thumb|255px|Estátua de João Vaz Corte Real, gesso da autoria de Canto da Maia, realizado em 1948, por encomenda do Ministério do Ultramar, para a Exposição 15 Anos de Obras Públicas que teve lugar naquele ano no Instituto Superior Técnico (Lisboa).Museu de Angra do Heroísmo: Corte-Real. A obra está exposta no Museu de Angra do Heroísmo, Açores. O gesso reproduz em tamanho maior uma obra encomendada em 1945 para o jardim fronteiro à Torre de Belém, projecto de Cotinelli Telmo que não chegou a ser executado. thumb|255px|A pedra de Dighton em 1863. thumb|255px| A pedra de Dighton na sua posição original no rio Taunton. João Vaz Corte-Real (Tavira, c. 1420 — Vila de Angra, 2 de julho de 1496) foi navegador e explorador, capitão do donatário na ilha Terceira da parte de Angra. Filho de Vasco Annes Corte Real, foi Porteiro-mor do infante D. Fernando, Duque de Viseu e de Beja, irmão do rei D. Afonso V e pai de el-Rei D. Manuel I. Em 1461, participou na expedição destinada a defender Alcácer Ceguer, no Norte de África. Embora persistam questões controversas que o atual estado dos conhecimentos não permite esclarecer plenamente, diversos historiadores consideram que terá concretizado duas viagens à Terra Nova do Bacalhau, por mando de El Rei. Segundo uma hipótese defendida por alguns historiadores, João Vaz Corte Real terá realizado viagens pelo Atlântico Norte, possivelmente alcançando a Terra Nova ou outras regiões próximas da Gronelândia e da América do Norte antes de 1472. Esta hipótese baseia-se, entre outros elementos, nos relatos posteriormente registados por Gaspar Frutuoso nas Saudades da Terra, cerca de um século depois dos acontecimentos alegadamente descritos. Homem ligado às navegações portuguesas do século XV, liderou o grupo de colonos que fundaram a vila de Angra, hoje a cidade de Angra do Heroísmo.«Corte-Real, João Vaz» na Enciclopedia Açoriana. Casou com D. Maria Abarca, filha de Pedro Abarca, fidalgo de Tui, de quem teve seis filhos, seus dignos continuadores. Dois dos seus filhos, Miguel Corte Real e Gaspar Corte Real, realizaram viagens de exploração do noroeste do Atlântico que os levaram às costas da América do Norte, sendo-lhes atribuído o reconhecimento da Terra Nova.António Ornelas Mendes & Jorge Forjaz, Genealogias da Ilha Terceira, vol. III, pp. 469-471. DisLivro, Livro, 2007 (978-972-8876-98-2).Manuel Luís Maldonado, Fenix Angrence, I, III. Instituto Histórico da Ilha Terceira, Angra do Heroísmo, 1989-1997.Ernesto do Canto, Os Cortes Reais. Memória histórica acompanhada de muitos documentos inéditos. Ponta Delgada, Typ. do Archivo dos Açores, 1883.Dionísio David, «Corte-Real, João Vaz» in Dicionário da História dos Descobrimentos, vol. I, p. 303. Lisboa, Círculo de Leitores, 1993.
Biografia João Vaz Corte-Real foi filho ilegítimo de Vasco Anes Corte-Real, cavaleiro da Casa Real, fronteiro-mor do Algarve, alcaide-mor de Tavira e Silves e armador-mor (oficial encarregue das armas pessoais do rei) do rei D. Afonso V, e de mãe desconhecida (embora alguns autores a apontem como sendo Mor Afonso EscudeiraA referência para o nome de Mor Afonso Escudeira é Felgueiras Gaio, Nobiliário de Famílias de Portugal, tit. de Monizes, §1, n.º 3 Henrique Moniz.). O pai estivera na tomada de Ceuta, em 21 de agosto de 1415, e recebera, por serviços ao rei, diversos bens em Tavira.Archivo dos Açores, vol. 4, pp. 473 e seg.Sociedade de Geografia de Lisboa: João Vaz Corte Real, navegador e donatário de Angra na ilha Terceira e ilha de São Jorge (Açôres).
