O manês, manx ou manquês (Gaelg ou Gailck, IPA: [ɡilk] ou ɡilɡ)Jackson 1955, 49 é uma das línguas gaélicas, junto com o irlandês e o gaélico escocês, falada na Ilha de Man. As línguas gaélicas são um subgrupo das línguas célticas insulares, pertencentes à família indo-europeia.

Estreitamente relacionada com o gaélico da Escócia e com os dialetos irlandeses orientais (Úlster e Galloway), o primeiro documento literário é uma tradução de um livro de orações anglicano por volta de 1610 encomendada pelo Bispo de Sodor e Mann, John Phillips. Conheceu uma época de esplendor literário nos séculos XVII e XVIII. As baladas históricas conservaram-se num manuscrito de finais do século XVIII, que recolhe uma tradição oral anterior. Também se conservam baladas de tema ossiânico; poesia religiosa (carvals, equivalentes aos carols (cânticos) ingleses, embora nem sempre de tema natalício, canções de embalar, pastoris e marítimas. Mapa que mostra a Ilha de Man, em vermelho, no Mar da Irlanda.|alt=Mapa que mostra a Ilha de Man, em vermelho, no Mar da Irlanda.|miniaturadaimagem|155x155px O Manx é língua oficial da Ilha de Man, onde é falado. É regulado pelo Coonceil ny Gaelgey, uma subdivisão da Fundação do Patrimônio Manês. O manx é usado pelo Tynwald, o parlamento da Ilha de Man, sendo todas as leis lidas em voz alta pelo Yn Lhaihder ("o leitor") tanto em manx como em inglês. É reconhecido pela Carta Europeia das Línguas Minoritárias.

A ressurreição do manx tem sido ajudada pelas gravações efetuadas durante o século XX por investigadores, em particular pela comissão irlandesa para o folclore em 1948, assim como pelo trabalho do entusiasta e falante fluente da língua Brian Stowell.

Na sequência do declínio do uso do manx, durante o século XIX, foi fundada a Sociedade da Língua Manx, Yn Cheshaght Ghailckagh, em 1899.

Os nomes maneses estão a tornar-se novamente comuns na Ilha de Man, especialmente Moirrey (Mary), Illiam (William), Orry, Breeshey ou Breesha (Bridget) e Aalish ou Ealish (Alice). Juan (Jack/Johnny), Ean (John), Joney, Fenella (Fionnuala), Pherick (Patrick) e Freya (a partir da deusa nórdica) continuam populares.

História Não existem muitas informações sobre a história antiga da língua Manx, mas sabe-se que a primeira língua falada na Ilha de Man era bretônica, cuja origem mais aceita é o protocelta. Durante o século V, diversos falantes de irlandês antigo, originado a partir do irlandês primitivo, se estabeleceram na Ilha de Man. Não se sabe se o irlandês antigo sobreviveu à presença escandinava na ilha, dos séculos X ao XIII, o que faz com que seja possível que o Manx moderno seja derivado do irlandês médio, que surgia justamente nessa época.

Na Baixa Idade Média, a Ilha de Man passou a sofrer forte influência inglesa, principalmente pela atuação de magnatas anglo-normandos, um grupo pertencente ao estamento da nobreza inglesa, de tal maneira que, entre os séculos XIII e XVIII, a ilha de Man foi considerada posse dos lordes da família de John Stanley, fato que os levaria a ser chamados de “lordes de Man”.

Durante o século XIX, a língua manesa foi gradualmente subordinada ao Inglês, predominantemente utilizado no cotidiano. Além disso, no imaginário popular, a língua perdeu valor e foi associada à recessão do meio do século XIX, fato evidenciado por um ditado comum na época "Cha jean oo cosney ping lesh y Ghailck", traduzido para “Você não vai ganhar um centavo com Manx”. De acordo com o censo de 1901, 9,1% da população manesa da época falava o idioma. Em 1921, o número de falantes regulares da língua era de apenas 1,1%. Em 1974, morreu o último falante nativo de Manx, Ned Maddrell, apesar de existirem relatos do uso da língua em situações particulares, até que, em 1985, foi organizado o Conselho do Manx gaélico, responsável por regular e padronizar o uso oficial de Manx. Em 2009, com a edição do Atlas de Línguas Mundiais em Perigo da UNESCO, a língua Manesa foi considerada morta.

