right|350px|thumb|Juros a longo prazo (taxas do mercado secundário de obrigações governamentais com maturidades próximas dos 10 anos) dos países da Zona Euro com exceção da Estónia. Taxas a partir dos 6% indicam sérias dúvidas dos mercados financeiros relativamente à capacidade de pagamento da dívida.
A crise da dívida pública europeia, muitas vezes referida como crise da Zona Euro, foi uma crise financeira que, para alguns países da Zona do Euro, tornou difícil ou mesmo impossível, o pagamento ou o refinanciamento da sua dívida pública sem a ajuda de terceiros.Haidar, Jamal Ibrahim, 2012. "Sovereign Credit Risk in the Eurozone," World Economics, World Economics, vol. 13(1), pages 123-136, March
A partir do final de 2009, o receio de uma crise de dívida pública desenvolveu-se entre os investidores, como resultado do aumento dos níveis de endividamento do governo e entidades privadas em alguns estados europeus. As causas da crise variaram de país para país. Em alguns países, as dívidas privadas decorrentes da bolha especulativa imobiliária, foram transferidas para a dívida pública como resultado de resgates do sistema bancário e respostas governamentais à desaceleração das economias no período pós-bolha. Na Grécia, os insustentáveis compromissos salariais do setor público e de pensões impulsionaram o aumento da dívida. A estrutura da Zona Euro enquanto união monetária (i.e. uma única moeda) sem união fiscal (i.e. impostos e regras de pensões públicas diferentes) contribuiu para a crise e limitou a capacidade dos líderes europeus para encontrar respostas. Esta situação é reforçada pelas preocupações relativamente à solvência dos sistemas bancários europeus, dado estes possuírem quantidades significativas da dívida soberana públicas.
As dúvidas intensificaram-se a partir do início de 2000 levando os ministros das finanças europeus a aprovar a criação do Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF) e o Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE).
Para além das medidas políticas e programas de resgate implementados para combater a crise da dívida pública europeia, o Banco Central Europeu (BCE) também contribuiu com a redução das taxas de juro e proporcionando créditos barato superiores a um bilião de euros, para manter os fluxos monetários entre os bancos europeus. Em 6 de setembro de 2012, o BCE também procurou acalmar os mercados financeiros anunciando apoio ilimitado e sem custos a todos os países da Zona Euro com programas de resgate ou preventivos do FEEF/MEE, através da redução do juro associado a transações monetárias definitivas (Outright Monetary Transactions)."Technical features of Outright Monetary Transactions", comunicado de imprensa do BCE, 6 de setembro de 2012
A crise não só gerou efeitos adversos nas economias dos países mais atingidos, como também teve impacto político significativo na governação de 8 dos 17 países da Zona Euro, levando a mudanças de poder na Grécia, Irlanda, Itália, Portugal, Espanha, Eslovénia, Eslováquia e Países Baixos.
Causas thumb|300px|Dívida pública em razão do PIB em 2009/2010.
A crise da dívida soberana europeia resultou de uma complexa combinação de fatores, tais como: a globalização dos mercados financeiros; facilidades nas condições de crédito no período 2002-2008 que encorajaram práticas com elevados riscos de crédito; a crise financeira global de 2007-2012; desequilíbrios no comércio internacional; o fim da bolha imobiliária; a recessão global de 2008-2012; políticas orçamentais resultando em défices crónicos; as soluções usadas pelos países para resgatar a banca e investidores provados em dificuldades, transferindo para a dívida pública o passivo dessas entidades.
