O filo Gastrotricha (gastrotríquios ou gastrótricos, do grego gaster, estômago + thrix, pêlo) é representado por cerca de 700 espécies em 59 gêneros de animais marinhos e de água doce que habitam os espaços intersticiais dos sedimentos do fundo e dos detritos superficiais. O filo se divide em dois grupos designados como ordens (com suporte morfológico e filogenético): os Macrodasyida marinhos e os Chaetonotida marinhos e de águas doce..</p> Morfologia Sinapomorfias Abaixo algumas características morfológicas dos Gastrotricha que suportam sua monofilia: -Presença de músculo helicoidal. -Glândulas adesivas duplas cobertas por cutícula únicas. -Cutícula com várias camadas. -Cílios sensoriais e motores cobertos por cutícula.

Estrutura externa thumb|Vista da estrutura corporal externa de representantes dos gêneros Oregodasys, Tetranchyroderma e Thaumastoderma.

Muitos gastrótricos são microscópicos em tamanho. Variam em comprimento de 50 a 1000 µm, embora os membros de algumas espécies possam atingir 4 mm. O Bauplan geral dos gastrótricos pode ser resumido como um corpo em formato de pino de boliche ou de fita achatado ventralmente, arqueado dorsalmente e alongado possuindo vários cílios sensoriais e locomotores dispostos preferencialmente na superfície ventral e na cabeça, a região posterior se encerra em uma cauda geralmente bifurcada. Possuem uma cutícula complexa com várias camadas que cobre todas as estruturas do corpo. Sua parede corporal é composta por cutícula, fibras musculares longitudinais,circulares e uma epiderme. Seu corpo tambem é recoberto e circundado por uma epicutícula externa que é composta por duas camadas flexíveis, que contém cílios que provavelmente funcionam como uma barreira fisiológica. Em alguns gastrótricos esta camada basal se apresenta de forma mais espessa em alguns locais com a inteção de especializar-se em espinhos e ganchos. Existe uma cabeça anterior que porta os órgãos sensoriais, o cérebro e a faringe, bem como um tronco alongado que abriga o intestino médio e os órgãos reprodutivos. Toda a superfície ventral pode ser ciliada, ou os cílios podem arranjar-se em faixas longitudinais, fileiras ou remendos transversais ou agruparem-se em cirros, como os dos ciliados hipotríquios. Na parte posterior o tronco geralmente encontramos dois ou mais órgãos adesivos, e estes tem uma função de adesão temporária ao substrato e contem sistemas glandulares duplos, ou seja, uma glândula viscosa reunida a uma glândula de liberação. Os tubos adesivos podem ser numerosos e localizar-se por baixo da cabeça, ao longo das laterais do corpo. A parede corporal é composta de uma cutícula externa, uma epiderme e faixas subjacentes de fibras musculares longitudinais e circulares. A epiderme ventralmente ciliada pode ser celular, como nos macrodasiídeos, ou parcialmente sincicial, como na maioria dos quetonotídeos. Alguns quetonotídeos, as células ciliadas arranjam-se em duas fileiras longitudinais. A musculatura, pode ser transversal ou obliquamente estriada, dependendo da espécie. Uma musculatura circular permite a reextensão do corpo na maioria das espécies de Macrodasyida, que tem uma cutícula flexível macia, mas em Chaetonotida, é ausente uma musculatura de parede corporal circular, e uma cutícula espessa antagoniza os músculos longitudinais.

