O conjunto das Ruínas lusitano-romanas da Boca do Rio, também conhecido como Villa Romana da Boca do Rio, é um monumento no município de Vila do Bispo, no Distrito de Faro, em Portugal. Consiste num complexo de origem romana que incluía um edifício residencial, um conjunto industrial para a produção de derivados de peixe, e uma zona portuária com um grande pontão. O conjunto foi originalmente ocupado entre os séculos II e V d.C., tendo posteriormente sido construído no mesmo local um armazém da Companhia de Pescas do Algarve. O sítio foi estudado pela primeira vez em 1878 pelo arqueólogo Estácio da Veiga. Foi classificado como Imóvel de Interesse Público em 1977.

Descrição Localização e conservação As ruínas romanas estão situadas na zona da Boca do Rio, uma baía de pequenas dimensões junto ao Oceano Atlântico, no concelho de Vila do Bispo, no Barlavento Algarvio. A parte industrial das ruínas estava localizada junto a um antigo estuário, onde terminavam as ribeiras de Budens, de Vale de Boi e do Burgau, tendo a desemboucadura do estuário no oceano ficado quase totalmente assoreada, e desviada no sentido nascente. Terá sido esta entrada do estuário que deu a nome de Boca do Rio à zona. Este antigo estuário é alimentado pelas Ribeiras de Budens e Almádena, e tem a sua foz numa praia entre duas grandes elevações rochosas, uma a Leste conhecida como Forte, no qual assenta a Fortaleza de Almádena, e outra a Oeste, conhecida como monte dos Médos, onde estão as ruínas romanas. Este local situa-se entre as localidades de Salema e Burgau.

O sítio arqueológico da Boca do Rio foi classificado como Imóvel de Interesse Público pelo Decreto n.º 129/77, de 29 de Setembro de 1977.PORTUGAL. Decreto n.º 129/77, de 29 de Setembro de 1977. Presidência do Conselho de Ministros e Ministério da Educação e Investigação Científica, Publicado no Diário do Governo n.º 226, Série I, de 29 de Setembro de 1977. Uma das principais ameaças à conservação das ruínas é a erosão costeira, cujo efeito já tinha sido constatado por Estácio da Veiga no século XIX.

Composição O sítio arqueológico correspondia a uma pequena povoação do período romano, que poderia ter sido uma villa romana ou um vicus. Devido à reduzida fertilidade dos solos, à sua localização e às estruturas encontradas, a povoação seria principalmente utilizada como uma unidade para a utilização dos recursos marinhos, tanto no oceano como no estuário próximo, e a sua transformação através de um processo de salga. O complexo incluía uma villa e várias estruturas produtivas, como tanques de salga para peixe e marisco, onde era fabricado o garum, um molho à base de peixe muito apreciado durante a civilização romana. Estácio da Veiga encontrou igualmente vestígios de várias estruturas fora dos núcleos residencial e produtivo, incluindo um tanque muito fundo (letra P na planta) a ocidente das ruínas, revestido no seu interior com cimento romano, e com os cantos em curva côncava, sendo muito provavelmente um reservatório para água, devido à sua localização bastante elevada em relação ao resto das ruínas. Descobriu igualmente os restos de um muro quase totalmente destruído a Oeste do tanque, não tendo avançado quaisquer hipóteses para a sua função. Também foi descoberta uma necrópole no Cerro das Alfarrobeiras, situada nas proximidades da Boca do Rio, e que que provavelmente faria parte da antiga povoação.

No sítio arqueológico situa-se igualmente um edifício industrial, construído sobre as ruínas romanas, e que servia de armazém para a Companhia de Pescas do Algarve.Vilas e Aldeias do Algarve Rural, 2003:40

Parte residencial A parte residencial (pars urbana), onde estava a villa estava situada na zona sul do complexo, mesmo na orla costeira, tendo sido por isso quase totalmente destruída pelo oceano. Da parte residencial foi encontrado o balneário, que tinha várias salas decoradas com mosaicos, tendo sido encontrados igualmente vestígios de pinturas murais.

