Guerra do Ultramar, também conhecida como Guerra Colonial Portuguesa ou como a Guerra de Libertação nas ex-colónias portuguesas, foi um conflito de 13 anos de duração travado entre os militares portugueses e os movimentos nacionalistas emergentes nas colónias africanas de Portugal entre 1961 e 1974. O regime ditatorial português da época, o , foi derrubado por um golpe militar em 1974, e a mudança de governo pôs fim ao conflito. A guerra foi uma luta ideológica decisiva na África Lusófona, nas nações vizinhas e em Portugal continental.
A abordagem histórica predominante considera a Guerra Colonial Portuguesa como um único conflito travado nos três teatros de operações separados: Angola, Guiné-Bissau e Moçambique, em vez de uma série de conflitos separados, já que os países africanos emergentes ajudaram-se uns aos outros e foram apoiados pelas mesmas potências globais e até mesmo pelas Nações Unidas durante a guerra.unscr.com/en/resolutions/doc/180/ Publicada a 31 de julho de 1963. Consultada a 1 de Julho de 2026. A anexação de Dadra e Nagar Haveli pela Índia em 1954 e a anexação de Goa em 1961 são algumas vezes incluídas como parte do conflito. Ao contrário de outras nações europeias durante as décadas de 1950 e 1960, o português não se retirou das suas colónias africanas, nem das províncias ultramarinas, como esses territórios eram oficialmente chamados desde 1951.Lei n.º 2048, de 11 de junho | DR (1,2MB) Durante a década de 1960, vários movimentos armados de independência tornaram-se ativos: o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), a Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA) e a União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA) na Angola Portuguesa, o Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) na Guiné Portuguesa e a Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO) no Moçambique Português. Durante o conflito que se seguiu, atrocidades foram cometidas por todas as forças envolvidas.
Ao longo do período, Portugal enfrentou crescente dissidência, embargos de armas e outras sanções punitivas impostas pela comunidade internacional, incluindo por alguns governos do Bloco Ocidental, de forma intermitente ou contínua. As guerrilhas e movimentos anticoloniais da África portuguesa foram fortemente apoiados e instigados com dinheiro, armas, treinamento e lobby diplomático pelo Bloco Comunista, que tinha a União Soviética como nação líder. Em 1973, a guerra tornou-se cada vez mais impopular devido à sua duração e custos financeiros, à deterioração das relações diplomáticas com outros membros das Nações Unidas e ao papel que sempre desempenhou como facto de perpetuação do regime do Estado Novo e do status quo não democrático em Portugal.
O fim da guerra veio com o golpe militar da Revolução dos Cravos, em 25 de abril de 1974, em Portugal continental. A retirada resultou na expulsão de centenas de milhares de cidadãos portuguesesPortugal Migration, The Encyclopedia of the Nations e de militares de etnia europeia, africana e mista dos antigos territórios portugueses e das nações africanas recentemente independentes.Flight from Angola, The Economist (16 de agosto de 1975).Dismantling the Portuguese Empire, Time magazine (July 7, 1975).Portugal – Emigration, Eric Solsten, ed, 1993. Esta migração é considerada uma das maiores migrações pacíficas, embora forçadas, da história do mundo, mesmo que a maioria dos migrantes tenha fugido dos antigos territórios portugueses como refugiados destituídos.António Barreto, 2006, Portugal: Um Retrato Social As antigas colónias enfrentaram sérios problemas após a independência. Seguiram-se guerras civis devastadoras em Angola e Moçambique, que duraram várias décadas, ceifaram milhões de vidas e resultaram num grande número de refugiados deslocados.Stuart A. Notholt (Apr., 1998) Review: ‘The Decolonization of Portuguese Africa: Metropolitan Revolution and the Dissolution of Empire by Norrie MacQueen – Mozambique since Independence: Confronting Leviathan by Margaret Hall, Tom Young’ African Affairs, Vol. Angola e Moçambique estabeleceram economias planeadas pelo Estado após a independênciaSusan Rose-Ackerman, 2009, "Corruption in the Wake of Domestic National Conflict" in Corruption, Global Security, and World Order (ed. Robert I. Rotberg: Brookings Institution), p. 79. e lutaram contra sistemas judiciais e burocracias ineficientes, corrupção,Mario de Queiroz, Africa–Portugal: Three Decades After Last Colonial Empire Came to an End, Inter Press Service (November 23, 2005).Tim Butcher, As guerrilla war ends, corruption now bleeds Angola to death, The Daily Telegraph (30 July 2002) pobreza e desemprego. Um nível de ordem social e de desenvolvimento económico comparável ao que existia sob o domínio português, incluindo durante o período da Guerra Colonial, tornou-se o objetivo dos territórios independentes."As coisas estão indo bem em Angola. Eles alcançaram um bom progresso em seu primeiro ano de independência. Houve muita construção e eles estão desenvolvendo instalações de saúde. Em 1976, eles produziram 80.000 toneladas de café. Meios de transporte também estão sendo desenvolvidos. Atualmente, entre 200.000 e 400.000 toneladas de café ainda estão em armazéns. Em nossas conversas com [o presidente angolano Agostinho] Neto, enfatizamos a necessidade absoluta de atingir um nível de desenvolvimento econômico comparável ao que existia sob o colonialismo [português]."; "Há também evidências de racismo negro em Angola. Alguns estão usando o ódio contra os senhores coloniais para fins negativos. Há muitos mulatos e brancos em Angola. Infelizmente, os sentimentos racistas estão se espalhando muito rapidamente." 1977 southern Africa tour: Relato de Fidel Castro a Erich Honecker, CNN Os antigos territórios portugueses em África tornaram-se estados soberanos, com Agostinho Neto em Angola, Samora Machel em Moçambique, Luís Cabral na Guiné-Bissau, Manuel Pinto da Costa em São Tomé e Príncipe, e Aristides Pereira em Cabo Verde como chefes de Estado.
