A Ordem Phthiraptera (do grego phthirus=achatado; a=sem; ptera=asas), estabelecida por Haeckel em 1896, é constituída por insetos pequenos, com aproximadamente de 0,5 a 8 mm de comprimento, popularmente conhecidos como piolhos. São ectoparasitas obrigatórios de aves e mamíferos, inclusive marinhos, como focas e leões marinhos, com alta especificidade parasitária: a maioria das espécies ocorre apenas em uma única espécie de hospedeiro. Há cerca de 5000 espécies no mundo, sendo que apenas 20 ou 30 apresentam importância econômica relevante. São distribuídos em quatro subordens: Amblycera, Ischnocera, Rhyncophthirina e Anoplura.Johnson, K. P., and D. H. Clayton. 2003. The biology, ecology, and evolution of chewing lice. Pages 449-476 in Price, R. D., R. A. Hellenthal, R. L. Palma, K. P. Johnson, and D. H. Clayton. The chewing lice: world checklist and biological overview. Illinois Natural History Survey Special Publication 24. x + 501 pp.

Os piolhos possuem corpo achatado dorsoventralmente, pernas robustas e garras que agarram firmemente os pelos, cabelos ou penas, são desprovidos de ocelos e asas (são secundariamente ápteros) e a coloração do corpo varia de bege claro a cinza escuro, mas eles podem ficar mais escuros após se alimentarem. Os olhos, rudimentares, e palpos maxilares podem estar presentes ou ausentes e as antenas têm de três a cinco artículos dependendo das subordens. São apterigotos, dióicos e hemimetábolos, o que significa que do ovo eclode uma ninfa, fase juvenil muito semelhante ao adulto que passará por mudas antes de chegar à fase adulta.

Os piolhos são muito dependentes da temperatura e umidade próximas da pele hospedeira, sendo às vezes restritos a parasitar determinadas regiões do corpo. Tanto os piolhos das aves, quanto dos mamíferos não vivem muito tempo fora do corpo do seu hospedeiro ou após a morte desse, já que o calor do corpo do animal parasitado é indispensável à sua sobrevivência, o que dificulta seu cultivo in vitro.

Eles podem ser exclusivamente hematófagos, como os anopluros, ou se alimentarem de penas, descamações, secreções, sangue exposto no hospedeiro (machucados por exemplo), outros artópodes, como, ácaros, ou suas próprias exúvias.

Os piolhos de humanos, do gênero Pediculus, conhecidos no Brasil como muquirana, mucana, piolho da cabeça e do corpo, e do gênero Phthirus, chato ou piolho-caranguejo, são da subordem Anoplura. São cosmopolitas, ou seja, estão presentes em todos os continentes, e são importantes vetores de doenças como o tifo, febre recorrente e febre da trincheira. Há cerca de 900 espécies deste inseto no Brasil.

Os piolhos mastigadores, pertencentes às outras três subordens, são pragas importantes de animais domésticos e de interesse econômico, especialmente aves, cachorros, gado, cavalos e porcos, causando irritação, inquietação e feridas na pele, o que leva a comportamentos de má alimentação, diminuindo o ganho de peso e produção de leite e ovos. O controle dos piolhos é feito pelo uso de pesticidas.

Morfologia miniaturadaimagem|Garras tarsais de Phthirus pubis miniaturadaimagem|Damalinia limbata, piolho de cabras. A espécie é sexualmente dimórfica, com o macho menor que a fêmea.|esquerda miniaturadaimagem|Ilustrações do livro "Compreendendo: Mallophaga de pássaros do Panamá, Baja California e Alaska", repare que a cabeça é mais larga que o tórax nesses indivíduos. Os piolhos variam de 0,3 a 8 milímetros de comprimento, têm corpo esclerosado, achatado dorsoventralmente, cobertos de cerdas voltadas para trás, com coloração do corpo variando de bege claro a cinza escuro, podendo ficar mais escuros após se alimentarem.

Não têm asas e os segmentos torácicos são totalmente fundidos. A cutícula é, em sua maioria, membranosa e expansível, permitindo distensão. órgãos sensoriais ficam nas antenas e os olhos, quando presentes, são rudimentares e localizam-se atrás das antenas. Geralmente não possuem olhos compostos, quando possuem são formados por 1 a 2 omatídios, também não apresenta ocelos e cercos.

