miniaturadaimagem|457x457px|Mapa social de distribuição de favelas na cidade de São Paulo/SP. Baseado em SEMPLA/Dipro (2000) e IBGE/Herve Thery.

Favelas na cidade de São Paulo são aglomerados urbanos caracterizados por habitações precárias e ocupação irregular do solo, que surgiram principalmente a partir da década de 1940, em decorrência do intenso fluxo migratório de pessoas vindas de outras regiões do Brasil em busca de melhores condições de vida e trabalho. Atualmente, a capital paulista concentra o maior número de favelas do país, abrigando cerca de 1,6 a 2 milhões de moradores, o que representa aproximadamente 16% da população da cidade.

A favelização paulistana refere-se ao processo de formação, expansão e consolidação dos assentamentos precários conhecidos como favelas no município, desde o final do século XIX até a atualidade. Esse fenômeno está intrinsecamente ligado à exclusão social, à urbanização acelerada, às migrações internas e à ausência de políticas habitacionais eficazes, tornando-se parte estrutural do tecido urbano da maior metrópole brasileira.

As favelas paulistanas enfrentam graves problemas sociais, como a precariedade das condições habitacionais, ausência de infraestrutura básica, riscos à segurança dos imóveis e insuficiência de serviços públicos essenciais, incluindo saúde, educação e transporte. Além disso, essas áreas apresentam elevados índices de violência e vulnerabilidade social. Apesar da redução do fluxo migratório nas últimas décadas, a população residente nas favelas continua crescendo, resultando em maior densidade demográfica nessas comunidades.

Origens históricas Pós-abolição e exclusão social miniaturadaimagem|Região da Várzea do Carmo, atual Parque Dom Pedro II.

Com a abolição da escravidão em 1888, cerca de 700 mil pessoas foram libertas no Brasil, mas não receberam qualquer suporte do Estado para sua inserção na sociedade. Sem acesso à terra, moradia ou trabalho digno, muitos ex-escravizados migraram para os centros urbanos, como São Paulo, em busca de oportunidades. No entanto, enfrentaram discriminação racial e exclusão econômica, sendo forçados a ocupar áreas periféricas e precárias, como encostas de morros e margens de rios favelas.

Na cidade de São Paulo, o crescimento urbano no final do século XIX foi marcado pela expansão da economia cafeeira e pelo início da industrialização. Esse processo atraiu imigrantes europeus, que passaram a ocupar os postos de trabalho mais qualificados e as áreas centrais da cidade. Por outro lado, a população negra, recém-liberta, foi relegada a trabalhos informais e mal remunerados, além de ser afastada dos centros urbanos, consolidando um padrão de segregação espacial que persistiria ao longo do século XX.

Na metade do século XIX, relatórios produzidos pelo poder público municipal apontavam para a precariedade dos cortiços insalubres que circundavam bairros centrais da cidade. A preocupação maior por parte das autoridades municipais à época era que as epidemias e pestes então circunscritas a essas localidades se espalhassem para outras regiões e, consequentemente, atingissem outros segmentos da sociedade paulistana. miniaturadaimagem|Vila Itororó, no Morro dos Ingleses, casarão histórico, que abrigava 86 famílias, até 2011.Parceria entre Sehab e CDHU transfere 86 famílias da Vila Itororó. Por Marcos Palhares, 28 de setembro de 2011. Os primeiros registros de habitações precárias em São Paulo datam desse período, quando cortiços insalubres começaram a surgir nos arredores do centro da cidade. Relatórios municipais da época já apontavam para as condições degradantes desses espaços, mas as ações do poder público se limitaram à demolição de cortiços, sem oferecer alternativas habitacionais adequadas. Essa política higienista contribuiu para o deslocamento das populações pobres para áreas mais afastadas, onde começaram a se formar os primeiros núcleos de ocupação irregular.

Os cortiços começaram a surgir em São Paulo a partir da década de 1870, em um contexto de crescimento populacional impulsionado pela chegada de imigrantes europeus e pela abolição da escravidão em 1888. Sem políticas públicas habitacionais adequadas, muitos trabalhadores encontraram nos cortiços uma alternativa acessível para morar próximo aos locais de trabalho no centro da cidade. Essas habitações eram compostas por cômodos pequenos e compartilhavam espaços comuns, como banheiros, cozinhas e lavanderias, frequentemente em número insuficiente para atender à demanda dos moradores.As condições de vida nos cortiços eram marcadas pela precariedade. Problemas como falta de ventilação, iluminação inadequada, ausência de saneamento básico e superlotação eram comuns.

A legislação da época também refletia essa visão higienista. Em 1893, por exemplo, o Regulamento do Serviço Sanitário do Estado de São Paulo estabeleceu normas para as habitações coletivas, mas, na prática, essas medidas não foram suficientes para melhorar as condições de vida nos cortiços. Em vez disso, contribuíram para a estigmatização dessas moradias e de seus moradores. miniaturadaimagem|Aquarela de Jules Martin que mostra a Avenida Paulista em 8 de dezembro de 1891, no dia de sua inauguração. Paralelamente, devido às recorrentes epidemias, como Febre amarela, Malária e Tifo, e à busca por melhores condições sanitárias, foram criados bairros planejados para a elite paulistana, como Bela Vista/Morro dos Ingleses (1878), Campos Elíseos (1879), Santa Cecília (1880), Cerqueira César (1890), Avenida Paulista (1891) e Higienópolis (1895). Esses locais, com infraestrutura moderna para a época, incluindo saneamento básico e arborização, tornaram-se redutos da alta classe, afastando-se das áreas centrais marcadas pela insalubridade e pelos cortiços.