Apesar de filho de um nobre abastado, João Vaz Corte Real era bastardo e secundogénito, sendo por isso remota a possibilidade de suceder na casa paterna, circunstâncias em que a aventura ultramarina surgia como oportunidade obter o património de que carecia e para afirmar a respectiva linhagem. Reconhecido por seu pai, era morador em Tavira e porteiro-mor do infante D. Fernando, duque de Viseu e pai do futuro rei D. Manuel, quando casou com Maria Abarca, filha de Pedro Abarca, um fidalgo galego.
Não se conhece o percurso pessoal de João Vaz Corte-Real até receber a capitania de Angra, a qual lhe foi doada por carta de 2 de abril de 1474.Archivo dos Açores, vol. 4 (1882), p. 157-158. A doação foi feita na sequência da divisão da ilha Terceira em duas capitanias, a de Angra e a da Praia, na sequência da morte do primeiro capitão da ilha Terceira, Jácome de Bruges, e dos conflitos entre os seus herdeiros e os de Diogo de Teive. A doação da capitania foi feita em recompensa de serviços prestados, sendo que as fontes mais antigas consideram que os mesmos foram realizados em viagens de exploração no Atlântico.
Entre os «serviços prestados» algumas fontes consideram que João Vaz Corte-Real terá sido enviado por D. Afonso V à Dinamarca, antes de 1473, para participar numa expedição, encabeçada pelo navegador alemão Didrik Pining, destinada a estabelecer e renovar as antigas ligações da Dinamarca com a Gronelândia.Die Entdeckung Amerikas. Corte-Real teria ainda organizado anteriormente outras viagens que o teriam levado até às costas da América do Norte, explorando desde as margens do Rio Hudson e São Lourenço até ao Canadá e Península do Labrador.Kirsten A. Seaver: The frozen echo: Greenland and the exploration of North America, ca. A.D. 1000–1500, Stanford University Press, 1997, ISBN 978-0-8047-3161-4, pp. 199 e seguintes. (). No entanto, o raciocínio de Seaver, amplamente baseado em Samuel Eliot Morison, é inconclusivo e suas fraquezas são abordadas por Janus Möller Jensen , 1.ª ed., 2005, p. 164, claramente demonstrado. Contudo, estas viagens permanecem duvidosas.Cf. Nessa viagem terá sido acompanhado por Álvaro Martins Homem, que ao tempo já residia na ilha Terceira.
Pouco depois de ser nomeado capitão-donatário de Angra, partiu para os Açores, acompanhado de sua mulher e filhos e de pelo menos dois dos seus cunhados, Pedro Abarca e Isabel Abarca, pois ambos casaram em Angra. Fixou-se no então incipiente povoado de Angra, que fez sede da sua capitania. Com a sua chega a Angra, que terá ocorrido em finais de 1474 ou princípios de 1475, teve lugar o início da segunda fase do povoamento da ilha Terceira. A carta de doação da capitania de Angra, data de Évora a 2 de abril de 1474, diz o seguinte:Archivo dos Açores, vol IV, p. 159-160. «Eu a Iffanta D. Beatriz, tetor, e curador do Senhor Duque meu filho etc. Faço saber a quantos esta minha carta virem, que havendo eu por informação estar ora vaga a capitania da Ilha Terceira de Jesus Christo, do dito Senhor meu filho por se affirmar ser morto Jacome de Bruges, que até ora teve, do qual ha muito tempo que alguma nova se não ha, posto que já muitas vezes mandei sua mulher, que a verdade dello soubesse, e me certificasse, assignando-lhe para isso tempo dum anno, e depois mais; a qual em alguma maneira com todallas diligencias que nisso fizesse, me não trouve dello certidão alguma: pelo qual havendo eu por certo o que me assim é dito e esguardando o damno que é, a dita ilha estar assim sem capitão que haja de reger e manter em direito e justiça pelo dito Senhor,e como em ello pela dita causa se fazem algumas cousas que são pouco serviço de Deus, nem do dito Senhor meu filho; determinei prover a