João Rodrigo Esteves Cardoso (Uruguaiana, 25 de dezembro de 1939 Porto Alegre, 23 de junho de 2019 ), mais conhecido como João Cardoso, foi um futebolista brasileiro que se destacou sobretudo no futebol argentino, onde defendeu Newell's Old Boys e a dupla rival da cidade de Avellaneda, Independiente e Racing, com o qual venceu a Taça Libertadores da América de 1967 (marcando um dos gols da finalíssima) e o Mundial daquele mesmo ano, nos únicos títulos racinguistas nessas competições.
Revelado pelo Grêmio, ele é precisamente o jogador brasileiro que mais clubes argentinos diferentes defendeu na primeira divisão. Desde 2015, é homenageado na torcida organizada de torcedores do Racing residentes no Brasil (abrangendo de brasileiros simpatizantes do clube a argentinos emigrados ao país vizinho), denominada "filial João Cardoso".
Carreira Uruguaiana e Grêmio
Na juventude, insistia com o futebol mesmo ciente dos castigos físicos que poderia receber do pai, administrador do mercado municipal de Uruguaiana; Cardoso dizia-lhe que ainda viria a jogar pelo Grêmio. Após destacar-se em uma olimpíada militar, Cardoso foi aceito inicialmente no time da cidade, o Uruguaiana. Permaneceu por três meses: após destacar-se em amistoso contra o Grêmio, pôde cumprir o sonho de se juntar ao Tricolor, ainda que precisasse da intervenção materna contra a objeção do pai à transferência.
Estreou no time principal gremista ainda em 1959, com início promissor de três gols nos três primeiros jogos em que atuou no torneio citadino porto-alegrense; tratava-se de competição que servia de etapa classificatória ao campeonato gaúcho, ainda regionalizado - somente os campeões municipais ou regionais disputavam o estadual.
O Grêmio viria a vencer o título estadual de 1959 e também o de 1960, no qual acumulou um pentacampeonato gaúcho seguido. Cardoso, porém, não encontrou espaço em um time que já contava para a sua posição de centroavante com os ídolos Gessy e Juarez; quando recebia oportunidades, costumava ser escalado de modo improvisado como ponta. Em 2010, chegou a se definir como "um reserva do ataque inteiro, então sempre conseguia jogar, porque alguém não podia. Mas por causa do Juarez, que era um grande centroavante e titularíssimo, eu acabei jogando muito pela ponta direita". Mesmo assim, diminuiu sua assiduidade em 1960, temporada em que foi utilizado principalmente em amistosos.
Seu principal momento no Grêmio viria exatamente em uma série de amistosos, ao longo de excursão feita pela Europa, entre março e junho de 1961. Marcou doze vezes e chegou a enfrentar inclusive Ferenc Puskás e o Real Madrid. Foi em excursão em 1961 na qual os jogos foram marcados gradualmente, inicialmente pela Grécia, onde os triunfos incluíram um em partida contra combinado local e despertaram interesse em jogos por França, Bélgica, Romênia, Bulgária, União Soviética e Alemanha Ocidental.
A equipe espanhola possuía amistoso marcado com o Sedan e, diante da desistência dos franceses, convidou os gremistas em partida que atraiu franceses e alemães para a fronteiriça Estrasburgo. Foi de Cardoso o gol dos brasileiros, empatando provisoriamente a partida em 1–1 , embora o próprio jogador preferisse outro lance na partida, no qual pôde aplicar um drible de chapéu no astro Alfredo Di Stéfano. O Real venceu por 4–1 e a partida voltou à tona em 2017, quando ambos os clubes se reencontraram no Mundial de Clubes desse ano.
Apesar do desempenho, Cardoso continuou sem oportunidades com o técnico Foguinho. No início de 1962, foi vendido ao Newell's Old Boys, então na segunda divisão argentina. Declarando gratidão ao Newell's e desgosto com a diretoria gremista, declararia que "O Newell's acreditou em mim, que era desconhecido na Argentina. Fui trocado, como se troca um cacho de banana". Quando os dois clubes se enfrentaram na Taça Libertadores da América de 2014, Cardoso também manifestou preferência por vitória dos argentinos, também em razão dos tricolores já terem sido campeões.
