O Trentino-Alto Ádige (em italiano Trentino-Alto Adige, em alemão Trentino-Südtirol, em ladino-dolomita Trentin-Südtirol) é uma região situada no extremo norte da Itália. Tem mais de um milhão de habitantes e uma área de 13 607 km². A capital é Trento (em alemão Trient).
Historicamente, a região é parte do Tirol e assim foi chamada oficialmente nos séculos que se seguiram à união do antigo Condado do Tirol com os Principados de Trento e Bressanone/Brixen em 1363. Após a Primeira Guerra Mundial, a região foi anexada pela Itália como conquista de guerra, pois antes pertencia ao Império Austro-húngaro.
O decreto fascista 12 637 de 08 de agosto de 1923 proibiu o uso do topônimo Tirol na região, com penas e multas previstas na lei. Por vezes, a população local procurou restituir o secular topônimo, sem sucesso. Após a Segunda Guerra Mundial, houve novas tentativas e conflitos pela separação do território e seu retorno à já República da Áustria.
Até 1972, a região teve o duplo nome de Trentino-Alto Adige/Tiroler Etschland. O estatuto especial do mesmo ano fixou o nome oficial da região para Trentino-Alto Adige/Südtirol, no qual a denominação Südtirol ("Tirol do Sul") - que historicamente identifica a região correspondente à Província de Trento -, vale oficialmente apenas a província de Bolzano. Depois da lei de modificação constitucional número 3, de 18 de outubro de 2001, a denominação ítalo-alemã está também consagrada no artigo 116 da Constituição da República Italiana, valendo, inclusive, para a província de Trento (Autonome Provinz Trient).
Geografia O Trentino-Alto Ádige tem limites ao norte com a Áustria (Tirol e Salzburgo), ao sul e leste com o Vêneto, a sul e oeste com a Lombardia, a oeste com a Suíça (Cantão Grisões).
A região é inteiramente montanhosa. O Ortles é o cume mais elevado, ultrapassando metros de altitude.
O río mais importante é o Ádige. A parte setentrional do maior lago italiano, o lago de Garda, pertence ao Trentino-Alto Ádige.
Administração thumb|esquerda|Províncias de Trentino-Alto Adige/Südtirol. A região é composta de duas províncias (Província autónoma de Trento e Província autónoma de Bolzano) chamadas autónomas visto que se trata das únicas províncias italianas que têm poderes legislativos e não estão sujeitas ao poder regional. O conselho regional é composto pelos parlamentos das províncias e o cargo de presidente da região é assumido a rotação pelos presidentes das províncias. Atualmente o presidente da região é Luis Durnwalder.
Província Matrícula População (2009) Área (km²) Densidade (hab./km²) Presidente Província autónoma de Bolzano BZ500 0307 399,9767,57 Arno Kompatscher Província autónoma de Trento TN519 8006 206,9083,75 Ugo Rossi Trentino-Alto Ádige1 019 83013 606,8774,9 Arno Kompatscher
Línguas thumb|As províncias italianas de Bolzano e de Trento Na região de Trentino-Alto Ádige estão presentes três grupos linguísticos: italiano: cerca de 65% da população; alemão: cerca de 32%; ladino-dolomita: cerca de 3%.
As duas províncias são diferentes linguisticamente. O Trentino (província autónoma de Trento, também chamado Welschtirol ou Tirolo Italiano) é quase completamente de língua italiana, com comunidades históricas de língua alemã (Mocheni e Cimbri) e língua ladina (Val di Fassa, Val di Non, Val di Sole e Val di Fiemme), enquanto o Alto Ádige (Província autónoma de Bolzano ou Südtirol) tem maioria de língua alemã e minoria de língua italiana, que hoje representa 25% da população, além da população de língua ladina. Até o século XVI, cerca de 6% da população da cidade de Trento era de língua materna alemã.
