thumb|285px|A barraca ao ser encontrada pelas equipes de busca em 26 de fevereiro de 1959
Incidente do Passo Dyatlov foi um acontecimento que resultou na morte de nove esquiadores ao norte dos montes Urais, na antiga União Soviética, na noite de 2 de fevereiro de 1959. O incidente aconteceu na costa leste da montanha Kholat Syakhl (Холат Сяхл), cujo nome em mansi significa "Montanha dos Mortos". Desde então, o passo de montanha onde o incidente ocorreu é chamado de Passo Dyatlov (Перевал Дятлова), baseado no nome do líder do grupo, Igor Dyatlov.
A ausência de testemunhas e as investigações subsequentes acerca da morte dos esquiadores inspiraram intensas especulações. Investigadores da época determinaram que os esquiadores rasgaram suas barracas de dentro para fora, fugindo a pé sob forte nevasca. Apesar dos corpos não demonstrarem sinais de luta, duas vítimas apresentavam o crânio fraturado e duas tinham costelas partidas. As autoridades soviéticas determinaram que uma "força desconhecida" provocara as mortes; o acesso à região foi consequentemente bloqueado a esquiadores e aventureiros por três anos após o incidente. Devido à ausência de sobreviventes, a cronologia dos eventos ainda permanece incerta."Mysterious Deaths of 9 Skiers Still Unresolved" - St. Petersburg Times"Перевал Дятлова" - Урал"Цена гостайны - девять жизней", изд-во - "Уральский рабочий", Свердловск
A Rússia abriu uma nova investigação sobre o incidente em 2019 e as conclusões foram apresentadas em julho de 2020: a investigação concluiu que a causa da morte foi hipotermia associada a uma Avalancha, forçando o grupo a deixar seu acampamento, juntamente com a baixa visibilidade. Andrey Kuryakov, vice-chefe da promotoria regional, declarou: “Foi uma luta heroica. Não houve pânico. Mas eles não tiveram chance de se salvar nessas circunstâncias”. Um estudo, publicado em 28 de janeiro de 2021, fornece as primeiras evidências científicas por trás de uma pequena avalancha, desencadeada em condições incomuns.
Antecedentes thumb|esquerda|Rio Auspiya, usado por turistas na região.
Um grupo foi formado para uma expedição ao norte das Urais, em Oblast de Sverdlovsk. Liderado por Igor Dyatlov, consistia de oito homens e duas mulheres, a maioria estudantes ou graduados do Instituto Politécnico de Ural (atualmente Universidade Técnica Estadual de Ural). O objetivo da expedição era alcançar Otorten, uma montanha situada 10 quilômetros ao norte do local do incidente. Esta rota, naquela temporada, era classificada como "categoria III", a mais difícil. Todos os integrantes possuíam experiência em excursões de esqui e expedições em montanhas.
O grupo viajou de trem para Ivdel, cidade ao centro da província de Oblast de Sverdlovsk, desembarcando ali em 25 de janeiro. Eles então tomaram um caminhão para Vizhai, o último assentamento inabitado ao norte, começando a marcha em direção a Otorten em 27 de janeiro. No dia seguinte, um dos integrantes, Yuri Yudin, foi forçado a voltar devido a problemas de saúde. Diários e câmeras encontrados em seu último acampamento tornaram possível rastrear a derradeira rota do grupo no dia anterior ao incidente. Em 31 de janeiro, eles chegaram na beira de um morro e prepararam-se para escalá-lo. Em um vale silvestre, eles estocaram comida e equipamento extra, que seriam utilizados mais tarde na viagem de volta. No dia seguinte, 1 de fevereiro, os esquiadores começaram a descer o passo. Ao que parece eles planejavam atravessar o local e acampar do outro lado durante a noite seguinte, mas devido à piora nas condições meteorológicas, com tempestades de neve e declínio de visibilidade, o grupo acabou se perdendo e seguindo para oeste, subindo em direção ao topo do Kholat Syakhl. Quando perceberam o equívoco, eles decidiram parar e montar acampamento no declive da montanha.