Newell's Old Boys
Cardoso confessaria que desconhecia totalmente o futebol vizinho. Mas ali não sentiu-se sozinho; o Newell's Old Boys havia contratado outros sete brasileiros, na época em que o Brasil estava embalado com o bicampeonato mundial, ainda que seu companheiro de apartamento fosse Nelson López, que por sua vez defendeu os rivais Rosario Central e Internacional. O futebol gaúcho era uma fonte constante desde 1960, incluindo jogadores renomados como Juarez e Ivo Diogo. A equipe rosarina havia sido rebaixada pela única vez em sua história em 1960 e no ano seguinte havia assegurado de imediato o retorno ao vencer a segunda divisão, mas o título foi cassado após descobrir-se pagamentos a adversários do concorrente Quilmes. Cardoso assim reforçou a Lepra em nova disputa na segunda divisão. Em 1963, o clube ficou em sexto e não ascenderia, mas foi realocado na elite para a temporada de 1964 após obter sucesso em recurso contra o cancelamento do título e acesso de 1961.
Na primeira divisão de 1964, o brasileiro chegou a marcar um gol de falta sobre o campeão Boca Juniors, em empate em 1–1, além de também deixar um gol no Clásico Rosarino, empatado em 2–2. Já no torneio de 1965, novamente vencido pelo Boca, o brasileiro marcou em La Bombonera os dois gols rojinegros em novo empate com o campeão, abrindo (em cabeceio) e fechando (em chute rasteiro e cruzado) o placar do 2–2; também fez os dois de vitória por 2–0 sobre o Estudiantes de La Plata; também fez o único em vitória de 1–0 sobre o rival Rosario Central, em cabeceio após escanteio. Essa vitória acabaria ganhando relevo especial com o tempo por ter sido a única em que o Newell's conseguiu em clássicos realizados entre 1956 e 1980 no estádio rival, o Gigante de Arroyito.
Por causa desses dois gols em diferentes Clásicos Rosarinos, Cardoso afirmaria que em Rosario (cidade onde nasceriam seus filhos) costumava ser mais reconhecido por torcedores do Central dos que pelo do próprio Newell's. O do triunfo marcou a primeira vitória rubronegra no estádio do rival pelo clássico em nove anos, e também seria a última pelos quinze anos seguintes. Já a vitória sobre o Estudiantes ocorreu sobre um adversário reputado por ele como "um grande time de futebol", embora ríspido a ponto de protagonizar partidas descritas como "uma tragédia do pontapé inicial até terminar. Mas tinham grandes jogadores". O brasileiro fez nove gols em 1965, suficientes para ser o artilheiro do elenco do Newell's; teria ainda sofrido dois pênaltis, executados por outros colegas, e contribuído também com duas assistências.
Cardoso ainda começou o campeonato argentino de 1966 defendendo o Newell's, pelo qual atuou nas quatro primeiras rodadas. Mas logo terminou contratado pelo Independiente, por sua vez bicampeão seguido da Taça Libertadores da América.
Independiente
O negócio com o Independiente foi uma das maiores transferências do futebol argentino na época, definida já em março de 1966, envolvendo também a troca por Roque Avallay - que havia marcado um dos gols do Independiente nas finais da Libertadores de 1965. Cardoso teve uma boa estreia pelo novo clube, marcando um gol e aproveitando bola dada como perdida para dar passe para outro. O adversário era o Boca Juniors, em plena La Bombonera. O Rojo concorria com o Boca e também com o River Plate em um grupo-semifinal da Taça Libertadores da América de 1966, chegando perto de nova final seguida, impedida por derrota em jogo-desempate com o River.
Já no campeonato argentino de 1966, seu primeiro jogo pelo Independiente deu-se em 24 de abril, pela 8ª rodada, igualmente marcando: fechou a vitória de 4–0 sobre o Colón, aproveitando rebote do goleiro em falta cobrada por Luis Artime. Apesar disso e da campanha quase finalista na Libertadores, onde pôde marcar dois gols em seis partidas (sendo inclusive o primeiro estrangeiro a marcar gols pelo time em competições internacionais oficiais), Cardoso jogaria pouco pelo clube.
