A Dama ou Rainha é uma peça maior do jogo de xadrez, representada nos países lusófonos pela letra D nas notações algébricas. É a peça de maior valor relativo do jogo, usualmente valorada entre nove e dez pontos. Assim como a Torre, é capaz de, com o auxílio do seu Rei, vencer uma partida contra um Rei solitário. Por sua alta mobilidade é a peça preferida do enxadrista iniciante.

No chaturanga e xatranje, antecessores mais antigos do xadrez, o lugar da Dama era ocupado pelo Firzan ou Firz, equivalente ao vizir ou conselheiro real. Na Europa, durante a Idade Média, a Dama lentamente substituiu seu antecessor, apesar dos movimentos serem os mesmos, e já no final do estava presente em todo o continente. No fim do , seu movimento foi ampliado atingindo a regra atual, embora as condições de promoção do peão a uma nova Dama ainda fossem restritas.

Por estar sujeita a ataques de peças menores em posições fechadas, normalmente não é utilizada na fase de abertura do jogo, embora existam aberturas classificadas na The Encyclopaedia of Chess Openings com sua utilização prematura. Nas fases de meio-jogo e final, torna-se extremamente útil, pois é empregada com facilidade em táticas como o garfo e o espeto.

A Dama movimenta-se em linhas retas pelas fileiras, colunas e diagonais no tabuleiro. Não pode pular suas próprias peças ou as adversárias e captura tomando a casa ocupada pela adversária. Devido ao seu valor, normalmente é trocada somente pela Dama adversária e o seu sacrifício, em função de outras peças, são posições que normalmente determinam o desfecho da partida.

Arqueologia 200px|thumb|esquerda|Escultura em marfim, datada do .Yalom (2004), p.31-37

As duas figuras mais antigas pertencem ao conjunto de peças de Carlos Magno e foram encontradas no sudeste da Itália, perto da cidade de Salerno e foram datadas entre 1080 e 1100. São figuras femininas em marfim, enclausuradas num pavilhão com pequenas cortesãs ao lado. Ambas usam coroas como sinal de sua autoridade, e uma carrega um globo em uma de suas mãos enquanto a outra tem uma das mãos sobre um cinto afivelado. Acredita-se que estas peças eram elementos decorativos, não sendo utilizadas para a prática do xadrez, devido ao seu tamanho de aproximadamente treze centímetros e massa de um quilo. Outra figura, datada do , é em marfim da Dama sentada em um largo trono, com uma mão sobre o peito e outra sobre o colo, repetindo um gestual de autoridade.

Uma peça de origem espanhola datada do , tem o desenho de uma figura sentada em um pequeno trono, semelhante a um autorama sendo uma das primeiras evidências no país.Yalom (2004), p.56 Enquanto existem evidências arqueológicas na Espanha, Alemanha e Itália, na França e Inglaterra estas são mais raras, tornando difícil rastrear quando a peça foi introduzida nestes países.Yalom (2004), p.67

As peças de Lewis possuem a figura da Dama semelhante ao Rei, sentada em um trono adornado utilizando uma coroa, porém com uma das mãos na bochecha e com um olhar atônito externando preocupação. Os desenhos dos adornos no trono indicam que as peças são de origem escandinava.Yalom (2004), p.152-153 Quando o jogo foi introduzido na região, a figura da Dama já estava consolidada sob o tabuleiro, existindo substancial evidência arqueológica de peças escavadas na Suécia, Noruega e Dinamarca, que superam em número os artefatos encontrados em todos os outros países europeus.Yalom (2004), p.158

Etimologia

O chaturanga, predecessor indiano do xadrez, não possuía uma figura feminina no tabuleiro, tampouco peça com movimentos semelhantes à Dama no xadrez moderno. No chaturanga, o lugar da Dama era ocupado por uma peça denominada Mantri, que significa vizir ou conselheiro real. Ao atingir a Pérsia esta peça foi chamada de farzin e posteriormente Firz.

