A exegese bíblica é o estudo e a investigação crítica das escrituras bíblicas que procura discernir e discriminar julgamentos sobre essas escrituras.Harper's Bible Dictionary, 1985
A crítica histórico-literária aborda e trata a Bíblia sob uma perspectiva secular ou acadêmica. As Escrituras são tratadas como qualquer outra obra de literatura, utilizando-se de métodos e informações da arqueologia, história, antropologia, sociologia, linguística e baixa crítica etc. Desta forma, caracteriza-se de modo geral, por não partir do dogma da inspiração e inerrância bíblica para efetuar suas análises.
A crítica histórico-literária é uma abordagem das Ciências Bíblicas (em inglês, Bible Scholarship ou Bible Studies), a qual não se confunde com teologia, formação pastoral ou ciências da religião. No Brasil não há cursos de graduação para o exame não denominacional da Bíblia, sendo o livro pesquisado em cursos confessionais de teologia, letras ou história.
Doutrina
Os estudos críticos da Bíblia aplicam o rigor historiográfico a este livro. Uma divisão ainda existe entre a crítica histórica e a crítica literária. A crítica histórica procura localizar o texto na história, procurando esclarecer como quando o texto foi escrito, quem poderia ter sido o autor e que história podemos reconstruir a partir dos questionamentos do texto. A crítica literária pergunta qual era a audiência para a qual o autor escreveu, seus propósitos e o desenvolvimento do texto no tempo.
A crítica histórica foi a forma dominante de crítica até o fim do século XX, quando os críticos bíblicos acabaram se interessando mais por questões ligadas ao significado do texto, suas origens e métodos de desenvolvimento, com base na crítica literária tradicional. A distinção entre essas abordagens é, normalmente, entendida como uma diferença entre uma visão diacrônica e uma visão sincrônica dos textos.
No século XX, o advento de novas ciências — a arqueologia, a linguística, a antropologia — e de novos paradigmas de crítica literária — a semiologia, a resposta do leitor, a desconstrução, a narratologia — a hermenêutica bíblica contemporânea passou a valorizar as leituras contextuais e canônicas. Consequentemente, com essa abordagem interdisciplinar e focada no leitor e nem tanto no texto, a crítica histórico-literária passou a servir como uma etapa na leitura compreensiva da Bíblia.
História
thumb|direita| A “História Crítica” de Richard Simon, uma das obras responsáveis por derrubar o consenso tradicional de que Moisés fora autor do Pentateuco. O próprio Pentateuco nunca afirma ter sido escrito por Moisés, e mesmo os textos posteriores se referem aos supostos textos mosaicos de forma vaga.
O exame filológico da Bíblia remonta da Antiguidade. Estudiosos como Orígenes de Alexandria, Jerônimo, Teodoro de Mopsuéstia, Ibn Ezra, avançaram em estudos textuais, históricos e críticos das Escrituras. No Renascimento e Reforma, houve uma profusão de estudos filológicos das Escrituras, por exemplo, com Erasmo de Roterdã, principalmente para produzir edições impressas e versões traduzidas às línguas vernáculas.
Alinhados com o método filológico em voga, reformadores com Lutero, Zuínglio e Calvino abraçaram o método crítico, primando por uma produção teológica fundada em bases literárias, históricas e críticas. Lutero, em seu processo de tradução da Bíblia, discutiu a canonicidade e a diferença entre homologoumena e antilegomena, debate continuado por M. Chemnitz e M. Flacius.Lutheran Cyclopedia. Antilegomena (em inglês). Zuínglio, um estudioso da retórica, empregou essas ferramentas para concluir que as palavras da Ceia do Senhor seria uma metonímia, dando um caráter memorialista de sua celebração. Calvino constantemente repreendia, insultava e rejeitava seus competicores exegéticos pela ignorância das artes e ciências mediadas pela literatura grega e latina.Zachman, Randall C. "Gathering meaning from the context: Calvin's exegetical method." The Journal of religion 82.1 (2002): 1-26.
Na esteira do exame filológico renascentista das Escrituras, surge uma tendência de separar pressupostos teológicos de seu escrutínio histórico e literário. Assim, nasce a crítica bíblica, tratando textos bíblicos como artefatos naturais ao invés de artefatos sobrenaturais, sob um paradigma do racionalismo dos séculos XVII e XVIII.
A crítica do Antigo e do Novo Testamento se originou no racionalismo dos séculos XVII e XVIII e se desenvolveu no contexto da abordagem científica das disciplinas humanas (especialmente da História) que cresceu por volta do século XIX. Estudos do Antigo e do Novo Testamento foram, normalmente, independentes uns dos outros, principalmente devido à dificuldade dos estudiosos de concentrar a erudição em línguas e conhecimento cultural necessário referentes aos períodos de todos os textos envolvidos.
No século XIX os estudos críticos da Bíblia se dividiu entre a Alta crítica, isto é, o estudo da composição e história dos textos bíblicos, e a Baixa crítica, a análise crítica dos textos visando estabelecer sua leitura correta ou original. Com a modernidade, a busca pela objetividade interpretativa resultou em dois métodos: o método histórico-crítico, em continuação da leitura filológica da era dos reformadores e que adotou a crítica histórico-literária; e o método histórico-gramatical principalmente entre círculos fundamentalistas protestantes. Os adeptos do método histórico-gramatical rejeitariam a metodologia, pressupostos e conhecimentos oriundos da crítica histórico-crítica.