Os dois armazéns sobre os alicerces romanos estão indicados com as letras A e B na planta de Estácio da Veiga, tendo a segunda 8,86 m de comprimento e 5,92 m de largura. Os dois edifícios estavam separados por um corredor com 1,5 m de largura. Perpendicular ao armazém oriental estava um muro com 11,5 m de comprimento (A'), que fazia parte de uma casa anexa. A Leste do muro e dos armazéns, Estácio da Veiga encontrou um grande número de ruínas cobertas de areia, que considerou serem possivelmente parte de uma povoação. Estácio da Veiga escavou o interior dos armazéns, tendo encontrado, no interior do edifício ocidental, uma piscina semi-circular de plano alto (B') na parede Leste, e a Sul da piscina um tanque de forma rectangular, revestido a mosaico (B''), que identificou como uma lavacra (Lavacrum). A piscina e a lacrava estavam anexas, formando um rectângulo com uma largura de 2,29 m. Dentro do edifício foram encontrados os vestígios de uma terceira piscina (B'''), com os cantos em curva côncava, e igualmente revestida a mosaico. Junto ao armazém B estava um compartimento de forma triangular revestido a mosaicos (C), com uma saída para o corredor (D). Este corredor, igualmente decorado de mosaicos, tinha 24,05 m de comprimento e 3,52 de largura, e dividia em duas partes o edifício do balneário, uma inferior junto à praia e outra superior. O balneário tinha sido em grande parte danificado pela acção do oceano, tendo Estácio da Veiga calculado a sua estensão, na frente marítima, de 86,67 m. Encontrou um grande número de pedras trabalhadas e fragmentos de paredes na praia, entre as ruínas e o nível do oceano, e muitos mais vestígios de edifícios eram visíveis enterrados na areia, em dias de tempestades. Com efeito, segundo a obra Corographia do Algarve, estes restos de edifícios submergidos foram vistos em 1715 e 1755.

O corredor D dava acesso para um conjunto de três compartimentos paralelos (D, D' e D''), o primeiro com um comprimento de 1,46 m e uma largura de 1,90 m, enquanto que o segundo era quase igual, tendo o mesmo comprimento e uma largura de 2,01 m. O terceiro compartimento também tinha o mesmo comprimento, mas era mais larga, com 2,90 m, e apresentava no seu canto Sul uma piscina de forma semicircular (F), num plano inferior ao da sala em que se inseria. Esta piscina estava paralela a uma outra, situava fora de casa e de forma quadrada, sendo ambas com um pavimento em cimento romano, e divididas por um muro. Mais a Sul estavam dois compartimentos (G e G'), divididos por duas piscinas quadradas, a do lado marítimo com 1 m de lado e a outra com 1,37 m. O compartimento G tinha 5,90 m de comprimento e 2,90 m de largura, enquanto que o G' tinha a mesma largura, mas era impossível computar o seu compartimento por estar quase totalmente destruída devido à acção do oceano. Entre as salas G e G' e o corredor D existiam três outros compartimentos paralelos (H, H' e H''), todos com 2,90 m de comprimento, tendo o primeiro 2,64 m de largura, o segundo 3 m de largura, e o terceiro 3,24 de largura, estando já parte das suas paredes danificadas pelo oceano. Do corredor D também saía uma escada (I) com 1,42 m de largura, que dava acesso a uma passagem (I') para o oceano, sendo o conjunto anexo aos compartimentos H'' e G'. Da escada ainda eram visíveis alguns degraus, um deles em pedra lavrada, enquanto que a passagem estava quase totalmente destruída. A partir deste ponto o corredor D fazia uma curva, de forma a alinhar com a parte ocidental do balneário, ficando com um lado directo para o mar, sendo delimitado por um muro (I''). Estácio da Veiga encontrou seis compartimentos nesta parte do balneário (J, K, L, M, N e O), formando a parte superior ao corredor D. A sala J media 3,96 m por 4,65 m e tinha um pavimento com mosaicos, enquanto que o compartimento K tinha acesso por uma porta central à antecedente, e tinha as mesmas dimensões e igualmente um pavimento de mosaico. Tanto as salas L e M tinham o pavimento já destruído, mas pela altura das suas paredes podia-se perceber a existência de um piso superior, sendo provavelmente Hipocaustos (Hypocaustum). A primeira tinha uma das paredes em ruína, tendo o outro lado cerca de 4 m, enquanto que a sala M tinha 4 m por 3,20 m. A sala N também tinha o pavimento destruído, e poderia ser outro hipocausto, enquanto que a O tinha uma forma em hemiciclo, sendo possivelmente um lacónico (Laconicum).