No , o xadrez chegou à Europa trazido pelos árabes e no poema Versus de Scachis (c.997) é feita a primeira menção da Dama, descrita em latim como Regina (Rainha), embora seu movimento fosse idêntico ao do firz.Yalom (2004), p.17 O Libro de los juegos (1283) contém uma descrição detalhada do firz, que na Espanha foi transliterado para Alfferza. Esta peça provém do árabe Al-firzan, que significa vizir sendo o alfferza conceitualizado como um porta-bandeira (Alfferz), porém a figura foi passada à forma feminina. Esta troca do sexo causou certa confusão devido à presença do firz, uma peça abstrata e masculina, empregada nos conjuntos de peças árabes.Yalom (2004), p.63

Na Itália, a peça foi nomeada ferzia ou fercia, e na França fierce ou fierge, onde trocou de sexo devido a homofonia entre fierge e a palavra francesa vierge, que significa donzela ou virgem. Sua posição ao lado do Rei no tabuleiro elevou seu status à realeza, principalmente nos países onde havia a presença marcante de rainhas na monarquia.Brace (1979), p.231 O culto a Nossa Senhora e o amor cortês coincidiram com a ampliação dos movimentos na peça, consolidados do . Como consequência, países católicos como a Itália, França e Espanha utilizaram o vernáculo correspondente de domina que evocam a "Nossa Senhora" enquanto que os países transformados pela reforma protestante como Alemanha e Inglaterra se recusaram a utilizar esta derivação que poderia sugerir um culto a Virgem Maria, optando por usar o termo secular "Rainha".Yalom (2004), p.120-122 A peça passou a ser chamada de Dama na França (Dame), Alemanha (Dame), Itália (Donna) e Espanha (Dama), e de Rainha na Inglaterra (Queen). Na Rússia ainda é chamada de ferz (koroleva, ou Rainha, é um termo coloquial e não utilizado por enxadristas profissionais), e em polonês é conhecida também como hetmã — o título de um comandante militar nacional. Na Turquia e em outros países que receberam o jogo diretamente dos árabes, a figura masculina do firz permaneceu embora seus movimentos tenham se tornado idêntico aos da Dama posteriormente.

Evolução 200px|thumb|Imagem de Isabel de Castela na pintura conquistando o Reino de Granada, de 1482, por Pedro Marcuello.

O poema Verses on the Game of Chess escrito pelo rabino espanhol Abraão ibn Ezra no final do não inclui a Dama no jogo, porém um poema posterior do mesmo autor já faz esta menção (Shegal, em hebreu). Estes registros evidenciam a origem europeia de inclusão da Dama no jogo, uma vez que na versão árabe do xadrez praticado na Espanha, coexistiu a figura do al-firzan até o . Ezra conviveu tanto com os espanhóis quanto os árabes e provavelmente recebeu dos primeiros a figura feminina da peça.Yalom (2004), p.53-54

No livro Liber de Moribus Hominum et Officiis Nobilium Sive Super Ludo Scacchorum de Cessolis a peça tem a primeira ampliação de seu movimento, sendo permitido pular até três casas em seu primeiro movimento, desde que junto ao Rei. Esta foi uma tentativa de manter a submissão da Dama em relação ao Rei, que determinava os seus movimentos "conjugais". Também é descrita a restrição da promoção de um peão a Dama enquanto a original ainda não fosse capturada, de modo a simbolizar a monogamia do casal real.Yalom (2004), p.69-71 Já na Alemanha, um dos poemas de Carmina Burana escritos por volta do afirmava categoricamente que quando a Dama era capturada, a partida estava virtualmente perdida porém não indicava qual são seus movimentos.Yalom (2004), p.192

No mesmo período, o trabalho italiano Bonus Socius descreve o movimento do firz melhorado, permitindo-o pular duas casas em diagonal, semelhante ao movimento do Bispo na época.Yalom (2004), p.72-73 Algum tempo depois, também foi permitido pular peças adversárias assim como o Cavalo, uma vez por jogo, de modo análogo ao roque realizado pelo Rei sendo que esta regra foi utilizada na Turquia e Rússia até o .Davidson (1981), p.13-14, 28-30