ello por descargo da minha consciencia e serviço do dito Senhor. E considerando eu d'outra parte os muitos e grandes serviços que João Vaz Corte Real, fidalgo da casa do dito Senhor meu filho, tem feitos ao Iffante meu Senhor e seu padre que Deus haja, e depois a mim e a elle, e confiando de sua bondade lealdade, e vendo sua disposição a qual é pera poder servir o dito Senhor, e seu entender a boa descripção pera a dita ilha governar e manter em direito e justiça, em galardão dos ditos serviços lhe fiz mercê da dita capitania da ilha Terceira, assim como a tinha o dito Jacome de Bruges, e lhe mandei dello dar sua carta antes desta. E por quanto da dita ilha não era partida amtre o dito João Vaz e o dito Alvaro Martins e a parti pela Ribeira Seca, que é aquem da Ribeira Fr. João, ficando a Ribeira de Frei João na parte d'Angra e da dita Ribeira Seca pella metade da dita ilha até outra banda, como se vai de Sueste ao Noroeste; e partida a dita ilha pela dita maneira, mandei ao dito João Vaz que escolhesse, e elle escolheu na parte d'Angra, e deixou a parte da Praia, em que o dito Jacome de Bruges tinha feito seu assento; e a mim prouve dello, e lhe ei por feito mercê da dita parte porque doutra mandei dar carta ao dito Alvaro Martins. E me praz que o dito João Vaz tenha por o dito Senhor a dita parte e a mantenha por elle em justiça e direito: e morrendo elle isso mesmo fique a seu filho primeiro ou segundo, se tal for que tenha o cargo pela guisa suso dita, e assim de descendente em descendente pela direita e sendo em tal idade o dito seu filho, que elle seja em edade para reger. Item me praz que elle tenha em a sobredita ilha a jurisdição pelo dito meu filho e em seu nome, do cível e crime, resalvando morte ou talhamento de membro que disto venha appelação ou agravo presente o dito Senhor; porem sem embargo da dita jurisdicção. a mim praz, que todos meus mandados, e correição sejam hy compridos, assy como em cousa propia do dito Senhor. Outro sim me praz que o dito João Vaz haja para si todos os moinhos de pão que houver na dita ilha de que asi dou cargo, e que ninguém não faça hi moinhos, somente elle, ou quem lhe aprouver, e isto não se entendam mó de braço, que a faça quem quiser, não moendo a outrem, nem atafonas não tenha outrem, somente elle ou quem lhe aprouver. Item me praz que haja de todas as serras d’agoa que se hi fizerem de cada to, como dito é. E em testemunho dello lhe mandei dar esta minha carta per mim asinada e asellada do meu sello. Dada em a cidade d’Evora a dous dias do mez de Abril, Rodrigo Alvarez a fez, anno de nosso Senhor Jesus Christo de mil quatrocentos setenta e quatro.»
A carta de doação da capitania, assinada pela infanta D. Beatriz, foi confirmada esta carta de seu filho D. Diogo, a 3 de maio de 1483, e pelo duque D. Manuel, a 6 de abril de 1488.
Para além de capitão do donatário em Angra desde 1474, por carta régia de 4 de maio de 1483 foi-lhe também concedida a capitania da ilha de São Jorge, cujo povoamente ficou sob sua responsabilidade.Archivo dos Açores, vol. 3 (1881), p. 13. Por carta régia de 14 de maio de 1495 foi feito alcaide-mor do Castelo de Angra e da ilha de São Jorge.Francisco Ferreira Drummond, Anais da ilha Terceira, vol. I, p. 504.
Em Angra instalou-se na base da colina designada pelo Outeiro, sobre a qual se estabeleceu a primeira fortificação do povoado, o Castelo de São Luís (ou Castelo dos Moinhos), hoje a Memória.Joaquim Moniz de Sá Corte Real, «A fundação da cidade de Angra - Um notável solar primitivo» in A União, edições de 14 e 15 de junho de 1938. Na sua Fenix Angrense, Manuel Luís Maldonado descreve assim a sua ação em Angra:Manuel Luís Maldonado, Fenix Angrence, vol. 3, p. 15.