Antigo Testamento (ou Bíblia Hebraica)
A crítica bíblica moderna da Bíblia Hebraica começa no século XVII com filósofos e teólogos (Thomas Hobbes, Benedito Spinoza, Richard Simon e outros) que começaram a se perguntar quais seriam as origens do texto bíblico, especialmente do Pentateuco (os primeiros cinco livros do Antigo Testamento: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio). Eles questionaram especificamente quem teria escrito esses livros: de acordo com a tradição, o autor teria sido Moisés, mas esses críticos encontraram contradições e inconsistências no texto que, de acordo com eles, tornavam a autoria mosaica improvável. No século XVIII, Jean Astruc (1684–1766), um médico francês, tentou refutar essas críticas. De acordo com ele, as contradições e inconsistências presentes no texto bíblico eram resultado de adições posteriores ao texto, que teriam se mesclado às escrituras originais de Moisés.
Ironicamente, o método de Astruc foi empregado por estudiosos alemães como Gottfried Eichhorn (1752–1827) e Wihelm Martin Leberecht de Wette (1780–1849) num movimento que ficou conhecido como Alta crítica, culminando com o desenvolvimento de teorias explicativas para o Pentateuco como um documento humano multifacetado. Essa escola encontrou seu apogeu com a síntese impactante de Julius Wellhausen (1844-1918) na década de 1870, quando pareceu a muitos que a Bíblia havia sido plenamente decifrada como documento humano.
As implicações da “Alta Crítica” não foram bem-vindas por muitos estudiosos religiosos, muito menos pela Igreja Católica. O Papa Leão XIII (1810-1903) condenou o estudo secular da Bíblia em sua encíclica Providentissimus DeusFogarty, pág. 40; mas em 1943 o Papa Pio XII deu licença aos novos eruditos em sua encíclica Divino Afflante Spiritu. De acordo com ele: “A crítica textual… [é] bem empregada no caso dos Livros Sagrados… Deixe o intérprete, então, com todo o cuidado e sem negligenciar nenhuma luz derivada da pesquisa recente, procurar determinar o caráter e as circunstâncias particulares ao escritor sagrado, a época em que ele viveu, as fontes escritas ou orais às quais ele teve recurso e as formas de expressão empregadas.” Hoje o Catecismo moderno mantém essa posição.
Novo Testamento
thumb|170px| left| Albert Schweitzer (1875-1965). Seu livro “A Busca pelo Jesus Histórico” (1906) demonstrou que as biografias de Jesus eram reflexos dos contextos históricos e sociais dos próprios autores.
A figura mais importante da crítica ao Novo Testamento foi Hermann Samuel Reimarus , que aplicou a ele a metodologia dos estudos textuais do grego e do latim e se convenceu de que muito pouco do que era dito poderia ser aceito como verdade incontroversa. As conclusões de Reimarus apelaram ao racionalismo dos intelectuais do século XVIII, e foram profundamente turbulentas para os crentes contemporâneos. No século XIX trabalhos importantes foram realizados por David Strauss, Ernest Renan, Johannes Weiss, Albert Schweitzer e outros, todos tendo investigado o “Jesus histórico” a partir das narrativas dos evangelhos. Num campo diferente, o trabalho de H. J. Holtzmann foi significativo: ele estabeleceu uma cronologia para a composição dos vários livros do Novo Testamento que formaram a base para a pesquisa futura no assunto, e estabeleceu a hipótese das duas fontes (a hipótese de que os evangelhos de Mateus e Lucas são derivados do evangelho de Marcos e um outro documento hipotético chamado de “Fonte Q ”). Pela primeira metade do uma nova geração de estudiosos, incluindo Karl Barth e Rudolph Bultmann, na Alemanha, Roy Harrisville e outros na América do Norte, decidiram que a busca do Jesus Histórico havia atingido um beco sem saída. Barth e Bultmann aceitaram que pouco poderia ser dito com certeza sobre o Jesus histórico, e concentraram suas atenções na mensagem do Novo Testamento de forma geral. As questões que eles colocaram foram: Qual foi a mensagem principal de Jesus? Como essa mensagem se relaciona ao Judaísmo? Por acaso essa mensagem fala à realidade de hoje?
A descoberta dos Manuscritos do Mar Morto em 1948 revitalizou interesses na possível contribuição que a arqueologia poderia fornecer para ajudar a compreender o Novo Testamento. Joachim Jeremias e C. H. Dodd produziram estudos lingüísticos que tentaram sistematicamente identificar camadas nos evangelhos que pudessem ser atribuídas a Jesus, aos autores, e à Igreja Primitiva; Burton Mack e John Dominic Crossan expuseram o meio social da Judéia do século I; e os estudiosos de Seminário Jesus procuraram verificar o que poderia ser considerado histórico nos evangelhos.
Hoje as atenções dos críticos estão voltadas particularmente para as raízes “judaicas” do Jesus histórico, e sua formação nas tendências políticas e religiosas do primeiro século na Palestina (Bruce Chilton, Geza Vermes, Marcus Borg, entre outros).
Métodos e perspectivas Crítica textual
A Crítica textual divide-se em Alta Crítica e Baixa Crítica, embora essa última seja frequentemente chamada simplesmente de "crítica textual".
A Alta crítica era uma abordagem que tratava de responder a questões tais como: quando e onde um texto particular se originou; como, por quais razões, por quem, para quem e em que circunstâncias foi produzido; que influências se expressam em sua produção; que fontes documentais foram usadas em sua composição; e qual a mensagem que o texto procura passar. Em contraste com a Baixa crítica, o foco da Alta crítica está no estudo dos autores dos textos bíblicos, tempo, lugar em que foi escrito, seu processo de formação editorial, fontes documentais, sua transmissão histórica e o contexto de formação, denominado Sitz im Leben.Desde o início do século XX, a Alta crítica foi paulatinamente substituída por campos especializados, a saber, a crítica das fontes, a crítica das formas, a crítica das tradições e a crítica de redação.