As antenas são curtas, com 5 ou menos artículos, e podem ser expostas ou escondidas em sulcos abaixo da cabeça. Possuem um par de espiráculos dorsais, aberturas do sistema de tubos de alguns invertebrados que permite que o ar chegue nos tecidos para a realização da respiração, e 6 ou menos pares abdominais.

 Pode haver dimorfismo sexual: pode-se diferenciar a fêmea do macho pelo tamanho, já que geralmente a fêmea é maior, ou analisando a extremidade posterior do abdômen, pois enquanto nas fêmeas é bifurcada sem ovipositor, nos machos é arredondada.

 Piolhos das subordens Amblycera, Ischnocera, Rhyncophthirin têm a cabeça mais larga que o tórax, onde encontra-se o aparelho bucal do tipo mastigador, constituído de um par de mandíbulas adaptadas à mastigação de descamação de pele, pena e pelos, além de crostas de sangue, o tórax possui um par de espiráculos, as pernas são geralmente curtas e robustas. Quando não possuem garras tarsais ou apenas uma, infestam mamíferos terrestres e quando possuem duas, infestam mamíferos aquáticos e aves. O Abdômen possui 11 segmentos, que podem estar fundidos ou reduzidos, dificultando sua visualização.

Amblycera: possuem antena com 4 artículos e têm palpo maxilar. Eles apresentam cabeça grande e arredondada, na qual os olhos têm tamanho reduzido ou estão ausentes.

Ischnocera: Possuem antenas cilíndricas, bem visíveis, com 3 ou 5 artículos e não possuem palpo maxilar, diferentemente de Amblycera. Algumas espécies são sexualmente dimórficas.

Rhyncophthirina: Possuem cabeça muito pigmentada e duas vezes mais longa que larga, a mandíbula tem margem denteada. Não há palpo maxilar e as antenas têm 5 artículos. As pernas são longas, com grau crescente de comprimento do 1 ao 3 par, o pré tarso tem 2 garras e o abdômen 6 pares de espiráculos. miniaturadaimagem|eletromicrografia de varredura de Echinophthirius horridus, piolho de focas.|esquerdaAnopluros: Têm o tórax com segmentos fundidos mais largo que a cabeça e medem em média 2,5 mm de comprimento, possuem antenas curtas com 3 a 5 artículos, os olhos são compostos e reduzidos, com 1 omatídio, ou ausentes. As pernas apresentam apenas um segmento tarsal e uma única garra, que permite a fixação nos pelos do hospedeiro. Quando a garra é retraída, ela faz contato com um processo semelhante a um dedão na tíbia, permitindo que o piolho se mantenha firmemente agarrado. Há um par de espiráculos (mesotorácicos) no tórax e seis pares (segmentos 3 a 8) no abdome, que apresenta nove segmentos no total. As genitálias externas são bem desenvolvidas em ambos os sexos.

As peças bucais de um piolho sugador consiste em três estiletes perfuradores, normalmente recolhidos dentro de uma bolsa ventral na cabeça, sem palpos. Quando o piolho se alimenta, os estiletes saem através  de um rostro na parte anterior da cabeça; o rostro possui minúsculos ganchos, com os quais se prende ao hospedeiro enquanto suga. Trata-se de um aparato picador-sugador, virado para trás (hipognata).

Saúde e Controle miniaturadaimagem|Pente fino para piolhos|esquerda A infestação de piolhos, também conhecida como pediculose, pode acontecer no cabelo e corpo, causada por P. humanus spp. Nas regiões genital e anal a infestação chama-se fitirose, fitiríase ou pitiríase, sendo causada por P. pubis. É um fenômeno comum em todo o mundo, podendo atingir pessoas de qualquer idade, sendo que em todos os casos a transmissão é por contato direto. Devido ao grande tempo de exposição e contato entre si, crianças pequenas são infestadas mais comumente e com maior intensidade. Apesar de originalmente, o termo pediculose se referir especificamente à infestação por piolhos do Gênero Pediculus em humanos, pode ser utilizado para infestações maciças de outros gêneros e em outros animais.

