A Guerra Civil Inglesa, ou Grande Rebelião, foi uma série de guerras civis e manobras políticas entre Realistas e Parlamentares no Reino da Inglaterra, de 1642 a 1651. Parte das mais amplas Guerras dos Três Reinos, de 1639 a 1653, o conflito consistiu na Primeira Guerra Civil Inglesa e na Segunda Guerra Civil Inglesa. A Guerra Anglo-Escocesa de 1650 a 1652 às vezes é chamada de Terceira Guerra Civil Inglesa.
Embora os conflitos nos três reinos — Inglaterra, Escócia e Irlanda — tivessem semelhanças, cada um tinha seus próprios problemas e objetivos específicos. A Primeira Guerra Civil Inglesa foi travada principalmente sobre o equilíbrio correto de poder entre o Parlamento e Carlos I. Ela terminou em junho de 1646 com a derrota dos realistas e o rei sob custódia.
No entanto, a vitória expôs divisões entre os parlamentares sobre a natureza do acordo político. A grande maioria entrou em guerra em 1642 para afirmar o direito do Parlamento de participar do governo, não para abolir a monarquia, o que significava que a recusa de Carlos em fazer concessões levou a um impasse. A preocupação com a influência política de radicais dentro do Novo Exército Modelo, como Oliver Cromwell, levou a uma aliança entre parlamentares moderados e realistas, apoiados pelos Covenanters escoceses. A derrota realista na Segunda Guerra Civil Inglesa, em 1648, resultou na execução de Carlos I em janeiro de 1649 e no estabelecimento da Comunidade da Inglaterra (Commonwealth).
Em 1650, Carlos II foi coroado rei da Escócia, em troca de concordar em criar uma igreja presbiteriana tanto na Inglaterra quanto na Escócia. A subsequente guerra anglo-escocesa terminou com a vitória parlamentarista em Worcester, em 3 de setembro de 1651. Tanto a Irlanda quanto a Escócia foram incorporadas à Commonwealth e as Ilhas Britânicas se tornaram um estado unitário. Esse arranjo acabou se mostrando impopular e inviável a longo prazo e foi dissolvido com a Restauração dos Stuart, em 1660. O resultado das guerras civis efetivamente colocou a Inglaterra e a Escócia no caminho para uma forma de governo baseada em monarquia parlamentar.
Antecedentes Antes da guerra civil, o parlamento não era um órgão permanente da política inglesa, mas uma assembleia temporária e aconselhadora. O monarca inglês podia ordenar a sua dissolução. O parlamento era composto por representantes da pequena nobreza e tinha o cargo de recolher os impostos e taxas do rei. O rei recebia os avisos do parlamento por intermédio dos chamados Bill of Rights (Declaração de Direitos), todavia o rei não tinha obrigação de segui-los.
thumbnail|Carlos I, rei de Inglaterra, por Antoon van Dyck
Primeiras preocupações Pouco depois de subir ao trono em 1625, Carlos I casou-se com a princesa francesa e católica Henriqueta Maria, ato que contrariou a poderosa minoria puritana que representava um terço do Parlamento. A participação nas guerras europeias do século XVII agravou as divergências entre o rei e os parlamentares. Consideradas como cruzadas católicas, Carlos I da Inglaterra mandou como comandante um dos seus favoritos, Jorge Villiers, primeiro duque de Buckingham. Desde o reinado de Jaime, o Parlamento desconfiava de Buckingham e pediu que caso ele não alcançasse seus objetivos, fosse-lhe retirado o comando das forças. Depois da desastrosa derrota na França, o parlamento demitiu Buckingham do seu cargo em 1626. Carlos I, furioso, considerando esta decisão como um insulto pessoal, dissolveu o Parlamento o qual julgou "incompetente".
Petição dos direitos Um novo parlamento foi reunido em março de 1628. Foi o terceiro parlamento do reinado de Carlos I. Oliver Cromwell foi um dos eleitos. Em junho, o parlamento aprovou a petição dos direitos que exigiu: O fim das detenções arbitrárias; O consentimento do parlamento para todos os impostos; A proibição do aboleto de militares em casas privadas; A proibição da lei marcial em tempo de paz.
