Imigração portuguesa ao Brasil, ou emigração portuguesa para o Brasil, é o movimento migratório de portugueses para o Brasil. Os portugueses são um dos principais grupos populacionais constitutivos do povo brasileiro, juntamente com a população ameríndia original e africanos trazidos ao país para escravidão. A chegada dos primeiros portugueses ocorreu após a colonização do Brasil, mas o fluxo migratório principal é posterior: ganhou intensidade após a descoberta de ouro em Minas Gerais, entre 1701 e 1850, e alcançou o auge entre 1851 e 1960, durante o período de incentivo à migração europeia ao Brasil, quando 17,5 mil portugueses por ano fixaram residência no país. Os mais de três séculos de colonização, juntamente com a imigração pós-independência, marcaram a história e a herança cultural e étnica brasileira. Grande parcela da população brasileira tem, hoje, alguma ancestralidade portuguesa, mesmo quando remota.

A população portuguesa no Brasil está há várias décadas em franco decréscimo. Em 1929, portugueses viviam no Brasil. No ano 2000, o número de residentes portugueses era de , em 2010 de e em 2022 de . Trata-se de uma comunidade envelhecida, na qual a chegada de novos imigrantes não é suficiente para compensar o número de mortos e regressados. Nas últimas décadas, tem havido uma inversão do fluxo migratório entre os dois países. Em 2023, o número de brasileiros residentes em Portugal () já era muito superior ao de portugueses no Brasil.

A ligação dos imigrantes portugueses e descendentes com Portugal é mantida através das inúmeras "associações portuguesas no Brasil", ou outras instituições como os "gabinetes portugueses de leitura" (o carioca, o recifense e o soteropolitano) e o Liceu Literário Português no Rio de Janeiro. Organizações como o Real Hospital Português no Recife, a Sociedade Portuguesa de Beneficência do Rio de Janeiro, o Club de Regatas Vasco da Gama, também no Rio de Janeiro, e a Associação Atlética Portuguesa em Santos mantiveram a comunidade portuguesa unida e contribuíram para a sociedade brasileira.

Os números

Os estudos sobre imigração no Brasil quase sempre privilegiam o período posterior a 1850, quando a documentação estatística se torna mais regular. Ainda há poucos trabalhos dedicados à imigração portuguesa anterior a essa data.Portuguese Migration to Rio de Janeiro, 1822–1850 Paradoxalmente, a historiografia dispõe de estimativas mais precisas sobre o número de escravos africanos trazidos ao Brasil do que sobre a migração portuguesa no período colonial. Isso se explica pelo fato de o tráfico negreiro ter sido uma atividade altamente regulada e documentada, gerando registros sistemáticos de navios, cargas e impostos, ao passo que a migração portuguesa ocorreu de forma amplamente espontânea e fragmentada, sem controles administrativos contínuos. Assim, enquanto os fluxos de africanos podem ser quantificados com relativa precisão, os números relativos aos colonos portugueses baseiam-se sobretudo em estimativas aproximativas e ordens de grandeza.Eltis, David; Richardson, David. Atlas of the Transatlantic Slave Trade. New Haven: Yale University Press, 2010.

No tocante à chegada de portugueses durante o Brasil colonial (1500–1822), existem apenas estimativas, mas a maior parte da historiografia calcula que entre 500 mil e 700 mil portugueses tenham migrado para a colônia. Segundo dados reunidos por James Horn e Philip D. Morgan, entre 1500 e 1820 emigraram para as Américas cerca de portugueses, o que faz de Portugal o segundo maior emissor europeu de migrantes para o continente nesse período, atrás apenas da Grã-Bretanha, com , e à frente da Espanha, com . Destaca-se que virtualmente todos esses emigrantes portugueses tiveram o Brasil como destino, diferentemente dos britânicos e espanhóis, que se distribuíram por diversas colônias americanas. Os dados encontram-se na tabela abaixo:Horn, James, and Philip D. Morgan. "Settlers and Slaves: European and African Migrations to Early Modern British America." In The Creation of the British Atlantic World, edited by Elizabeth Manke and Carole Shammas. Baltimore, MD: Johns Hopkins University Press, 2005.

