Aedes (Stegomyia) aegypti (aēdēs do grego αηδής: "odioso" e ægypti do latim, significando "do Egipto") é a nomenclatura taxonômica para o mosquito que é popularmente conhecido como mosquito-da-dengue ou pernilongo-rajado,FERREIRA, A. B. H. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Segunda edição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. p.1 314 uma espécie de mosquito da família Culicidae proveniente da África, atualmente distribuído por quase todo o mundo, especialmente em regiões tropicais e subtropicais, sendo dependente da concentração humana no local para se estabelecer. Acredita-se que 35% da população mundial viva em áreas propícias e endêmicas para a proliferação do mosquito.
O mosquito está bem adaptado à zonas urbanas, mais precisamente ao domicílio humano, onde consegue reproduzir-se e pôr os seus ovos em pequenas quantidades de água limpa e parada, isto é, pobres em matéria orgânica em decomposição e sais (que confeririam características ácidas à água), que preferivelmente estejam sombreados e no peridomicílio.
Atualmente, foi descoberto que a fêmea não se reproduz somente em água limpa e parada, pelo contrário. O mosquito pode se reproduzir em águas com altos níveis de poluição, como o esgoto por exemplo. A fêmea observa vários fatores influenciáveis ao crescimento das larvas, como a temperatura, luminosidade e resquícios de matéria orgânica. As larvas do aedes são sensíveis à luz, o que faz com que se desenvolvam bem em águas turvas.
As fêmeas, para realizar a hematofagia, podem percorrer até 2 500 metros.<ref>NEVES.David Pereira. et. al'.' Parasitologia Humana. 10.ed. São Paulo: Atheneu, 2000.</ref> É considerado vector de doenças graves, como dengue, febre amarela, febre zica e chikungunya. O controle das suas populações é considerado assunto da saúde pública e há comprovação científica de que o controle do Aedes Aegypt tem custo menor para os governos do que o tratamento às doenças causadas por este vetor.
Descrição O Aedes aegypti é um mosquito que se encontra ativo e pica durante o dia, ao contrário do Anopheles, vector da malária, que tem atividade crepuscular. O Aedes aegypti tem, como vítima preferencial, o ser humano, e não faz praticamente som audível antes de picar. Mede menos de 1 centímetro e é preto com manchas brancas no corpo e nas pernas. thumb|esquerda|upright|A. aegypti durante o voo e carregado de sangue
O seu controle é difícil, por ser muito versátil na escolha dos criadouros onde deposita seus ovos, que são extremamente resistentes, podendo sobreviver vários meses até que a chegada de água propicie a incubação. Uma vez imersos, os ovos desenvolvem-se rapidamente em larvas, que dão origem às pupas, das quais surge o adulto. Como em quase todos os outros mosquitos, somente as fêmeas se alimentam de sangue para a maturação de seus ovos. Os machos se alimentam apenas de substâncias vegetais e açucaradas.
Por se adaptar bem a vários recipientes, a expansão deste mosquito a partir do seu habitat original foi rápida. O Aedes aegypti foi introduzido na América do Sul através de barcos provenientes de África. Nas Américas, admite-se que sua primeira colonização sobre o Novo Mundo ocorreu através dos navios negreiros no período colonial junto com os escravos. No Brasil, o Aedes aegypti havia sido erradicado na década de 1950; entretanto, nas décadas de 1960 e 1970, ele voltou a colonizar esse país, vindo de países vizinhos que não haviam conseguido promover a sua total erradicação.
O Aedes aegypti está presente nas regiões tropicais de África e da América do Sul, chegando à Ilha da Madeira, em Portugal e ao estado da Flórida, nos Estados Unidos. Nessa zona, o Aedes aegypti tem vindo a declinar, graças à competição com outra espécie do mesmo gênero, o Aedes albopictus. Este fato, porém, não trouxe boas notícias, uma vez que o A. albopictus é, também, um vetor da dengue, bem como de vários tipos de encefalite equina. No Brasil, o único que transmite a dengue é o A. aegypti. A competição entre as duas espécies ocorre devido ao fato de a fêmea do A. aegypti se acasalar tanto com o macho de sua espécie quanto com o macho do A. albopictus, que é mais agressivo e que, sendo de outra espécie, gera ovos inférteis, reduzindo, assim, a população de A. aegypti.O mosquito é tão proliferado que chega a infestar 3.592 municípios brasileiros.