Estrutura interna

Sua cavidade interna é funcionalmente acelomada, possui um trato digestivo completo com boca e ânus. Possuem uma faringe sugadora trilobada e de um a vários pares de protonefrídios, compostos por três ou mais células. As duas ordens de gastrótricos se diferem na orientação do lúmem faringial. Os Macrodasys possuem o lúmem com um par de sulcos médio dorsais, latero ventrais e longitudinais, entretanto os Chaetonotida possuem um lúmem com um par de sulcos médio ventral, latero ventrais e longitudinais. Foi observada em uma espécime jovem de Macrodasyida (Lepdodasys), a presença de uma faringe com lúmem circular para-oval, e segundo Ruppert, isso foi interpretado como uma condição ancestral dos gastrótricos. Em 2001 foi analisada a presença e a localização de um músculo helicoidal em diversas espécies de gastrotrichas, dentre a ordem Macrodasyda estão as espécies Acanthodasys aculeatus, Tetranchyroderma papii e Thaumastoderma heideri que possuiam estes músculos helicoidais ao longo de todo o trato digestivo ( faringe e intestino), as espécies Macrodasys caudatus e Turbanella cornuta possuem principalmente este músculo ao longo da faringe. Os representantes da ordem Chaetonotida, Chaetonotus aculifer, Draculiciteria tessalata, Lepidodermella squamata e Xenotrichula intermedia, todos possuem este músculo helicoidal ao longo do intestino, porém este músculo não foi encontrado na região faringial das espécies Chaetonotus aculifer e Lepidodermella squamata.. A função destes músculos ainda é desconhecida, mas há hipóteses de que seu principal papel está relacionado à mecânica da alimentação e a conservação da forma intestinal durante a locomoção do animal. A presença deste arranjo único no trato digestivo em todas as espécies sugere um papel funcional similar em todos os indivíduos observados. Sua função pode ser de uma pressurização da faringe e do intestino durante a alimentação e digestão, e se opor à dilatações radiais no intestino e contribuir para os movimentos peristálticos necessários para a digestão de partículas de alimento. Em indivíduos da ordem Chaetonotida, onde os músculos esplâncnicos circulares são algumas vezes ausentes, estes músculos helicoidais podem contribuir para o fechamento da válvula entre a faringe e o intestino. A boca terminal abre-se diretamente na faringe, em alguns quetonotídeos, em uma pequena cavidade bucal revestida com cutícula. A parede faringiana compõe-se predominantemente de células mioepitelias que se resume a um tubo muscular glandular e alongado. Nos macrodasiídeos, a faringe abre-se primeiro ao exterior através de um par de poros antes de juntar-se ao intestino médio. O intestino médio é um tubo cilíndrico celular que se afila para juntar-se ao ânus posterior e ventral. Os gastrótricos alimentam-se de pequenas partículas orgânicas mortas ou vivas (tais como bactérias, diatomáceas e pequenos protozoários), todas sendo sugadas para o interior da boca pelo bombeamento da faringe muscular. A digestão ocorre no intestino médio e é provavelmente uma combinação de processos extra e intracelular. Os gastrótricos têm um cérebro pequeno e um par de nervos longitudinais sendo composto por duas massas ganglionares conectadas dorsal e ventralmente, uma em cada lado da parte anterior da faringe. Cada gânglio lateral origina um cordão nervoso intraepidérmico que se estende lateralmente ao longo do comprimento do corpo. Possuem órgãos sensoriais que incluem as estruturas cerebrais cerdas e tufos ciliares (mecanorreceptores), buracos ciliados, apêndices carnosos (quimiorreceptores) e ocelos ciliares simples (fotorreceptores).

Fisiologia Locomoção, Sustentação e Proteção A sustentação é fornecida pela cutícula e pela construção corporal compacta. A maioria se move por deslizamento ciliar, embora algumas das formas mais flexíveis avancem lentamente fixando alternadamente os tubos adesivos anteriores e posteriores. Devido ao seu formato levemente inclinado, os gastrótricos nadam em uma trajetória helicoidal levogira periodicamente interrompida para mudanças de direção. Quando deslizam sobre o sedimento o movimento é preferencialmente retilíneo, mas a cabeça ocila lateralmente, provavelmente para melhorar as capacidades sensoriais do organismo. As espécies Neodasys cirritus e N. cf. uchidae possuem cerca 450 – 600μm de comprimento e são facilmente distinguidas por sua morfologia da cabeça e cauda e pela presença de Y-células de pigmentação vermelha no Neodasys cirritus. Ambas as espécies possuem estruturas adesivas laterais que quando aderidas ao substrato podem prevenir uma possível movimentação involuntária devido ao fluxo da água. O movimento para frente nos gastrótricos resulta do deslizamento ciliar uniforme. No entanto, a ação muscular é importante nos movimentos especializados,tais como as respostas de fuga, a atividade de procura e a cópula. Uma resposta de fuga pode ser uma rápida retirada para trás da cabeça e do tronco ate uma ligação feita pelo órgão adesivo posterior ou por uma série de movimentos semelhante aos de uma lagarta. Durante a cópula, os dois animais usam os músculos para retorcer as suas extremidades posteriores juntas como se entrelaçassem as pontas de seus dedos indicadores.

