Bora é uma língua ameríndia falada no noroeste da América do Sul pelos Boras. Também é conhecida como Booraa e, pelos seus falantes, como Miamunaa que significa "gente, seres humanos".
A população tem entre 2.000 e 3.000 pessoas, mas apenas 1.350 são falantes (750 no Peru e 600 na Colômbia). Os falantes peruanos tem índice de alfabetização de 10% a 30% na língua bora e 25 a 50% na sua 2ª língua.
O Bora pertence à família Witoto, formada por línguas originadas da região do Loreto no Peru, em regiões próximas ao rio Amazonas e na fronteira entre Brasil e Peru. O bora tem 94% de inteligibilidade com o dialeto Miraña que, antigamente podia ser encontrado no Brasil.
Em 1998 foi publicado o dicionário bora-espanhol e sua gramática tem regras próprias.
Atualmente, existem poucos falantes da língua bora como primeira língua, restando apenas alguns adultos e idosos. As crianças bora aprendem espanhol, algumas como segunda língua e a maioria como língua principal. Devido à influência de colonizadores europeus, movimentos migratórios, sistema educacional e casamentos com outros povos são alguns dos motivos pelos quais a quantidade de falantes do bora está diminuindo.
Etimologia Apesar de ser utilizado atualmente pelos estudiosos, Bora é o nome dado por uma tribo vizinha e significa “povo de fora”. Já Miamunaa é o endônimo (nome da língua segundo os falantes) e é traduzido do bora como "gente, seres humanos".
Distribuição miniaturadaimagem|Falantes da língua Witoto que viviam na região do rio Putumayo O povo bora vive próximo ao rio Amazonas. No Peru, o bora é falado principalmente nas áreas dos rios Yaguasyacu, Putumayo e Ampiyacu, em cinco comunidades nativas: boras de Colonia, boras de Brillo Nuevo, boras de Pucaurquillo, Betania e Nuevo Perú. Alguns boras migraram para a Colômbia e passaram a viver perto do rio Igaraparana (afluente do Putumayo).
Além disso, cerca de 760 indígenas falam o dialeto Miraña e moram no baixo rio Caquetá, na Colômbia, próximo à foz do Cahuinari. Esses indivíduos são chamadas por pessoas de fora como Miraña, mas se autodenominam como "gente do rio abaixo". O dialeto e o Bora têm 94% de inteligibilidade. Uma língua intimamente relacionada, mas mutuamente ininteligível, é o Muinane.
Embora ainda existam 840 pessoas vivendo no Brasil, entre as áreas dos rios Tefé e Caiçara e ao longo do Rio Içá brasileiro, nenhum falante de miraña, como primeira língua, foi relatado. Isso ocorreu devido à incorporação do português após a colonização.
Na classificação tradicional, de acordo com Ashmann, Thiesen e Weber, o Bora faz parte da família Witoto. No entanto, Echeverri e outros estudiosos consideram que o Bora e o Witoto descendem de uma mesma protolíngua e fazem parte de um complexo cultural conhecido como People of the Centre (Gente do Centro, em português). Depois teriam surgido oito grupos etnolinguísticos: Witoto, Nonuya, Ocaina, Bora, Miraña, Muinane, Resígaro, e Andoke.
Fonologia A fonologia envolve o sistema de sons. A língua bora tem vogais e consoantes únicas, além de ser uma língua tonal. miniaturadaimagem|Foto do povo bora Tons Apresenta dois tipos de tons: alto e baixo. O alto é indicado pelo acento agudo acima da vogal e o baixo é indicado pela ausência do acento.
Dependendo da entonação, uma mesma palavra tem significados diferentes. As palavras podem ter um número ilimitado de sílabas com tom alto. Além disso, duas sílabas seguidas não podem ter tons baixos, exceto no final da palavra. Confira alguns exemplos:
ávyéjuúbe - chefe. Ávyéjuube majchó - O chefe come.
Vogais O bora contém três vogais altas não arredondadas. Essa característica é muito rara, pois, das 451 línguas presentes no Banco de Dados de Inventário de Segmentos Fonológicos da UCLA (UPSID), apenas nove têm uma vogal central e uma vogal anterior parecidas. Steve Parker afirma: "Provavelmente nenhuma outra língua no mundo tem um sistema vocálico fonológico como o dos Bora".
