thumb|upright=1.5|Cilícia num mapa de 1903 Cilícia (; ; ; em parta: kylkyʾ; ) foi uma antiga região na costa sul da Ásia Menor, localizada imediatamente ao sul do platô central da Anatólia no território da moderna Turquia. Grosso modo, ocupava o que é hoje a região do Mediterrâneo da Turquia a oriente da , situando-se a sua fronteira ocidental entre as modernas cidades turcas de Gazipaşa e Alânia. Foi organizada como uma entidade política desde a época dos hititas até ao período bizantino. A ilha de Chipre estava separada da Cilícia por uma estreita faixa do Mediterrâneo.
Geografia A Cilícia se estende ao longo da costa mediterrânea a partir da Panfília, que está a oeste, até os Montes Amano, que a separava da Síria. Para o norte e leste estavam os Montes Tauro, que a separavam do elevado platô da Anatólia central. A região era entrecortada por um estreito cânion chamado na Antiguidade de Portas da Cilícia.Ramsay, William Mitchell (1908) The Cities of St. Paul Their Influence on His Life and Thought: The cities of Eastern Asia Minor A.C. Armstrong, New York, page 112, OCLC 353134Baly, Denis and Tushingham, A. D. (1971) Atlas of the Biblical world World Publishing Company, New York, page 148, OCLC 189385 A antiga Cilícia era naturalmente dividida em duas regiões chamadas Cilícia Traqueia e Cilícia Pédias, separadas pelo rio Lamas (Limonlu Çayı). Salamina, uma importante cidade na costa leste de Chipre fazia parte também desta jurisdição. Os gregos inventaram para a Cílicia um epônimo fundador helênico na figura do mitológico Cílix, mas o históricoEdwards, I. E. S. (editor) (2006) The Cambridge Ancient History, Volume 2, Part 2, History of the Middle East and the Aegean Region c. 1380–1000 B.C. (3rd edition) Cambridge University Press, Cambridge, England, page 680, ISBN 0-521-08691-4 fundador da dinastia que reinou sobre a Cilícia Pédias era Mopsus,Fox, Robin Lane (2009) Travelling Heroes: In the Epic Age of Homer Alfred A. Knopf, , New York, pages 211-224, ISBN 978-0-679-44431-2 que aparece nas fontes fenícias como Mpš,Fox, Robin Lane (2009) Travelling Heroes: In the Epic Age of Homer Alfred A. Knopf, , New York, page 216, ISBN 978-0-679-44431-2Edwards, I. E. S. (editor) (2006) The Cambridge Ancient History, Volume 2, Part 2, History of the Middle East and the Aegean Region c. 1380–1000 B.C. (3rd edition) Cambridge University Press, Cambridge, England, page 364, ISBN 0-521-08691-4 o fundador de MopsuéstiaSmith, William (1891) A Classical Dictionary of Biography, Mythology, and Geography based on the Larger Dictionaries (21st edition) J. Murry, London, page 456, OCLC 7105620 que emprestou seu nome para um oráculo nas proximidades. Homero menciona o povo de Mopsus, que podem ser os cilícios, como oriundos da Trôade, na região mais a noroeste da península anatólica.
A Cilícia Traqueia ("Cilícia acidentada"; ; chamada de Hilacu ou Quilacu em assírio), a Cilícia "clássica",Sayce, A. H. (October 1922) "The Decipherment of the Hittite Hieroglyphic Texts" The Journal of the Royal Asiatic Society of Great Britain and Ireland 4: pp. 537–572, page 554Edwards, I. E. S. (editor) (2006) The Cambridge Ancient History, Volume 2, Part 2, History of the Middle East and the Aegean Region c. 1380–1000 B.C. (3rd edition) Cambridge University Press, Cambridge, England, page 422, ISBN 0-521-08691-4Toynbee, Arnold Joseph and Myers, Edward DeLos (1961) A Study of History, Volume 7 Oxford University Press, Oxford, England, page 668, OCLC 6561573 é um acidentado distrito montanhosoBean, George Ewart and Mitford, Terence Bruce (1970) Journeys in Rough Cilicia, 1964–1968 (Volume 102 of Österreichische Akademie der Wissenschaften, Philosophisch-Historische Klasse.Denkschriften) Böhlau in Komm., Vienna, ISBN 3-205-04279-4 caracterizado por prolongamentos dos Montes Tauro que geralmente terminam em promontórios rochosos formando pequenas baías naturais,Rife, Joseph L. (2002) "Officials of the Roman Provinces in Xenophon's "Ephesiaca"" Zeitschrift für Papyrologie und Epigraphik 138: pp. 93–108 , page 96 uma característica que transformou a região, na Antiguidade, no abrigo de diversos bandos de piratas,Ver também Side (Σίδη) e, na Idade Média, em postos avançados dos genoveses e venezianos. O distrito era cortado pelo rio CalicadnoWainwright, G. A. (April 1956) "Caphtor - Cappadocia" Vetus Testamentum 6(2): pp. 199–210, pages 205–206 e estava coberta por florestas que eram exploradas por fenícios e egípcios. Em compensação, a região não tinha nenhuma cidade grande.