No entanto, quase simultaneamente à criação dessas áreas nobres, surgiram as primeiras favelas na cidade, formadas por populações pobres que foram deslocadas dos cortiços demolidos e não encontraram alternativas habitacionais adequadas. Essas ocupações irregulares começaram a se estabelecer em áreas periféricas ou de menor interesse econômico, marcando o início de um processo de segregação socioespacial que persiste até os dias atuais.

A exclusão social e a falta de políticas habitacionais estruturadas no período pós-abolição criaram as bases para o surgimento das favelas em São Paulo. Esses espaços, inicialmente formados por ex-escravizados e trabalhadores marginalizados, tornaram-se símbolos das desigualdades sociais e raciais que marcaram a história da cidade e do Brasil como um todo.

Crescimento urbano e industrialização miniaturadaimagem|Políticos na Favela de Vila Prudente em 1962.

O início do século XX foi marcado pelo crescimento acelerado da cidade de São Paulo, impulsionado pela decadência do café e pelo avanço da industrialização. Esse processo atraiu grandes contingentes de migrantes do campo e de outras regiões do Brasil, especialmente do Nordeste, em busca de oportunidades de trabalho nas novas indústrias paulistanas. A rápida expansão populacional, entretanto, não foi acompanhada por políticas públicas eficazes de habitação, agravando o déficit habitacional e expondo a precariedade das condições de moradia para as camadas mais pobres da população.Entre as décadas de 1910 e 1930, surgiram os primeiros núcleos de favelas periféricas, como Palmas do Tremembé (1934), Oratório (Mooca), Ibirapuera, Ordem e Progresso (Barra Funda) e Vila Prudente. Essas ocupações espontâneas se formaram em áreas desvalorizadas ou afastadas do centro, onde a população de baixa renda construiu moradias de forma autônoma, sem acesso adequado a infraestrutura e serviços públicos. miniaturadaimagem|Um Ford Corcel das Rondas Ostensivas Especiais (ROE) da Polícia Militar acompanha as Eleições estaduais em São Paulo diante da favela de Vila Prudente. Tal preocupação com as condições sanitárias e urbanas motivou as primeiras ações no campo do higienismo e do sanitarismo, recomendando-se a demolição de cortiços e a construção de habitações fora do perímetro urbano. No entanto, não houve preocupação efetiva com o estabelecimento de políticas públicas que atendessem a esse segmento da sociedade. Refletindo a complexa "teia" de relações entre interesses públicos e privados que permeiam a história da ocupação do espaço urbano paulistano, as autoridades delegaram à iniciativa privada as providências relacionadas à ocupação do território, ao mesmo tempo em que manifestavam a intenção de "segregar" a população que habitava essas submoradias, contentando-se em afastá-la do centro da cidade, sem atacar o problema do déficit habitacional.

Esse modo de agir do poder público permaneceria substancialmente inalterado durante a maior parte do século XX. Com a explosão demográfica da cidade, o problema das moradias precárias passou a atingir camadas sociais cada vez maiores, criando ao redor dos bairros centrais mais bem planejados um grande anel de bairros periféricos, de traçado irregular e desconexo, entremeados por espaços vazios e ocupados, frequentemente formados por casas auto-construídas, com grandes concentrações de pobreza e desprovidos ou insuficientemente providos de serviços de infraestrutura e equipamentos públicos. É sobretudo nessas regiões que se concentram hoje as favelas da cidade de São Paulo, que começam a se consolidar a partir de meados do século XX.

Migrações nordestinas e explosão demográfica miniaturadaimagem|Monumento ao Migrante Nordestino, Largo da Concórdia

O intenso fluxo migratório do Nordeste para São Paulo entre as décadas de 1940 e 1970 foi impulsionado por fatores estruturais como a estagnação econômica, a concentração fundiária, a baixa diversificação produtiva e as recorrentes secas na região nordestina. Ao mesmo tempo, São Paulo vivenciava um acelerado processo de industrialização, tornando-se o principal polo de atração de mão de obra do país. O primeiro grande fluxo, de caráter rural, ocorreu entre as décadas de 1930 e 1950, com migrantes destinados inicialmente ao interior paulista. A partir dos anos 1950, o movimento tornou-se predominantemente urbano, com destino à capital e sua região metropolitana. O auge do fluxo migratório nordestino para São Paulo ocorreu entre as décadas de 1950 e 1970, acompanhando o crescimento industrial e urbano da cidade.

O município de São Paulo experimentou uma explosão demográfica sem precedentes nesse período. Segundo o IBGE, a população da cidade saltou de cerca de 1,3 milhão de habitantes em 1940 para mais de 5,9 milhões em 1970. Esse crescimento foi impulsionado tanto pelo aumento vegetativo quanto, principalmente, pela migração interna, sobretudo de nordestinos. O processo de urbanização foi acelerado: em 1940, apenas 31,3% da população brasileira vivia em cidades, índice que ultrapassou 50% já na década de 1960.

A industrialização de São Paulo foi decisiva para a atração de migrantes nordestinos. Durante a Era Vargas, políticas de incentivo à indústria e à infraestrutura urbana transformaram a cidade em um polo de oportunidades. O processo foi intensificado no governo Juscelino Kubitschek, com o Plano de Metas, que consolidou a concentração industrial no Sudeste, especialmente em São Paulo.

Com o crescimento populacional e a intensificação do déficit habitacional, moradores carentes passaram a ocupar terrenos vazios e devolutos, encostas de morros e áreas protegidas, como os mananciais. A falta de alternativas habitacionais levou famílias a se instalarem em áreas de proteção ambiental, agravando problemas ambientais e de acesso à água potável.

Mudança de paradigma: da remoção à urbanização miniaturadaimagem|Favela de Vila Prudente em 1986.