Todavia, Carlos I tentou descobrir outros meios para recolher novas receitas. Uma das medidas mais controversas foi a extensão do imposto ship money cobrado nos portos à totalidade no país. O imposto não havia sido aprovado pelo parlamento.
A prisão de (um dos inspiradores da petição dos direitos) e de oito outros membros do parlamento depois da descoberta de que os mesmos não pagaram este imposto indignou o país.
A tirania dos onze anos Durante uma década, Carlos I da Inglaterra reinou sem parlamento. Essa política revelou-se desastrosa, particularmente quando foi declarada a Guerra dos bispos entre 1639 e 1640 contra os escoceses.
Carlos I, aconselhado pelo arcebispo de Canterbury, William Laud, defendeu a ideia de uma Igreja da Inglaterra mais pomposa e cerimoniosa. Os puritanos acusaram Laud de tentar reintroduzir o catolicismo. Face às críticas, Laud mandou prender e torturar seus opositores. Em 1637, John Bastwick, Henry Burton e William Prynne tiveram suas orelhas cortadas por terem escrito panfletos contra as opiniões de Laud — sentença rara para homens deste nível social e que provocou mais rancor.
Laud e Carlos I acreditavam que o primeiro passo para a unificação da Escócia e da Inglaterra seria introduzir um livro comum de orações. Em 1638, os escoceses reagiram de maneira brutal e expulsaram os bispos das igrejas da Escócia. Um ano depois, o rei enviou tropas para controlar os rebeldes. Sem sucesso, concordou em assinar a pacificação de Berwick e foi humilhado quando aceitou não interferir na religião na Escócia, e também pagar reparações de guerra.
O curto parlamento thumbnail|esquerda|Robert Blake, Almirante, 1599–1657 por Henry Perronet Briggs, pintado em 1829
Carlos I, sem fundos e desejando acabar com a rebelião no norte, convocou um novo parlamento em 1640. Um dos seus membros foi Robert Blake. Mas, pouco depois, o parlamento foi novamente dissolvido porque recusou aprovar novos subsídios. O apelido "Parlamento curto" ficou para designar este episódio. O rei atacou a Escócia e mais uma vez foi derrotado. Northumberland e Durham passaram a ser territórios escoceses. É o fim da Segunda guerra dos bispos.
O longo parlamento Carlos I convocou um novo parlamento em novembro de 1640. A Lei Trienal foi votada, o que obrigou a convocação de um Parlamento todos os três anos. Outras leis impediram a dissolução do parlamento pela Coroa, além de impedirem que o rei criasse novos impostos e permitir o controle de seus ministros.
Após a pacificação aparente da Irlanda durante os oito anos da administração de Thomas Wentworth, conde de Strafford, Carlos I cogitou usar um exército católico liderado por ele contra os escoceses. Simplesmente imaginar tropas católicas contra a Escócia era um insulto feito aos parlamentares. Em 1641, Strafford é preso na Torre de Londres. O rei se recusa assinar a ordem de execução. Todavia, Thomas Wentworth, pensando salvar o país de uma guerra iminente, pediu ao rei para assassiná-lo. Strafford foi executado em 12 de maio de 1641.
O efeito da morte de Strafford foi contrário ao esperado. Os católicos ingleses atacaram primeiro, temendo o regresso de um poder protestante. Os rumores diziam que Carlos I apoiava os irlandeses. Em 4 de janeiro de 1642, a tentativa de aprisionar cinco membros do parlamento (John Hampden, John Pym, Arthur Haselrig, Denzil Holles e William Strode) por traição falhou.
A Portaria da Milícia A Portaria da Milícia (Militia Ordinance) foi uma ordenança emitida pelo Parlamento Inglês em 5 de março de 1642, sem aprovação do rei, e que previa que o controle da milícia inglesa (força militar) passasse de Carlos I para as mãos do Parlamento.