A Cilícia Pédias ("Cilícia plana"; ; Kue dos assírios), a leste da Traqueia, contava também com prolongamentos dos Montes Tauro e tinha uma grande planície costeira de um rico solo argiloso conhecido pelos gregos - como Xenofonte, que atravessou a região com seus dez mil mercenários gregosXenofonte, Anabasis 1.2.22 - por sua abundância (euthemia)Robin Lane Fox, Travelling Heroes in the Epic Age of Homer, 2008:73 e ss de gergelim, painço e azeitonas.Atualmente planta-se ali algodão e laranjas Ela era famosa também por ter servido de pastagem aos cavalos importados pelo rei Salomão (Fox 2008:75 nota 15.). Muitos de seus locais mais elevados eram fortificados. A planície era cortada por três grandes rios, o Cidno (Tarsus Çay), o (Seyhan) e o (Ceyhan), cada um deles carregando para a costa uma enorme quantidade de sedimentos da região desflorestada no interior, enriquecendo suas margens e criando diversos mangues ou pântanos. O Saro atualmente deságua no Mediterrâneo ao sul de Tarso, mas há claros indícios que ele se unia antigamente ao Piramo e os dois juntos corriam para o mar a oeste de Kara-tash. Era através da rica planície de Isso que passava a antiga estrada que ligava o oriente e o ocidente, às margens da qual estavam as grandes cidades de Tarso, no Cidno, Adana, no Saro, e Mopsuéstia no Piramo.
Antiguidade thumb|esquerda|Acrópole de Anazarbo A Cilícia tem sido permanentemente habitada desde o NeolíticoAkpinar, E. 2004. Hellenistic and Roman Settlement Patterns in the Pl.ain of Issus and the Westerly Slopes of the Amanus Range. Ankara: Bilkent University.Mellink, M.J. 1991. Anatolian Contacts with Chalcolithic Cyprus..
Ela era conhecida como Quizuatena durante o período antigo hitita () e estava dividida em duas partes, Uru Adaniya ("Cilícia plana"), uma planície bem irrigada por rios e Tarza ("Cilícia acidentada"), a região montanhosa a oeste.
Os cilícios aparecem como Hilacu em inscrições assírias e, na primeira parte do , eram um dos quatro mais poderosos povos da Ásia ocidental. Homero menciona a planície e a chama de "planície Aleiana", o local por onde vagava Belerofonte,Ilíada 6.201. mas ele "transferiu" os cilícios muito para o norte e oeste da Anatólia e os fez também aliados de Troia. Segundo ele, a "Cilícia" estaria imediatamente ao sul da Trôade, em frente ao golfo de Adramício. A ligação (se existe alguma) entre esta e a mais conhecida é incerta. Ela foi mencionada na Ilíada e na "Geografia" de Estrabão; suas principais cidades seriam Teba, e . Todas as três teriam sido atacadas e saqueadas por Aquiles durante a Guerra de Troia.
As cidades cilícias, desconhecidas de Homero, ostentavam seus nomes pré-helênicos já na época: Tarzu (Tarso), Ingira (Anquíale), Danuna-Adana, que ainda é chamada assim, Pari (talvez a moderna Misis), Cundu (Cinda e, depois, Anazarbo) e Caratepe (Azatiuataia).Fox 2008:75.
thumb|Ruínas de Jotapa (Aitape), entre Gazipaşa e Alânia, situada na extremidade ocidental da Cilícia
Há evidências de que, por volta de , os reis hititas Hatusil I e Mursili I conseguiam atravessar livremente o rio Piramo, o que é um bom sinal de que eles controlavam a região na época. Depois da morte de Mursili por volta de 1595, os hurritas conquistaram a região, que ficou livre por dois séculos. O primeiro rei da Cilícia livre, Isputahsu, filho de Pariyawatri, foi reconhecido como "grande rei" em tabletes cuneiformes e nos hieróglifos hititas. Outro registro da origem hitita da Cilícia, um tratado entre Ishputahshu e Telepinu, rei dos hititas, foi relatado tanto em hitita quanto em acadiano.