Imigração europeia para as Américas (1492–1820) País de origem Número Grã-Bretanha Portugal Espanha Alemanha França Países Baixos Outros Total

Estimativas do IBGE indicam que cerca de 700 mil portugueses chegaram ao Brasil entre 1500 e 1760, dos quais aproximadamente 100 mil nos dois primeiros séculos e 600 mil entre 1701 e 1760. Cálculos semelhantes foram apresentados por José C. Moya, que estimou em cerca de 700 mil os portugueses que migraram para o Brasil.Migração e formação histórica da América Latina em perspectiva global Já o antropólogo Darcy Ribeiro apresentou uma estimativa mais conservadora, calculando em cerca de 500 mil o número de portugueses chegados durante o período colonial.

Estudos comparativos sobre a migração europeia na época moderna, desenvolvidos por autores como Henry Gemery, Olivier Pétré-Grenouilleau e David Eltis, permitem situar a emigração portuguesa em perspectiva atlântica. Com base em diferentes metodologias e fontes fragmentárias, esses autores apresentaram estimativas intervalares de saídas da Europa para a América entre os séculos XVI e XVIII, refletindo as limitações documentais do período:Gemery, Henry. “Markets for Migrants”.Pétré-Grenouilleau, Olivier. “Maritime Powers”.

+ Estimativas de saídas da Europa para a América (1500–1760) Região 1500–1580 1580–1640 1640–1700 1700–1760 Total estimado Portugal – – – Espanha Inglaterra 0 – – – – França 0 – – – Países Baixos 0

Apenas a partir da década de 1870 é que se dispõe de números mais precisos sobre a imigração portuguesa no Brasil. No primeiro censo nacional, realizado em 1872, foram contabilizados portugueses, dos quais eram homens (83%) e mulheres (17%).RECENSEAMENTO DO BRAZIL EM 1872 Entre 1877 e 1903, entraram no Brasil portugueses, e o auge da imigração ocorreu entre 1904 e 1930, quando chegaram imigrantes dessa nacionalidade. Considerando o período entre 1820 e 1963, os portugueses constituíram a principal nacionalidade imigrante no Brasil, com entradas, à frente dos italianos, com .

Imigração para o Brasil, por nacionalidades (1820-1963) Nacionalidades Número Portugueses Italianos Espanhóis Alemães Japoneses Outros Total

O censo de 1920 contabilizou a presença de portugueses no Brasil, sendo que eram homens (67%) e eram mulheres (33%). Essa população ainda incorporou mais portugueses que entraram na década de 1920. Assim, a população portuguesa no Brasil alcançou seu auge em 1929. Nesse ano, viviam no Brasil portugueses, concentrados nos estados do Rio de Janeiro e de São Paulo, mas com presença importante também em Minas Gerais e no Pará.

O censo de 1940 contabilizou portugueses no Brasil. Em 1970, a comunidade cresceu novamente e tinha pessoas. A partir de então, foi declinando progressivamente: pessoas em 1991, em 2000 e em 2010. A queda no número de residentes portugueses no Brasil é explicada pela faixa etária dessa população. O Brasil foi o principal destino da emigração de portugueses até a década de 1960, quando então foi substituído pela França e outros países da Europa.MEMÓRIAS E DIREITOS NA IMIGRAÇÃO PORTUGUESA NO BRASIL DO SÉCULO XX Com a diminuição da chegada de novos imigrantes, a comunidade foi envelhecendo. Segundo pesquisa de 2001, a comunidade portuguesa no Brasil era a mais envelhecida do mundo, uma vez que mais da metade dos imigrantes havia chegado ao Brasil entre 1950 e 1960. Em 2001, 46,9% dos portugueses no Brasil tinham mais de 65 anos de idade e 60,2% eram inativos ou aposentados. Em 2010, 60% dos portugueses residentes no Brasil tinham mais de 65 anos idade e 33,4% tinham entre 40 e 64 anos de idade.

O Censo demográfico do Brasil de 2022 registrou nova queda do número de residentes portugueses, totalizando portugueses no Brasil. O censo também revelou que os portugueses, que durante várias décadas foram a nacionalidade mais numerosa no Brasil, caíram para o segundo lugar, sendo ultrapassados pelos venezuelanos, com pessoas.

