalha dos Pirenéus, a 1.ª Brigada Independente Portuguesa entrou em França, e na Batalha do Nive, travada a 13 de dezembro de 1813, Saldanha estreou no comando do seu regimento. Tendo dado provas de capacidade de comando, o general William Carr Beresford confiou-lhe interinamente o comando duma brigada, composta pelo Regimento de Infantaria N.º 12, pelo Regimento de Infantaria N.º 21 e pelo Batalhão de Caçadores n.º 5. Tendo adoecido o general Rowland Hill, comandante doutra brigada, foi ela também entregue ao jovem tenente-coronel Saldanha, que assim, aos 23 anos de idade, foi comandante duma divisão que formou a esquerda do corpo do exército que cercou Baiona.
Terminada a Guerra Peninsular, Saldanha, então um tenente-coronel com 23 anos de idade, era um dos militares mais condecorados do Exército Português, com as medalhas de ouro das seis campanhas, as medalhas inglesas do Buçaco, de San Sebastián e do Nive, esta última com uma menção especial, e as medalhas espanholas de Vitoria, San Sebastián, Nive e Tolosa. O prestígio daí resultante foi um dos elementos essenciais no lançamento da sua carreira político-militar.
Saldanha casou em 5 de outubro de 1814 com uma jovem de origem irlandesa, Maria Teresa Margarida Horan FitzGerald (Irlanda, 1796 – Sintra, 1855), filha do general Thomas Horan e de sua mulher Isabel FitzGerald, a qual, ficando órfã de seus pais, fora educada desde os 7 anos de idade pela condessa de Rio Maior.
Foi então integrado no Regimento de Infantaria N.º 13, unidade que em 1815 foi escolhida para ser enviada para os Países Baixos em auxílio da coligação anti-napoleónica, que através de Arthur Wellesley, 1.º Duque de Wellington, solicitara a Portugal o envio de homens para ajudar a pôr termo à restauração de Napoleão Bonaparte no poder, que viria a ser conhecido como o Governo dos Cem Dias. Contudo, os atrasos na formação do contingente, a indecisão do governo português e a rapidez e contundência da derrota da Grande Armée na Batalha de Waterloo tornaram desnecessário o envio das forças, que não chegaram a embarcar.
A guerra contra Artigas e a independência do Brasil thumb|300px|Embarque da Divisão de Voluntários Reais para a Ilha de Santa Catarina, na Praia Grande, RJ, em 7 de junho de 1816, (desenho de Jean-Baptiste Debret). Gorada a expedição aos Países Baixos, o tenente-coronel Saldanha foi escolhido para integrar a Divisão de Voluntários Reais que devia partir para o Brasil para tomar parte na expedição destinada a reocupar Montevideu, sendo então promovido a coronel e colocado como adido ao estado-maior. Saldanha e a maior parte do estado-maior saíram de Lisboa, a bordo do navio Despique, a 27 de julho de 1815. Chegado ao Rio de Janeiro foi recebido pelo príncipe regente D. João com grande distinção e feito cavaleiro da Ordem de Cristo e comendador da Ordem da Torre e Espada.
Instalado no Brasil, o já coronel Saldanha foi nomeado a 7 de junho de 1816 comandante do 1.º Regimento de Infantaria e enviado em campanha para o sul, integrado nas forças militares comandadas pelo general Carlos Federico Lecor. Para os veteranos da Guerra Peninsular foi rápida e fácil a campanha contra a Liga dos Povos Livres de José Artigas, naquela que ficaria conhecida como a Primeira Guerra Cisplatina ou Guerra contra Artigas: depois das vitórias de Chafalote e na Batalha de India Muerta, as tropas portuguesas entraram facilmente na cidade de Montevideu. Contudo, apesar de ocupada a região da Banda Oriental pelas forças portuguesas, iniciou-se uma campanha de guerrilha que duraria 5 anos, em que tinham vantagem os destemidos gaúchos que formavam a força principal do exército de Artigas. A primeira brigada, de que fazia parte o regimento de que Saldanha era coronel, esteve encarregado até 1818 do serviço exterior da praça de Montevideu, tendo de repelir em numerosas surtidas os ataques dos guerrilheiros uruguaios.
Em 1818, aos 27 anos de idade, Saldanha foi graduado como brigadeiro e encarregado de comandar a coluna ligeira da divisão do general Joaquim Xavier Curado. Nessas funções teve de enfrentar a cavalaria irregular da guerrilha gaúcha, formada por homens conhecedores do terreno e com uma incomparável perícia no manejo dos cavalos, dos quais se dizia que realizam nas planícies americanas a fábula dos centauros. A luta contra esses guerrilheiros fantásticos, que apareciam e desapareciam num momento, depois de terem vibrado os seus golpes mortais foi muito dura e colocou por diversas vezes o jovem brigadeiro em grande perigo, nomeadamente numa noite em que foi surpreendido por um destacamento de cavalaria das forças de Juan Antonio Lavalleja, tendo-lhe morrido o cavalo, defendeu-se a pé, devendo a sua salvação a um sargento que lhe cedeu o cavalo, e que no ato perdeu um braço, decepado por uma cutilada que ia com destino a Saldanha.
Terminada a guerra, com a consolidação da ocupação portuguesa da Cisplatina, em 1821 Saldanha foi nomeado capitão-general da Província do Rio Grande do Sul, sucedendo no cargo a José Maria Rita de Castelo Branco, o conde da Figueira. Durante o seu governo no Rio Grande do Sul, no qual tomou posse em 20 de agosto de 1821, conseguiu manter Porto Alegre relativamente em paz, a despeito das constantes manifestações em prol de mais liberdade política para a província.VARELA, Alfredo. História da Grande Revolução – o cyclo farroupilha no Brasil (v. I). Ed. Livraria do Globo, 1933.JUNG, Roberto Rossi. A gaúcha Maria Josefa, primeira jornalista brasileira. Porto Alegre: Martins Livreiro, 2004. Também durante o seu governo foi feita a compra, por subscrição pública patrocinada pela presidência da província, da tipografia que permitiu a impressão do primeiro jornal local, o Diário de Porto Alegre. Saldanha entregou-se dedicadamente ao seu governo, provando ser hábil administrador.