O Príncipe (em italiano, Il Principe) é um livro escrito por Nicolau Maquiavel em 1513, cuja primeira edição foi publicada postumamente, em 1532. Trata-se de uma das teorias políticas mais elaboradas pelo pensamento humano e que tem grande influência em descrever o Estado desde a sua publicação até os dias de hoje, mesmo os sistemas de governo já serem variados. No mesmo estilo do Institutio Principis Christiani de Erasmo de Roterdã, o intuito de O Príncipe é descrever as maneiras de conduzir-se nos negócios públicos internos e externos, e fundamentalmente, como conquistar e manter um principado, ou seja, um guia para como se chegar e manter-se no poder.
A partir da correspondência de Maquiavel, sabe-se que uma versão estava aparentemente sendo escrita em 1513, utilizando um título em latim, De Principatibus (Dos Principados).Ele escreveu sobre um breve estudo que estava elaborando com esse nome latino em sua carta a Francesco Vettori, escrita em 10 de dezembro de 1513. Esta é a carta 224 na edição traduzida da correspondência por James B. Atkinson e David Sices: . No entanto, a versão impressa só foi publicada em 1532, cinco anos após a morte de Maquiavel. Isso ocorreu com a permissão do papa Medici Clemente VII, mas “muito antes disso, na verdade desde a primeira aparição de O Príncipe em manuscrito, já havia controvérsia em torno de seus escritos”. p. 14.
Embora O Príncipe tenha sido escrito como se fosse uma obra tradicional no estilo dos espelhos de príncipes, em geral concorda-se que ele foi especialmente inovador. Isso se deve em parte ao fato de ter sido escrito em italiano vernacular, e não em latim, uma prática que vinha se tornando cada vez mais popular desde a publicação da Divina Comédia de Dante e de outras obras da literatura renascentista. enfatiza semelhanças entre O Príncipe e seus predecessores, mas ainda assim identifica as mesmas inovações apontadas por outros comentadores. Os escritos de Maquiavel continuam a ser um exame provocativo da liderança e do governo, levantando questões antigas sobre a natureza do poder e as decisões que os governantes devem tomar para preservá-lo. Maquiavel ilustra seu raciocínio utilizando comparações notáveis entre eventos clássicos, bíblicos e medievais, incluindo muitas referências aparentemente positivas à carreira assassina de Cesare Borgia, ocorrida durante a própria carreira diplomática de Maquiavel.
O Príncipe é às vezes considerado uma das primeiras obras da filosofia moderna, especialmente da filosofia política moderna, na qual o efeito prático é tido como mais importante do que qualquer ideal abstrato. Sua visão de mundo entrou em conflito direto com as doutrinas católicas e escolásticas dominantes da época, particularmente no que se refere à política e à ética.Embora Maquiavel faça muitas referências a fontes clássicas, estas não incluem a deferência costumeira a Aristóteles, que era em certa medida aprovada pela Igreja em sua época. afirma: “Maquiavel indica sua discordância fundamental com a doutrina aristotélica do todo ao substituir ‘acaso’ (caso) por ‘natureza’ no único contexto em que fala do ‘início do mundo’.” Strauss apresenta evidências de que Maquiavel foi conscientemente influenciado por Demócrito, cuja filosofia da natureza era, assim como a da ciência moderna, materialista.
Este breve tratado é o mais lembrado entre as obras de Maquiavel e o principal responsável pelo uso posterior pejorativo da palavra “maquiavélico”. Ele inclusive contribuiu para as conotações negativas modernas das palavras “” e “” nos países ocidentais. Quanto ao tema, ele se sobrepõe à obra muito mais extensa Discursos sobre a Primeira Década de Tito Lívio, escrita alguns anos depois. No uso de italianos quase contemporâneos como exemplos de pessoas que cometeram crimes com fins políticos, outra obra menos conhecida de Maquiavel com a qual O Príncipe tem sido comparado é a Vida de Castruccio Castracani.
Capítulos do livro De quantas espécies são os principados e como são adquiridos Os principados hereditários Os principados mistos A razão pela qual o reino de Dario III, ocupado por Alexandre, não se rebelou contra seus sucessores após a morte deste De que modo devem-se governar as cidades ou os principados que, antes da conquista, possuíam leis próprias Os principados conquistados com as próprias armas e qualidades pessoais Os principados novos conquistados com as armas e virtudes de outrem Dos que conquistaram o principado através do crime O principado civil Como medir as forças de todos os principados Os principados eclesiásticos Os tipos de milícias e os soldados mercenários Os exércitos auxiliares, mistos e próprios Os deveres do príncipe com suas tropas As qualidades pelas quais os homens, sobretudo os príncipes, são louvados ou vituperados A generosidade e a parcimônia A crueldade e a clemência: se é melhor ser amado do que temido, ou o contrário Os príncipes e a palavra dada Como evitar o desprezo e o ódio Se as fortalezas e muitas outras coisas cotidianas usadas pelos príncipes sejam úteis ou inúteis Como um príncipe deve agir para ser estimado Dos secretários que acompanham o príncipe Como evitar os aduladores Porque os príncipes da Itália perderam seus Estados. Quanto pode a fortuna influenciar as coisas humanas e como se pode resistir a ela. Exortação para retomar a Itália e libertá-la dos bárbaros
Síntese Entre 1502 e 1503, Maquiavel exerceu o cargo de embaixador junto a César Bórgia, estadista sem escrúpulos e capitão das forças dos Estados Pontifícios. Dominava o governo papal e usava todos os meios para conquistar novas terras e estender o domínio da família Bórgia na Itália. Os cinco meses como embaixador junto a César Bórgia o encheu de admiração.