Repelentes baseados no composto DEET (N,N-dietilmetatoluamida) são recomendados contra o Aedes aegypti.Governo do Estado do Rio de Janeiro, Rio Contra Dengue, Tire suas dúvidas [em linha]Prefeitura de Santos, SP, Dengue, Transmissão [em linha]
Genoma thumb|Macho (à esquerda) e fêmea (centro e direita) de A. aegypti O genoma desta espécie de mosquito foi sequenciado e analisado por um consórcio que inclui cientistas do Instituto J. Craig Venter, do Instituto Europeu de Bioinformática, do Instituto Broad e da Universidade de Notre Dame, e foi publicado em 2007. O esforço de sequenciamento de seu DNA foi destinado a fornecer novos caminhos para pesquisas em inseticidas, bem como para possíveis alterações genéticas que impeçam a propagação dos vírus levados pelo inseto.
Esta foi a segunda espécie de mosquito que teve seu genoma sequenciado integralmente (o primeiro foi o Anopheles gambiae). Os dados publicados incluem 1380 milhões de pares de bases contendo cerca de 15 419 genes que codificam proteínas do mosquito. A sequência indica que a espécie divergiu da Drosophila melanogaster (mosca-comum-da-fruta) há cerca de 250 milhões de anos, enquanto o Anopheles gambiae divergiu de D. melanogaster há cerca de 150 milhões de anos.
Formas de controle Mecânico thumb|Cerca de 200 mil soldados do Exército Brasileiro conscientizaram a população e eliminaram criadouros do A. aegypti durante o surto de vírus zika. thumb|Aplicação de inseticida por fumacês em Brazlândia, Distrito Federal, Brasil. Baseia-se na eliminação de possíveis locais de incubação dos ovos do mosquito, ou seja, na eliminação de locais de água parada.Aedes aegypti. Disponível em http://auladengue.ioc.fiocruz.br/?p=86. Acesso em 7 de julho de 2016. Outra forma de controle mecânico são as armadilhas adesivas de ovoposição (BR-OVT), desenvolvida originalmente para coletar ovos do Culex quinquefasciatus, essa armadilha consiste em uma caixa de polietileno preto com um recipiente interno contendo água e larvicida (como o Bacillus thuringiensis israelensis - BTi). Esses dispositivos são projetados para atrair as fêmeas do Aedes aegypti pela presença de feromônios,Instituto do Cérebro. Disponível em http://inscer.pucrs.br/artigo-controle-do-mosquito-aedes-aegypti-profa-dra-celia-carlini-pesquisadora-da-area-de-biologia-celular-e-molecular-no-inscer/. Acesso em 7 de julho de 2016. para depositarem seus ovos. Elas utilizam pistas visuais, como forma e cor. A principal função dessas armadilhas não é apenas capturar os mosquitos adultos, que ficam presos em uma borda adesiva, mas também induzir as fêmeas a depositarem seus ovos em um local que contém um larvicida (como o Bacillus thuringiensis israelensis - BTi), matando as futuras gerações do vetor. Outras medidas simples de controle mecânico incluem a instalação de telas em portas e janelas para impedir a entrada de mosquitos adultos nas residências, bem como a proteção e a destinação adequada de recipientes que possam acumular água.