Parte produtiva e cais A parte produtiva situava-se a Norte, e consistia em várias pequenas oficinas de salga, tendo sido organizada de forma típica para este tipo de estruturas, com as valas em redor de espaços abertos. Estas salgas estavam situadas perto de uma laguna formada pelas águas do mar, que desapareceu posteriormente, dando lugar a um paul. O complexo incluía igualmente uma estrutura portuária, provavelmente utilizada para escoar a produção das salgas, e composta por uma rampa e uma escadaria de acesso à água, e um grande cais em silharia de calcário, com uma extensão superior a 40 m, com pedras perfuradas que serviam para amarração de embarcações.

Espólio No local foi recolhida uma grande quantidade de peças do período romano, incluindo cerâmica, peças de vidro e metálicas e materiais de construção, Um dos fragmentos de telhão horizontal ainda apresentava a marca do fabricante G. AEMILI SCRIBONI.. Foram encontradas igualmente muitas moedas, incluindo algumas cunhadas durante o governo de Nero, entre 54 e 68, Honório, de 395 a 423, e um conjunto de mil numismas, compostas por médios bronzes do Baixo Império, cunhados principalmente durante os reinados de Constâncio, entre 305 e 306, e Honório e Arcádio, de 395 a 408. Em termos de cerâmica, encontram-se lucernas, contentores como uma dolia que ainda tinha vestígios no seu interior de produtos derivados de peixe, e ânforas, das quais algumas foram utilizadas para o transporte de azeite, e cerâmicas finas, em terra sigillata africana e peças estampadas cinzentas, originárias da Gália tardia.

Uma das peças mais significativas encontradas no sítio arqueológico foi uma pequena estátua em bronze, representando uma figura de pé, que estava parcialmente no interior de um contentor de bordo decorado, possivelmente uma cesta. A figura está nua, sendo de destacar a atenção dada ao pormenor dos cabelos, que estavam seguros por um diadema. Em cima do ombro direito tem um vaso com maçãs, segurado com uma mão, enquanto que a outra, no final de um braço estendido junto ao corpo, segura um vaso de fundo estreito. A figura tinha duas asas por debaixo dos ombros, já parcialmente partidas, e no fundo da cesta tinha um furo, talvez para colocar em cima de um pedestal. Estácio da Veiga especulou que a estátua podia ser um signum, ou a representação da deusa abundância, que era a protectora da riqueza. A estátua foi oferecida pelo redactor da Gazeta do Algarve, Augusto Feio Soares de Azevedo, a Estácio da Veiga. Foi igualmente descoberta uma estatueta de um cupido alado.

Grande parte do espólio da Boca do Rio foi exposto no Museu de Vila do Bispo.

História Antecedentes e ocupação original O sítio da Boca do Rio já era ocupado pelo menos desde o Paleolítico, tendo sido encontrados vestígios desse período na ponta Leste da praia da Boca do Rio. A necrópole do Cerro das Alfarrobeiras, situada junto à Boca do Rio, terá sido ocupada durante os períodos do Neolítico, da Idade do Bronze e romano.