Contexto político-social
Descolonização
Nas colónias europeias sempre existiram movimentos de oposição e resistência à presença das potências coloniais. Porém, ao longo do século XX, o sentimento nacionalista — fortemente impulsionado pelas primeira e segunda guerras mundiais — era patente em todas as movimentações europeias, pelo que não será surpreendente notar o seu alastramento às colónias, já que também muitos dos seus nativos nelas participaram, expondo o paradoxo da celebração da vitória na luta pela libertação, em território colonial, ainda submetido e dependente.
thumb|upright=1.4|Províncias ultramarinas portuguesas em África no período da Guerra do Ultramar.
Por outro lado, também as grandes potências emergentes da II Guerra Mundial, os Estados Unidos e a União Soviética, alimentavam — quer ideologicamente, quer materialmente — a formação de grupos de resistência nacionalistas, durante a sua disputa por zonas de influência. É neste contexto que a Conferência de Bandung, em 1955, irá conceder voz própria às colónias, que enfrentavam os mesmos problemas e procuravam uma alternativa ao simples alinhamento no conflito bipolar que confrontava as duas grandes potências. Estas, eram, assim, chamadas a considerar com outra legitimidade as reivindicações do chamado Terceiro Mundo, quer para manter o equilíbrio nas relações internacionais da Guerra Fria, quer para canalizar os sentimentos autonomistas para seu benefício, como zona de influência. A influência externa nas colónias perdia a orientação meramente separatista e desestabilizadora, e caminhava para um efetivo apoio — ou entrave — nas relações com os países colonizadores.
No final da década de 1950, as Forças Armadas Portuguesas viam-se confrontadas com o paradoxo da situação política gerada pelo Estado Novo, que haviam implantado e sustentado desde 1926: por um lado, a política de neutralidade portuguesa na II Guerra Mundial colocava as Forças Armadas Portuguesas afastadas de um eventual confronto Leste-Oeste, por outro, aumentava, na perspetiva do regime, a responsabilidade na manutenção da soberania sobre os vastos territórios ultramarinos, onde a tensão do pós-guerra avizinhava lutas independentistas nas colónias da Europa dos Impérios. Contudo, os mesmos dirigentes que afastaram Portugal da luta pela libertação europeia, optaram por integrar o país na estrutura militar da NATO, num subtil desejo de se aliar aos vencedores, em detrimento da preparação para as ameaças nos espaços coloniais, que o próprio regime considerava imprescindíveis para a sobrevivência nacional.
Esta integração de Portugal na Aliança Atlântica iria formar uma elite de militares que se tornaria indispensável para o planeamento e condução das operações durante a Guerra do Ultramar. Esta "geração NATO" ascenderia rapidamente aos mais altos cargos políticos e de comando, sem necessidade de dar provas de fidelidade para com o regime. A Guerra Colonial estabelecia, assim, incompatibilidades entre a estrutura militar — fortemente influenciada pelas potências ocidentais, de regime democrático — e o poder político. Alguns analistas consideram que o chamado «golpe Botelho Moniz» marcou o início desta rutura, bem como a origem de uma certa desconfiança do regime em relação à manutenção de um único centro de comando, perante a ameaça do confronto com a força armada. Esta situação provocaria, como se verificaria mais tarde, a descoordenação entre os três estados-maiores (Exército, Força Aérea e Marinha).
O regime do Estado Novo nunca reconheceu a existência de uma guerra, considerando que os movimentos independentistas eram apenas terroristas e que os territórios não eram colónias, mas províncias e parte integrante de Portugal. Durante muito tempo, grande parte da população portuguesa, iludida pela censura à imprensa, viveu sob a ilusão de que, em África, não havia uma guerra, mas apenas alguns ataques de terroristas e de potências estrangeiras.
Guerra do Vietname
Portugal não era na verdade o único país que estava em guerra colonial. No fim do ano de 1946, o movimento Việt Minh se revoltou contra a França. Após uma longa guerra contra os franceses, foi assinado o acordo de paz na Conferência de Genebra, que aconteceu em 1954, em que, além de resolver questões pendentes da Guerra da Coreia, determinou a divisão da Indochina Francesa entre os seguintes países, Vietname do Norte, Vietname do Sul, Laos e Camboja. Nessa conferencia também foi definido que Vietname do Norte e o Vietname do Sul seriam divididos perto do paralelo 17 N. No entanto, a conferência também determinou que futuramente, em 1956 haveria eleições, e após essas eleições que nunca se realizaram, todos esses novos Estados se unificariam num só país. Em 1955, a guerra do Vietname (1955-1975) iniciou-se entre o Vietname do Norte, que pertencia ao Segundo Mundo, e o Vietname do Sul, que estava no Primeiro Mundo e grande parte do Primeiro Mundo e do Segundo Mundo também viu-se afetada com essa guerra, marcada também por várias tragédias. Os Estados Unidos da América, os países da região e península asiática da Indochina, principalmente o Vietname do Norte, Laos, Khmer Vermelho (Camboja), e a França (principalmente na Primeira Guerra da Indochina, antes da intervenção americana) foram os países mais afetados por essa guerra.