Ascensão da Dama No final da idade média, o movimento da Dama foi ampliado atingindo a regra atual. A primeira evidência desta nova regra pode ser encontrada no poema catalão Scachs d'amor escrito entre 1470 e 1480. O poema descreve uma partida com as regras de movimentação atuais entre Marte cortejando Vênus, observados por Mercúrio e reitera a unicidade da Dama como única e que quando esta é capturada a partida está virtualmente perdida.Yalom (2004), p.193-194

Além deste manuscrito, outros dois livros do final do descrevem o novo movimento da Dama, o Libre Del jochs partits dels schachs em nombre de 100 de Francisco Vicente e o Repetición de amores e arte Del axedres com CL iuegos de partido de Luiz Ramíriz de Lucena. A mudança foi tão dramática que o jogo foi chamado por Lucena de de la dama e a versão antiga de del viejo.Yalom (2004), p.195

As novas regras rapidamente se espalharam pela Europa e já no meio do eram praticadas em todo o continente. Na Itália e França, a nova variante foi recebida de modo reticente frente aos novos poderes de uma figura feminina e foi nomeada como scacchi de la donna ou alla rabiosa e eschés de la dama ou de la dame enragée. Na Alemanha recebeu o nome de welsches Schachspiel (Xadrez italiano), indicando que as regras foram recebidas a partir da Itália.Yalom (2004), p213-217

Um dos fatores que facilitaram a rápida expansão das novas regras na Europa foi a invenção da prensa de tipos móveis que possibilitou a popularização do livro de Lucena, permitindo que circulasse entre as principais cidades europeias. Outro fator que talvez tenha influenciado foi a expulsão de aproximadamente duas mil famílias de judeus da Espanha. No final do , através do Decreto de Alhambra, Isabel I de Castela e Fernando II de Aragão expulsaram os judeus não convertidos da Espanha, que se espalharam pelos principais centros de comércio, acelerando a disseminação das novas regras de movimentação do jogo.

A ascensão da Dama como a peça de maior valor relativo do xadrez coincidiu com o reinado influente de Isabel I de Castela, entretanto é provável que outras rainhas como Leonor da Aquitânia, Branca de Castela, Teofânia Escleraina e Matilde de Canossa tenham influenciado a inclusão da figura feminina da Dama sobre o tabuleiro. O culto a virgem Maria na França do também poderia ter influenciado o jogo. O poema Les Miracles de Nostre Dame (Os Milagres de Nossa Dama) figura uma partida entre Adão enfrentando o Diabo. A Dama neste poema é representada por Maria, que apesar dos movimentos limitados do firz, têm uma importância tal que consegue derrotar (aplicar o xeque-mate) ao Diabo.Yalom (2004), p.111-113

Movimento e valor relativo

Cada enxadrista inicia o jogo com uma Dama, posicionada no meio da primeira fileira ao lado do Rei. A Dama branca inicia o jogo numa casa clara, e a negra numa casa escura, daí a regra "Dama na cor". Na notação algébrica, a Dama branca começa o jogo em d1 e a negra em d8.Hooper (1992), p. 328

A Dama possui o movimento combinado da Torre e do Bispo, movendo-se em linha reta nas fileiras, colunas e diagonais. O número de casas que pode atacar num tabuleiro vazio varia de 21 a 27 casas sendo mais efetiva no centro do tabuleiro. Não pode pular peças de mesma cor ou adversária e seu movimento de captura consiste em ocupar a casa da peça adversária. Conforme estabelece a FIDE, a Dama deve ser representada pela letra D nos países lusófonos nas notações algébricas de xadrez, que devem ser utilizadas em torneios oficiais. Em periódicos e na literatura, recomenda-se a utilização de figuras ou diagramas (20px e 20px).

Devido a importância que a Dama adquiriu no xadrez, foi difundida uma expressão em francês Gardez la Dame que significa Proteja a Dama, anunciada quando o enxadrista atacava a peça adversária. Esta expressão, porém, caiu em desuso no final do , e assim como o xeque, não é mais empregada em competições formais.Hooper (1992), p. 74