Álvaro de Zúñiga y Guzmán (Encinas de Esgueva, 1410 – Béjar, 10 de junho de 1488) foi um nobre de Castela, membro da influente Casa de Zúñiga, de origem navarra. Foi um dos homens mais poderosos de Castela, como demonstram os seus inúmeros títulos e os cargos que ocupou, e esteve envolvido em grande parte dos acontecimentos políticos e militares mais importantes do reino, nomeadamente nos diversos conflitos entre a nobreza e os candidatos à sucessão do trono que culminariam na Guerra de Sucessão de Castela e que só acalmariam com a reconhecimento definitivo dos Reis Católicos, aos quais começou por se opor mas a quem acabaria por apoiar.
Tendo sido donzel do rei na infância, na juventude esteve ao lado do pai na luta contra Álvaro de Luna, condestável de Castela e valido de D. João. Com a morte do seu pai em 1453, torna-se 2.º conde de Plasencia e líder da liga da nobreza. É apoiante do rei durante os primeiros anos do seu reinado, mas acabaria por se desentender com o rei por se opor aos direitos de sucessão da filha daquele, Joana de Trastâmara (a Beltraneja), e apoiar as pretensões à sucessão do príncipe Afonso, meio-irmão de Henrique.
Álvaro de Zuñiga torna-se líder da Liga Nobiliária, o partido criado para defender os direitos ao trono de Afonso, que é acolhido no palácio de Zuñiga em Plasencia, o qual funciona como uma corte do futuro rei. Álvaro de Zuñiga é dos principais personagens na chamada Farsa de Ávila, uma cerimónia ocorrida em 5 de junho de 1465 durante a qual foi encenada a deposição de Henrique IV e D. Afonso foi aclamado rei e que marcou o início da Guerra de Sucessão de Castela. Em 1467, Álvaro de Zuñiga reconcilia-se formalmente com Henrique IV e aproxima-se do rei português , que é recebido por Zuñiga em Plasencia em maio de 1475, onde casa com Joana, que entretanto tinha sido aclamada rainha de Castela no ano anterior.
Após a derrota do rei português frente aos exércitos dos Reis Católicos, na batalha de Toro (), Álvaro de Zuñiga torna-se neutral na guerra civil e os Reis Católicos acabam por reconhecer a maior parte dos títulos e possessões de Álvaro e, mais tarde concedem-lhe ainda mais privilégios.
Biografia Filiação Álvaro de Zúñiga era filho de Pedro de Zúñiga y Leiva e da sua esposa Isabel Elvira de Guzmán y Ayala. O seu pai era justicia mayor e alguacil mayor de Castela, 1.º . A sua mãe era senhora de Gibraleón e filha de Alvar Pérez de Guzmán e de sua esposa Elvira de Ayala.
Álvaro casou em 1429 com Leonor Manrique de Lara y Castilla, filha de Pedro Manrique de Lara, senhor de Amusco, adelantado mayor de Leão e de sua esposa Leonor de Castilla. O matrimónio foi concertado em janeiro de 1428 pelos pais dos noivos, para unir as duas poderosas famílias., Archivo SNAHN, Signatura OSUNA,C.214,D.132-144 O casal teve nove filhos:
upright=0.8|thumb|Juan de Zúñiga y Pimentel e Antonio de Nebrija
Pedro (1430-1484), 2.º conde de Bañares, 1.º de Ayamonte; Diego, prior de São Marcos em Leão na Ordem de Santiago; Álvaro, prior de São João de Jerusalém (posteriormente Ordem de Malta); Iñigo, que faleceu muito precocemente; Francisco, senhor de Mirabel e Berantevilla; Fadrique, bispo de Osma; Leonor, casada com Juan de Luna y Pimentel, 2.º conde de San Esteban de Gormaz e viúva de Fernando Álvarez de Toledo, 4.º senhor de Oropesa; Elvira (1430-?), casada com Alonso de Sotomayor y Guzmán, 1.º conde de Belalcázar; Joana, abadessa no mosteiro de Calabecinos.