A aprovação da ordenança se situa em um contexto de crise entre o Parlamento e o rei e, apesar de aprovada em 1642, as preocupações sobre dar alguma força militar ao Parlamento datam já de 1641, mediante ao clima de desconfiança parlamentar em relação a Carlos I. Uma das principais questões que amedrontavam o Parlamento, a princípio, era a das tropas enviadas para suprimir a Rebelião Irlandesa de 1641, as quais se temia que fossem utilizadas também contra os parlamentares. O temor fez com que o Longo Parlamento pedisse por uma guarda militar própria que pudesse o proteger, sendo nesse sentido que o projeto de controle da milícia surge, proposto por Sir Arthur Haselrige em dezembro de 1641.
Inicialmente, o projeto não ganhou muita atenção, mas após o 4 de janeiro de 1642, com a tentativa de Carlos I de prender cinco líderes da oposição na Câmara dos Comuns, a reação parlamentar se encaminharia para a emissão da Portaria. Após o envio ao rei de petições sobre a questão da milícia e o recebimento de devolutivas negativas do monarca, é emitida em 5 de março de 1642 a Portaria da Milícia, aprovada pelo Parlamento (em concordância entre a Câmara dos Lordes e a Câmara dos Comuns) mas sem aprovação real.
Apesar de não contar com a aprovação do rei, o Parlamento demonstrava, a princípio, não querer desafiar o monarca. Mesmo que a militarização parlamentar tenha configurado o cenário para a guerra civil, as justificativas para a aprovação da ordenança que fornecia o controle da milícia apontavam não para uma oposição ao rei, mas para a autodefesa do Parlamento, baseando-se nas ditas leis naturais e fundamentais do reino e buscando garantir o bem deste.
De qualquer maneira, a reação de Carlos I não foi positiva. Observando a necessidade e prerrogativa real de controle sobre a milícia, o rei rejeita a ordenança, considerando a Portaria um exercício de poder arbitrário por parte do Parlamento. Depois de um período de disputa com o Parlamento sobre o controle da milícia, o monarca contorna o problema através da Comissão de Formação (Commission of Array), com a qual cria condições para reunir homens para lutar em seu nome.
A partir deste momento, através das implicações da Portaria da Milícia e de outras causas, a crise entre parlamento e monarca se torna mais clara. Vai se configurando, então, uma ruptura entre estes e uma reunião de forças militares dos dois lados, movimentação que resultaria em guerra civil.
Primeira Guerra Civil thumb|Alegoria da Guerra Civil Inglesa por William Shakespeare Burton
O parlamento reuniu as tropas lideradas por Robert Devereux, 3.° Conde de Essex,Filho de Robert Devereux, 2.º Conde de Essex. com o objetivo de defender a Escócia e impedir o regresso do monarca ao poder. Carlos I da Inglaterra escapou de Londres e reuniu tropas em agosto em Nottingham.
No início do conflito, a Marinha Real Britânica e a maioria das cidades inglesas apoiaram o parlamento, o rei encontrou partidários nas zonas rurais; porém, a maior parte do país se encontrava neutra. Cada adversário conseguiu juntar 15 mil homens. Os defensores do rei combateram para uma Igreja e um poder tradicional. Os partidários do Parlamento defenderam reformas na religião, na política econômica e na repartição dos poderes.
O parlamento tinha a vantagem de ter ao seu lado as grandes cidades que abrigavam grandes arsenais como Londres e Kingston upon Hull. A primeira batalha foi uma vitória do parlamento em Hull em julho. Em seguida a batalha de Edgehill foi vencida pelos partidários do rei em 23 de outubro de 1642.
Derrotado em Turnham Green, Carlos I fugiu para Oxford, sua principal base para o resto da guerra. Em 1643, os monarquistas venceram as batalhas de Adwalton Moor, Lansdowne, Roundway Down e controlaram Yorkshire e Bristol. Entretanto, Oliver Cromwell criou os "Ironsides", que permitiram a vitória em Gainsborough em julho.