As vogais são apresentadas a seguir. As letras em parênteses são as usadas no alfabeto bora. +Tabela de vogais Posterior Central Anterior Alta Média Baixa
Consoantes Labial Dental Dorsal Glotal Palatal Velar Lábio-Velar Oclusiva Surda kw ʔ Aspirada ph th kh Palatal py pʲ ty tʲ ky kʲ Aspirada phy pʰʲ thy tʰʲ khy kʰʲ Fricativa Simples Palatal βy βʲ xy xʲ Africada Surda ts č Aspirada tsh čh Nasal Simples Palatal my mʲ ny nʲ Líquida Semivogal
Ortografia
Alfabeto O alfabeto bora é formado por 26 letras e foi reconhecido oficialmente no dia 2 de novembro de 2015 pelo Ministério da Educação do Peru. +Alfabeto do BoraGrafiaFonemaAproximação com o portuguêsGrafiaFonemaAproximação com o portuguêsAa/a/alfaceLl ll/t͡ʃ~t͡sʲ/tiaBb/p/pêraMm/m/maçãCc/kʰ/próximo a kingdom (em inglês)Nn/n/navioCh ch/t͡ʃʰ~t͡sʲʰ/não há no Pt-BrÑñ/ɲ/sing (em inglês)Dd/t/tudoOo/o/ovoDs ds/t͡s/equivalente a zucchero (em italiano)Pp/pʰ/Não há no Pt-BR (equivalente a pack [pʰæk] (em inglês))Ee/e/peloRr/ɾ/caraGg/g~k/semelhante a caraTt/tʰ/Não há no Pt-Br (equivalente a talk [tʰɒːk] (em inglês))Hh//ã'ã (para negar algo)Ts ts/t͡sʰ/próximo a tsetse (em inglês)Ii/i/ilhaUu/ɯ/pegar (em português de Portugal)Ɨɨ/ɨ/equivalente a turn (em inglês)Vv/β/equivalente a haber (em espanhol)Jj/x~h/xícaraWw/kʷ~kp/equivalente a corn (em inglês)Kk/kʰ~k/Não há no Pt-Br (equivalente a kiss [kʰɪs] (em inglês))Yy/j/paiol
Gramática
Pronomes São cinco tipos de pronomes: pessoais, demonstrativos, interrogativos, possessivos e indefinidos. Cada um pode ser animado ou inanimado.
Pronomes pessoais São masculinos, femininos ou não especificados quanto ao gênero. Podem ser de primeira, segunda ou terceira pessoa e são classificados em singulares, plurais ou duais. Além disso, o dual e o plural da primeira pessoa podem ser inclusivos (se referem a todos os ouvintes) ou exclusivos (se referem somente ao que fala e aos do seu grupo). +Pronomes pessoais animados Pessoa GêneroNúmeroSingularDualPluralIncl.Excl.Incl.Excl.PrimeiraMasc.oómeémuhtsimeémuúhaFem.muhpɨSegundaMasc.uúámuhtsiámuúhaFem.ámuhpɨTerceiraMasc.diíbyediityétsidiítyeFem.diíllediityépɨ Pronomes pessoais inanimados são de terceira pessoa do singular, dual ou plural e formam-se pela adição dos sufixos classificadores à raiz te-/tee- que significa "coisa". Por exemplo: teéne significa coisa em geral.
Pronomes indefinidos animados Todos são de terceira pessoa e podem ser singulares, duais ou plurais. Os singulares e os duais também pode ser classificados como femininos ou masculinos. +Exemplos de pronomes indefinidos animados Gênero Em portuguêsNúmeroSingularDualPluralMasc.UmtsaápitsaatétsitsaáteFem.UmatsáápilletsaatépɨMasc.OutrotsijpitsíjtyetsitsijtyeFem.Outratsíjpilletsíjtyepɨ
Pronomes indefinidos inanimados São de terceira pessoa e classificam-se em singular, dual ou plural. Os classificadores -ne (coisa em geral), -he (árvore ou planta) e -ba/-hba (fruto suave) são adicionados aos sufixos duais -cu/-cuu ou plurais -jɨ/-jhɨ. +Exemplos de pronomes indefinidos inanimados Singular um/uma Dual ambos/ambasPlural alguns/algumastsane
tsahe
tsahbatsáneécu
tsáheécu
tsábaácutsánehiɨ
tsáhehiɨ
tsábahjɨtsiine
tsiihe
tsihbatsineécu
tsíheécu
tsíbaácutsáápilletsinehjɨ tsihyehjɨ
tsibahiɨihdicyane
ihdicyahe
ihdicyabaihdicyanéécu
ihdicyahéécu
ihdicyabáácutsijpiihdicyanehjɨ ihdicyahéhjɨ
ihdicyabáhjɨ
Pronomes possessivos Formam-se juntando os prefixos pronominais ta- "meu", di- "teu", me- "nosso" (inclusivo), i- "seu" (dele, dela, deles, delas) e mu- "de quem" com o sufixo -hne/-hie.
tahñe - meu/ minha dihñe - teu/ tua mehne - nosso/ nossa (inclusivo) ihñe - seu/ sua (dele, dela, deles, delas) muhné - de quem
Substantivos Existem 3 classes de substantivos: concretos, abstratos e locativos.