Crise por país
Grécia
miniaturadaimagem|upright=1.35|alt=Dívida grega comparada à média da zona do euro|Dívida da Grécia comparada à média da zona do euro desde 1999 miniaturadaimagem|upright=1.35|Dívida pública da Grécia, produto interno bruto (PIB) e relação dívida pública/PIB. Gráfico baseado em dados "ameco" da Comissão Europeia. miniaturadaimagem|upright=1.35|alt=Imagem de uma manifestação grega em maio de 2011|100.000 pessoas protestam contra as medidas de austeridade em frente ao parlamento em Atenas, 29 de maio de 2011
A economia grega teve um bom desempenho durante grande parte do século XX, com altas taxas de crescimento e baixa dívida pública. Em 2007 (ou seja, antes da crise financeira de 2008), ainda era uma das que mais cresciam na zona do euro, com uma dívida pública em relação ao PIB que não ultrapassava 104%, mas estava associada a um grande déficit estrutural. Como a economia mundial foi afetada pela crise financeira de 2008, a Grécia foi atingida com especial dureza porque suas principais indústrias — transporte marítimo e turismo — eram especialmente sensíveis às mudanças no ciclo econômico. O governo gastou pesadamente para manter a economia funcionando e a dívida do país aumentou proporcionalmente.
A crise grega foi desencadeada pela turbulência da Grande Recessão, que levou os déficits orçamentários de várias nações ocidentais a atingir ou exceder 10% do PIB. No caso da Grécia, o alto déficit orçamentário (que, após várias correções, havia sido permitido atingir 10,2% e 15,1% do PIB em 2008 e 2009, respectivamente) foi combinado com uma alta relação dívida pública/PIB (que, até então, era relativamente estável por vários anos, em pouco mais de 100% do PIB, conforme calculado após todas as correções). Assim, o país parecia perder o controle de sua relação dívida pública/PIB, que já havia atingido 127% do PIB em 2009. Em contraste, a Itália foi capaz (apesar da crise) de manter seu déficit orçamentário de 2009 em 5,1% do PIB, o que foi crucial, dado que tinha uma relação dívida pública/PIB comparável à da Grécia. Além disso, por ser membro da Zona do Euro, a Grécia não tinha essencialmente flexibilidade de política monetária autônoma.
Finalmente, houve um efeito de controvérsias sobre as estatísticas gregas (devido às mencionadas revisões drásticas do déficit orçamentário que levaram a um aumento no valor calculado da dívida pública grega em cerca de 10%, uma relação dívida pública/PIB de cerca de 100% até 2007), enquanto houve argumentos sobre um possível efeito de relatos da mídia. Consequentemente, a Grécia foi "punida" pelos mercados, que aumentaram as taxas de empréstimo, tornando impossível para o país financiar sua dívida desde o início de 2010.
Apesar da drástica revisão para cima da previsão do déficit orçamentário de 2009 em outubro de 2009, as taxas de empréstimo gregas inicialmente subiram lentamente. Em abril de 2010, ficou evidente que o país estava se tornando incapaz de tomar empréstimos nos mercados; em 23 de abril de 2010, o governo grego solicitou um empréstimo inicial de da UE e do Fundo Monetário Internacional (FMI) para cobrir suas necessidades financeiras para o restante de 2010. Poucos dias depois, a Standard & Poor's rebaixou a classificação da dívida soberana da Grécia para BB+ ou status de "lixo" em meio a temores de default, caso em que os investidores eram passíveis de perder 30–50% de seu dinheiro. Os mercados de ações em todo o mundo e a moeda euro caíram em resposta ao rebaixamento.
Em 1 de maio de 2010, o governo grego anunciou uma série de medidas de austeridade (o terceiro pacote de austeridade em meses) para garantir um empréstimo de três anos de (Primeiro Programa de Ajuste Econômico). Isso foi recebido com grande indignação por alguns gregos, levando a protestos em massa, tumultos e agitação social em toda a Grécia. A Troika, um comitê tripartite formado pela Comissão Europeia, pelo Banco Central Europeu e pelo Fundo Monetário Internacional (CE, BCE e FMI), ofereceu à Grécia um segundo empréstimo de resgate no valor de em outubro de 2011 (Segundo Programa de Ajuste Econômico), mas com a ativação condicionada à implementação de novas medidas de austeridade e um acordo de reestruturação da dívida. Surpreendentemente, o primeiro-ministro grego George Papandreou respondeu a esse chamado anunciando o Referendo econômico proposto na Grécia em 2011 sobre o novo plano de resgate, mas teve que recuar sob forte pressão dos parceiros da UE, que ameaçaram reter um pagamento de empréstimo de em atraso que a Grécia precisava até meados de dezembro. Em 10 de novembro de 2011, Papandreou renunciou após um acordo com o partido Nova Democracia e a Reunião Popular Ortodoxa para nomear o tecnocrata não parlamentar Lucas Papademos como novo primeiro-ministro de um governo provisório de união nacional, com a responsabilidade de implementar as medidas de austeridade necessárias para pavimentar o caminho para o segundo empréstimo de resgate.