Nutrição Alimentam-se basicamente de pequenas partículas orgânicas como diatomáceas, pequenos protozoários e bactérias, as presas geralmente são sugadas a partir de uma ação do bombeamento de uma faringe bastante musculosa e auxílio do batimentos de cílios bucais. Nos Macrodasya marinhos, os denominados poros faringianos pareados permitem com que toda a água ingerida em excesso no alimento seja expelida e liberada. A digestão é em geral, gastrointestinal e o intestino completo com ânus subterminal.

Sistema Nervoso e Sensorial O gânglio cerebral é uma massa relativamente grande, bilobada, conectada dorsalmente acima da porção anterior da faringe. Um cordão nervoso longitudinal lateral, ganglionar, surge de cada lobo deste órgão e se estende até a extremidade posterior do corpo. Receptores sensoriais são predominantemente tácteis. Eles ocorrem como espinhos e cerdas sobre a maioria do corpo, mas estão concentrados na cabeça. Algumas espécies contém ocelos pigmentados no gânglio cerebral. thumb|Lepidodermella squamatum Possuem um cérebro formado por duas massas ganglionares, uma em cada parte anterior da faringe, as duas massas possuem uma conexão dorsal e ventral através de uma comissura. Cada um dos gânglios laterais cerebrais dão origem a um cordão nervoso intraepidérmico que se estende lateralmente ao longo de todo o comprimento do corpo. Estes cordões nervosos são adjacentes aos cordões epidérmicos quando estão presentes, e também ao principal par de músculos longitudinais. Possuem órgãos sensoriais cerebrais que podem ser entendidos como cerdas e tufos ciliares (mecanorreceptores), buracos ciliados, apêndices carnosos (quimiorreceptores) e ocelos ciliares simples ( fotorreceptores). Os gastrótricos possuem diferentes características em relação aos seus sensores neurais para movimentação e orientação em geral. A funcionalidade dos sensores fotorreceptores de exemplares da espécie L.squamatum foram testados através de uma análise comportamental diante da exposição deles a diversos tipos de luzes e em ambiente escuro a fim de excluir a influência da luz ambiente. E foi constatado que indivíduos da espécie L.squamatum tem sensibilidade seletiva para luzes coloridas, em especial à luz azul, em oposição à luz branca, ou seja, apontam uma tendência à escolha de espectros no sentido de comprimento de ondas, mais curtos ao invés de um espectro contínuo. Alguns Rotíferas também foram submetidos a este teste, sendo que seu ocello sendo algumas vezes mais desenvolvidos, permite a eles reagir aos estímulos de forma mais direcional e complexa do que os Gastrotrichas. Nos Rotíferas a sensibilidade foi notável na exposição de luz verde e faixas azuis, e ao UV. Esta sensibilidade espectral pelo azul também apresentada pelo grastrótrico L.squamatum pode não ser atribuida aos fotorreceptores definidos, mas sim, a um tipo generalizado de fotossensibilidade análoga ao encontrado em alguns Rotíferas.

Sistema Circulatório e Respiratório Não há sistema circulatório ou de trocas gasosas nos gastrótricos. A distribuição de clalor, oxigênio e nutrientes é realizada por difusão simples, como em muitos outros pequenos metazoários. Hemoglobina foi encontrada em uma espécie de Neodasys, e alguns indivíduos que habitam sedimentos de maior profundidade são anaeróbios.

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