No final do século XX e início do século XXI, a língua passou por um processo de revitalização linguística e o Manx passou a ser falado e ensinado na escola primária de Bunscoill Ghaelgagh, contribuindo para o aprendizado do idioma pelas novas gerações. Em reação à caracterização da língua manesa como morta em 2009, diversas crianças escreveram para a UNESCO “If our language is extinct then what language are we writing in?” (Se nossa língua está extinta, então em qual língua estamos escrevendo?). Desde então, a língua é caracterizada pela Unesco como “criticamente ameaçada”. De acordo com fontes oficiais da ilha de Man, em 2015, mais de 1800 pessoas afirmavam conseguir falar, ler e escrever em Manx.

Atualmente, o manx é usado como único meio de ensino em cinco das escolas pré-primárias da ilha, por uma companhia chamada Mooinjer Veggey, que também opera a única escola que ensina exclusivamente em manx, a Bunscoill Ghaelgagh. O manx é ensinado como segunda língua em todas as escolas primárias e secundárias e ainda na Universidade da Ilha de Man e no centro de estudos de manx.

É comum a divisão da língua manesa de acordo com três períodos:

Manx inicial: referente ao século XVII, usado na tradução de um livro de orações Anglicano pelo Bispo John Phillips. Manx Clássico: referente ao século XVIII, usado na tradução da Bíblia para a língua manesa. Manx tardio: língua nos séculos XIX e XX, correspondente ao período dos últimos falantes nativos de Manx antes de sua revitalização. Fonologia Consoantes Os fonemas consonantais da língua manesa estão representados na tabela a seguirThe Celtic Languages, 2nd edition, Broderick, George, capítulo 8, página 310: BilabialLabiodentalDentalAlveolarPós-AlveolarPalatalPalato-velarVelarLabiovelarGlotalPlosivap bt̪ d̪tʲ dʲkʲ ɡʲk gFricativaf vsʃxʲ ɣʲx ɣhNasal m n nʲ ŋʲ ŋVibrante rAproximante j wLaterall lʲ O diacrítico ʲ significa que os fonemas são palatalizados. O diacrítico ◌̪ em t̪ e d̪ significa que estes são sons dentais.

Vogais

Os fonemas vocálicos da língua manesa estão representados na tabela a seguirBroderick, George. The Celtic Languages, 2nd edition. Capítulo 8, página 307-309.: AnteriorCentralPosteriorFechadai iːu uːMédiae eːə øːo oːAbertaæ æːa aːɔ ɔː O Manx conta também com a formação de alguns ditongos. As vogais /a/, /e/, /ə/ podem formar ditongos terminados em /i/ e /u/; /o/ e /u/ podem formar apenas ditongos terminados em /i/; /i/ e /u/ podem constituir ditongos terminados em /ə/. Observe os ditongos da língua Manx na tabela a seguirBroderick, George. The Celtic Languages, 2nd edition. Capítulo 8, página 310.: Segundo elemento vocálico/i//u//ə/Primeiro elemento vocálicoFechadauiiə uəMédiaei əi oieu əuAbertaaiau Os ditongos terminados em /ə/ possuem um enfraquecimento de /r/, como nas palavras a seguir:

/miːr/ (pedaço) → /miːə/

/muːr/ (grande) → /muːə/

Com exceção de monossílabas, antes de /l, r/, os ditongos terminados em /i/ e /u/ são resultado da vocalização de fricativas palatais, labiais e eventualmente dentais.

/iə/ e /uə/ estão sujeitos a monotongação, como nas palavras:

/biəl/ (boca) → /biːl/

/kuːəg/ (cuckoo) → /koːg/

Como observado acima, comumente o primeiro elemento do ditongo é longo.

Transformações fonológicas

Na língua manesa mais recente, surgiram diversos alofones para cada fonema original. Além disso, no manx mais recente, vogais curtas podem ser mais alongadas. Em alguns casos, vogais longas originalmente tônicas podem ter pronúncia encurtada. Outra modificação consiste na preclusão, com o surgimento de uma variedade fraca da plosiva vozeada antes de /m/, /n/ e /ŋ/ finais em monossílabas tônicas, causando o encurtamento de vogais originalmente longas, como nos exemplos abaixoBroderick, George. The Celtic Languages, 2nd edition. Capítulo 8, página 312.:

/troːm/ → /trobm/ (pesado)

/k´oːn/ → /k´odn/ (cabeça)

/loŋ/ → /logŋ/ (navio)

Durante o último século, assim como em outras línguas celtas, nota-se uma forte tendência de mutação na língua manesa, em especial na língua falada. Há dois tipos de mutação: lenição (também conhecido como aspiração) e eclipsis, mais rara. As letras l, n e r não sofrem esses fenômenos. Percebe-se que a única alteração desse tipo que pode ser feita a vogais se dá pela adição de um “h” anterior a elas, enquanto nas consoantes há mais possibilidades de mutações.Abbyr shen!, Starting to Speak Manx - A couse by Brian Stowell