A obra “O Príncipe”, escrita por Maquiavel em 1513, e publicada postumamente em 1532, se transformou em sua obra-prima. O livro, um manual sobre a arte de governar, foi inspirado no estilo político de César Bórgia um dos mais ambiciosos comandantes italianos, que ficou conhecido por seu poder e atrocidades que cometeu para conseguir o que queria. Maquiavel viu nele o modelo para os demais governantes da época.
A obra revela a preocupação de Maquiavel com o momento histórico da Itália, fragilizada pela falta de unidade nacional e alvo de invasões e intrigas diplomáticas. Indignado com a decadência política e moral da Itália, o autor dirige conselhos dirigidos a Lourenço, de Médici com o único objetivo de unificar a Itália e criar uma nação moderna e poderosa.
Para Maquiavel, o importante era realizar o desejo projetado, mesmo sob qualquer forma de governo – monarquia ou república, e por qualquer meio, inclusive a violência. Considerava os fatores morais, religiosos e econômicos, que operavam na sociedade como forças que um governante hábil poderia e deveria utilizar para construir um estado nacional forte. Assim, o príncipe com seu exército nacional que substituísse as precárias forças mercenárias, deveria ser capaz de estender seu domínio sobre todas as cidades italianas, acabando com a discórdia.
Em 1512, quando os Médici derrubaram a República e retomaram o governo de Florença, perdido em 1494, Maquiavel foi destituído de seu cargo e recolhe-se ao exílio voluntário na propriedade de San Casciano, perto de Florença, onde iniciou sua atividade de escritor político, historiador e literato. Em 1513, começou a trabalhar nos “Discursos sobre a Primeira Década de Tito Lívio”, em que faz uma análise da República Romana, e procurou nas experiências do passado uma solução para os problemas da Itália.
Durante o exílio escreveu também “O Príncipe” (1513), “O Diário em Torno de Nossa Língua” (1516) procurando demonstrar a superioridade do dialeto florentino sobre os demais dialetos da Itália e “A Arte da Guerra”, publicada em 1521, em forma de diálogo, onde expõe as vantagens das milícias nacionais sobre as tropas mercenárias e realiza um exaustivo estudo de estratégia e tática militar.
Em 1519, anistiado, volta a Florença, sob as graças dos Médici. Em 1520, conseguiu do cardeal Giulio de Médici a função remunerada de escrever a “História de Florença”, um tratado em estilo clássico, que ficou consagrado como a primeira obra da historiografia moderna.
Em 1526, é encarregado pelo papa Clemente VII de inspecionar as fortificações de Florença e organizar um exército permanente para sua cidade, sob o comando de Giovanni Delle Bande. Em 1527, o saque de Roma pelo imperador Carlos V, do Sacro Império Romano-Germânico, restabeleceu a república em Florença. Maquiavel, visto como favorito dos Médici foi excluído de toda atividade política.
Nicolau Maquiavel faleceu em Florença, Itália, no dia 22 de julho de 1527. Seu corpo foi sepultado na Igreja da Santa Cruz, em Florença. Morreu sem ver seu sonho realizado, pois a unificação da Itália só se completaria no século XIX.
Contexto histórico
A nova cultura política do Renascimento e o republicanismo de Florença As elaborações de Maquiavel em O Príncipe são consideradas inovadoras historicamente por pautarem-se em uma nova cultura e linguagem política que era experimentada no Renascimento florentino do século XVI como resultado da experiência republicana.
Em oposição ao pensamento político medieval, que pensava o exercício do governo como a reprodução da ordem divina e das leis universais, a república pressupõe a responsabilidade humana na tomada de decisões do corpo cívico. Por sua vez, o humano, passível de corrupção, confere às formações políticas a perenidade: elas nascem, se transformam e podem morrer. É dessa maneira que se constitui “a forma particular, finita e histórica da república”. Percebe-se como os problemas de governo ganham nova forma com esse deslocamento: do exercício por base no ideal à contingência. É a partir dessa renovação que as concepções de virtude, prática política e moral particulares da obra de Maquiavel puderam ser formuladas.
Outros nomes do humanismo cívico florentino, partícipes no desenvolvimento do pensamento e da linguagem republicana, são Leonardo Bruni e Coluccio Salutati.
A virtude política no Príncipe