Biológico Consiste na utilização de algumas espécies que combatem o mosquito, como algumas espécies de peixes larvívoros, que se alimentam de larvas de mosquitos. A espécie mais famosa e amplamente introduzida no mundo para esse fim é o peixe mosquito (Gambusia affinis e Gambusia holbrooki), nativo do leste da América do Norte. Esses peixes são pequenos, resistentes e se reproduzem rapidamente, características que os tornaram populares em programas de controle desde o início do século 20. No entanto, o uso da Gambusia é controverso. Há autores e que defendem sua eficácia no controle de mosquitos. Outros pesquisadores , afirmam que essa eficácia é incerta e depende do ambiente. Estudos com rigor experimental não encontraram diferença significativa na quantidade de larvas de mosquito em corpos d'água com e sem Gambusia, sugerindo que a predação das larvas pode ocorrer também por predadores invertebrados, por exemplo os insetos notonectídeos. Em muitos casos, a eficácia da Gambusia é limitada, principalmente quando há vegetação aquática densa, pois as larvas se escondem nesse ambiente. Além disso, a Gambusia pode causar impactos negativos importantes sobre a fauna nativa: ela preda ovos e girinos de anfíbios, compete com peixes nativos e altera as cadeias alimentares em ecossistemas aquáticos. Por esses motivos, seu uso é atualmente questionado e, em algumas regiões, ela é considerada uma espécie invasora e até mesmo uma praga.
Microcrustáceos são animais pequenos que habitam diversos ambientes aquáticos, como lagos, poças temporárias e até pequenos recipientes domésticos. Entre eles, os ciclopoides do gênero Mesocyclops destacam-se como predadores eficientes, capazes de consumir larvas de mosquito de primeiro e segundo estádios. Esses organismos detectam suas presas por mecanorreceptores e podem consumir organismos com até o dobro do seu tamanho. A principal vantagem dos copépodes como agentes de controle biológico é sua capacidade de se estabelecer e persistir nos criadouros, oferecendo controle sustentado sem a necessidade de aplicações repetidas de inseticidas. Além disso, são organismos nativos em muitos ambientes, minimizando riscos ecológicos quando se utilizam espécies locais. No entanto, desafios operacionais existem: a produção em larga escala, distribuição e monitoramento contínuo exigem estrutura institucional e pessoal treinado. A eficiência também pode variar conforme a espécie de copépode e de mosquito, a temperatura e a disponibilidade de presas alternativas.
Os Mermithidae são uma família de nematódeos (vermes redondos) que parasitam uma ampla variedade de invertebrados, especialmente insetos. No contexto do controle de mosquitos, esses nematódeos são estudados como agentes de controle biológico, pois parasitam as larvas de mosquitos e as matam durante seu desenvolvimento. Os mermitídeos são vermes alongados e delgados que, na fase parasitária, vivem dentro do corpo de seus hospedeiros. Eles obtêm nutrientes diretamente da hemolinfa (o "sangue" dos insetos) e causam a morte do hospedeiro quando emergem para completar seu ciclo de vida.
Duas espécies são particularmente estudadas para o controle de mosquitos:
- Romanomermis culicivoraxÉ a espécie mais estudada. Seu ciclo de vida e sua capacidade de infectar larvas de Culex, Aedes e Anopheles são bem documentados. Em criadouros artificiais, foi possível estabelecer populações de R. culicivorax por mais de 468 dias, com taxas de parasitismo entre 30% e 45% em larvas de Culex quinquefasciatus.
- Romanomermis iyengariEstudada para o controle de Anopheles gambiae, o principal vetor da malária na África subsaariana. Os nemátodos parasitam as larvas do mosquito em diversos tipos de criadouros aquáticos. Ambas parasitam larvas de mosquitos e foram criadas em laboratório para liberação em campo.
O ciclo de vida dos nemátodos que parasitam mosquitos geralmente segue estas etapas:
1. Ovos: depositados no fundo de criadouros aquáticos.
2. Juvenil pré-parasita (estágio infectante): ao eclodir, o verme nada ativamente em busca de uma larva de mosquito hospedeira. Essa fase é curta. O parasita precisa encontrar um hospedeiro em aproximadamente 36 a 48 horas após a eclosão, ou morre.
3. Penetração: o verme penetra através da cutícula (a "pele" da larva) e migra para o tórax do hospedeiro.
4. Fase parasitária: dentro da larva, o verme cresce rapidamente, pode aumentar 18 vezes em comprimento e 16 vezes em largura em apenas 6 a 8 dias.
5. Emergência: o verme maduro sai do corpo da larva, matando-a no processo.