thumb|right|200px|alt=Símbolo maçônico da Carbonária|Símbolo maçônico/carbonário (cruz, chaves, pentagrama e alfabetos esotéricos. Note-se as chaves cruzadas parodiando o símbolo do papado, mas com um pentagrama no lugar do brasão papal).

A Carbonária foi uma sociedade secreta revolucionária que atuou na Itália, França, Portugal, Espanha, Brasil e Uruguai nos séculos XIX e XX, notória por seu marcado anticatolicismo, bem como por ações violentas, atentados, assassinatos políticos e terrorismo, e por sua influência na queda de monarquias tradicionais e absolutistas."Secret Societies in Europe (1814–1850)", EHNE – Encyclopédie d’Histoire Numérique de l’Europe.“Carbonari”, Encyclopædia Britannica — cita atuação na Itália e influência sobre grupos na França, Portugal, Espanha, Brasil e Uruguai com caráter anticlerical e conspirativo.

Embora seja frequentemente afirmado que a Carbonária não possuía unidade ou linha de ação claramente definida, muitos estudiosos discordam dessa visão. Pesquisas como a de John Rath (1964) indicam que a sociedade tinha sim um pano de fundo bem pronunciado, baseado na cosmovisão iluminista e maçônica, como se observa na presença de ritos iniciáticos similares entre as associações e no forte caráter anticlerical - porém, seu modus operandi era centrado no uso da violência política e em assassinatos seletivos para impor disciplina interna e aterrorizar adversários. A perspectiva de que a Carbonária tinha objetivos bem definidos e alinhados com a maçonaria é também observada pela Igreja Católica: a própria condenação papal na bula Ecclesiam a Jesu Christo (1821) descreveu a Carbonária como uma organização coesa, voltada a minar a Igreja e a monarquia.

thumb|center|220px|alt=Bandeira da Carbonária|Bandeira tradicionalmente associada à Carbonária.

Um dos liames entre a Carbonária e a Maçonaria evidencia-se pelo fato de que vários membros de destaque — como Giuseppe Garibaldi, Giuseppe Mazzini, entre outros — estiveram ativos em ambas as redes. Outro ponto de contato é a estrutura interna da Carbonária (choças, barracas, vendas, Alta Venda) que reflete uma hierarquia iniciática e de obediências muito semelhante à maçônica.

A oposição da Igreja Católica quanto ao movimento carbonário veio a público, de modo especial, quando houve a condenação formal da Carbonária na bula Quo Graviora Maiora (1826), que denunciou a promoção da indiferença religiosa, indisciplina social, conspirações contra a autoridade papal e envolvimento em execuções para proteger seus segredos por parte da Carbonária.

Estrutura interna Organizada por níveis — choças (básico), barracas (intermediário), vendas (local central), e Alta Venda (nível superior) —, a Carbonária impunha severa disciplina interna. Traidores ou dissidentes eram punidos, muitas vezes com morte, por meio de organizações como a Alta Venda, responsável por execuções clandestinas em todo o território italiano.

Assassinatos famosos thumb|left|220px|alt=Placa memorial de Angelo Targhini e Leonida Montanari|Placa memorial de Angelo Targhini e Leonida Montanari.

A Carbonária italiana não se limitava à política revolucionária, mas recorreu ao terrorismo interno: Em 1825, Angelo Targhini e Leonida Montanari foram decapitados em Roma após tentar retaliar um informante (Filippo Spada, ex-carbonário acusado de delação, que sobreviveu ao ataque). Em 1826, Don Ignazio Muti, secretário do cardeal Agostino Rivarola, foi morto em Ravenna em atentado atribuído a carbonários contra o cardeal. Em 1826, Antonio Bellini, inspetor de polícia, foi assassinado em Faenza no mesmo ciclo de retaliações sectárias. Em 1828, Luigi Zanoli, Angiolo Ortolani, Gaetano Montanari e Gaetano Rambelli foram enforcados em Ravena por planejarem o sequestro ou assassinato do cardeal Rivarola. Em 1848, Pellegrino Rossi, primeiro-ministro do Estado Pontifício, foi morto em Roma com mandantes do crime ligados à Carbonária.Gustavo Brigante Colonna, L'uccisione di Pellegrino Rossi; 15 novembre 1848 (Milano: Mondadori, 1938), p. 266 – apresenta evidências de que a autoria intelectual do assassinato estava provavelmente vinculada à Carbonária romana.

Outros casos de execuções clandestinas foram ordenados pela Alta Venda como forma de terror interno.

Revoluções e intervenções políticas 1820–21 — Promoção ativa das revoluções em Nápoles, Estados Papais e Piemonte, com forte presença militar, motins e apoio às constituições liberais. 1831 — Levantamentos em Modena, Romagna, Bolonha, Parma e nos Estados Papais; líderes como Enrico Misley e Ciro Menotti foram capturados e executados. 1847 — Insurreições no Reino das Duas Sicílias conduzidas por comitês carbonários culminaram na execução dos Cinco Mártires de Gerace. Atentado em Paris (1858) — Felice Orsini, afiliado ao ideal carbonário, tentou assassinar Napoleão III, gerando forte impacto político e diplomático. Portugal — A Carbonária portuguesa atuou no assassinato do rei dom Carlos I de Portugal e do Luís Filipe, Príncipe Real de Portugal (1908), e apoiou a Revolução de 5 de Outubro de 1910, decisiva para o estabelecimento da República. Brasil e Uruguai — Giuseppe Garibaldi, carbonário, participou da Revolução Farroupilha (RS, Brasil), da Revolução Cisplatina e de conflitos no Uruguai (Guerra Civil/República Rio-Grandense), disseminando ideais carbonários no continente sul-americano. França (Charbonnerie) — Conspirações contra a Restauração e Carlos X; ver estudos de referência.