Membros da expedição Nome Nome russo Nascimento Idade Notas Igor Alekseyevich Dyatlov Игорь Алексеевич Дятлов 13 de janeiro de 1936 23 Líder do grupo Yuri Nikolayevich DoroshenkoЮрий Николаевич Дорошенко 29 de janeiro de 1938 21 Lyudmila Alexandrovna DubininaЛюдмила Александровна Дубинина 12 de maio de 1938 20 Yuri (Georgiy) Alexeyevich KrivonischenkoЮрий (Георгий) Алексеевич Кривонищенко 7 de fevereiro de 1935 23 Alexander Sergeyevich Kolevatov Александр Сергеевич Колеватов 16 de novembro de 1934 24 Zinaida Alekseevna KolmogorovaЗинаида Алексеевна Колмогорова 12 de janeiro de 1937 22 Rustem Vladimirovich SlobodinРустем Владимирович Слободин 11 de janeiro de 1936 23 Nikolai Vladimirovich Thibeaux-BrignollesНиколай Владимирович Тибо-Бриньоль Junho–Julho de 1935 23 Semyon (Alexander) Alekseevich ZolotaryovСемён (Александр) Алексеевич Золотарёв 2 de fevereiro de 1921 38 Yuri Yefimovich Yudin Юрий Ефимович Юдин 19 de julho de 1937 21 Deixou a expedição em 28 de janeiro devido a uma doença; morreu em 27 de abril de 2013, aos 75 anos
Busca thumb|upright=1.5|Fotos dos mortos no incidente no Cemitério Mikhajlov em Ecaterimburgo, Rússia.
Dyatlov combinou que mandaria uma mensagem telegráfica para seu clube esportivo assim que o grupo retornasse a Vizhai. Estimava-se que isso ocorreria por volta de 12 de fevereiro, mas mesmo com o passar da data não houve reação, pois atrasos eram comuns em expedições desse tipo. Em 20 de fevereiro, depois que familiares dos viajantes exigiram uma operação de resgate, os administradores do instituto enviaram as primeiras equipes de busca, formadas por alunos e professores voluntários. Posteriormente, o exército e forças policiais foram envolvidas, com aviões e helicópteros requisitados a juntar-se à operação.
Em 26 de fevereiro, as equipes de busca encontraram o acampamento abandonado em Kholat Syakhl. A barraca estava arruinada, e um conjunto de pegadas seguiam até a margem de um bosque próximo, estando cobertas por neve após 500 metros. Na beira da floresta, sob um grande e antigo pinheiro, foram encontrados os restos de uma fogueira, juntamente com os primeiros dois corpos, descalços e usando apenas roupa de baixo. Entre o pinheiro e o acampamento estavam outros três corpos, mortos em posição que sugeria que estivessem tentando voltar às barracas. Eles foram encontrados separadamente, a distâncias de 300, 480 e 630 metros do pinheiro. A busca pelos quatro esquiadores restantes levou mais de dois meses. Eles foram finalmente encontrados em 4 de maio, debaixo de quatro metros de neve, em uma ravina embrenhada na mata próxima ao pinheiro.
Investigação thumb|esquerda|upright|A capa original do processo criminal por ocasião do incidente.
Um inquérito foi aberto imediatamente após o surgimento dos cinco primeiros corpos. Um exame médico não encontrou ferimentos que pudessem ter provocado as mortes, sendo concluído que todos morreram de hipotermia. Um dos corpos apresentava uma pequena fissura no crânio, inicialmente não considerada um ferimento fatal. O exame dos quatro corpos encontrados em maio mudou completamente o cenário. Três deles apresentavam ferimentos fatais, sendo dois com fraturas cranianas e dois com extensas fraturas torácicas. A força necessária para provocar tais ferimentos teria de ser extremamente alta, com um dos especialistas comparando-a à força de uma colisão automobilística. O mais notável é que os corpos não traziam feridas externas, como se tivessem sido esmagados por um alto nível de pressão. Apenas um dos mortos tinha um ferimento externo considerável: estava sem a língua. A análise das roupas identificou que elas continham um elevado nível de radiação. Lev Ivanov, chefe da investigação, disse durante entrevista em 1990 que, nos meses de fevereiro e março de 1959, diversas testemunhas, incluindo militares e meteorologistas, haviam relatado a visão de "esferas voadoras brilhantes" na área. Ivanov afirmou, na mesma entrevista, que já na época do incidente imaginara haver algum tipo de relação entre os casos. Inicialmente, especulou-se que o povo indígena mansi poderia ter atacado e assassinado o grupo por invadir seu território, mas as investigações indicaram que a natureza das mortes não suportaria tal tese; apenas as pegadas dos esquiadores eram visíveis, e eles não apresentavam sinais de combate corpo-a-corpo.