Após enviuvar, Álvaro casou-se em 1458 com a sua sobrinha, Leonor Pimentel y Zúñiga, filha de Juan Alonso Pimentel, conde de Mayorga, e de sua irmã, Elvira de Zúñiga y Guzmán. Para isso obteve uma dispensa papal de Pio II e do rei Henrique IV., Archivo SNAHN, Signatura OSUNA,C.215,D.7 Do segundo casamento teve quatro filhos: Juan de Zúñiga y Pimentel, mestre da Ordem de Alcântara, arcebispo de Sevilha, primaz de Espanha e 2.º duque de Plasencia; Fernando, prior; Maria (1465-?), senhora de Burguillos, casada com o seu sobrinho Álvaro II de Zúñiga y Guzmán, 2.º duque de Béjar, conde de Bañares e marquês de Gibraleón; Isabel (1470-1520), casada com Faldrique Álvarez de Toledo, primogénito do 1.º duque de Alba de Tormes, Garcí Álvarez de Toledo e de sua esposa María Enríquez.
A duquesa Leonor Pimentel morreu em Béjar em .
Ao serviço de João II left|thumb|Túmulo de João II de Castela em Burgos
Na infância Álvaro de Zúñiga y Guzmán foi donzel do rei . Na juventude colaborou com o pai na lutra contra Álvaro de Luna, condestável de Castela e valido de D. João, sobre quem tinha grande influência. Em , Álvaro é nomeado rei nomeia Álvaro alguacil mayor de Castela.
Em , Álvaro e o seu pai Pedro unem-se aos para lutar pela liberdade efetiva de João II. Em fevereiro de 1437, Álvaro de Luna ordena a prisão do adelantado Pedro Manrique de Lara, que desde 1430 ocupava o segundo posto no conselho real. Pedro Manrique de Lara foi preso em , mas evadiu-se na noite de 20 para 21 de agosto, com a ajuda de Álvaro de Zúñiga.
O valido Álvaro de Luna incendiou a rivalidade da Casa de Zúñiga com os Álvarez de Toledo ao conceder o Condado de Alba de Tormes a Hernán Álvarez de Toledo, que deu origem a uma luta encraniçada pelo controle de Salamanca. Algumas cidades, como Cáceres e Trujillo, opuseram resistência armada às tentativas de convertê-las de realengo (jurisdição real) para senhorios. Trujillo foi oferecida a Pedro de Zúñiga em troca de Ledesma. Com Béjar e Plasencia na sua posse, a partir de 1440, a Casa de Zúñiga orientou a sua política nos sentido de controlar definitivamente a Estremadura.
thumb|upright|Torre da igreja de São João, em Béjar
Álvaro, o seu pai, Pedro Manrique e o 2.º almirante de Castela, Fadrique Enríquez, preparam a rebelião da liga da nobreza contra o valido Álvaro de Luna. Essa liga, composta por Pedro de Castela, bispo de Osma, Sancho de Rojas, bispo de Astorga, Luis de la Cerda, conde de Medellín, entre outros, compromete-se em a aceitar a mediação do rei de Navarra, , e do infante Henrique, para que cessassem os distúrbios no reino., Archivo SNAHN, Signatura FRIAS,C.5,D.9 A 21 de setembro é assinado um pacto de confederação por Pedro de Zúñiga, o seu filho Álvaro, o conde de Haro e o seu filho Pedro Fernández de Velasco, para libertar o rei João II de Castela da opressão em que se encontrava, prometendo-lhe ajuda até ver o rei livre e o reino apaziguado., Archivo SNAHN, Signatura FRIAS,C.1,D.20 A , Pedro de Zúñiga renuncia ao título de alcaide de Sevilha a favor do seu filho Álvaro., Archivo SNAHN, Signatura OSUNA,CP.94,D.28
No início de 1543 o rei João II, instigado pela rainha, estava disposto a eliminar o seu valido por meio do seu , Diego López de Zúñiga y Navarra, senhor de Clavijo, parente do conde de Plasencia. A rainha obteve do rei um documento legalizando a rebeldia do conde de Plasencia e autorizando a prisão de Álvaro de Luna. Pedro de Zúñiga, conde de Plasencia, faz com que o seu filho Álvaro se estabeleça com as suas tropas em Curiel de Duero antes de . O valido Álvaro de Luna quis impedir o movimento apoderando-se de Béjar, onde Pedro se tinha fortificado, mas fracassou nesse intento porque um dos seus fiéis, Alonso Pérez de Vivero, comunicou os planos do valido ao conde de Plasencia. O valido mandou assassinar Alonso Pérez de Vivero em Burgos em .