A minoria lingüística ladino-dolomita habita a assim chamada Ladínia, que se estende também ao território da região do Vêneto, compreende: Val Gardena e Val Badia na província de Bolzano, Val di Fassa, Val di Non e Val di Sole na província de Trento, as comunas de Colle Santa Lucia, Livinallongo del Col di Lana e Cortina d'Ampezzo na província de Belluno. Em Ampezzo porém quase não se fala mais o ladino (ou é muito influenciado pelo vêneto). Val Badia e Val Gardena são completamente ladinas. O ladino é uma verdadeira língua neolatina. Cada vale possui sua própria variante ladina, com frequência muito diferente das outras. Isto se tornou um grande obstáculo para o desenvolvimento cultural e linguístico fora de seus limites: por isso foi pensado em criar-se uma língua padrão ("ladino standard") com modelo no romanche do cantão suíço de Grisões, que reunisse os aspectos mais similares do falar ladino.
História
Do século XVI até o final da Primeira Guerra Mundial 1919, esta região formava, juntamente com a porção setentrional austríaca (atualmente constituinte do estado do Tirol), um condado (Condado Episcopal do Tirol) pertencente aos domínios da Casa de Habsburgo, transformado em Província do Tirol em 1806. A região tirolesa manteve-se unida sob a Casa da Áustria a partir de 1363 principalmente por causa da política imperial austríaca; com uma população composta por falantes de diferentes línguas, foi sobretudo o aspecto cultural que manteve unidos, desde o século XIV, nobres, clérigos e camponeses, segundo um modelo político consideravelmente avançado para os padrões da época. O movimento do risorgimento do século XIX procurou anexar o território ao Reino de Itália, sem sucesso.
Um aspecto importante da organização política tirolesa era a participação direta dos camponeses nas decisões administrativas do condado desde o Conde Mainardo (século XIV), qe instituiu representações camponesas que opinavam inclusive sobre decisões militares. Isso foi bastante reforçado durante o reinado do imperador Maximiliano (coroado na catedral de Trento), quando instituiu o "Landlibell", lei regional tirolesa que permitia a organização e grupos armados paramilitares que, posteriormente, tornar-se-iam atiradores (alemão: Schützen; italiano: Sìzzeri; ladino: Scizer).
Durante a Idade Média, a região tirolesa tinha seu território administrado pelos Condes do Tirol e pelos principados episcopais de Trento e Bressanone (Brixen). O Principado Episcopal de Trento fora instituído em 1027 pelo imperador germânico Konrad II e administrava boa parte do território tirolês. Uma vez que a Igreja não podia constituir um exército, a defesa do território coube aos condes do Castelo Tirol (Schloss Tyrol; Castel Tirolo), que ampliaram seu poder administrativo durante os séculos seguintes. A região tirolesa passou para o controle dos Habsburgos no século XIV, com a doação do condado tirolês por Margarete Maultausch, última condessa do Tirol, ao imperador Leopoldo de Habsburgo.
Com as invasões napoleônicas, o Tirol se destacou com a resistência popular chefiada por Andreas Hofer, taberneiro e vendedor de cavalos do Val Passiria (Passeiertal), contrário às ideias francesas de inspiração iluminista. Durante a juventude, viveu no Tirol Italiano (atual Trentino), onde aprendeu o italiano.
Napoleão desfez o Sacro Império Romano-Germânico e o Principado Episcopal de Trento, ocasionando diversas mudanças sociais na região austríaca. Hofer representava o descontentamento popular; era apoiado pelo clero tirolês e contava com a ajuda financeira do arquiduque Francisco José, irmão do imperador austríaco.
Após algumas vitórias significativas (Trento, Val Pusteria e Vale do Ádige) e a tomada de Bergisel em 1809, Andreas Hofer controla o governo tirolês e é condecorado pela Igreja. No entanto, as tropas napoleônicas (bávaras, francesas e italianas) reocuparam o Tirol e o dividiram entre o Reino da Baviera e o Reino de Itália. Andreas Hofer foi preso em sua cidade natal e levado para Mântua, na Itália, onde foi fuzilado (apesar da insistência da população local para libertá-lo). Durante esse período, foi utilizado pela primeira vez o nome "Alto Ádige" (significando parte alta do Vale do Rio Ádige), que designou apenas a região trentina.