Lenição e eclipsis A lenição é um fenômeno que torna as consoantes mais sonorizadas. O eclipsis, por sua vez, é responsável por vozear /p, t, k, f/ e eclipsa /b, d, g/, além de adicionar /n/ antes de vogais.Broderick, George. The Celtic Languages, 2nd edition. Capítulo 8, página 313. O sistema para consoantes únicas iniciais, incluindo variantes palatalizadas, pode ser representado da seguinte forma: InalteradoCom LeniçãoCom Eclipsisp (/p/)/f//b/t (/t̪/)/h/, /x//d̪/çh (/tʲ/)/h/, /xʲ//dʲ/c, k (/kʲ/)/xʲ//ɡʲ/c, k, qu (/k/,/kw/)/x/, /h/ /hw//ɡ/b, bw (/b/,/bw/)/v/, /w//m/, /mw/d (/d̪/)/ɣ/, /w//n/j (/dʲ/)/ɣʲ/, /j//nʲ/g (/ɡʲ/)/ɣʲ/, /j//ŋ/m, mw (/m/,/mw/)/v/, /w/Permanecem inalteradosf, fw (/f/,/fw/)f permanece inalterado, fw vira /hw//v/, /w/s, sl, sn (/s/,/sl/, /snʲ/)/h/, /l/, /nʲ/Permanecem inalteradossh (/ʂ/)/h/, /xʲ/Permanecem inalterados Observe na tabela a seguir elementos que causam lenições: Elementos causadores de mutaçõesExemplosAs lenições são comumente causadas pelas palavras: dy (de), ro (também), feer (muito), my (meu), dty (seu) e e (dele).bree (energia) → lane dy vree (cheio de energia)

kayt (gato) → e chayt (o gato dele)Um conjunto semelhante de lenições ocorre depois de yn ou y em substantivos femininos no singularcleaysh (orelha) → y chleaysh (a orelha)

shiaghtin (semana) → yn çhiaghtin (a semana)Adjetivos que seguem substantivos femininos no singular também são aspiradosdaaney (corajoso) → ben ghanney (uma mulher corajosa)

gorrym (azul) → lioar ghorrym (um livro azul)As preposições er (sobre) e ayns (em) causam lenição em substantivos com y/yn anteriores a eles:

Tais lenições são semelhantes àquelas causadas por y/yn antes de substantivos femininos. No entanto, a mudança de s, sh, sl e str para t, çh, cl e tr, respectivamente, não são consideradas lenições.boayrd (mesa) → er y voayrd (sobre a mesa)

cree (coração) → ayns y chree (no coração)Un (um) e daa (dois) causam lenições que, causadas por un, lembram mais aquelas após y/yn em substantivos femininosun ven - uma mulher

un vee - um mêsQuando falando com um interlocutor pelo nome, este sofre lenição, se possívelKys t’ou, Yuan? (Como você está, Juan?)

Voirrey, c’raad ta Peddyr? (Moirrey, onde está Peddyr?)O eclipsis, fenômeno mais raro, ocorre após nyn (que significa “nosso”, “seus” ou “deles”) e após cha e nagh. Às vezes, também ocorre eclipsis após er nos tempos verbais perfeito e passado perfeito. Como na lenição, em geral, apenas consoantes sofrem o processo de eclipsisbaatey (barco) → nyn maatey (nosso barco)

nyn jengey (nossa língua) No entanto, quando “e” significa “dela”, não ocorre lenição com as consoantes, mas há a adição de ‘h’ antes de vogais:

e mac - o filho dela

e h-ayr - o pai dela

No plural, preposições não causam lenição:

buird (mesas) → er ny buird (sobre as mesas)

creeaghyn (corações)

ayns ny creeaghyn (nos corações)

Como nyn pode significar “nosso”, “seus” ou “deles”, para evitar desentendimentos semânticos e eclipsis, comumente se utiliza as formas ain (“de nós”), eu (“de vocês”) e oc (deles):

y baatey ain - nosso barco

y caashey eu - queijo de vocês

y cheeill oc - a igreja deles

Escrita A ortografia do manx, ao contrário daquela do irlandês e do gaélico escocês não representa a etimologia gaélica e apresenta considerável influência do galês e do inglês (observável na utilização de 'y' e 'w' e em combinações de letras como 'oo' e 'ee').