miniaturadaimagem|Um monumento em Berlim aos soldados poloneses e alemães anti-fascistas mortos A resistência alemã ao nazismo (em alemão: Widerstand gegen den Nationalsozialismus) incluiu oposição armada e desarmada, bem como desobediência ao regime nazista por meio de diversos movimentos, grupos e indivíduos. Essa resistência ocorreu de várias formas, incluindo tentativas de assassinar Adolf Hitler ou derrubar seu regime, deserção para os inimigos do Terceiro Reich, sabotagem contra o exército alemão e o aparato repressivo, tentativas de organizar luta armada, protestos abertos, resgate de pessoas perseguidas, dissidência e a chamada "resistência cotidiana".
A resistência alemã não foi reconhecida como um movimento unificado durante o auge da Alemanha Nazista, ao contrário dos esforços mais organizados em outros países, como Itália, Dinamarca, União Soviética, Polônia, Grécia, Iugoslávia, França, Países Baixos, Tchecoslováquia e Noruega. A resistência na Alemanha consistia em pequenos grupos isolados que não conseguiram mobilizar uma oposição política em massa. Ataques individuais à autoridade nazista, atos de sabotagem e a divulgação de informações sobre fábricas de armamentos nazistas aos Aliados, como fez o grupo da resistência austríaca liderado por Heinrich Maier, ocorreram. Uma das estratégias era persuadir líderes da Wehrmacht a realizarem um golpe de Estado contra o regime; o Atentado de 20 de julho de 1944 contra Adolf Hitler tinha o objetivo de desencadear esse golpe. Centenas de milhares de alemães desertaram da Wehrmacht, muitos fugiram para os Aliados ou se uniram a forças de resistência antifascistas. A partir de 1943, a União Soviética tentou organizar uma guerra de guerrilha dentro da Alemanha com esses desertores e permitiu que membros do Comitê Nacional por uma Alemanha Livre – formado principalmente por prisioneiros de guerra alemães – participassem das operações militares do Exército Vermelho, formando pequenas unidades militares.
Estima-se que, ao longo da Segunda Guerra Mundial, mais de 800 000 alemães foram presos pela Gestapo por atividades de resistência. Também se calcula que entre 15 000 e 77 000 alemães foram executados pelos nazistas. Os membros da resistência geralmente eram julgados, muitas vezes em julgamentos forjados, por Sondergerichte (Tribunais Especiais), tribunais militares, pelo Tribunal do Povo (Volksgerichtshof) e pelo sistema de justiça civil. Muitos dos alemães envolvidos na resistência ocupavam cargos no governo, no exército ou em funções civis, o que lhes permitia atuar em atividades de subversão e conspiração. O historiador canadense Peter Hoffmann menciona "dezenas de milhares" de prisioneiros nos campos de concentração nazistas por suspeita ou envolvimento em resistência.Mommsen, Hans "German Society and the Resistance Against Hitler" pp. 255–73 de The Third Reich The Essential Readings, editado por Christian Leitz, Blackwell: London, 1999 pp. 259–62. Já o historiador alemão Hans Mommsen descreveu a resistência na Alemanha como uma "resistência sem o povo", afirmando que o número de alemães engajados contra o regime nazista foi muito pequeno.Theodore S. Hamerow; On the Road to the Wolf's Lair – German Resistance to Hitler; Belknap Press of Harvard University Press; 1997; ; pp. 217–19
Resistência de pré-guerra (1933-39) thumb|Das Dritte Reich (1934) quadro de Heinrich Vogeler (1872-1942). Na prática não existiu resistência minimamente organizada no período entre a nomeação de Hitler como Chanceler em janeiro de 1933 e a crise sobre Checoslováquia em 1938. Em julho de 1933, todos os sindicatos e todos os partidos políticos, com exceção do NSDAP, foram ilegalizados. A imprensa e a rádio continuaram apenas sob controlo estatal e a prática totalidade da sociedade civil foi neutralizada. Ao mesmo tempo, a Concordata entre Alemanha e a Santa Sé terminou com qualquer possibilidade de uma oposição sistemática pela parte da Igreja Católica. A Igreja Evangélica alemã foi geralmente pró-nazi, embora uma minoria se mantivesse na oposição. Por outra parte, a atividade da Sturmabteilung - e especialmente a Noite das Facas Longas, em julho de 1934 - terminou com qualquer atividade da ala socialista do NSDAP e levou o Exército a posições mais próximas ao regime. thumb|323px|direita|Panfleto da Reichsbund jüdischer Frontsoldaten (associação de soldados alemães judeus veteranos da I Guerra Mundial, que existiu de 1919 aq 1938), publicado em 1920.No topo: Para as mães alemãs! No túmulo: 12.000 soldados judeus caíram no campo de batalha pela honra da pátria. E, abaixo: Os heróis cristãos e judeus lutaram lado a lado e repousam lado a lado em terras estrangeiras. 