Segundo dados publicados pelo IBGE, em quase cinco séculos, entre 1500 e 1991, emigraram para o Brasil portugueses, conforme tabela a seguir:

Imigração portuguesa para o Brasil (1500-1991)Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) Décadas Número de imigrantes 1500-1700 1701-1760 1808-1817 1827-1829 1837-1841 629 1856-1857 1881-1900 1901-1930 1931-1950 1951-1960 1961-1967 1981-1991 TOTAL

Histórico

Seguido ao descobrimento do Brasil, em 1500, começaram a aportar na região os primeiros colonos portugueses. Porém, foi só no século XVII que a emigração para o Brasil se tornou significativa. Acompanhando a decadência do comércio na Ásia, as atenções da Coroa Portuguesa se voltaram para o Brasil. No século XVIII, com o desenvolvimento da mineração na economia colonial, chegaram à colônia centenas de milhares de colonos. Após a independência, na primeira metade do século XIX, a emigração portuguesa ficou estagnada. Cresceu na segunda metade do século, alcançando seu ápice na primeira metade do século XX, quando chegavam ao Brasil, anualmente, 25 mil portugueses.

Imigração restrita (1500-1700) Antecedentes A emigração portuguesa intensificou-se com a expansão ultramarina iniciada no século XV, após a tomada de Ceuta (1415). Inicialmente voltado para as praças do Norte da África e para as ilhas atlânticas, o fluxo migratório luso expandiu-se para a costa ocidental africana e o Índico, voltando-se predominantemente para o Brasil a partir do segundo quartel do século XVI.RODRIGUES, Teresa Ferreira. "Portugal nos séculos XVI e XVII. Vicissitudes da dinâmica demográfica". CEPESE, 2011.

No século XV, o movimento era reduzido, com cerca de 500 saídas anuais, totalizando não mais de 50 mil emigrantes em um reino de 1,2 milhão de habitantes. Contudo, o fenômeno avolumou-se no século XVI: entre 1500 e a União Ibérica, a média subiu para 3,5 mil saídas anuais (280 mil totais), atingindo 5,5 mil saídas anuais (entre 300 e 360 mil indivíduos) durante o período filipino.

Portugal desenvolveu dois modelos distintos de colonização:

Povoamento: Aplicado em ilhas despovoadas como Madeira e Açores, juridicamente integradas como extensões do reino e ocupadas por colonos que desenvolveram a economia local.

Feitorias: Estabelecido nas costas da África e da Ásia, onde a densidade das populações nativas e o ambiente hostil limitaram a presença portuguesa a postos comerciais e fortalezas litorâneas (ex: Goa, com cerca de 5 mil portugueses).

O Brasil apresentou uma trajetória ambígua. Nos primeiros trinta anos, adotou-se o "sistema africano" de feitorias para extração de pau-brasil. Todavia, com a criação das capitanias hereditárias, o modelo de povoamento das ilhas atlânticas foi transposto para a colônia, promovendo a ocupação efetiva do território. Embora constante desde o século XVI, o fluxo para o Brasil só atingiria níveis alarmantes na segunda metade do século XVII, forçando a Coroa a implementar as primeiras leis restritivas à emigração.

No Brasil A sociedade açucareira thumb|esquerda|A Igreja dos Santos Cosme e Damião em Igarassu (Pernambuco), mais antiga igreja do Brasil de acordo com o IPHAN, é um exemplar do estilo chão português. O Brasil foi descoberto pelos portugueses em 22 de abril de 1500. Logo após o fato, os colonos passaram a se estabelecer na colônia, porém, de forma pouco significativa. De início, aqui foram deixados degredados (pessoas tidas como indesejáveis em Portugal, que tinham como pena o degredo no Brasil). Esses primeiros colonos foram abandonados à própria sorte e acabaram sendo acolhidos pelos grupos indígenas que viviam no litoral. Os degredados chegaram a compor de 10 a 20% da população de Pernambuco e Bahia (áreas mais ricas). Em contrapartida, nas regiões periféricas, como o Maranhão, os degredados eram entre 80 e 90% da população portuguesa.