Álvaro de Zúñiga é chamado a Burgos em nome do rei. Na noite de 1 para 2 de abril, Álvaro de Zúñiga e os seus soldados entram no castelo de Burgos. O rei João II, torturado por dúvidas e vacilações, enviou-lhe quatro cartas escritas pela própria mão, a última a 3 de abril e o seguinte despacho no dia 4: «Don Álvaro de Stunica, meu alguacil-mor: mando que prendeis o corpo a Dom Álvaro de Luna, mestre de Santiago e, se ele se defender, que o mateis.»
left|thumb|Castelo de Portillo
Ao amanhecer do dia 4 de abril, Álvaro de Zúñiga desceu do castelo com o despacho numa manopla, e dirigiu-se à casa de Pedro de Cartagena, onde se Álvaro de Luna estava alojado. Os servidores deste defenderam-se com flechas durante três horas, após o que se renderam juntamente com o valido. Álvaro de Luna é encarcerado na fortaleza de Portillo, sob custódia de Diego López de Zúñiga y Navarra. O rei designou dez juristas para o processo do valido. Os juízes puseram-se de acordo sobre a pena de morte, mas que esta devia ser aplicada por mandato e não por sentença. A ordem de execução foi recebida em Portillo em . Álvaro de Luna foi levado para Valhadolide no dia seguinte, onde passa a noite numa das casas do conde Plasencia, Pedro de Zúñiga, na antiga rua de Francos. Álvaro de Luna conservou uma serenidade elegante e soberba no caminho para o cadafalso, Foi degolado na Praça Maior de Valhadolide a . Os Zúñiga substituíram Álvaro de Luna na privacidade e no favor real de João II.
Quando o seu pai morre, em julho de 1453, Álvaro de Zúñiga toma posse de Plasencia por escritura de e torna-se 2.º conde de Plasencia, além de assumir a liderança da liga da nobreza e herdar os cargos de justicia-mor e alguacil-mor de Castela., Archivo SNAHN, Signatura OSUNA,C.299,D.1-5
Ao serviço do rei Henrique IV de Castela e Leão thumb|192px|Rei
thumb|192px|Beltrán de la Cueva, condestável de Castela, valido de Henrique IV e suposto amante da rainha
O rei João II morre em Valhadolide a . O Príncipe das Astúrias é proclamado rei de Castela e Leão como em Valhadolide a . O seu reinado começa com a concordância dos nobres. O seu primeiro valido foi Juan Pacheco, 1.º marquês de Vilhena, que tinha sido educado e criado no palácio real e foi companheiro do novo rei desde a infância. Henrique IV tinha-se casado em 1440 com , filha do rei João II de Aragão e Navarra, mas o casamento foi anulado pelo Papa Nicolau V em por não ter sido consumado, devido à impotência e reconhecida homossexualidade de Henrique. Este episódio valeu a Henrique o epíteto de "o Impotente". Henrique voltou a casar a com a princesa Joana de Avis e Aragão, irmã do rei .
Henrique IV decide continuar a guerra com Granada e deste modo entreter a nobreza na sua inquieta belicosidade. Álvaro de Zúñiga acode com a sua hoste de Plasencia, As incursões duram vários anos. No verão de 1458 a rainha Joana e as suas damas participam nas operações militares como espetadoras de uma festa. Depois das conferências de Alfaro entre os reis Henrique de Castela e Leão e João de Navarra e Aragão, em maio de 1457, o valido Juan Pacheco, beneficiado pelos acordos, reduz a Liga Nobiliária à impotência, entronizando no novo governo os seus membros mais destacados: o mestre de Calatrava Pedro Girón, o contador Diego Arias, o arcebispo de Sevilha Alonso I de Fonseca, o conde de Plasencia Álvaro de Zúñiga e o conde de Alba Hernán Álvarez de Toledo. Beltrán de la Cueva é nomeado condestável de Castela a .
As relações de Álvaro de Zúñiga, conde de Plasencia, com o rei Henrique IV e com o valido Juan Pacheco, marquês de Vilhena, foram muito cordiais e firmes entre 1458 e 1464. Após a morte da sua primeira mulher, Leonor Manrique de Lara e Castela, Álvaro desejava casar-se com a sua afilhada e sobrinha Leonor Pimentel y Zúñiga, filha da sua irmã Elvira e de Alonso Pimentel, conde de Mayorga, apesar da grande diferença de idade (ele tinha 49 anos e ela 16) e da consanguinidade. O negou-se a conceder a dispensa necessária, mas o seu sucessor, o papa Pio II, emitiu a licença que permitiu o casamento consanguíneo. Henrique IV autorizou igualmente o casamento e declarou em que este se tinha verificado por sua ordem., Archivo SNAHN; Signaturas OSUNA,C.216,D.45-48 y OSUNA,CP.86,D.4
A Liga Nobiliária