Concretos: animados (se referem a seres vivos) e inanimados (se referem a coisas).
Abstratos: referem-se a ações, resultados de ações e estados. São equivalentes ao verbo no infinitivo e mudam os tons quando atuarem como verbos.
Locativos: indicam posição ou relação com objetos, pessoas ou animais.
Verbos Em bora, os verbos expressam ações, efeitos de ações ou estados. São ativos, passivos ou de estado e podem ser modificados por advérbios.
Transitividade verbal
Verbos transitivos A ação recai sobre o objeto direto, o qual possui o sufixo -ke se for animado, e não é necessário indicar quando já é possível determinar a quem se refere. Por exemplo:
Ó ájtyumí oohííbyeke - vi o tigre. Ó ájtyumɨ́ - vi-o.
Alguns verbos transitivos exigem sujeito, paciente (possui o sufixo -vu ou -di/-hdi + -vu, se for animado) e receptores (recebe o sufixo -ke). Por exemplo:
Tsɨɨju ɨ́jtsɨɨméneke ajcú majchóvu - a mãe deu comida ao seu bebê.
Verbos intransitivos Existem dois tipos: quando o sujeito é agente da ação ou quando o sujeito é paciente. Por exemplo:
Ó dsɨɨné - eu corri. Úmehe víuuvé - a árvore se quebrou.
Verbos de estados Expressam o estado temporário ou permanente. Alguns podem expressar uma condição ou qualidade, enquanto outros expressam o resultado de uma ação. Acompanhe alguns exemplos:
Ó chemé - estou enfermo. Ó imí - sou bom/sano. Ácújcatyémé íhjyá pañe - estão sentados em sua casa.
Verbos reflexivos e recíprocos Os reflexivos formam-se por meio do sufixo -mei adicionado a um verbo transitivo e indica que a ação recai sobre o mesmo sujeito. Por exemplo:
Ó wáhdáhɨnúmeí - me cortei.
Os recíprocos formam-se com a adição do sufixo -jcatsi a um verbo transitivo ou intransitivo e indicam que o sujeito (dual ou plural) interagem entre si. Por exemplo:
Táñáhbemútsí méénújcatsí - meus irmãos estão golpeando-se.
Tempos e modos Os verbos podem estar no modo indicativo ou no modo imperativo, no tempo passado-presente (ação realizada ou que está se realizando) ou no tempo futuro (ação ainda não realizada).
No tempo passado-presente o contexto vai indicar qual dos dois tempos está sendo usado, por exemplo, uma resposta para as perguntas "o que seu irmão está fazendo" e "o que seu irmão fez ontem" seria:
Wákímyeííbye - Ele está trabalhando/ ele trabalhou.
O futuro é indicado de duas maneiras:
O sujeito antecede o verbo, a última vogal é repetida e a última sílaba recebe o tom alto, assim, o verbo termina com tons baixo-alto. Por exemplo, Ó nijtyú táwajyámu - eu lavo minha roupa. Ó nijtyuú táwajyámu - vou lavar minha roupa. O sujeito segue o verbo como sufixo pronominal, adiciona-se o sufixo -i. Íwajyámú níjtyulle - ela lava sua roupa. Íwajyámú níjtyúille - ela lavará sua roupa.
Modo indicativo Pode ser declarativo, interrogativo, exortativo e explicativo:
O declarativo indica que o falante afirma algo com veracidade.
O interrogativo é usado em perguntas de conteúdo (formadas com um pronome interrogativo) e em perguntas afirmativas ou negativas (é usada a partícula "a" à oração declarativa para indicar pergunta).
O exortativo é parecido com o imperativo, no entanto, não tem tanta força. Serve para fazer uma sugestão. Emprega-se o pronome pessoal indefinido singular múu como sujeito.
O explicativo serve para dar uma explicação de como se faz certa ação. Forma-se com o pronome pessoal indefinido plural múúne, como sujeito, e adiciona-se o prefixo me- (nós) ao verbo. Por exemplo:
Íllu múúne núhbake méímíbajchó - é assim que se conserta um relógio.
Modo imperativo Usado para dar ordens e é subentendido porque a ordem se dirige a uma pessoa ou animal. Pode ser singular (adiciona-se o prefixo di-/d-), plural ou dual (nos dois casos adiciona-se o prefixo me- ao verbo). Por exemplo:
Dáábucu - aguente. Méaabúcu - aguentem. Májchoó - coma. Mémajcho - comam.
Derivação As raízes verbais podem ser simples (consistindo em uma raiz livre, ou seja, possui significado sozinha), complexas (consistindo em uma raiz e um sufixo ligado) ou compostas (consistindo em mais de uma raiz ou uma raiz e vários sufixos).