12.000 judeus foram mortos em ação! Ódio do partido furioso não pára nas sepulturas dos mortos. As mulheres alemãs não toleram que uma mãe judia seja desprezada em sua dor. Durante essa época, que se caracterizou por um amplo apoio social a Hitler, tanto o SPD como o KPD trataram de sobreviver na clandestinidade, mas os conflitos entre os dois partidos, antes de 1933, tornaram evidente que eram incapazes de colaborar. As redes clandestinas foram constantemente infiltradas pela Gestapo e o volume de detenções e execuções de membros do SPD e do KPD foi elevado. Por algum tempo, as redes clandestinas continuaram a funcionar e foram capazes de recrutar novos membros entre a classe operária industrial, ressentida pela disciplina que o Reich impunha com o fim de se rearmar rapidamente. A cúpula do SPD no exílio recebia e publicava informes sobre os eventos no interior da Alemanha. Mas essas redes não foram capazes de fazer mais do que sobreviver e de encorajar um movimento operário muito reduzido, que, nalgumas ocasiões, suscitou greves de curta duração. Também as redes clandestinas anarcossindicalistas foram dizimadas graças a um informante que, em 1936, possibilitou o arresto de 89 dissidentes, a maior parte dos quais encarcerados e assassinados pelo regime.
Conspirações no aparato de Estado O centro de oposição mais importante dentro do aparato de Estado esteve nos serviços de inteligência, cujas operações clandestinas ofereciam uma excelente cobertura para ações políticas. A figura chave nesse departamento foi o Coronel Hans Oster, chefe da Oficina de Inteligência Militar desde 1938 e um antinazista convicto desde 1934. Protegido pelo chefe da Abwehr e também membro da resistência, almirante Wilhelm Canaris, Oster chegou a organizar uma extensa rede de potenciais dissidentes no exército e nos serviços de inteligência, graças também à ajuda do oficial do Ministério do Interior Hans-Bernd Gisevius e do governador do Reichsbank, Hjalmar Schacht.
Formação das redes opositoras O problema que estes grupos enfrentavam era o modo como levarem adiante as suas atividades de resistência. Era evidente que qualquer oposição política aberta era inviável, não tanto por causa da presença do aparato repressivo do Estado, mas pelo nível de apoio popular de que gozava o NSDAP. Enquanto os movimentos de resistência fora da Alemanha podiam mobilizar os sentimentos patrióticos contra a ocupação, no interior da Alemanha a própria resistência era vista como antipatriótica, particularmente em tempos de guerra. Inclusive um importante número de oficiais do exército que detestavam Hitler desenvolveram uma profunda aversão a se verem envolvidos em ações "subversivas" ou de traição contra o governo. Na altura de 1936, Oster e Gisevius já tinham compreendido que, na medida em que todo o sistema era dirigido por um único homem, a única maneira de terminar com ele era assassinar esse homem ou promover um golpe de Estado militar contra ele, passou muito tempo até que essa ideia se popularizou. A maioria considerava que era possível que Hitler terminasse moderando o seu regime ou que outros líderes mais moderados o substituíssem. Outros consideravam que Hitler não era o único responsável pela brutalidade do regime e que eliminar Heinrich Himmler e reduzir o poder das SS era fundamental. Outros opositores eram devotos cristãos que desaprovavam o assassínio como medida de partida. E outros, principalmente entre os oficiais do exército, topavam-se obrigados por sentimentos de lealdade que tinham jurado a Hitler em 1934.