Nos seres humanos é possível encontrar dois gêneros de piolhos, o Phthirus e o Pediculus. Dentro do Gênero Phthirus, a espécie que parasita os seres humanos é Phthirus pubis, conhecidos como chatos. No gênero Pediculus há uma discussão para definir a existência de duas espécies diferentes, P. corporis e P. capitis, ou duas subespécies, Pediculus humanus humanus, conhecido como piolho do corpo, e Pediculus humanus capitis, piolho da cabeça. Aqui trataremos como duas subespécies.

Os piolhos de humanos são transmitidos de uma pessoa para outra principalmente pelo contato direto e uso compartilhado de pentes, escovas de cabelo e gorros, roupas pessoais ou de cama e, durante a noite, podem migrar de um monte de roupa para outro, pois frequentemente ficam nas roupas depois que estas são retiradas.

Em guerras e catástrofes naturais, quando as condições de higiene se tornam mais precárias, os piolhos multiplicam-se rapidamente e atuam na transmissão de vários agentes etiológicos, agravando ainda mais a situação de miséria. Durante a Segunda Guerra Mundial não haviam todos os métodos de controle e combate aos piolhos que existem hoje, sendo muito utilizado DDT nos os soldados e civis antigamente. Houve no outono de 1943, em Nápoles, Itália, o polvilhamento de milhares de pessoas com DDT para o controle de uma epidemia de tifo.

A infestação entre animais não humanos ocorre por contato direto entre um indivíduo infectado e um sadio, sendo que alguns piolhos mastigadores podem ser transportados por meio de outros ectoparasitas como moscas Hippoboscidae e pulgas de roedores silvestres. Algumas espécies de piolhos, ainda podem ser hospedeiros intermediários do cestódio Dipylidium caninum, que infesta cães e gatos. Haematopinus suis, piolho do porco, atua como vetor de transmissão da febre suína.

miniaturadaimagem|Phthirus pubis Diagnostico O diagnóstico de pediculose se dá pelo encontro de lêndeas, nome popular para os ovos do piolho, que ficam grudadas ao fio de cabelo, ou de piolhos jovens e adultos vivos.RODRIGUES, DA., et al. Atlas de dermatologia em povos indígenas [online]. São Paulo: Editora Unifesp, 2010. Doenças causadas por parasitas, p. 81-92. ISBN 978-85-61673-68-0. Available from SciELO Books <http://books.scielo.org>. Geralmente esse diagnóstico é feito por exame visual direto, mas com o uso de um pente fino é possível encontrar a lêndea, ninfas e o piolho adulto com maior facilidade, pois é feito um arraste, impedindo que eles se escondam entre os fios de cabelo.

Sintomas A pediculose pode causar desde coceira e pequenas reações alérgicas até a transmissão de doenças graves como tifo (Rickettsia prowazekii), febre recorrente (Borrelia recurrentis) e febre da trincheira (Rickettsia quintana), endocardite e angiomatose bacilar. Também podem surgir pontos avermelhados no corpo como picadas de mosquito.

Os piolhos sugadores tornam-se infectados quando picam um ser humano doente de tifo, mas a infecção de uma nova pessoa não ocorre pela picada, e sim pela entrada de fezes do animal no corpo quando a pessoa, ao coçar a pele, faz uma ferida e impele as fezes ou o próprio piolho. No caso da febre recorrente, a transmissão também ocorre quando o piolhos esmagado é impelido para dentro de uma feriada quando a pessoa se coça, não ocorre transmissão nem por fezes, nem por picada. Em casos severos de infestações, a pele pode tornar-se espessa e seca ou tornar-se mais pigmentada, configurando um caso de melanodermia pediculosa.

Além dos sintomas físicos causados pelos piolhos, uma criança infectada também pode apresentar falta de atenção devido à coceira e sofrer preconceito por outras crianças ou responsáveis.

Tratamento da infestação miniaturadaimagem|Prisioneiros de guerra japoneses voltam sob a Operação Nipoff, tomam banho desinfetante para matar piolhos e outras doenças que transportam parasitas antes de embarcar em um navio.No caso de piolho no corpo, banhos frequentes e a troca e lavagem das vestimentas e roupa de cama costuma ser o suficiente.