O cachorro-vinagre ou cachorro-do-mato-vinagre (nome científico: Speothos venaticus), também conhecido como aracambé, jaguacininga, jaguaracambé, janauíra ou januaíra, é uma espécie da família dos canídeos nativa da América do Sul.
É notável pelos hábitos gregários: possui a mais desenvolvida forma de organização social dos canídeos, a eussocialidade facultativa, ou seja, a presença de um casal dominante que reproduz e influencia a supressão reprodutiva e a cooperação reprodutiva dos demais indivíduos. Por consequência, manifesta-se entre os animais agrupados o "sorriso de submissão", uma expressão facial exagerada similar a um sorriso aberto. Além disso, possui estratégias de caçada que permitem ao bando abater presas de grande porte.
O cachorro-vinagre é exclusivamente carnívoro e diurno, além de furtivo e raro em sua vasta área de ocorrência, sendo ainda pouco conhecido pela ciência. Segundo a União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), é uma espécie quase ameaçada, mas em muitas localidades sua condição é avaliada como vulnerável, devido à destruição do seu habitat para extração de madeira, ao adensamento humano e doenças como a raiva, parvovirose e sarna, transmitidas por animais domésticos.
Etimologia e vernáculos O nome cachorro-vinagre ou cachorro-do-mato-vinagre advém do cheiro de sua urina, com forte odor de vinagre. É também conhecido por nomes derivados da língua tupi: Jaguaracambé e sua abreviação aracambé,Houaiss, verbete acarambé de ya'wara (onça) + -akanga- (cabeça) + -pewa (chata), "onça de cabeça chata";Houaiss, verbete jaguaracambé Janauira e januaíra possuem etimologia desconhecida, sendo associados ao nome folclórico Jananaíra.Houaiss, verbete janauira
Taxonomia miniaturadaimagem|Réplica de Cachorro Vinagre do Pleistoceno É a única espécie do gênero Speothos. Peter Wilhelm Lund descreveu no Brasil tanto a espécie atual quanto seu ancestral do Pleistoceno Superior, Speothos Pacivorus. Este último era maior e juntamente com o Protocyon troglodytes ocupava o nicho entre os lobos e chacais. Foi extinto no Holoceno.
Subespécies
Existem três subespécies de cachorro-vinagre reconhecidas:
Cachorro-vinagre-sul-americano (Speothos venaticus venaticus), com uma distribuição que inclui o sul da Colômbia e a Venezuela, as Guianas, a maior parte do Brasil, leste do Equador e Peru, Bolívia e norte do Paraguai; Cachorro-vinagre-panamenho (Speothos venaticus panamensis) Cachorro-vinagre-do-sul (Speothos venaticus wingei), presente no centro-sul da América do Sul.
Distribuição geográfica O cachorro-vinagre pode ser encontrado desde a Costa Rica e Panamá, na América Central, e em grande parte da América do Sul a leste dos Andes, incluindo Equador, Peru e Bolívia, até o Paraguai, norte da Argentina e sul do Brasil. No Brasil, está presente no Amazonas, Amapá, Pará, Maranhão, Ceará, Tocantins, Bahia, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Paraná. Habitam florestas de várzea e savanas úmidas até 1.900 m de altitude, e também áreas de cerrado e pastagens abertas.
Novas observações de grupos de cachorros-vinagre foram registradas no centro-leste (Parque Nacional Barbilha) e sudeste (Parque Internacional La Amistad) na Costa Rica, e em uma parte substancial da cordilheira de Talamanca até 120 quilômetros ao norte-noroeste e em elevações de até metros.
Aparições do Cachorro-Vinagre Sendo um animal raro, há locais em que só existem relatos de sua presença ou onde foi pouco visto. Assim, por exemplo, apesar de descrito em Minas-Gerais, em 1842, pelo dinamarquês Peter Lund, somente havia registro de dois animais mortos neste Estado. Finalmente, em outubro de 2012, um exemplar foi filmado no Parque Estadual Veredas do Peruaçu, com equipamento do Instituto Biotrópicos em parceria com a WWF-Brasil.
Na Argentina, o cachorro-vinagre-do-sul foi fotografado na Natureza pela primeira vez em abril de 2016, na Reserva Ecológica Privada Selva Paranaense Don Otto, na província de Misiones,.
Outra aparição, inédita, ocorreu na Serra do Tombador, em Goiás, em agosto de 2020, após análise de armadilhas fotográficas mantidas pela Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza. name="G1 Globo"Cachorro-vinagre é visto pela primeira vez em reserva de Goias.G1 Globo Campinas e Região. 28 de dezembro de 2020. Consultado em 30 de novembro de 2021. name="G1 Globo"
Registros de atropelamentos, no entanto, não são incomuns, e nos últimos anos animais foram resgatados em Rondônia, no Mato-Grosso e em Ponta-Grossa, no Paraná.
Morfologia
Os exemplares adultos têm pelagem castanho-amarelada macia e longa, em tons mais claros na cabeça, pescoço e costas, e com a possível presença de um colar mais claro ao redor da garganta. A pelagem inferior é escura e a cauda é espessa. Os jovens possuem pelagem preta. Alcançam entre 57 e 75 centímetros de comprimento, mais 12,5 a 15 centímetros para a cauda, altura na cernelha entre 20 e 30 centímetros, e 5 a 8 quilos de peso. As pernas são curtas em relação ao corpo, bem como o focinho curto, e as orelhas arredondadas e relativamente pequenas. Suas patas apresentam membranas interdigitais aptas ao meio semiaquático. As fêmeas têm quatro pares de tetas e ambos os sexos têm grandes glândulas odoríferas em cada lado do ânus.