Todas as medidas de austeridade implementadas ajudaram a Grécia a reduzir seu déficit primário — ou seja, o déficit fiscal antes dos pagamentos de juros — de €24,7 bilhões (10,6% do PIB) em 2009 para apenas €5,2 bilhões (2,4% do PIB) em 2011, mas como efeito colateral também contribuíram para o agravamento da recessão grega, que começou em outubro de 2008 e só piorou em 2010 e 2011. O PIB grego teve seu pior declínio em 2011 com -6,9%, um ano em que a produção industrial ajustada sazonalmente terminou 28,4% menor do que em 2005, e com 111.000 empresas gregas falindo (27% a mais do que em 2010). Como resultado, os gregos perderam cerca de 40% de seu poder de compra desde o início da crise, gastam 40% menos em bens e serviços, e a taxa de desemprego ajustada sazonalmente cresceu de 7,5% em setembro de 2008 para um recorde de 27,9% em junho de 2013, enquanto a taxa de desemprego juvenil subiu de 22,0% para até 62%. A razão de desemprego juvenil atingiu 16,1% em 2012.
No geral, a parcela da população vivendo em "risco de pobreza ou exclusão social" não aumentou notavelmente durante os primeiros dois anos da crise. O índice foi medido em 27,6% em 2009 e 27,7% em 2010 (sendo apenas ligeiramente pior do que a média da UE-27 em 23,4%), mas para 2011 estimou-se que o índice havia subido acentuadamente para mais de 33%. Em fevereiro de 2012, um funcionário do FMI que negociava as medidas de austeridade gregas admitiu que os cortes excessivos de gastos estavam prejudicando a Grécia. O FMI previu que a economia grega contrairia 5,5% até 2014. Medidas de austeridade severas levaram a uma contração real após seis anos de recessão de 17%.
Alguns especialistas econômicos argumentam que a melhor opção para a Grécia, e para o resto da UE, seria planejar uma "inadimplência ordenada", permitindo que Atenas se retirasse simultaneamente da zona do euro e reintroduzisse sua moeda nacional, o dracma, a uma taxa desvalorizada. Se a Grécia saísse do euro, as consequências econômicas e políticas seriam devastadoras. De acordo com a empresa financeira japonesa Nomura, uma saída levaria a uma desvalorização de 60% do novo dracma. Analistas do banco francês BNP Paribas acrescentaram que as consequências de uma saída grega eliminariam 20% do PIB da Grécia, aumentariam a relação dívida/PIB da Grécia para mais de 200% e fariam a inflação disparar para 40–50%. O UBS também alertou sobre hiperinflação, uma corrida aos bancos e até mesmo "golpes militares e possível guerra civil que poderiam afligir um país em saída". Os Bancos Centrais Nacionais da Zona do Euro (NCBs) podem perder até €100 bilhões em reivindicações de dívida contra o banco nacional grego através do sistema TARGET2 do BCE. Somente o Deutsche Bundesbank pode ter que amortizar €27 bilhões.
Para evitar que isso acontecesse, a Troika (CE, FMI e BCE) finalmente concordou em fevereiro de 2012 em fornecer um segundo pacote de resgate no valor de , condicionado à implementação de outro duro pacote de austeridade que reduziria os gastos gregos em €3,3 bilhões em 2012 e outros €10 bilhões em 2013 e 2014.