No século seguinte, o rei cilício Pilliya firmou tratados tanto com o rei dos hititas quanto com Idrimi de Alalaque, que menciona ter atacado diversos alvos militares por toda a Cilícia oriental. Niquemepa, sucessor de Idrimi como rei de Alalaque, chegou a ponto de pedir ajuda a um rival hurrita, Saustatar de Mitani, para conseguir reduzir o poder cilício na região. Ficou aparente muito cedo, porém que o crescente poder hitita logo se mostraria irresistível e a cidade de Quizuatena foi a primeira a cair, ameaçando toda a Cilícia. O rei foi forçado a aceitar a vassalização sob os hititas e tornou-se o último rei da antiga Cilícia.Hallo, p. 112.
No , deu-se um enorme deslocamento de pessoas conforme os povos do mar invadiram a região. Os hurritas que ali moravam rapidamente se mudaram para o nordeste, em direção aos Montes Tauro, assentando-se na região da Capadócia.Hallo, pp. 119–120.
No , a Cilícia foi unificada sob o reinado da dinastia de Mukšuš, que os gregos chamaram de Mopsus e a quem eles creditaram a fundação de Mopsuéstia, mesmo a capital sendo em Adana. E o caráter multicultural da região nesta época aparece nas inscrições bilíngues dos séculos IX e VIII, escritas tanto em luvita (uma língua indo-europeia) quanto no fenício (semítica ocidental).
No , os assírios começaram a conquistar a região e ela foi finalmente anexada ao Império Neoassírio, onde permaneceu até o .
Império Persa thumb|esquerda|Movimentos dos exércitos persa e macedônico antes da Batalha de Isso, vencida por Alexandre, o Grande, na Cilícia
Durante o domínio do Império Aquemênida, a Cilícia aparentemente era governada por reis nativos pagadores de tributos e que tinham o nome helenizado de "Sienesis"; mas ela foi oficialmente incluída na quarta satrapia por Dario. Xenofonte relata uma rainha e afirma que a grande marcha de Ciro atravessou a região sem enfrentar resistência.
A grande estrada para o ocidente já existia antes de Ciro conquistar a Cilícia. Em seu longo trecho de descida a partir do platô anatólico até chegar em Tarso, ela atravessava um estreito passo entre as paredes de um cânion chamado Portas da Cilícia. Depois de atravessar as colinas a leste do Piramo, ela atravessava um outro portão de tijolos chamado "Demir Kapu" e adentrava a planície de Isso. A partir dali, uma estrada corria para o sul através de outro portão de tijolos até chegar em Alexandreta. De lá, ela atravessava os pela Porta da Síria, o Passo Beilan, chegando finalmente em Antioquia; outra corria para o norte em direção a um portão de tijolos ao sul de Toprak Kale e atravessava os Montes Amano pela Porta da Armênia, o Passo de Baghche, e chegava até a região norte da Síria e o alto Eufrates. Através deste último passo, que aparentemente não era conhecido por Alexandre, Dario cruzou as montanhas antes da Batalha de Isso. Ambos os passos são curtos, fáceis de atravessar e ligam a Cilícia Pédias geograficamente com a Síria e não com a Ásia Menor.
Alexandre, o Grande
Alexandre atravessou o rio Hális no verão de e terminou entre o sul da Frígia e a Cilícia. Ele conhecia bem as obras de Xenofonte e como as Portas da Cilícia eram "impassáveis se defendidas por um inimigo". O plano dele era tentar amedrontar seus inimigos com uma demonstração de força e avançar sem combate. Na calada da noite, os gregos atacaram e, pegos de surpresa, os guardas e o sátrapa iniciaram uma fuga para Tarso depois de incendiar as plantações. O plano funcionou e Alexandre e seu exército conseguiram passar ilesos pela Porta e invadiram a Cilícia.