Ademais, a oposição topava-se dificultada pela ausência de acordo sobre quais deviam ser os seus objetivos além de apartar Hitler do poder. Alguns eram liberais que se opunham ao nazismo inteiramente e visavam a restauração de uma democracia parlamentar. Outros, especialmente militares e funcionários públicos eram, porém, conservadores e até tinham apoiado Hitler inicialmente. Entre eles, alguns preferiam a restauração monárquica da dinastia Hohenzollern e outros preferiam um outro regime autoritário, mas não nazi. E outros não tinham qualquer problema com as políticas antissemitas e ultranacionalistas do NSDAP, e apenas se preocupavam com a perspectiva de que Hitler os pudesse conduzir a uma nova guerra mundial. Nestas circunstâncias, a oposição era incapaz de configurar um movimento unido e de enviar uma mensagem coerente aos seus aliados potenciais fora da Alemanha.
Quanto ao Ministério do Exterior, graças a um acordo de 1933 entre o NSDAP e os partidos políticos conservadores que possibilitou Hitler ser nomeado Chanceler, o conservador Konstantin von Neurath, que não pertencia ao NSDAP, foi nomeado Ministro, mantendo o cargo até 1938. Desde aí, organizou uma rede de diplomatas com acesso a informes de inteligência que se transformou num ativo círculo de resistência sob o discreto liderado do sub-secretário de Estado Ernst von Weizsäcker. Nesse círculo destacaram-se o embaixador em Roma Ulrich von Hassell, o embaixador em Moscovo Friedrich Graf von der Schulenburg e os oficiais Adam von Trott zu Solz, Erich Kordt e Hans-Bernd von Haeften. O grupo conseguiu sobreviver inclusive quando o ardente nazi Joachim von Ribbentrop sucedeu Neurath como Ministro do Exterior, mas a sua atividade reduziu-se a enviar informes aos Aliados e petições de intervenção.
A resposta dos Aliados Na altura de 1943, a queda de Mussolini e a derrota da Operação Cidadela em Kursk urgiram novamente os conspiradores, que se convenceram de que, se Hitler fosse eliminado, os Aliados poderiam aceitar uma negociação de paz que deixasse à margem a União Soviética, cujo eventual controlo sobre a Alemanha era o cenário mais temido pelos opositores do aparato de Estado e do exército, de tendência claramente conservadora. Do que se tratava era de que as potências ocidentais respeitassem um governo conservador formado à margem do NSDAP.
Sob essa ideia, a atividade conspiratória no aparato de Estado multiplicou-se. A Oficina Exterior tinha-se convertido já num ponto de concentração de opositores devido à facilidade de contatar com o exterior através de diplomatas de países neutrais. À petição de oficiais da Oficina Exterior como Hassell e Trott, Theo Kordt, da embaixada alemã em Berna, contatou com os britânicos através de Willem Visser't Hooft, na altura secretário geral do Conselho Mundial de Igrejas, sediado em Genebra. Ao mesmo tempo, o Círculo de Kreisau enviou Dietrich Bonhoeffer e Helmut von Moltke a reunir-se com George Bell, bispo de Chichester (Grã-Bretanha). Outros envios de informação produziram-se através de canais controlados pelo Vaticano, ou através de diplomatas sediados em Lisboa, um dos principais lugares de comunicações entre a Alemanha e os países aliados.