Evidências sugerem que o grupo foi obrigado a deixar o acampamento durante a noite, quando já estavam dormindo. Embora a temperatura estivesse baixa (por volta de -25° a -30 °C), com tempestade e fortes rajadas de vento, os mortos estavam apenas parcialmente vestidos. Alguns deles tinham apenas um sapato, enquanto outros usavam somente meias. Outros foram encontrados enrolados em pedaços de roupas rasgadas, aparentemente arrancadas daqueles que já haviam morrido. O veredito foi que todos os integrantes do grupo morreram devido a uma "força desconhecida". O inquérito foi oficialmente encerrado em maio de 1959 devido à "ausência de parte culposa". Os documentos relativos ao caso foram então arquivados, sendo divulgados ao público somente na década de 1990, ainda assim em fotocópias com diversas partes ausentes.
Yury Kuntsevich, de 12 anos de idade, que mais tarde se tornou o chefe da Fundação Dyatlov, com sede em Yekaterinburg (veja abaixo), participou de cinco funerais dos excursionistas. Ele lembrou que a pele deles tinha um "bronzeado profundo". "Eu tinha 12 anos naquela época, mas me lembro da profunda ressonância que o acidente teve com o público, apesar dos esforços das autoridades em manter parentes e investigadores em silêncio", disse Yury Kuntsevich, diretor da Fundação Dyatlov.
Teorias
Avalancha thumb|Tumba do grupo no cemitério Mikhajlov em Ecaterimburgo.
A teoria de que uma avalancha causou as mortes dos alpinistas, embora inicialmente popular, tem sido questionada desde então. Revendo a hipótese sensacionalista do "Yeti" (veja abaixo), o autor cético estadunidense Benjamin Radford sugere como mais plausível:
"que o grupo acordou em pânico (...) e saiu pela tenda porque uma avalancha havia coberto a entrada da tenda ou porque eles estavam com medo de que uma avalancha fosse iminente (...) melhor ter uma fenda potencialmente reparável em uma barraca do que o risco de serem enterrados vivos sob toneladas de neve. Eles estavam mal vestidos porque estavam dormindo e correram para a segurança da floresta próxima, onde as árvores ajudariam a diminuir a neve que se aproximava. Na escuridão da noite eles se separaram em dois ou três grupos, um grupo fez uma fogueira (daí as mãos queimadas) enquanto os outros tentavam retornar à tenda para recuperar suas roupas, já que o perigo aparentemente havia passado. E todos eles congelaram até a morte antes que pudessem localizar sua tenda na escuridão. Em algum momento algumas das roupas podem ter sido recuperadas ou trocadas dos mortos, mas de qualquer forma o grupo de quatro pessoas cujos corpos foram severamente danificados foram pegos em uma avalancha e enterrados sob 4 metros (13 pés) de neve (mais do que suficiente para explicar a "força natural convincente" descrita pelo médico legista). A língua de Dubinina provavelmente foi removida por predadores comuns."
Evidências que contradizem a teoria da avalancha incluem:
A localização do incidente não tinha sinais óbvios de uma avalancha ocorrida. Uma avalancha teria deixado certos padrões e fragmentos distribuídos em uma área ampla. Os corpos encontrados após dez dias do evento foram cobertos com uma camada muito rasa de neve e, se houvesse uma avalancha de força suficiente para varrer o acampamento, esses corpos teriam sido varridos também; isso teria causado lesões mais sérias e diferentes no processo e teria danificado a linha das árvores.