Países de atuação thumb|center|180px|alt=Símbolo da Carbonária Portuguesa|Símbolo utilizado pela Venda Jovem-Portugal da Carbonária Portuguesa (c. 1910).

A Carbonária teve presença — direta ou por influência ideológica — nos seguintes países: Itália França Portugal Espanha Brasil Uruguai

Pessoas famosas assassinadas ou executadas

Angelo Targhini, executado em 1825 sob acusação interna de traição. Leonida Montanari, igualmente executado em 1825. Luigi Zanoli, Angiolo Ortolani, Gaetano Montanari e Gaetano Rambelli, executados em 1828. Ciro Menotti, líder da revolta de 1831, foi executado após a conspiração em Modena. Rei Dom Carlos I e Príncipe Luís Filipe, assassinados pela Carbonária em Lisboa, 1908. Pellegrino Rossi, primeiro-ministro do Estado Pontifício, assassinado em 1848 .Gustavo Brigante Colonna, L'uccisione di Pellegrino Rossi; 15 novembre 1848 (Milano: Mondadori, 1938), p. 266 – apresenta evidências de que a autoria intelectual do assassinato estava provavelmente vinculada à Carbonária romana.

Símbolos, ritos e codificação secreta

A Carbonária utilizava objetos com forte carga simbólica interna: Nas barra­cas (locais de reunião), eram dispostos um carvão (símbolo de esforço), copo d’água (pureza), sal (incorrup­tibilidade), novelo (solidariedade), feixe de lenha (união), coroa de espinhos (sofrimento), e pequena escada (ascensão ideológica). O Grande Mestre usava uma faixa tricolor e empunhava uma scure (machado), símbolo de autoridade, enquanto seus assistentes empunhavam machados menores, refletindo uma semelhança ritual com a Maçonaria. A bandeira carbonária tinha faixas horizontais azul (esperança), vermelha (compromisso) e preta (fé inabalável). A Carbonária utilizava um alfabeto cifrado de substituição fixa para comunicação sigilosa, com correspondência entre letras (“A→O”, “B→P” etc.), usado nos motins de 1830-31 e em ritos iniciáticos. A semelhança com a Maçonaria era visível, e maçons podiam ingressar diretamente como mestres.

Referências Versão anterior da Wikipédia em português sobre a Carbonária (introdução e caráter anticlerical). Rath, John (January 1964), “The Carbonari: Their Origins, Initiation Rites, and Aims”, The American Historical Review, 69 (2): 353–370. Encyclopædia Britannica: verbetes sobre Carbonari e estrutura iniciática. Bula papal ‘’Ecclesiam a Jesu Christo’’ (1821). Bula ‘’Quo Graviora Maiora’’ (1826).

Alta Venda e disciplina interna por execuções clandestinas (estudos e compilações históricas). Relatos sobre punições secretas (execuções) atribuídas à Alta Venda.

Execução de Angelo Targhini e Leonida Montanari (1825). Wikipédia em francês (síntese documental) sobre Targhini e Montanari, sua execução e últimas palavras. Treccani – Dizionario Biografico: verbete Montanari, Leonida (menção ao ataque contra Filippo Spada). Gentile, Pierangelo (2019). «Mestiere da matti o da birbi»: miti e realtà di sette e congiure carbonare nell’epoca di Leone XII. In: Governo della Chiesa, governo dello Stato. Ancona: Consiglio Regionale delle Marche, pp. 406–408. Relato das execuções em Ravena (1828): Zanoli, Ortolani, Montanari, Rambelli.

La Nazione (17 fev. 2024): “Il giurista Pellegrino Rossi... Assassinato in Vaticano”. Massime dal passato (13 jul. 2020): “Il caso irrisolto: l’omicidio di Pellegrino Rossi”.

Britannica: revoltas de 1820–21 (Itália liberal), participação carbonária. Sínteses sobre os motins de 1831 e execução de líderes como Misley e Menotti. Insurreições de 1847 no Reino das Duas Sicílias (Cinco Mártires de Gerace). Atentado de Felice Orsini (1858). Spitzer, Alan B. Old Hatreds and Young Hopes: The French Carbonari against the Bourbon Restoration. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1971.

Fonte sobre Targhini executado em 1825. Fonte sobre Montanari executado em 1825. Lista dos executados em Ravena: Zanoli, Ortolani, Montanari, Rambelli (1828). Ciro Menotti executado após revolta de 1831. Carbonária Portuguesa: assassinato do rei e do príncipe; apoio à Revolução de 1910. Wikipedia inglesa: atuação de Garibaldi na América do Sul.

Artigo italiano sobre simbologia carbonária (it.wikipedia.org/wiki/Carboneria). Catholic Encyclopedia: ritos, símbolos e relação com a Maçonaria.