O brasileiro julgava-se no melhor momento da carreira, mas poucos meses após chegar machucou seriamente o pé a ponto de quase perdê-lo. No torneio argentino, como jogador do Independiente, terminou limitado a nove partidas e dois gols. Chegou a ausentar-se entre 26ª rodada, na primeira semana de setembro, e a 35ª, já na segunda semana de novembro - foi pela rodada final, na qual contribuiu com assistência para Artime no segundo gol, em triunfo de 2–0 em La Plata sobre o Gimnasia y Esgrima para a equipe treinada pelo também brasileiro Osvaldo Brandão. Contudo, o próprio Cardoso reconheceria que, após a lesão, já não conseguia recuperar a qualidade de outrora no clube, tendo perdido a forma no período de licença médica.
Ainda que se dedicasse por conta própria a recuperar o nível, Cardoso acabou negociado pelo clube com o arquirrival - o Racing, embora a negociação tenha sido contextualizada em 2015 pelo brasileiro como sem maiores controvérsias: "a transferência para o Racing foi discreta e tranquila, fui vendido normalmente, sem problema nenhum. Quando vieram falar comigo, já estavam acertados com o Independiente. Naquela época, até a rivalidade entre os clubes era normal. Quando a imprensa soube, eu já estava contratado pelo Racing. Naquela época, a rivalidade era normal, não se dava importância para estas mudanças de clube. Éramos bem vizinhos".
Ao todo, não pôde passar de quatorze partidas pelo Independiente, prejudicado também pela concorrência com Raúl Bernao, já um grande ídolo do clube.
Racing thumb|direita|300px|O Racing antes do segundo jogo do Mundial Interclubes de 1967, em Avellaneda. Cardoso é o primeiro agachado, da esquerda para a direita. Curiosamente, atrás dele está o goleiro Cejas, que, como ele, também foi jogador do Grêmio. O Racing havia sido ainda em novembro o campeão argentino de 1966, no embalo de 39 jogos seguidos de invencibilidade, então um recorde no profissionalismo argentino. Porém, tivera lesionado o artilheiro da campanha, Jaime Martinoli. Cardoso acabou por ocupar a vaga de Martinoli e, ainda em dezembro de 1966, já começava a jogar amistosos pelo Racing recém-campeão, notadamente em uma vitória por 3–2 sobre o Bayern Munique, convidado para partida festiva na qual o La Academia inaugurava nova iluminação noturna do estádio racinguista. Os visitantes utilizaram Franz Beckenbauer, Gerd Müller e Sepp Maier, ao passo que Cardoso começou no banco de reservas e, embora não marcasse algum dos gols, seria o brasileiro justamente o eleito como o melhor em campo na ocasião - o que curiosamente renderia ao iniciante radialista Víctor Hugo Morales críticas internas por não nomeá-lo na narração. Indagado a respeito em 2015, o próprio Cardoso, contudo, declararia ter tido contra os alemães uma atuação apenas "normal", sem guardar maiores lembranças daquela partida.
Pelo Racing, Cardoso foi o ponta-direita titular no quinteto ofensivo com Humberto Maschio, Norberto Raffo, Juan Carlos Cárdenas e Juan José Rodríguez na campanha da Taça Libertadores da América de 1967, na qual o brasileiro contribuiu com três gols. Os dois primeiros, na fase inicial da edição mais longa do torneio, foram nos triunfos por 2–1 sobre o Bolívar na altitude de La Paz e por 4–1 sobre o Santa Fe na primeira fase, onde o time argentino também precisou superar um grande susto em Medellín - em turbulência de avião tão forte que a "sobrevivência" terminou por lhes encher de confiança pelo título; o trauma, porém, faria Cardoso (que descreveu que uma máquina de escrever de um jornalista teria chegado a ficar no ar) evitar novas viagens de avião após parar de jogar.