A fórmula dentária corresponde aos seus hábitos carnívoros: um total de 38 dentes dispostos em , estando entre as 3 espécies de canídeos (mais o cão-selvagem-asiático e o mabeco) com molares especializados e com uma única cúspide na talônido do dente carniceiro inferior, ampliando a lâmina de corte.
Comportamento
thumb|esquerda|Espécimes dormindo em contato um com o outro
Os cachorros-vinagre são animais exclusivamente carnívoros e diurnos. Habitam troncos ocos e cavidades usadas por outros animais,como tocas de tatu (dasipodídeos; clamiforídeos), ao longo de uma área com cerca de 3.8 a 10 km².
Eussociabilidade Ao observar um grupo de seis indivíduos, Macdonald (1996) concluiu que a sociabilidade desses animais é compulsiva, tendo como base a quantidade de comportamentos tipicamente afiliativos, tais como: dormirem em contato, uns com outros; deslocarem-se, majoritariamente, em filas indianas e se alimentarem juntos apresentando mínima agressividade uns com os outros. Além disso, observou-se que os atos de um membro dependiam diretamente do que os demais fariam. Por exemplo, caso um dos indivíduos decidir levantar-se após o período de descanso e nenhum dos outros membros do grupo o seguir (preferencialmente em fila indiana), o mesmo retornaria ao grupo e iniciaria a tentativa de incitar os movimentos dos seus similares.
Há clara dominância dos pais sobre os outros componentes do grupo. A submissão é indicada com uma expressão conhecida como "sorriso de submissão", que no caso da espécie se estende de canto a canto da boca de forma exagerada.Inclusive, um desses eventos pôde ser observado na Amazônia peruana, onde um jovem cuidava de um filhote enquanto os adultos forrageavam a área. A relação familiar entre esses animais é intensa a ponto de influenciar o ciclo reprodutivo: fêmeas que são criadas como ambos os pais não entram no estado de estro
thumb|Cachorros-vinagre copulando thumb|Ilustração de 1836 de Hermann Burmeister
Kleiman (1972) observou que, ao contrário de outras espécies, consegue viver pacificamente com animais familiares do mesmo sexo. Por outro lado, ao serem postos lado a lado com animais não-familiares esboçaram reações completamente opostas, tais como: lutas imediatas e violentas. Devido ao hábito de viver em grupos, é capaz de emitir uma série de chamados de contato, com o intuito de expressar e emitir o estado motivacional do emissor. Essa característica evolutiva pode ter se originado pela necessidade de comunicação entre os indivíduos de um determinado grupo em ambientes onde há dificuldades de manter-se o contato visual. Outro mecanismo utilizado é a urina especializada para cada um dos sexos, que é utilizada tanto como sinais olfativos quanto visuais.
Reprodução Os cachorros-vinagre acasalam ao longo do ano e o estro dura até doze dias e ocorre a cada 15 a 44 dias. A marcação de urina desempenha um papel significativo em seu comportamento pré-copulatório. Como muitos outros canídeos, o acasalamento do inclui um laço copulatório, durante o qual os animais ficam presos juntos. A gestação dura de 65 a 83 dias e normalmente resulta no nascimento de uma ninhada entre 3 e 6 filhotes, com relatos de até 10 filhotes. Os jovens nascem cegos e indefesos e pesam inicialmente de 125 a 190 gramas. Os olhos se abrem após 14 a 19 dias e os filhotes emergem da toca logo depois. São desmamados por volta das quatro semanas e atingem a maturidade sexual em um ano. Podem viver por até 10 anos em cativeiro.
Dieta
Dentre os canídeos brasileiros, o cachorro-vinagre é o único que caça em bando, permitindo o abate de presas muito maiores, como a capivara, o veado e a anta. Pesquisadores observaram a divisão em grupos na perseguição, um seguindo por terra, o outro na água, possibilitando a captura das evasivas pacas. No Pantanal e no Cerrado, a principal presa é o tatu-galinha. Também é constatada a predação de cutias, cutiaias, quatis, caititus e tinamídeos (família de aves).
Conservação miniaturadaimagem|265x265px|Cachorro-vinagre em um Zoológico em Praga, República TchecaO cachorro-vinagre é raro e vulnerável à destruição de habitat e zoonoses de animais domésticos. Resultados provenientes de fragmentos florestais na Amazônia indicam que esta espécie necessita de grandes áreas florestais (maiores do que 10.000 hectares) para apresentar pelo menos 40% de probabilidade de ocorrência, e é pouco provável que consiga persistir fora de áreas de floresta contínua. Consultado em 30 de novembro de 2021 A população alcança alguns milhares na Amazônia e algumas centenas no Pantanal, mas já considerada vulnerável. No Cerrado, algumas análises indicam que em 100 anos poderá ocorrer sua extinção. Ainda mais crítica é sua condição na Mata Atlântica, com menos de 200 indivíduos registrados.
Cativeiro Em agosto de 2012, três filhotes nasceram no Parque Ecológico Municipal Cid Almeida Franco, em Americana, São Paulo.
Ligações externas
Categoria:Mamíferos da Costa Rica Categoria:Canídeos do Brasil Categoria:Mamíferos do Paraguai Categoria:Mamíferos da Argentina Categoria:Mamíferos da Bolívia Categoria:Mamíferos do Peru Categoria:Mamíferos do Equador Categoria:Mamíferos da Colômbia Categoria:Mamíferos da Venezuela Categoria:Mamíferos do Suriname Categoria:Mamíferos de Guiana Categoria:Mamíferos da Guiana Francesa Categoria:Espécies no anexo I da CITES Categoria:Mamíferos descritos em 1842 Categoria:Canídeos da Bahia