Após a queda de Napoleão e o Congresso de Viena, a região tirolesa foi reunificada e retornou ao domínio austríaco. A partir de então, constituiu um único ente administrativo-geográfico com a sua parte setentrional, atualmente constituinte do estado (Land) do Tirol até 1918. A administração eclesial de Trento e Bressanone (Brixen) foram laicizadas oficialmente e toda a região se tornou um estado, com capital administrativa em Innsbruck (capital atual do Tirol austríaco).
O movimento do risorgimento italiano do século XIX procurou anexar a porção italianófona tirolesa (Trentino) sem sucesso, por causa das derrotas das tropas de Giuseppe Garibaldi e da grande rejeição da população tirolesa em fazer parte do Reino da Itália. Nos séculos XIX e XX, até o fim da Primeira Guerra Mundial (4 de novembro de 1918), o território pertenceu ao Império Austro-Húngaro. O Tratado de Saint Germain de 1919 passou a região ao Reino de Itália. Tal anexação sancionou o desmembramento da antiga região tirolesa e a incorporação de população de língua alemã ao reino da Casa de Saboia, gerando grande descontentamento, tanto da população de língua alemã quanto daquela de língua italiana e ladina.
Depois do fim da Grande Guerra, que tinha visto os soldados trentinos empenhados sobre o front oriental, o recém-empossado governo fascista estabeleceu uma política de nacionalização da minoria étnica sul-tirolesa, e uma progressiva nacionalização de toda a região (italianização). No curso dos vinte anos de ditadura fascista se completaram diversas operações de opressão das minorias alemã e ladina, bem como uma forte repressão contra a população trentina, que assistiu a um processo de cancelamento de sua identidade austríaca e tirolesa. Entre as operações de opressão fascista, vale a pena citar o desmembramento das comunas ladinas de Colle Santa Lucia, Livinallongo del Col di Lana e Cortina d'Ampezzo do contexto regional a que tinham pertencido por vários séculos, e sua incorporação à província vêneta de Belluno. Foram também abolidas as escolas de língua alemã no Alto Ádige e as minorias de língua alemã da região trentina foram perseguidas. Em 1939, em obediência ao tratado ítalo-alemão sobre opções, a grande maioria dos residentes sul-tiroleses se declarou favorável a emigrar ao território do Terceiro Reich. O início da Segunda Guerra Mundial ocasionou a interrupção do êxodo.
A seguir ao armistício firmado pela Itália com os aliados, a região foi de fato anexado pelo Terceiro Reich. Entre 1943 e 1945, sob a autoridade do Terceiro Reich, foi restaurada a integridade territorial tirolesa rompida em 1918. O governo da República Social Italiana não tinha praticamente jurisdição alguma sobre o território da região (que vem a incluir também a província de Belluno). A área foi oficialmente denominada Área de Operações Alpenvorland, com capital Bolzano.
thumb|esquerda|upright=0.6|Alcide De Gasperi, primeiro-ministro italiano Depois do fim da Segunda Guerra Mundial, e também em seguida a manifestações populares que reclamavam a separação do Tirol Meridional da Itália, o Acordo de Paris chancelou que a província de Bolzano tinha que permanecer italiana com a condição que se respeitaram os direitos da minoria alemã presente nas duas províncias e lhe fosse garantida uma ampla autonomia. O presidente do conselho italiano, Alcide De Gasperi, originário de Pieve Tesino na província de Trento, decidiu estender a autonomia aos seus concidadãos, criando a região autônoma do Trentino-Alto Ádige/Tiroler Etschland. Dessa maneira, a autoadministração da minoria alemã se tornou impossível por conta dos cargos públicos ocupados por pessoas não nascidas no território e trazidas pelo regime fascista. Procurou-se garantir uma autonomia a todo o território tirolês.